Tão inevitável quanto ouvir Roberto Carlos cantar no final do ano é escutar dirigentes dos clubes brasileiros reclamarem de alguma coisa. Pode ser do horário das partidas, do calendário, das convocações da seleção brasileira ou da arbitragem, alvo favorito das queixas dos nossos cartolas. Um desavisado pode até se deixar enganar e acreditar que são vítimas de um sistema injusto e cruel. Mentira. Compõem o sistema, fortalecem o sistema, e quando têm a chance de assumir o comando dele, abaixam a cabeça e mantêm as coisas como estão. Um sinal de que a situação atual é no mínimo satisfatória.

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Nunca existiu, na história recente, um vácuo tão grande para os clubes gritarem independência à CBF e se organizarem, sem intermediários, para fazer um Campeonato Brasileiro que atenda exclusivamente aos seus interesses. Os últimos três presidentes da CBF foram indiciados pelo FBI e um deles está preso. Quem senta na cadeira do chefe é um interino, enquanto a situação arquiteta uma manobra para manter o principal opositor de Marco Polo Del Nero longe do poder.

Delfim de Pádua Peixoto está longe de ser a panaceia do futebol brasileiro, mas ele serve a um propósito: é a favor da liga dos clubes, que liderada pelos mesmos dirigentes que este texto crítica também não seria garantia nenhuma de melhora. Mas há de se ter perspectiva. O Brasileirão está menos sujeito a pensamentos arcaicos e distantes da realidade na mão deles do que, por exemplo, do presidente da Federação Paraense de 77 anos que não sabe se o modelo de liga já foi implementado por algum país (Premier LEAGUE, BundesLIGA, La LIGA, LIGUE 1).

Coronel Nunes, por enquanto, é o único candidato à vaga de vice-presidente que era ocupada por José Maria Marin, preso na Quinta Avenida de Nova York. A escolha de Del Nero pelo dirigente tem pouco a ver com suas capacidades administrativas e mais com o número que aparece no final do quadradinho “data de nascimento” do seu RG. Porque, falando em coisas arcaicas, o estatuto da CBF determina que o sucessor do presidente, em caso de renúncia, seja o vice mais velho. Neste momento, seria Delfim Peixoto.

Indiciado, Del Nero afastou-se do seu cargo como outros dirigentes envolvidos no escândalo de corrupção deflagrado pelo FBI para se defender. Ao invés de renunciar, pediu uma licença, o que, segundo o estatuto, permite que indique o seu substituto. Escolheu Marcus Antônio Vicente, ex-presidente da Federação Capixaba. Com a provável eleição de Nunes, mais velho que Peixoto, ele poderia deixar o cargo definitivamente sem colocar seu principal inimigo político no poder.

A CBF nega a manobra, mas ela é muito clara – Coronel Nunes, da Federação Paraense, substituiria Marin, vice-presidente da região Sudeste, por exemplo. Os dirigentes de clubes sabem o que está acontecendo e não são tontos. Poderiam lançar um candidato mais novo que Peixoto, ajudá-lo a vencer a eleição, aguardar a saída de Del Nero, fundar a bendita liga e deixar a CBF para trás. Seria problema de outra pessoa. A oportunidade era ótima. Pela primeira vez, os clubes (40, da Série A e B) superam as federações (27) no colégio eleitoral. O que estão fazendo? Exatamente o oposto. Mantendo o status quo.

“Acho que é um nome que tem capacidade”, disse o presidente do Palmeiras, Paulo Nobre, pouco depois de os clubes paulistas, junto com a federação do estado, anunciarem apoio ao Coronel Nunes. Segundo Modesto Roma, presidente do Santos, é o único nome que eles conhecem. Farão isso em troca de mais poder de decisão em assuntos como a comercialização de torneios e arbitragem. Menos autonomia do que conseguiriam se lançassem um candidato que conhecessem, tivesse capacidade e tirasse os clubes do guarda-chuva da CBF.

