A Champions League é previsível, e isso pode ser bom

Os resultados quase sempre se repetem de um ano para o outro, e é preciso aprender com esses padrões para modificá-lo

Os melhores times do mundo, todos juntos, em um mata-mata definido por sorteio e partidas espetaculares. É uma ótima receita para uma competição emocionante, com grande imprevisibilidade e rotatividade de vencedores. Mas não é isso o que tem ocorrido com a Champions League nos últimos anos. O torneio, a despeito de todas as suas inegáveis virtudes, tem sido bastante repetitivo nesta década.

Pegando as últimas cinco temporadas e elencando os clubes que chegaram à fase de grupos, oitavas de final e semifinais, percebe-se um padrão bastante definido. Certas equipes são frequentadoras assíduas de cada etapa, com casos menos comum do que esperado de “intrusos”. É como se a “classe social” fosse bem definida, com equipes que só são capazes de atingir um determinado patamar.

É até possível definir como seria uma edição-modelo da Champions League da década de 2010, incluindo as repetições em ao menos três das cinco temporadas mais recentes (2010/11 a 2014/15):

1) A fase de grupos teria quase sempre os mesmos participantes: Ajax, Anderlecht, Arsenal, Barcelona, Basel, Bate Borisov, Bayer Leverkusen, Bayern de Munique, Benfica, Borussia Dortmund, Chelsea, CSKA, Galatasaray, Juventus, Manchester City, Manchester United, Milan, Olympiacos, Olympique de Marseille, Paris Saint-Germain, Porto, Real Madrid, Schalke, Shakhtar Donetsk, Valencia e Zenit. Só haveria seis vagas para os demais times do continente se revezarem;

2) Do grupo acima, Arsenal, Barcelona, Bayer Leverkusen, Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Chelsea, Manchester United, Milan, Paris Saint-Germain, Porto, Real Madrid, Schalke e Shakhtar Donetsk vão para as oitavas de final, deixando apenas três “intrusos”;

3) O filtro aperta, e as semifinais ficam quase restritas aos supertimes: Barcelona, Bayern de Munique e Real Madrid. Os mortais precisam se estapear pela vaga restante. Nos últimos cinco anos, o Real Madrid foi semifinalista em TODOS, com Bayern e Barcelona só falhando uma vez cada.

Há um lado de pura curiosidade nesse levantamento, até porque há resultados frutos de um momento fora da curva (como o Basel eliminar Manchester United e Liverpool e o Apoel Nicósia superar Porto e Lyon). Mas algumas dessas distorções são absorvidas em um levantamento de cinco anos, o que permite uma avaliação mais global nessa repetição de padrões.

A Champions League, pelo dinheiro que paga a seus participantes (com valores crescendo de acordo com a etapa em que o time chega) e pelo nível de exigência técnica, acaba criando classes sociais bem definidas. Há os supertimes, há os times fortes que normalmente são capazes de chegar ao mata-mata e há as potências nacionais que sempre conquistam um lugar na fase de grupos, mas não têm força para ir muito mais longe.

Em teoria, esse é um fator negativo. Parece que a Champions reforça a hierarquia e seu mecanismo tende a viciar cada vez mais os resultados. Mas, se fizermos esse mesmo levantamento nas cinco temporadas anteriores às da pesquisa acima (ou seja, de 2005/06 a 2009/10), temos um cenário parecido, mas com alguns protagonistas diferentes. Alguns exemplos:

– Real Madrid e Bayern de Munique perdem o status de supertime, sendo substituído por Chelsea e Manchester United;
– O Lyon disputa sempre, chega ao mata-mata sempre, e cai entre os 16 ou 8 melhores sempre. Paris Saint-Germain e Olympique de Marseille têm pouco espaço;
– O Manchester City some, e o Liverpool toma seu lugar;
– O Ajax tem poucas aparições, enquanto que o PSV se torna o holandês que sempre disputa a fase de grupos e raramente aparece no mata-mata;
– O Borussia Dortmund é um participante apenas ocasional, mas a Internazionale aparece como membro quase fixo das oitavas de final.

Se retrocedermos até 2010, veremos que o cenário acima era tratado como definitivo, como prova da elitização promovida pela Champions. Mas ele mudou, mesmo que apenas em alguns pontos.

No fundo, isso mostra que a Champions é previsível por criar hierarquia entre as equipes, mas esses grupos se movimentam, mesmo que lentamente. Quando um time consegue se estabelecer em um determinado patamar, há uma chance razoável de ele se manter por lá durante alguns anos porque atingiu a experiência, o nível técnico e o nível econômico para montar equipes. Quem estiver um degrau abaixo até pode subir, mas dificilmente o fará de um ano para o outro. É preciso aprender a trilhar esse caminho.

Há casos que já podemos ver. O Atlético de Madrid ficou alguns anos apanhando na Champions e ganhando experiência internacional na Liga Europa, até que, nos últimos anos, conseguiu atingir um nível para chegar ao mata-mata da principal competição do continente. Já são dois anos nesse ritmo. Ou seja, os Colchoneros não aparecem nos resultados-padrão das últimas cinco temporadas, mas provavelmente o farão se o mesmo levantamento for realizado em 2016 ou 2017.

Outro exemplo é o Manchester City, que caiu duas vezes na fase de grupos e, nos últimos dois anos, parou nas oitavas de final porque teve o azar de cruzar duas vezes com o Barcelona. Ainda falta algo para os Citizens vencerem as superpotências europeias (e a derrota em casa para a Juventus nesta terça, na estreia da Champions 2015/16 pode ser um sinal disso). Se o time de Manuel Pellegrini não aprender a dar esse passo adiante, poderá se estagnar como Arsenal e Lyon, como times inegavelmente fortes, mas que raramente ficam entre os quatro melhores da Europa.

Por isso, a previsibilidade da Champions League pode até soar repetitiva ao torcedor, mas ela pode ajudar a entender qual o real nível de cada time. Afinal, a aleatoriedade de resultados é divertida, mas pode esconder alguns problemas.