Por Livia Camillo (@licamillo_) e Beatriz Cruz (@biafveracruz), do Papo de Mina (@papomina)

O contrato de patrocínio master assinado pelo Iranduba com a empresa de criptomoedas Vegan Nation não trouxe nada além de transtornos para a equipe desde a última temporada. Com o acordo validado no mês de fevereiro de 2019, o clube ainda não teve acesso a nenhum Real do combinado e luta para entrar em campo no Brasileirão Feminino, no dia 30 de agosto. “Ostentando” moedas digitais veganas, que ainda não têm valor de mercado, a equipe já soma cinco meses de salários atrasados com as três jogadoras remanescentes do elenco: Adyla, Pimentinha e Paulinha Gama. 

Entenda o caso em nosso podcast:

A solução será “completar time com atletas de futsal”, segundo diz o diretor de futebol do time amazonense, Lauro Tentardini, para o Papo de Mina. O dirigente teme não ter as onze titulares necessárias para disputar o duelo contra o Vitória, no Estádio do Barradão. A punição por não disputar o campeonato poderia fechar as portas da equipe.

“Se não jogarmos, certamente, com a multa que o STJD daria, sim [o clube decretaria falência]. Por isso temos que colocar um time em campo. Se não voltarmos, fecha tudo”, contou Lauro. 

De acordo com o Art. 61 do Regulamento Geral das Competições (2019) da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), “se uma equipe abandonar uma competição, ficará automaticamente suspensa durante 2 (dois) anos de qualquer outra competição coordenada pela CBF”. O caso ainda iria a julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e poderia culminar em uma multa. 

O Iranduba ainda não tem data para retomar os treinos presenciais, uma vez que não tem atletas suficientes para preencher todas as posições. Segundo apurou a reportagem, ainda não há previsão de pagamento para atletas ou comissão técnica, que não recebe há mais de um ano.

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Vegan Nation acusa Iranduba de assédio

O Papo de Mina teve acesso a alguns documentos da negociação. Um deles foi uma carta supostamente enviada pelo próprio CEO e co-fundador da Vegan Nation à CBF. Nela, Isaac Thomas descreve o comportamento de cobrança feito pela diretoria do clube como “inapropriada”, e acusa os responsáveis de assédio moral e chantagem.

A advogada do Iranduba no caso, Fabiana Tentardini, entrevistada no podcast, afirma que em nenhum momento essa carta chegou ao conhecimento do clube, e que desconhece as acusações. 

Por que o clube assinou contrato?

O contrato assinado pelo Iranduba previa pagamentos somente em criptomoedas veganas. No entanto, a promessa dada pelos representantes da Vegan Nation no Brasil, responsáveis pelo acordo com o time amazonense, era de que a chamada ‘vegan coin’ entraria no mercado em maio de 2019 com um valor de US$ 0,5 (meio dólar). O caso se tornou jurídico e deverá ser protocolado na próxima semana. 

“Se não tivesse essa previsão, não teria por que o Iranduba assinar o contrato de patrocinador master com uma empresa internacional. Apesar de várias datas terem sido repassadas para o presidente do clube, em novembro foi assinado um aditivo pela própria empresa, no qual previa uma renovação deste patrocínio até o final de 2020, com uma cláusula de indenização pelas moedas não terem entrado no mercado na data prometida, o que impedia a conversão da mesma em espécie”, explicou Fabiana.

“Essa indenização foi prevista justamente para sanar a falta do cumprimento do que havia sido acordado verbalmente entre as partes e também havia uma cláusula de suspensão caso a moeda não fosse lançada até março de 2020”, concluiu. 

A versão da Vegan Nation

O empresário Roberto Rosemberg, representante da Vegan Nation no Brasil e responsável por mediar as negociações, afirma que o problema começou ainda  na assinatura do contrato, “vendido de forma errônea”. Apesar de no começo ser o responsável pelos contatos com Paysandu e Remo, ele também fez a ponte entre a empresa com Nacional-AM e Iranduba. Ele alega não ter sido quem prometeu a entrada das moedas no mercado. 

Para Isaac Thomas, as criptomoedas são um investimento a longo prazo. “Eles vão ter coisas para fazer com as vegan coins ao redor do mundo à medida que o ecossistema vegano for crescendo. O que eles fizeram foi um investimento a longo prazo com cuidado, e têm suas próprias razões pelas quais acreditam que a moeda será forte e para as outras equipes também. Foi uma decisão de negócio.” 

“Estamos fazendo tudo o que podemos no confinamento, mas o time sabia exatamente dos riscos dessa transição financeira e estavam felizes com isso, porque queriam continuar. Então isso foi absolutamente uma luta pelo poder dentro do time e tentando nos culpar de todo o mal interno”, assegurou.