Fundada em 1919, a Pro Piacenza é mais um clube italiano que possui a sua história acidentada pelas crises financeiras. Durante a maior parte de sua trajetória, a agremiação se manteve no amadorismo. A ascensão profissional aconteceu ao longo desta década. Além do sucesso esportivo, os rubro-negros também aproveitavam o vácuo deixado pelo Piacenza Calcio, principal representante da cidade, afundado em dívidas. No entanto, logo a diretoria começaria a encarar as dificuldades para manter o time emergente, frequentador do meio da tabela na terceira divisão. E a bomba estourou nesta temporada. Depois de três W.O.’s, os rubro-negros entraram em campo com apenas sete jogadores neste domingo, para evitar o quarto W.O. e a consequente exclusão da Serie C. Todos os seus atletas eram adolescentes aleatórios, mais o roupeiro, enquanto o capitão de 18 anos acumulou também a função de técnico. Acabaram goleados pelo Cuneo por 20 a 0, em episódio sintomático do que ocorre no Calcio.

A crise da Pro Piacenza não vem de hoje. O agravamento da situação aconteceu a partir de 2018. Os rubro-negros estudaram se fundir com outro clube, o que já havia ocorrido em sua ascensão ao profissionalismo. No entanto, acabaram vendidos à Sèleco, companhia italiana ligada aos eletrodomésticos. A transação parecia trazer novas perspectivas e resultou em investimentos no elenco. Contudo, a partir de outubro, os salários começaram a atrasar. Uma parte dos jogadores entrou com uma ação contra a agremiação. Além disso, a Pro também atrasou o pagamento do aluguel do estádio e foram descobertas irregularidades em seu registro na Serie C. Apesar da cobertura de parte dos salários em novembro e das promessas de uma reformulação interna, a situação piorou. O próprio diretor denunciou os donos do clube, com o sucateamento das estruturas e da base. Diversos atletas foram dispensados e o responsável pela base pediu demissão.

Inescapavelmente, a crise trouxe reflexos em campo. Após um bom começo de campanha, com três vitórias nas quatro primeiras rodadas, a Pro Piacenza ganhou somente dois de seus últimos 16 jogos pela liga. Foram 14 derrotas no período. Em meados de dezembro,os jogadores que continuaram no elenco iniciaram uma greve, o que provocou três W.O.’s nas três rodadas seguintes. O pedido de bancarrota foi registrado em 20 de dezembro, diante da dívida estimada entre €500 mil e €850 mil. Já em janeiro, investidores pagaram o aluguel do estádio e trouxeram novos jogadores, prometendo seguir na disputa da Serie C. Entretanto, a Lega Pro (a entidade que gere a competição) barrou a manobra. Adiaram seis compromissos seguidos da Pro Piacenza desde então. Até que a suspensão caísse nos últimos dias e o time fosse obrigado a encarar o Cuneo.

Neste domingo, por fim, veio a decisão extrema da diretoria. Para evitar as consequências de sua própria incompetência, a Pro Piacenza resolveu jogar. Conforme o site Sport Piacenza, os adolescentes selecionados não são da base, que já havia sido desmantelada nos meses anteriores. Assim, os sete garotos “desconhecidos” deveriam entrar em campo apenas para cumprir tabela. Como se a situação não bastasse por si, um deles estavam sem seu documento de identidade e o roupeiro precisou entrar. O RG chegou durante o jogo e ele acabaria substituindo outro companheiro, lesionado, durante a meia hora final. A vergonhosa goleada por 20 a 0 teve 16 gols do Cuneo apenas no primeiro tempo, antes que os anfitriões tirassem o pé. Com 25 minutos, o placar já mostrava 10 a 0. Não é só uma questão de inferioridade numérica, de fragilidade ou de desmotivação. Era o mais puro amadorismo, em massacre que ficou barato, diante das circunstâncias.

Há uma necessidade clara de atitude por parte dos dirigentes do futebol italiano. A própria federação atuou de maneira condescendente com a crise financeira da Pro Piacenza, ao contestar a bancarrota pedida pelas autoridades do país. Jogadores estão expostos, assim como os garotos de base, e a falta de comprometimento é evidente. O problema, aliás, está distante de ser inédito no Calcio e só reforça a maneira como as legislações relativas ao Fair Play Financeiro são brandas nas ligas locais. As múltiplas falências são um triste retrato. Os 20 a 0 do Cuneo escancaram uma vez mais a calamidade persistente pela má gestão em diferentes clubes.

Sobre as falências no futebol italiano, vale ler o especial produzido pelos amigos da Calciopedia, em Parte 1 e Parte 2.

https://www.youtube.com/watch?v=DdnHn5v1sWY