Para esse rompimento, os clubes paulistas não estão preparados, e nem os de outros estados, aparentemente. Walter Feldman, secretário-geral da CBF, disse que 12 clubes da Série A e 10 da Série B já assinaram apoio a Coronel Nunes. Mais da metade das equipes. A oposição saiu do Bom Senso, que tentou emplacar a candidatura de Abilio Diniz, e oito federações nordestinas contestam a convocação da eleição para vice-presidente na Justiça.

Nesta quarta-feira, o Bom Senso convocou um protesto para as portas da CBF e apresentou um manifesto que pede a renúncia imediata de Del Nero e de toda a sua diretoria, a convocação de eleições “livres e democráticas, sem a atual cláusula de barreira, mecanismo que impede a aparição de posições independentes ao sistema vigente” porque exige o apoio formal de oito federações e cinco clubes para apresentar candidatura.

O manifesto tem dezenas de signatários, desde atores como Bruno Gagliasso e Oscar Magrini a ex-jogadores como Zico, Pelé e Rogério Ceni. Atletas em atividade, como Dida e Marcelo Lomba, também registraram seus apoios. Assim como técnicos que ainda estão trabalhando (Tite, Dorival Júnior, Ricardo Gomes, Vágner Mancini, Paulo Autuori), um deles muito bem cotado para a seleção brasileira.

Jogadores podem fazer greve, treinadores podem criticar, o público pode protestar, mas, no final das contas, quem pode quebrar o sistema são os clubes. Infelizmente, eles não parecem muito interessados em mudar o atual panorama do futebol brasileiro.

E você, torcedor, qual futebol brasileiro quer?

Muito da inércia dos clubes brasileiros tem a ver com a falta de um senso de coletividade, aquela vontade excessiva de levar vantagem em tudo e se dar melhor do que os outros. Da mesma maneira, vem de um medo de se opor à CBF, ser traído pelos colegas dirigentes, e acabar prejudicado pelo poder. Envolve também as exigências do torcedor.

Isso se vê na discussão sobre a divisão de cotas de televisão. Muitos torcedores de Flamengo e Corinthians acham natural que os clubes ganhem muito mais do que todos os outros integrantes do Campeonato Brasileiro. São os que mais dão audiência. Mas o fortalecimento dos outros 18, ou 38, ou 58, é tão importante quanto grana no bolso, seja para formar jogadores cada vez melhores ou para compor, no final das contas, um produto final mais atraente.

Sem falar que uma divisão nos padrões da Premier League, por exemplo, não promoveria a igualdade plena. Seria apenas uma partilha mais equilibrada. Flamengo e Corinthians têm condições de ganhar muito dinheiro em acordos comerciais, patrocínios, produtos e bilheteria. Clubes como a Chapecoense ou a Ponte Preta, por melhor que seja o trabalho de marketing deles, não têm como competir nesse sentido. O Bayern de Munique, por exemplo, ganha muito mais que os rivais justamente nesses acordos comerciais, já que não leva tanta vantagem na divisão do dinheiro de TV. O Manchester United, na Inglaterra, a mesma coisa. Lá já se discute a coletividade, mas aqui essa discussão nem existe. É cada um por si e o diabo para todos.

A partilha do dinheiro da TV é apenas um exemplo. Simboliza um pensamento individualista que acaba passando ao dirigente do clube para o qual ele torce e inibe movimentos coletivos em busca de um futebol brasileiro mais bem organizado. A mudança exige uma mobilização dos clubes, mas começa no torcedor, que quer ver o seu time ganhar a todo custo. A CBF, no fim, é o resultado disso: todo mundo só olhando para o próprio umbigo. Assim como os torcedores. Está na hora da voz das arquibancadas também pedir por mudanças. Porque a CBF é exatamente aquilo que o seu clube quer. Por mais que diga que é o contrário.


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