A saída de José Mourinho foi uma daquelas bombas que deixam jornalistas em polvorosa. Do nada, o técnico de um time favorito a vários títulos na temporada abandona o cargo. Apesar das turbulências recentes, não havia nenhum boato dizendo que Mourinho poderia ser demitido. A notícia só não teve repercussão ainda maior porque foi divulgada no meio da noite, quando os jornais ingleses já estavam sendo impressos.

Quanto o Chelsea vai sentir a saída do português? Nesta temporada, bastante. As chances de a equipe conquistar algum título importante caíram para praticamente zero. Os Blues devem ficar em terceiro ou quarto lugar no Inglês, graças ao forte elenco que têm. Para o futuro, o cenário é incerto, embora se possa esperar que o time contrate um técnico de alto nível e volte a ser uma potência internacional.

Antes de tudo, é importante deixar claro que Mourinho foi demitido. Sua saída pode até ter sido decidida por consenso, em uma reunião, mas não há dúvidas de que o português não deixou o cargo de livre e espontânea vontade. Prova disso são os quase € 30 milhões que ele vai receber de indenização, pelos três anos de contrato que ainda tinha.

O que é realmente estranho na demissão do português é o momento em que ela aconteceu. No final da temporada passada, havia fortes indícios de insatisfação da diretoria com o técnico. Se ele tivesse saído na pré-temporada, seria normal. Mas, já que ficou, supunha-se que estaria seguro por uma temporada.

O principal motivo que levou à demissão de Mourinho não foram os resultados. Ou melhor, foram, mas não diretamente. O que acontece é que o sonho de Abramovich é montar um ‘time dos sonhos’, que encantasse o mundo do futebol – mais ou menos como o Real Madrid ‘galáctico’ em seus melhores momentos, ou o Milan de Sacchi. Só que o time de Mourinho não era assim – e nunca seria. Nas duas primeiras temporadas, enquanto o Chelsea passava um rolo compressor por cima de todos os adversários, Abramovich se dava por satisfeito. A lógica era: “primeiro ganhamos os principais títulos uma vez; depois tentamos montar um esquadrão histórico”. Na hora que os resultados deixaram de ser tão bons, Mourinho dançou.

E não se trata apenas do capricho de um bilionário. Na última partida com o português no comando, contra o Rosenborg, pela Liga dos Campeões, menos de 25 mil torcedores compareceram a Stamford Bridge. Foi o pior público num jogo do Chelsea desde agosto de 2003. Era um recado claro de que o clube não estava no caminho de ganhar admiradores mundo afora.

Embora o anúncio da demissão de Mourinho tenha sido surpreendente, sua saída não aconteceu de uma hora para outra. Houve momentos-chave que já prenunciavam a queda do português. O primeiro foi a contratação de Ballack e Shevchenko. Os dois jogadores não chegaram a ser trazidos à revelia do técnico, mas ele também deixou claro que não precisava dos dois. Além disso, os astros forçaram uma mudança no esquema tático, que foi um dos fatores que causaram a fraca campanha da equipe na temporada passada. Para piorar, os dois ficaram aquém das expectativas e acabaram passando muito tempo no banco, o que gerou insatisfação no vestiário – e na diretoria.

Outro indício da queda do técnico aconteceu em janeiro deste ano. Com uma série de contusões na defesa, Mourinho precisava contratar reforços para o setor, de maneira a evitar a perda de pontos importantes no Inglês. Passou a janela de transferências, e ninguém foi trazido. O motivo: a diretoria não liberou dinheiro. O português, compreensivelmente, ficou furioso. Segundo boatos, faltou muito pouco para ele pedir demissão naquela hora.

O terceiro fato que mostrou que Mourinho estava sem nenhuma moral foi a contratação de Avram Grant para o cargo de diretor de futebol. Por si só, isso não seria nenhuma aberração. Mas, conhecendo o técnico, era óbvio que tal ‘novidade’ não ia acabar bem. Mourinho é muito metódico e faz questão de ter total poder sobre seu time. Para alguém assim, contratar um superior que tem poderes para trazer e vender jogadores é quase o mesmo que mandar o técnico embora.

E foi o que acabou acontecendo. Dirigindo um time com jogadores que não queria, num esquema tático que não queria, com uma estrutura que não queria, Mourinho obviamente não estava feliz. Bastou um começo de temporada titubeante para que sua relação com a diretoria degringolasse de vez e o treinador deixasse o cargo.

