O Paris Saint-Germain perseguia um feito inédito na Ligue 1: a conquista do título invicto. Em 84 anos de competição, nunca um time conseguiu ser campeão francês sem sofrer derrotas. Chance desperdiçada neste domingo, com o tropeço diante do Lyon. Assim, no máximo os parisienses poderão igualar a melhor marca, estabelecida há duas décadas: o Nantes só sofreu um revés em toda a campanha vitoriosa em 1994/95. Além disso, os Canários também mantiveram 32 partidas de invencibilidade, recorde superado pelo PSG em fevereiro. Um time histórico dos auriverdes que, apesar de relativamente recente, é pouco lembrado fora da França. Mas que se consagrou como sinônimo de futebol-arte no país.

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A ascensão daquele Nantes começa na beira do abismo, em 1992. Sofrendo com altos débitos e correndo risco de ser rebaixado por conta da crise financeira, o clube acabou salvo por Guy Scherrer. Alto-executivo de uma fábrica de biscoitos e da câmara de comércio local, ele assumiu a presidência, diante dos temores de falência que se instauraram nas autoridades locais. A partir de então, os Canários estabilizaram as suas contas e iniciaram a montagem de um esquadrão. No entanto, os auriverdes estiveram distantes de cometer loucuras no mercado de transferências. Muito pelo contrário. Algumas das principais referências do elenco já tinham partido, como Marcel Desailly e Paul Le Guen. Enquanto isso, a equipe apostava nos jovens formados pelas categorias de base e em outros tantos reforços sem badalação. E ganhou o apoio da torcida, que voltou a comparecer de maneira massiva nas arquibancadas.

À frente do projeto, estava o técnico Jean-Claude Suaudeau, uma sumidade em Nantes. Volante do clube na década de 1960, chegou a ser bicampeão francês em 1965 e 1966. Além disso, estava em sua segunda passagem pelo banco de reservas. Entre 1982 e 1988, ergueu a taça da Ligue 1 em 1982/83, em time estrelado pelo artilheiro Vahid Halihodzic. E voltou ao comando dos Canários em 1991, para a sua consagração. Técnico de filosofias simples, Coco Suaudeau era um grande entusiasta do jogo ofensivo. Pregava a troca rápida de passes de primeira e em progressão. Um trabalho que precisou de tempo, mas não demorou a ter o seu ápice.

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A inspiração de Suaudeau nasceu assistindo a um treino da base da Internazionale, nos tempos de Giovanni Trapattoni. Mas, fã confesso de Zico, também tomou o Brasil de 1982 como uma de suas fontes. “Eu não digo para darem um toque na bola, mas para jogarem sem dominar. A prioridade não é quem está com a bola, mas os outros, permitindo que qualquer um jogue sem dominar. Em 1982, vi o Brasil e eles tocavam a bola sem dar um passe difícil, era tudo simples. Não tinha dez jogadores como Zico, mas que podiam jogar o simples. O segredo do Nantes era a simplicidade. Essa é a semelhança entre qualquer jogador, por Zidane ou por Platini, a simplicidade, esse é o genial. Zico podia jogar de outro jeito, mas não. Então todo mundo começou a jogar simples, e isso mudou a cabeça dos jogadores”, afirmou, em entrevista à revista So Foot, em 2005.

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O grupo de jogadores de Suaudeau era moldado para as suas propostas ousadas. Tinha qualidade técnica suficiente e explosão em todos os setores, o que permitia ao time pressionar a saída de bola dos adversários e atacar de maneira bastante vertical. A referência na defesa era Christian Karembeu, que chegou da Nova Caledônia para as categorias de base dos Canários. Trazido do Brest quando tinha 18 anos, Claude Makélélé dinamitava o meio-campo com muita pegada e também participatividade ofensiva, jogando com a 7, em função diferente da que desempenhou na sequência da carreira. Já no ataque, um quarteto de nomes menos lembrados sobrava. Reynald Pedros era o maestro, acompanhado pela técnica de Patrice Loko, o faro de gol de Nicolas Ouédec e a voracidade de Japhet N’Doram. Destes, apenas o último tinha mais de 25 anos em 1995 e não havia saído da base auriverde. O chadiano foi contratado junto ao Tonnerre Yaoundé em 1990, e acabou sendo o símbolo do que o treinador queria, combinando força, classe e um raciocínio muitíssimo rápido.

Coco Suaudeau costumava armar o seu time entre o 4-1-4-1 e o 4-1-3-2. Mas a organização não era exatamente o mais importante em suas ordens. A base do jogo do Nantes se fazia pela maneira como os jogadores se dispunham a engolir o adversário, com defensores que avançavam em massa. A recuperação de bola era seguida por uma corrida sufocante à área rival. O movimento podia até parecer suicida, mas implodia os times que não se recompunham rapidamente. Inovação, que dependia do vigor físico, de um grande entrosamento e da inteligência dos jogadores na ocupação dos espaços. Não à toa, os treinos sem bola passaram a ser aplicados pelo técnico, visando trabalhar a imaginação de seus homens além da posse.

