Rogério Caboclo assumiu a presidência da CBF, oficialmente, prometendo que desta vez tudo seria diferente. Rolou até um rebranding, com frases conceituais e vazias – “nos transformamos para melhor transformar”. Acreditou quem quis. Menos de três meses depois, surge no Globo Esporte, em reportagem do sempre confiável Martín Fernández, que o Campeonato Brasileiro não será interrompido durante a Copa América de 2020, contradizendo a promessa de que o calendário do ano que vem, enfim, respeitaria as Datas Fifa.

Geralmente, o futebol de seleções ocupa duas datas por vez, cinco ou seis vezes por ano. Em 2020, os meses reservados são março, agosto, setembro, outubro e novembro, além de junho e começo de julho para a disputa da Eurocopa. Haverá também uma segunda edição seguida da Copa América, para colocar o torneio sul-americano em paralelo com o europeu, em anos pares entre Copas do Mundo – pelo menos até a Conmebol mudar de ideia.

Parte do plano de impedir, enfim, que os clubes brasileiros sejam prejudicados nesses períodos é reduzir o número de datas dos estaduais, de 18 para 16, o que já não parecia suficiente, antes de outra grande competição internacional entrar na conta – a Copa América de 2020 foi anunciada em abril e oficializada duas semanas atrás.

Parar o futebol brasileiro durante jogos de seleção em um ano normal, sem uma redução drástica dos estaduais, é missão difícil o suficiente, e em ano de Copa América ou Copa do Mundo, tarefa para o Tom Cruise. Dois jogos a menos nos regionais são muito pouco para fazer uma das coisas, imagine as duas – que, no fundo, são uma coisa só: respeitar as Datas Fifa e a Copa América.

Vamos olhar para o calendário desta temporada, cujo formato é similar ao da próxima. No segundo semestre, haverá nada menos do que a final da Copa do Brasil imediatamente antes e imediatamente depois das Datas Fifa de setembro, e uma rodada do Brasileirão entre elas. Em outubro, a mesma coisa: jogos do Brasileirão um dia antes e um dia depois, além de outra rodada no meio. Em novembro, a boa notícia é que a semana está vaga. A má notícia é que tem rodada no fim de semana entre partidas de seleções.

Anunciar o tão esperado respeito às datas Fifa como um grande gesto e depois avaliar que é “inevitável”, como apurou o Globo Esporte, não paralisar o futebol brasileiro justamente no maior período reservado às seleções é um jeito muito particular de tirar com a nossa cara.

A entidade pode tentar buscar maneiras de minimizar o problema, como orientar Tite (ou quem estiver comandando a Seleção ano que vem) a não convocar de clubes brasileiros ou não os obrigar a ceder jogadores. Esse cenário ainda seria danoso porque todo o desgaste ficaria nas costas do clube, que teria que convencer seus atletas a desistir da chance de defender o Brasil em uma grande competição internacional, ou do técnico, que não poderia montar o elenco que considera ideal. E isso nem atenuaria o problema de quem conta com jogadores de seleções estrangeiras, geralmente os mais prejudicados pelo engarrafamento do calendário.

O calendário oficial será divulgado apenas no segundo semestre. Até lá, há tempo para a CBF voltar atrás, o que não seria mais do que a sua obrigação. O problema é como encaixar dias de férias, todos os jogos do futebol brasileiro e as pausas para a seleção brasileira em 365 dias. E esse problema é de Rogério Caboclo. Ninguém mandou fazer promessas sem disposição para romper com as estruturas que as impedem de serem cumpridas.