Odeio esse papo. Até porque muitas vezes vem de gente que se apoia em chavões pra cravar supostas verdades. Mas não tem jeito. Camisa ainda pesa. Quer aceite-se ou não, pesa. O Independiente é prova disso. Não tinha mais time que o Goiás. Ou muito mais time que o Goiás. Mas ganhou. Coisas do futebol? Pode até ser.

Nesta sexta, dois dias após a conquista da Copa Sul-Americana, a equipe de Avellaneda relembra os 26 anos da conquista do Mundial de Clubes contra o Liverpool. Ou seja, já estiveram por lá, sabem como chegar. Ainda que, deste grupo, somente um jogador, o artilheiro Andrés Silvera, ausente na finalíssima, tenha real noção do que é ser campeão com o Rojo. Os outros são marinheiros de primeira viagem, por assim dizer. Mas já calejados. Sim, porque, quando se veste essa camisa, você incorpora toda uma aura, toda uma mística.

Bobagem? Pois era nisso que o técnico Antonio Mohamed, o Turco Mohamed, se apoiava para reverter a vantagem brasileira. Ao deixar o gramado do Serra Dourada, aliás, já anunciava: seremos campeões. De onde vem tamanha convicção? Dessa mística, pode acreditar. Ninguém ali joga para encher os olhos de ninguém.

Navarro, Galeano, Matheu, Mareque são todos bons jogadores. Gracián, Tuzzio, Silvera caras que acrescentam experiência. Velázquez, Patricio Rodríguez garotos de quem se espera muito no futuro. Mas nenhum deles tem o peso, por exemplo, que um David Ramírez, do modesto Godoy Cruz, carrega hoje pelo país. É fato. Cada um ataca com suas armas. E a do Independiente passa por sua mística, pelo peso de ser, ainda que alguns contestem, o Rei de Copas.

Vem daí a força para que alguns colegas argentinos provoquem o Goiás afirmando ser uma equipe que mais parecia ter caído para Segundona há coisa de cinco anos, tamanho – e aqui não nos referimos à sua grandeza – o seu poder de decisão. A torcida em Avellaneda percebeu isso, tentou intimidar o time esmeraldino e conseguiu. Cantando mais ou menos como se estivesse ali, contra o Racing – algo não totalmente fora do contexto, já que também se jogava naquele jogo a última vaga argentina na Libertadores.

Os torcedores captaram esse cenário e direcionaram ao Goiás o mesmo grito com o qual costumam receber os rivais: “vocês são da B”, fazendo referência à passagem da Academia pelo segundo escalão de lá.

Não dá pra dizer que o título já era esperado. O Independiente vem de uma crise profunda. Que levou gente como Menotti e Garnero, identificada com suas cores, para fora do clube, ainda no início de sua campanha. Falei disso por aqui. Pesquisava ontem no arquivo de 2009 do Clarín e já via por lá referências ao Inferno Vermelho. Está claro. É um problema que não será resolvido tão somente com o apoio da mística, da volta à Libertadores. É preciso mais.

O próprio calendário da próxima temporada exige isso. Além da Libertadores, o time terá pela frente a Sul-Americana, a Recopa e a Suruga Bank. Mais Copas por aí.

Os caras do título

Poderia estar aqui falando de Hilario Navarro, Facundo Parra. Mas, não. Esse título tem algumas caras. Uma delas a de Antonio Mohamed. Gente boníssima, admirado por todos, chegou no Independiente ao fim de um ciclo de dois anos no Colón. Dizia-se por lá, precisava trocar o chip, repensar a sua carreira, descansar, mais ou menos como Vanderlei Luxemburgo sinalizou por aqui, ao deixar o Galo.

A exemplo do brasileiro, no entanto, não teve tempo para isso. Logo pintou o convite dos cartolas rojos. Não era a primeira opção. Falou-se muito em Americo Gallego, Jorge Fossati. Nenhum deles veio.

Veio Turco Mohamed. E com ele, um trabalho de aproximação junto aos jogadores, de fé, de fazê-los acreditar que era possível chegar lá, reverter esse momento. Trabalho este, como gosta de ressaltar, realizado sempre com o apoio de seus auxiliares. E eles conseguiram. Conseguiram aliviar um pouco o drama do chefe.

Há quatro anos, Mohamed não conta mais com Fayrd em sua vida. Perdeu o filho em um acidente durante a Copa de 2006. Desde ali, foi abraçado por todos na Argentina, inclusive pelos eternos rivais do San Lorenzo. Por isso, o título desta quarta-feira foi comemorado até mesmo por alguns adversários pelo país. Não dá pra se voltar contra um personagem tão cativante.

Mas ele só chegou à conquista por obra de Eduardo Tuzzio, encarregado por bater o último pênalti contra o Goiás. Um pênalti com um gostinho de revanche. Uma revanche, como indicou após assinalá-lo, com um gosto especial. Aos 36 anos, quando muita gente já o dava como acabado. O zagueiro mostrou que não. Sobretudo ao River, seu ex-clube, de onde saiu massacrado após o Apertura de 2008. Por lá, foi tratado como bode expiatório. Por dirigentes e torcedores. Injustamente. A pedido do então técnico, Diego Simeone, quebrou o galho em diversas posições, ficando marcado, contudo, pelo gol que permitiu ao boquense Lucas Viatri num Superclássico.

Muito pouco para quem teve uma carreira construída no mais alto nível, somando conquistas no plano internacional não só no Monumental de Núñez, mas também com Independiente e San Lorenzo. Um dos caras dessa façanha, não resta dúvida. Ao lado de Mohamed.