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A Bundesliga não pode reclamar do impacto causado em seu retorno, neste final de semana. A competição bateu o recorde de audiência na Alemanha, com mais de 6 milhões de televisores sintonizados na Sky Sports – a principal dona dos direitos de transmissão. No exterior, as audiências também explodiram. ESPN e Fox Sports estiveram entre os líderes do horário na TV paga do Brasil, enquanto o público na Argentina cresceu dez vezes. O nível das partidas até surpreendeu positivamente, a quem poderia imaginar uma rodada menos intensa, com jogadores receosos nos contatos. Mas este é o primeiro passo de um longo caminho a percorrer, em que o público se acostuma com um futebol que não é totalmente o futebol de antes.

Se a volta da Bundesliga é uma questão de interesse comercial (para manter o emprego de muita gente, mas também para sustentar as cifras cheias de zeros) e há um amplo mercado a se atingir, especialmente enquanto as outras grandes ligas não retornam, os alemães não podem vender agora sua principal virtude: as torcidas. A atmosfera nos estádios do país costuma ser um diferencial, com públicos muito mais calorosos que nas demais potências europeias. As arquibancadas vazias suprimem tal sentido, ainda que haja outros predicados a se ressaltar – como a boa qualidade técnica das partidas em geral e o futebol geralmente ofensivo, com uma média de gols maior que os vizinhos.

Os portões fechados se refletem nas finanças da Bundesliga, ainda que o peso desse prejuízo seja sufocante apenas aos times menores. E as arquibancadas tendem a influenciar os próprios rumos da competição. Sem gente, o ambiente é outro. O nível de concentração é outro. A linha de raciocínio é outra. Dizer que as partidas ficam mais parecidas com um treino é um erro, porque os jogadores seguem conscientes sobre seu objetivo na tabela e sobre o compromisso com o clube. Mas não se nega que existem inúmeros fatores suprimidos que fazem diferença a um jogo de futebol.

Futebol não é só ação, mas muito de reação ao que ocorre no entorno. Falta a pressão da galera, pelo bem e pelo mal. Falta a explosão de sentimentos, que regem as grandes partidas de várias maneiras. Falta o barulho que empurra os momentos dentro de campo. A compensação disso vem com uma maneira mais ponderada de conceber o jogo, menos influenciada pelos ânimos externos, longe da trepidação natural de um duelo em primeiro nível. É uma partida mais contida às quatro linhas, embora não fuja de novos obstáculos mentais que o momento impõe.

“Os jogadores nos disseram que parecia mais exaustivo que o habitual, porque houve menos interrupções e menos tempo gasto para discutir com o árbitro. Em um jogo normal, a atmosfera aquecida leva a mais debates e os árbitros são mais rápidos para apitar quando a torcida grita de raiva. Demos uma olhada no tempo de bola rolando e aumentou significativamente. Alguns jogadores disseram que o jogo estava menos agitado, mais objetivo e justo. Ninguém estava jogando para a galera, pensando que precisavam fazer certos gestos ou dar carrinho para agradar o público”, declarou Markus Aretz, diretor de mídia e comunicação do Borussia Mönchengladbach, ao avaliar este novo normal ao site The Athletic. Pontos positivos, mesmo que fujam do desafio costumeiro imposto pelas massas.

Os resultados em si não parecem tão surpreendentes assim, avaliando a situação das equipes na tabela e também o que vinham fazendo no início do segundo turno. No máximo, o que fugiu da regra foi o passeio do Hertha Berlim na Rhein-Neckar Arena, ainda que o Hoffenheim não viesse bem e se aguardasse uma mudança de postura na Velha Senhora. Porém, também não dá para falar que a Bundesliga passou incólume aos efeitos de um futebol distinto do usual. Apenas um mandante conquistou o triunfo nas nove partidas realizadas; alguns times estavam mais focados que os outros, algo perceptível pelos picos de gols nos primeiros minutos e também nos últimos; as cinco alterações permitidas redefiniram o fluxo de modificações táticas e adaptações das equipes. Todos processam as informações. É o futebol num contexto alternativo, não pleno.

