Da evolução que se desenhava, o baque surgiu de maneira repentina. Gary Speed, ídolo histórico de Gales e então técnico da seleção, cometera suicídio. Sob as suas ordens durante pouco menos de um ano, a equipe nacional não conseguiu reverter os tropeços no início da campanha nas Eliminatórias da Euro 2012, mas demonstrou um progresso imenso, conquistando vitórias e saltando do 117° para 45° lugar no Ranking da Fifa. Chris Coleman assumiu o cargo do velho amigo. E, junto com os ex-comandados de Speed, honrou a memória do antigo treinador. A campanha até as semifinais da Eurocopa é o maior resultado da história do país no futebol internacional, que também reitera a confiança para o futuro.

VEJA TAMBÉM: Portugal encerra o sonho de Gales para realizar o seu próprio: está na final da Eurocopa

Algumas das bases trabalhadas por Speed se mantiveram, embora a maior parte dos méritos seja mesmo de Coleman. Gareth Bale e Aaron Ramsey assumiram o papel de protagonistas da geração, ao mesmo tempo em que o sistema de jogo se solidificou. Os galeses passaram, sim, muitos perrengues durante o atual ciclo, especialmente na fraca campanha nas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2014. Mas chegaram à melhor sintonia depois disso, donos de uma defesa firme e dois talentos decisivos. Bale e Ramsey marcaram nove dos 11 gols na classificação rumo à Eurocopa, apenas dois pontos atrás da badalada Bélgica, contra quem os britânicos foram melhores no confronto direto.

Já na França, a consistência de Gales pesou, assim como os seus grandes destaques individuais. Bale e Ramsey se despedem da Euro 2016 como fortes candidatos à seleção do torneio – e isso porque o meio-campista foi desfalque sentido diante de Portugal. Obviamente, não conquistaram tudo sozinhos. Dependeram de coadjuvantes muito dispostos, como Ashley Williams, Hal Robson-Kanu e Joe Allen. A entrega dos galeses preponderou, tanto na classificação em primeiro de lugar em seu grupo quanto (principalmente) na enorme vitória sobre a Bélgica, uma das melhores exibições coletivas no torneio. Vontade que, de certa forma, também pode ser atribuída a Speed. As lembranças do técnico se transformaram em motivação, algo repetido por vários membros do elenco.

Gales permanece com lacunas a resolver. Falta um goleiro um pouco mais confiável, uma defesa mais leve, um companheiro mais regular a Bale no ataque. Mas há uma ótima base. Um capitão que honra a braçadeira, dois bons laterais, um meio-campo equilibrado e um craque para definir em diversos momentos de apuros – por mais que não tenha sido efetivo como se esperava diante de Portugal. E, pela idade, dá para esperar que esta geração galesa continue rendendo por mais alguns anos.

Entre os titulares, só três jogadores têm 28 anos ou mais: o goleiro Wayne Hennessey, o zagueiro Ashley Williams e o meio-campista Joe Ledley. No mais, sete atletas possuem de 25 a 27 anos, vivendo ápice físico e seguindo com condições de render bastante até a Euro 2020. O próximo objetivo se coloca visando a Copa do Mundo de 2018. E o grupo dos galeses nas Eliminatórias, ainda que seja equilibrado, se poropõe bastante acessível mesmo para a classificação direta: Áustria, Sérvia, Irlanda, Moldávia e Geórgia. Pelo que apresentou na França, o time de Chris Coleman ganha confiança.

Também é preciso ressaltar o trabalho da federação galesa, trabalhando para buscar jogadores com ascendência no país que pudessem defender a seleção. Desta forma, foram recrutados nomes como Ashley Williams, Hal Robson-Kanu, Andy King, James Chester e Sam Vokes. Alternativas que acabaram ampliando a base para que a equipe nacional se tornasse competitiva. E que podem muito bem tornar a presença de Gales nas grandes competições mais frequente. A Euro 2016 não deve ser uma mera exceção. Que seja difícil repetir outra semifinal, novas classificações são palpáveis.