A precisão nos movimentos, sobretudo, se fez vital para o Nantes. O estilo conhecido como “quatro a cinco toques” buscava exatamente isso: quatro ou cinco toques para chegar à meta do adversário. Primava especialmente pelos lançamentos de Pedros e do volante Jean-Michel Ferri, enquanto os homens de frente tratavam de trabalhar a correria. Muitas vezes os Canários não conseguiam encaixar os ataques. Mas quando dava certo, desconcertava as defesas adversárias e produzia um futebol belíssimo de se assistir. Durante o ápice deste jogo, o Nantes se manteve praticamente imbatível na Ligue 1.

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Desta maneira, o ‘jogo bonito’ do Nantes se caracterizava de sua própria maneira. E Suaudeau chegou a se irritar certa vez, quando uma edição de 1992 do Mundo Deportivo dizia que ele imitava o Barcelona de Cruyff. “A prioridade deles é ter a bola e manter a posse pelo máximo de tempo possível. Essa é uma doença do jogo atual, eu acho. É por isso que o futebol está ficando chato”, declarou Coco, em resposta. Anos depois, falando à revista So Foot, ainda afirmou que “Ronaldinho faz os passes como devem ser feitos, infiltrados. O grande mal do futebol de hoje em dia é que ele tem muitos passes e já se sabe para onde eles vão. Isso é handebol, não futebol”. Uma leitura extremamente simples do objetivo do jogo, mas que rendeu gols e atuações magníficas.

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Durante o início de sua construção, contudo, o Nantes não teve pressa. Longe de interferir na parte esportiva, Scherrer deu a tranquilidade necessária para Suaudeau desenvolver o seu trabalho. E o técnico contou com a manutenção de titulares que, em sua maioria, estavam no clube desde a virada da década de 1990. Em 1992/93 e 1993/94, os Canários chegaram à quinta posição na Ligue 1, além de terem perdido uma final da Copa da França para o PSG de Weah, Ricardo Gomes e Ginola.

Porém, ninguém foi capaz de parar o Nantes em 1994/95. O time arrancou para sua sequência invicta logo na primeira rodada, em empate por 1 a 1 com o Lyon. A partir de então, conquistou 19 vitórias e 13 empates até cair diante do Strasbourg, na 33ª rodada. O ataque passou em branco durante apenas quatro jogos naquela série, enquanto 11 vezes marcou pelo menos três gols. Mais marcante que os números, todavia, era o deslumbramento que a equipe de Coco Suaudeau causava. Se caiu precocemente na Copa da França e na Copa da Liga Francesa, a campanha na Ligue 1 era inquestionável. Segundo colocado, o Lyon acabou dez pontos atrás. E o favorito PSG (campeão com Raí em 1994 e de Weah dono da Bola de Ouro em 1995) ficou em terceiro, a 12 de distância.

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Já na Copa da Uefa, o Nantes deixou péssima impressão. Perdeu nas quartas de final para o Bayer Leverkusen, goleado por 5 a 1 em noite desastrosa do goleiro Jean-Louis Garcia. A reputação dos Canários nas competições continentais só se refez na temporada seguinte. O Nantes viveu sua melhor campanha na história da Liga dos Campeões, chegando até as semifinais. Passou por Porto, Panathinaikos e Aalborg na fase de grupos, antes de eliminar o Spartak Moscou nas quartas de final. Já nas semifinais, peitou a fortíssima Juventus. Perdeu por 2 a 0 em Turim, mas conseguiu bater os futuros campeões por 3 a 2 na volta. De qualquer forma, um resultado insuficiente para uma história ainda mais marcante.

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Já na Ligue 1, o Nantes não conseguiu manter mais a sua intensidade.  Perdeu duas peças fundamentais com as saídas de Karembeu e Loko, enquanto o desgaste com a participação continental cobrou o seu preço. O sucesso desapareceu, com a venda dos destaques. E, em uma equipe que dependia tanto do encaixe coletivo, os resultados nunca se repetiram. Suaudeau deixou o time em 1996/97, temporada em que os Canários terminaram em terceiro no Francês. Quatro anos antes da reconquista do campeonato nacional em 2000/01, com um elenco já sem remanescentes do esquadrão.

Individualmente, a maioria dos destaques daquele Nantes não vingou. Pedros e Loko rodaram por clubes de peso (Olympique de Marseille, Parma e Napoli; PSG e Lyon) e até participaram da Euro 1996, mas não foram além. Ouédec teve um bom momento no Espanyol e só. Ferri chegou a ter uma passagem frustrada pelo Liverpool e N’Doram se aposentou depois de uma temporada apagada pelo Monaco. As exceções acabaram sendo Karembeu e Makélélé. Enquanto o primeiro ergueu a Copa do Mundo em 1998 e foi multicampeão pelo Real Madrid, o segundo se estabeleceu como um dos melhores volantes da década e levou com o vice no Mundial de 2006. Nomes mais célebres de um timaço que merece ser mais lembrado.

Abaixo, uma coleção com 20 golaços do Nantes naqueles anos áureos. Pura classe: