A segunda divisão do Campeonato Espanhol terminou há uma semana – em teoria. “Em teoria” porque há um enorme imbróglio envolvendo a competição, depois que a partida entre Deportivo de La Coruña x Fuenlabrada foi suspensa por conta dos casos positivos de COVID-19 envolvendo a equipe visitante. Neste domingo, La Liga anunciou que o jogo estaria suspenso em definitivo pelo aumento no número de contaminados no Fuenlabrada, o que confirmaria o Elche nos playoffs de acesso. O clube madrileno, no entanto, refutou o comunicado da entidade e ainda considera suas possibilidades de disputar a promoção. Enquanto isso, o Deportivo pede a suspensão da temporada e pleiteia seus direitos para não cair à terceira divisão.

Tudo começou quando o Fuenlabrada descobriu que quatro membros de sua delegação tinham coronavírus, no final de semana anterior ao jogo contra o Deportivo – marcado para a segunda-feira. O clube ganhou a autorização de La Liga para viajar à Galícia e, no local, o governo da comunidade autônoma realizou novos testes. Foram mais oito infectados confirmados antes da partida, o que provocou o adiamento do embate. Porém, a organização da segundona preferiu não interferir nos demais jogos marcados para a data. Com isso, o Depor acabou matematicamente rebaixado, enquanto o Fuenlabrada ainda poderia alcançar os playoffs de acesso com uma vitória neste último compromisso.

Durante as horas posteriores, diversos clubes envolvidos na competição protestaram – em especial o Deportivo, bem como Elche e Rayo Vallecano, que brigavam pelos playoffs e viam uma facilitação ao Fuenlabrada. E, conforme os dias se passaram, o escândalo ganhou contornos. Javier Tebas, presidente de La Liga, teria oferecido seus serviços como consultor ao Fuenlabrada em 2018 e seu filho atua como advogado no clube – o que configuraria um conflito de interesses. O governo da Galícia e também o Conselho Superior de Esportes passaram a questionar a permissão de La Liga à viagem do Fuenlabrada, quando isso representaria um risco até mesmo à situação sanitária em A Coruña. E, cada vez mais, a delegação madrilena passou a apresentar novos casos positivos da COVID-19.

O Fuenlabrada permanece isolado em um hotel na Galícia, onde os jogadores cumprem quarentena. Ao longo da semana, 18 novos infectados foram confirmados. Há uma clara suspeita de negligência dos madrilenos na gestão sanitária de seu elenco, embora o clube afirme que seguiu os protocolos. Segundo a versão de alguns jogadores, o plantel sequer havia sido avisado sobre os contágios em massa até pouco antes do jogo. Diante da situação, com o prolongamento de prazos que afeta os playoffs e a própria realização da próxima temporada, La Liga preferiu suspender a partida em definitivo – o que confirmaria, por tabela, a presença do Elche nos mata-matas de acesso.

Segundo La Liga, o jogo seria suspenso por “causa excepcional ou de força maior”. O próprio Fuenlabrada teria apresentado essa possibilidade à organização do campeonato, mas, horas depois, emitiu um comunicado apontando que “não se considera uma equipe fora dos playoffs” e que seus jogadores “estão aptos para disputar a partida na primeira semana de agosto”. A decisão foi encaminhada ao Comitê de Competições da federação espanhola, que investiga o caso – com relatos de que seus dirigentes se sentiram “enganados” por toda a conduta de La Liga até o momento no episódio.

O Fuenlabrada espera a intervenção do Comitê de Competição e também do Conselho Superior de Esportes, para que possa disputar o jogo contra o Deportivo em agosto. Beneficiado pela decisão de La Liga, o Elche agradeceu (literalmente) a possibilidade de entrar nos playoffs. Enquanto isso, o Rayo Vallecano agora pede uma partida extra para que possa enfrentar o Elche e definir quem vai aos mata-matas.

Do outro lado da tabela, o Deportivo de La Coruña se mantém firme com a opinião de que a última rodada da segundona deve ser anulada. Os galegos acusam que o Fuenlabrada não cumpriu diferentes normas da federação presentes no protocolo sanitário e que os acordos da competição foram rompidos pela suspensão de seu jogo. O Depor pede que a próxima edição da segundona seja ampliada, sem considerar os descensos. Além disso, a diretoria não descarta entrar na justiça comum e afirma que há uma parcialidade ao redor de Tebas por causa do envolvimento direto de seu filho com o Fuenlabrada, o que invalidaria a posição de La Liga.

Tebas assumiu publicamente a culpa e disse que o “único responsável pela viagem do Fuenlabrada foi ele”. Parece pouco para aliviar a própria barra, diante dos diferentes problemas envolvidos com sua decisão. O Conselho Superior de Esportes, órgão máximo do governo espanhol relativo às entidades esportivas, denunciou o dirigente por não ter cumprido os protocolos ao lado do Fuenlabrada. O juiz de disciplina social de La Liga, em contrapartida, considerou que os madrilenos agiram corretamente e até repreendeu o Deportivo por seu posicionamento, afirmando que o adiamento de seu jogo em nada influenciou o rebaixamento. Ao que parece, o juiz age em nome do patrão.

Certo é que a pressão aumenta sobre Tebas, inclusive com pedidos para que renuncie – o que o cartola não se mostra disposto a fazer. Seja qual for a decisão tomada, haverá algum lado descontente. As investigações precisam se aprofundar para comprovar as responsabilidades quanto à viagem do Fuenlabrada e o aumento de casos na delegação, ao mesmo tempo em que existe pressa para que a próxima temporada não se atropele. Mas diante de tantos entraves, parece claro que não há apenas um erro, e sim uma sucessão deles.