Coragem. Uma virtude valiosa dentro do campo de futebol. A principal característica da Chapecoense nesta fabulosa ascensão que atravessa nos últimos anos. Não é a pequenez por ser um clube do interior ou por não ter tradição na elite que faz o Verdão do Oeste se encolher. Pelo contrário, a equipe se engrandece justamente por não sentir o peso da camisa do outro lado e da ocasião que enfrenta. Assim, já derrubou tantos gigantes brasileiros e aprontou contra bastiões sul-americanos. Depois de Assunção, Núñez, Avellaneda e Barranquilla, a bandeira da Chape foi fincada no bairro de Flores. Os catarinenses conquistaram um resultado valiosíssimo no Nuevo Gasómetro, encarando o San Lorenzo de igual e arrancando o empate por 1 a 1, no primeiro duelo das semifinais da Copa Sul-Americana. A volta está marcada para 23 de novembro, quando os cuervos terão que aturar a pressão na Arena Condá.

Algumas dezenas de torcedores da Chapecoense se aventuraram em Buenos Aires. Enfrentaram o ambiente um tanto quanto intimidador nos arredores do Nuevo Gasómetro para pintar o setor visitante das arquibancadas de verde. Não viram barreiras para viver, ao vivo, aquilo que mais parece uma grande ilusão. Tiveram a mesma impulsão pela façanha que a Chape demonstrou dentro de campo, desde os primeiros minutos. O time de Caio Júnior começou melhor a partida. Demonstrava uma enorme organização e vencia as batalhas no meio de campo. Não à toa, começou criando as melhores chances. Ananias quase marcou o primeiro, em chute que assustou o Ciclón. Depois, a pressão veio nos escanteios de Cléber Santana, um verdadeiro líder ao seu time. Torrico operou duas grandes defesas, primeiro em arremate de Neto, depois em cobrança fechada.

O problema é que um erro da Chape custou o primeiro gol do San Lorenzo. Danilo já vinha realizando algumas boas intervenções, em uma delas indo buscar no canto o chute de Corujo. Aos 29, porém, foi pego desprevenido em uma bola alçada na área, após cobrança de falta de Cauteruccio. Angeleri tentou cabecear e acabou enganando o ídolo alviverde, que precisou buscar a redonda no fundo das redes. O gol atordoou os catarinenses, que diminuíram sua intensidade. Antes do intervalo, Neto salvou o segundo de maneira espetacular, se jogando na frente de Blanco e desviando com o pé a bomba dentro da área.

O segundo tempo também não começou tão bom à Chapecoense. O San Lorenzo tomava a iniciativa e parecia pronto a ampliar. Até Ananias, um dos melhores em campo, anotar o gol de empate aos 16 minutos. O tento nasceu em boa jogada coletiva. Após tabelar com Tiaguinho, Dener cruzou para o camisa 11, que girou e bateu rasteiro para vencer Torrico. O oxigênio que os catarinenses precisavam para voltar a crescer no Nuevo Gasómetro.

A partir de então, o jogo ficou aberto. Qualquer um dos times poderia ter vencido. O San Lorenzo ameaçou mais. Danilo se redimiu com uma defesa à queima-roupa, enquanto Cauteruccio e Blandi erraram o alvo por pouco. Do outro lado, a Chapecoense chegou a criar um contragolpe claríssimo, no qual estava em maioria. Faltou um pouco mais de capricho nos passes, e Ananias chutou para Torrico defender com as pernas. Nos acréscimos, o Ciclón esboçou uma pressão a partir das bolas paradas. Nada que tirasse a igualdade do placar.

Desde a última Copa Sul-Americana, a Chapecoense escreve uma das melhores histórias de realismo fantástico do futebol no continente. E com chance de acrescentar mais alguns capítulos, sonhando com a taça e a Libertadores 2017. O San Lorenzo tem um ótimo elenco, com jogadores rodados e muitas opções para o setor ofensivo. No entanto, nada que intimide os alviverdes. Para quem está tão próximo de sentir o gosto da glória, não é agora que a Chape vai sucumbir. Ainda mais quando sua especialidade é jogar no chão as tais camisas que entortam varal. Independente do resultado, a Arena Condá certamente viverá uma noite memorável em três semanas.