Você pode ter a sua opinião sobre as torcidas organizadas, favorável ou contrária. E eu não quero entrar no mérito desta questão. Independente da sua posição, não dá para engolir o que aconteceu neste domingo, na Arena Corinthians, durante o Majestoso – defenda você ou não as causas empunhadas. Membros da Gaviões da Fiel levantaram faixas de protesto contra a Rede Globo, a CBF, a Federação Paulista de Futebol e Fernando Capez – deputado estadual que fez seu nome como promotor de justiça, combatendo as organizadas, e é investigado por fraude nas licitações de merenda nas escolas estaduais de São Paulo. Um protesto pacífico, que acabou coibido. E qual a razão disso? Difícil procurar outra explicação além de censura.

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Não é de hoje que as manifestações políticas são recriminadas nas arquibancadas brasileiras, em uma determinação da CBF puramente repressiva. Na última quinta, a própria torcida corintiana foi impedida de erguer a faixa: “Rede Globo, o Corinthians não é o seu quintal”. Após a recusa de retirar o protesto, os alvinegros acabaram agredidos pelos policiais militares. Já neste domingo, o clássico chegou a ser paralisado pelo árbitro Luiz Flávio de Oliveira durante o segundo tempo, enquanto o capitão Felipe se dirigiu as arquibancadas para pedir que as quatro faixas (que entraram no estádio sem a revista da PM) fossem recolhidas pela Gaviões, o que aconteceu apenas momentaneamente. Durante o final da partida, elas voltaram a ser erguidas.

Independente da imagem que as torcidas organizadas tenham hoje (em uma construção que, sem esquecer os episódios de violência, acaba atendendo também os interesses econômicos de vários grupos envolvidos com o futebol), o protesto político está em seu cerne. Durante a Ditadura Militar, os torcedores fizeram recorrentes manifestações. Inclusive os corintianos, com um simbólico ato em 1979, quando pediam a “anistia ampla, geral e irrestrita” em faixa exibida durante o jogo contra o Santos. Ao longo desses 37 anos, a política no Brasil se transformou. Mas os métodos de repressão permanecem os mesmos.

E, no fim, a mensagem exibida pela Gaviões não deixa de evidenciar o que pensa boa parte dos torcedores brasileiros – de sofá ou de arquibancada, favoráveis ou contrários às organizadas. A manifestação reclama do monopólio televisivo que engessa o futebol brasileiro; do preço dos ingressos para um ambiente que não justifica pagar tanto; da gestão vergonhosa que toma as principais entidades do esporte; e da corrupção dentro do sistema político. Qual o problema, então, de se posicionar pacificamente desta maneira?

A ação da Gaviões pode até levantar o debate sobre o papel das organizadas. Mas vai muito além dos limites das arquibancadas e se expande para o restante da sociedade. Ele abrange a compreensão sobre o protesto político no Brasil, assim como sobre a função da polícia militar. A instituição que deveria (ao menos, em teoria) prezar pela segurança do cidadão, na verdade, estava ali para preservar os interesses de quem detém o poder – seja ele político ou econômico. Há um erro profundo nisso, e que deve ser questionado não só pelos alvinegros, mas em diversos âmbitos da sociedade.

Naquele momento, não importa se eram membros da organizada. Eram torcedores, eram civis. Poderia ser você, caso quisesse levantar uma crítica política nas cadeiras da arena, no concreto das arquibancadas ou no asfalto das ruas. A polícia e o árbitro agiram contra um direito. Em contrapartida, defenderam o sistema apodrecido que as faixas combatiam – como se retirá-las fosse suficiente para esconder os fatos. Estádio é lugar de futebol, mas também um retrato do mundo que o abraça. Por isso mesmo, serve para amplificar as vozes. E quando tentam calá-las (ainda mais da maneira como aconteceu), é preciso torná-las mais audíveis.