A Copa Africana de Nações costuma ser a competição continental de seleções mais imprevisível do planeta. No entanto, também possui suas certezas. E, a cada edição, surgem novas notícias de disputas entre jogadores e dirigentes sobre as premiações ao redor da participação no torneio. O entrave que aflige os africanos em Copas do Mundo se repete na CAN. Pois o pontapé inicial de 2019 sequer precisou acontecer para as primeiras ameaças surgirem. Camarões e Zimbábue colocaram em dúvida suas presenças por conta da questão.

O caso de Zimbábue era o mais urgente. Afinal, a equipe participará do jogo inaugural da Copa Africana, desafiando o anfitrião Egito. Com bônus atrasados, os jogadores ouviram da federação que o dinheiro cairia nesta quinta-feira e não viram a promessa ser cumprida, se recusando a treinar na véspera da estreia. Além disso, os atletas lesionados vinham pagando o próprio tratamento durante o período de convocação, o que gerou mais revolta. O time ameaçou até mesmo não entrar em campo para o pontapé inicial diante dos Faraós.

A situação só foi abrandada horas antes do encontro, com a intervenção do governo do Zimbábue e da Confederação Africana de Futebol. O Ministro dos Esportes do país se reuniu com dirigentes da federação e conseguiu amarrar um acordo para os jogadores. Então, o capitão Knowledge Musona confirmou que os Guerreiros estarão no gramado para encarar o Egito. “Estamos contentes que nossas questões tenham sido tratadas neste encontro e recebemos o compromisso que nossas dívidas serão sanadas, então podemos prometer que jogaremos contra o Egito. É triste ver que, em vez de nos concentrarmos na partida, passamos muito tempo tentando lidar com esse problema, mas podemos garantir que daremos nosso melhor”, afirmou o ponta, que defende o Lokeren, da Bélgica.

Atual campeão da Copa Africana, Camarões tinha um pouco mais de tempo para aparar suas arestas. Os Leões Indomáveis estreiam na próxima terça-feira, contra Guiné-Bissau. O problema é que os jogadores se recusavam a deixar o hotel onde estavam concentrados para viajar ao Egito, questionando os valores oferecidos como premiação para o torneio. Presidente do país desde 1982, o ditador Paul Biya já lidou com entraves do tipo em outros momentos e novamente se meteu na disputa. O próprio Samuel Eto’o teria sido chamado para auxiliar nas conversas, segundo a imprensa local. Diante da pressão, os atletas cederam. Mas enfatizaram que o descontentamento permanece, mesmo aceitando viajar nesta sexta.

“Não estamos satisfeitos com a proposta do governo, mas decidimos encerrar todas as negociações sobre nossos prêmios. Viajaremos ao Egito”, declararam, em carta coletiva. Segundo um porta-voz do governo, os jogadores receberão o equivalente a US$35 mil de bônus, quando pediam o dobro disso. O Ministério dos Esportes ofereceu mais US$8 mil em caso de vitória na estreia, o que também não seria suficiente aos atletas. Vale lembrar que o país deveria ser o anfitrião desta Copa Africana de Nações, mas perdeu o direito de sediar o evento diante do atraso nas obras, além de conflitos internos que colocavam em risco a segurança.

Enquanto isso, a Tanzânia seguiu por um caminho diferente. De volta à Copa Africana após 39 anos, a seleção foi alvo de uma campanha das autoridades. Sem dinheiro em caixa para oferecer aos atletas, o governo lançou um projeto para angariar US$500 mil junto à população. Até a véspera da abertura do torneio, apenas um terço do montante havia sido atingido. “Estávamos adormecidos, agora acordamos. Esse é nosso time, precisamos ajudá-lo financeiramente”, dizia a vice-presidente Samia Suluhu, que recebeu o apoio de celebridades e empresas durante a ação. Enquanto muito se fala de orgulho nacional, a motivação claramente é outra.