Transição perigosa

Como foi dito no início do texto, a demissão de Mourinho surpreende pelo momento em que aconteceu. Este é o pior momento possível na temporada para mandar um treinador embora. Na prática, com a saída do português, acabou o ano de 2007/8 para o Chelsea.

Não é à toa que os Blues efetivaram o quase desconhecido Avram Grant (o único fato relevante que tem no currículo foi uma boa campanha à frente da seleção da Israel nas eliminatórias para a Copa de 2006). Primeiro, desde que ele foi contratado, já tinha as palavras ‘técnico tampão’ escritas na testa. Embora o israelense, oficialmente, não seja um interino, será uma enorme surpresa se ele durar mais que uma temporada no cargo.

A esta altura da temporada, não há bons técnicos disponíveis no mercado. Mesmo nadando em dinheiro, o Chelsea não conseguiria tirar um treinador de um dos outros grandes clubes europeus. Nas seleções, perto da Eurocopa, também nenhum técnico iria querer perder o filé depois de ter roído o osso nas eliminatórias. Os únicos nomes de alto nível disponíveis seriam Fabio Capello e Marcello Lippi. São dois grandes treinadores, mas com filosofia de jogo diametralmente opostas ao que pretende Abramovich.

Sendo assim, a única opção é colocar um ‘tampão’ até junho e, depois da Eurocopa, trazer um técnico de ponta – o favorito seria Guus Hiddink, hoje na seleção russa. O problema é que, até lá, o time fica estagnado. Grant não tem um currículo espetacular, muito menos moral com os atletas. Assim, é óbvio que o Chelsea não vai ter uma boa temporada – isso se não perder um monte de jogadores importantes. Aí, cabe a pergunta: por maior que fosse a insatisfação com Mourinho, não valeria mais a pena esperar até o fim da temporada para demiti-lo?

Com base nesse cenário, já teve gente até prevendo o fim da era de domínio do Chelsea no Campeonato Inglês e o fracasso de Abramovich. Mas é bom ir com calma. Mesmo com Grant no comando, os Blues deverão ficar entre os quatro primeiros, porque seu elenco é muito, mas muito superior aos dos outros 16 times da Premier League. Depois, é praticamente certo que o clube trará um grande técnico para comandá-lo. É bom lembrar que Mourinho é ótimo, mas não é insubstituível.

De qualquer maneira, para quem torce contra clubes ‘bombados’ por bilionários, a situação atual do Chelsea é um alento. Pelo menos por uma temporada, o clube não vai se sair bem. Já o futuro mais distante é incerto, porque não dá para ter certeza de que o próximo treinador vá se adaptar bem ao clube. Por outro lado, esse técnico pode ser ainda mais bem-sucedido que Mourinho e realizar o sonho de Abramovich: ganhar a Liga dos Campeões, com um futebol encantador.

CURTAS

– Uma curiosidade na troca de comando no Chelsea.

– Avram Grant é o terceiro técnico seguido do clube que estreou contra o Manchester United!

– Dos três, Mourinho foi o único que ganhou (Ranieri empatou, e Grant perdeu).

– No Campeonato Inglês, a situação na ponta da tabela segue interessante.

– O Arsenal goleou o fraco Derby e, graças ao tropeço do Liverpool contra o Birmingham, agora lidera com dois pontos de folga, tendo disputado um jogo a menos.

– Vale notar que o Manchester United, que começou mal a temporada, já é vice-líder.

– E mais: os Red Devils não sofreram nenhum gol nos últimos cinco jogos.

– Os clubes ingleses têm se saído muito bem nas últimas edições da Liga dos Campeões. Mas, por algum motivo, não dão certo na Copa Uefa.

– Nos jogos de ida da primeira fase, todos deram vexame (com exceção do Tottenham, que goleou o fraquíssimo Anorthosis Famagusta).

– O pior resultado foi do Blackburn, derrotado por 2 a 0 pelo Larisa, da Grécia.

– O Everton também tem a classificação seriamente ameaçada, depois de empatar em casa por 1 a 1 com o Metallist Kharkiv, da Ucrânia.

– O Bolton também não passou de um 1 a 1 com o bósnio Rabotnicki. Mas, como o jogo foi na Bósnia, segue com boas chances de avançar.

– A zica está feia para o ataque da seleção inglesa.

– Owen e Heskey finalmente fizeram uma dupla que deu certo. Eis que, no fim de semana seguinte, Heskey se machuca e, no último domingo, Owen também sai contundido.

– Segundo a BBC, o atacante do Newcastle precisa de uma operação numa hérnia, que o deixaria de fora dos jogos decisivos das eliminatórias para a Eurocopa.