O lindo capítulo que o Ajax escreveu nesta Champions League nada deixa a desejar aos seus momentos mais gloriosos. Foi maior, aliás, justamente por ter acontecido na época em que o futebol europeu parece lutar com todas as suas forças para impedir que essas histórias sejam frequentes, e por isso a dor dos simpatizantes do clube, de sua filosofia e do futebol holandês é tão profunda, depois da eliminação para o Tottenham nas semifinais: quando veremos novamente uma campanha como essa?

O questionamento vale para o Ajax e seus compatriotas, mas também a outros gigantes adormecidos, como o Benfica ou o Porto ou o Celtic que foram pouco a pouco relegados a coadjuvantes do futebol europeu. Ainda dominantes em seus países, foram perdendo a capacidade de competir no continente. A disparidade financeira é assustadora: o Ajax teve faturamento de € 91,9 milhões na temporada 2017/18, segundo o Football Money League, quase cinco vezes menor que o do Tottenham, que é o décimo da Europa.

Nesse cenário, embora o clube que tinha quatro títulos europeus em campo nesta quarta-feira fosse o Ajax, era também ele o underdog, mesmo que tivesse superado desafios teoricamente mais difíceis nas fases anteriores, contra Real Madrid, na cadeia alimentar à frente do Tottenham, e Juventus, com faturamento semelhante ao dos Spurs, mas portando um time mais vitorioso, experiente e Cristiano Ronaldo.

Conseguiu chegar tão longe porque houve uma confluência de fenômenos. Sua prolífica categoria de base produziu uma geração excepcionalmente talentosa, representada por De Ligt, De Jong e Van de Beek. Houve o amadurecimento de jogadores que estavam no clube, como Ziyech. A chegada de experientes que se encaixaram perfeitamente, como Tadic e Daley Blind. O garimpo de promessas estrangeiras, como David Neres. E um treinador que soube organizar tudo isso com excelência.

Se ainda não fosse o bastante, tudo isso ainda precisou acontecer ao mesmo tempo em um clube com a tradição do Ajax, que não apenas tem uma longa lista de títulos e ídolos para passar confiança aos seus jogadores, mas os incentiva a jogar futebol dentro de uma filosofia: troca de passes, ofensividade, leveza. Não foi um time com menos orçamento que se fechou, defendeu, correu e esperou o erro do adversário. Foi um time que se impôs contra adversários como Real Madrid, Juventus e Tottenham, jogou futebol com beleza e eficiência, o que apenas acrescenta encanto a uma caminhada que seria improvável independente do estilo.

A dúvida sempre que aparecia um desafio mais difícil pela frente era como um time jovem e inexperiente nas fases mais agudas das competições europeias como o Ajax lidaria com as adversidades. Lidou muito bem com elas contra Real Madrid e Juventus, mas se desorganizou quando viu o Tottenham empatar nesta quarta-feira. Não teve calma para esfriar o jogo, posicionar-se no campo de ataque, fazer o oponente correr um pouco atrás da bola. O único que cresceu naquele momento e buscou o gol que mataria o confronto foi Ziyech, responsável por uma série de jogadas perigosas no campo de ataque e certamente um candidato a craque desta edição da Champions League.

E o mais cruel de um contexto como o atual, em que os clubes mais ricos querem se fechar ainda mais em um clubinho exclusivo e eliminar de vez a possibilidade de intrusos conquistarem a Champions League, é que não teremos a oportunidade de ver este grande time do Ajax crescer juntos, amadurecer, melhorar. De Jong irà embora. De Ligt, provavelmente, também. Eventualmente alguém perceberá que Van de Beek tem apenas 22 anos. David Neres tem mercado. Quantas temporadas os mais experientes Blind e Tadic ainda terão em alto nível? Quantas propostas receberá o técnico Erik Ten Hag?

A tragédia de clubes gigantes que se tornaram médios no cenário europeu é que é praticamente impossível ter um crescimento sustentável. Ou possuem um time medíocre que não chama a atenção de ninguém ou montam algo tão especial que será rapidamente desmontado pela imposição financeira dos concorrentes, e, então, precisam começar tudo do zero. O próprio Ajax passou por um processo parecido quando foi finalista da Liga Europa em 2017 e se despediu de Klaassen, Davinson Sánchez e, pouco depois, de Justin Kluivert.

A chegada do Tottenham à final da Champions League pela primeira vez também é uma história legal, de um clube que aposta em um trabalho de longo prazo, que não gasta dinheiro apenas por gastar – e que nesta temporada não gastou um centavo –, que também tem um estilo de futebol atraente. Mas pela tendência do futebol europeu atual é mais provável que os Spurs tenham outra chance do que um clube como o Ajax.

Espero que todos tenham conseguido assistir ao mata-mata do Ajax com atenção, saboreando cada troca de passes, cada drible, cada golaço, cada vitória improvável. Porque é muito difícil ter certeza de quando poderemos ver algo parecido novamente. Se é que veremos.