Conceder credibilidade às instituições que regem o futebol brasileiro é, acima de tudo, um exercício que exige certa dose de inocência. Afinal, não dá para confiar naqueles que são os próprios responsáveis por boa parte das mazelas que atingem o nosso esporte. Dirigentes e entidades nunca demonstram abertura às necessárias mudanças. Ou quase nunca. Porque, nesta quinta-feira, a CBF merece este crédito e esta ingenuidade diante das promessas que fez. A confederação publicou um comunicado no qual sinaliza acertar transformações significativas ao Brasileirão, pedidas há tempos. Enfim, um motivo para acreditar que as condições melhorarão em breve.

Não há salvação da pátria e alguns pontos delicados continuam intocáveis – a exemplo dos estaduais. Mesmo assim, a CBF caminha para consertar ou pelo menos melhorar alguns temas nevrálgicos do futebol brasileiro. A grande notícia é em relação ao VAR. Depois de todas as confusões no último ano, por negligência da confederação, agora a entidade promete assumir integralmente os custos com tecnologia e infraestrutura. Os clubes terão apenas que arcar com o pagamento dos profissionais que operarão o sistema, algo que já ocorre com as equipes de arbitragem. As chances de adoção do vídeo são enormes. E as iniciativas para melhorar a qualidade do trabalho no apito vão além. Também há a promessa de uma campanha educativa com os árbitros, para “garantir mais tempo de bola rolando, menos punições e um melhor produto para o público”.

 

A CBF ainda quer agir contra a troca constante de treinadores no Brasileirão. Conforme a nova regra proposta pela entidade, cada equipe poderá fazer apenas uma mudança no comando ao longo das 38 rodadas do Brasileirão. A confederação também deseja diminuir os elencos, para que cada equipe tenha no máximo 40 atletas inscritos por campeonato. Porém, este ponto exige uma mudança no próprio calendário, considerando o excesso de jogos e as competições que se atropelam principalmente no segundo semestre. Por enquanto, a ideia permanece na superfície. Não põe o dedo na ferida e nem toca na questão dos privilégios das federações, o principal sustentáculo dos estaduais – e de seus próprios laços políticos.

Por fim, há a confirmação da recriação da Supercopa do Brasil. O torneio, que existiu por um breve período no início da década de 1990, abrirá a temporada do futebol brasileiro em 2020. O campeão do Brasileirão e o dono da Copa do Brasil se enfrentarão em jogo único, dentro de um campo neutro previamente definido. A chance também de aproveitar alguns estádios da Copa de 2014 que permanecem às traças. E, neste sentido, a CBF indica que apresentará um projeto para aumentar o público no Brasileirão. A intenção é reduzir a capacidade ociosa e ampliar a média de presença – algo que, consequentemente, pode impactar na redução do preço dos ingressos.

As afirmações da CBF soam como música. E acaba sendo natural aguardar com ressalvas o que acontecerá, considerando o histórico da cartolagem no futebol brasileiro. De qualquer maneira, também dá para criar esperanças – por mais que se tema uma contrapartida do sistema no futuro, por toda esta rara benevolência, que não deveria ser mais que obrigação. É ver como os clubes reagem, em pautas que serão colocadas na mesa já durante esta sexta-feira, quando acontece o Conselho Técnico da Série A do Brasileirão. Uma aguardada revolução pode começar, e partindo de quem menos se esperava.

A quem acha que isso é fruto da imaginação, o texto da CBF na íntegra pode ser acessado neste link.


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