Borussia Dortmund e Borussia Mönchengladbach, duas raras equipes da Bundesliga que haviam disputado partidas sem público anteriormente, pareceram compreender melhor o que deveriam fazer. A concentração se mostrava bem mais afiada e resultou em atuações maiúsculas, nas vitórias sobre Schalke 04 e Eintracht Frankfurt. O Bayern de Munique, por sua vez, demorou a entrar no ritmo e teve seus problemas para superar o Union Berlim, mesmo sem o caldeirão no Estádio An der Alten Försterei. Já o RB Leipzig, que não vinha bem, perdeu um caminhão de gols e não soube se impor contra o bem montado time do Freiburg. Destaque ainda ao Leverkusen, que já ascendia e goleou o cambaleante Werder Bremen, a última equipe a retornar aos treinamentos em grupo.

É possível que cada time aprimore seu trabalho e encontre atalhos para ganhar fôlego na tabela. Ainda assim, é um campeonato à parte, que carrega pontuações anteriores, mas que dependerá de equipes provando a si mesmas suas forças. Sai melhor quem entender o jogo, que não é leve como treino, mas também não será vivido à flor da pele como diante das multidões, e quem souber trabalhar melhor seu lado psicológico – quando a preocupação dos jogadores não se contém apenas no futebol.

O protocolo da Bundesliga, aliás, também não sofreu grandes contratempos nesta primeira rodada. Algumas cenas de recomendações ignoradas ocorreram e repercutiram, claro. Mas a maioria das imagens indicava uma adaptação à nova realidade sanitária – do distanciamento social às comemorações assépticas dos jogadores. Todos parecem informados e em sua maioria, cautelosos. Após o período de quarentena estabelecido aos elencos antes da volta, os jogadores poderão conviver com seus familiares durante as próximas semanas. Contudo, restam as dúvidas quanto aos riscos e o que acontecerá se o número de infectados der um salto – não só no país, como na própria liga.

O público se sentou na frente da televisão e “consumiu” o novo futebol. As pesquisas na Alemanha indicam que mais de 60% da população é contra essa volta, mas obviamente que muitos dos opositores não deixaram de acompanhar a competição, mesmo que contrariados. Entretanto, a noção do futebol como um produto se reforça. Há matizes que se perdem, especialmente os que dão cores mais vivas ao jogo além da bola em si. Este futebol perde um tanto de seu sal, mas ainda é futebol pra quem deseja se saciar um pouco em tempos pesados e que segue mantendo a gordura da bilionária indústria ao seu redor. Ele se vende.

A discussão seguirá. Muitos preferem não ver a Bundesliga por avaliarem que o melhor seria evitar os riscos ao máximo e focar na saúde das pessoas, sem que o futebol fosse necessário agora. É um boicote, motivado dentro do próprio país, onde os grupos de ultras puxam a fila para escancarar que discordam de tal retomada. “O futebol viverá, seu negócio é que está doente”, dizia uma faixa estendida no estádio do Augsburg. De qualquer maneira, é difícil deixar o campeonato passar batido, quando há muito em jogo – inclusive os próprios rumos do esporte nos próximos meses, ditados um bocado pelo pioneirismo dos alemães. O futebol de elite na Alemanha será usado como invariável parâmetro, mesmo que o país esteja em uma realidade bastante distinta (e favorável) quanto aos números da COVID-19.

Para não repensar suas estruturas ou cortar sua própria carne, a Bundesliga preferiu servir de laboratório e se botar em posição de certo privilégio. Todo o mundo está de olho no que ocorrerá. Por enquanto, mesmo com críticas pertinentes e um futebol menos caloroso, o retorno teve mais pontos positivos que negativos em relação aos clubes e aos jogos. Resta saber como a empreitada seguirá, quando o que está na mesa não é somente a Salva de Prata: o Campeonato Alemão bota sua imagem na roleta. A jogada poderá render alguns milhões, para aliviar a crise ou quem sabe até superar os prejuízos. No entanto, outras contrapartidas existem, sem que ninguém esteja totalmente livre dos riscos.

E no canto do mundo onde a voz do torcedor parecia mais considerada, ela emudece. Indica uma ruptura que talvez não seja apenas na maneira de ver ou sentir o jogo. Há um traço da cultura do futebol alemão que se rompe. Comercialmente, as vantagens são explícitas, sobretudo no sentido de abarcar novos mercados e novos consumidores. Mas também há o risco de uma cisão ao que se vive dentro do próprio país – menos perceptível a quem, do conforto de seu sofá, volta a ter uma opção de distração ao vivo na TV.