Nas últimas listas para se apontar o melhor goleiro do mundo, Manuel Neuer deixou de constar entre os primeiros nomes citados. Alisson, Jan Oblak, Marc-André ter Stegen e ainda outros passaram a formar uma nova elite na posição. Contava muito o espetáculo constante dos mais novos e a sensação de ascendência. Assim como pesava contra o alemão o tempo lesionado e as fases menos empolgantes do Bayern de Munique ou da seleção alemã. Neuer, entretanto, é daqueles raríssimos arqueiros que não precisam dar show todo final de semana para mostrarem que permanecem entre os melhores. E a atuação decisiva na final da Champions, mais do que um lembrete da lenda que resguarda a meta bávara, é um passo maior em sua própria história.

A ausência de Neuer entre os nomes na ponta da língua como melhor goleiro reflete, também, certos indícios de que o alemão estaria em declínio a partir de 2017/18. Os problemas físicos não permitiam que suas sequências fossem tão deslumbrantes quanto em outros tempos. Da mesma forma, o desastre da Alemanha na Copa de 2018 gerou críticas ao camisa 1 – mesmo sem ser necessariamente culpado, apesar da falta de ritmo. Sua resposta precisaria vir em campo. Teria que mostrar outra vez aquele arqueiro de defesas incríveis e uma segurança sem igual, que encabeçou campanhas históricas no Bayern e na Mannschaft. Que, afinal, concorreu a sério pela Bola de Ouro não faz tanto tempo.

O primeiro ponto a Neuer seria recuperar a melhor forma física. Isso se notou desde a temporada passada, ainda que não tenha sido uma campanha realmente brilhante do veterano na Bundesliga. Além do mais, também ficou a sensação de que “dava para fazer melhor” na eliminação diante do Liverpool – quando outras derrocadas na Champions estiveram distantes de gerar questionamentos sobre o arqueiro. A consistência, de qualquer forma, passava por um trabalho em conjunto do Bayern e isso não foi possível com Niko Kovac. A fragilidade estava exposta acima do goleiro.

A melhora do time sob as ordens de Hansi Flick recolocou os holofotes sobre Neuer. Não era apenas o ataque que se tornava tão avassalador com o novo técnico, mas a defesa também ganhava solidez com a boa série de resultados. Naturalmente, o capitão voltava à cena. E a imposição do camisa 1 não se limitaria ao papel de liderança que desempenha no elenco, como um dos jogadores mais vitoriosos e experientes neste Bayern. Havia também uma necessidade de corresponder ante às dúvidas que ameaçavam até mesmo sua titularidade. A disputa com Ter Stegen na seleção alemã e a contratação de Alexander Nübel para a próxima temporada na Baviera indicavam que, mesmo em seus times, o velho craque não era mais intocável.

O título na Bundesliga já apresentou o melhor de Neuer. E a Champions ratificaria essa reafirmação do goleiro. Nesta reta final, mesmo que o Bayern tenha primado pelo jogo coletivo, a participação do camisa 1 também é imprescindível para explicar a conquista. A goleada sobre o Barcelona dependeu das intervenções vitais de Neuer durante os primeiros minutos. Contra o Lyon, o arqueiro seria exigido mais algumas vezes, especialmente pela forma como os franceses encontravam espaços na área. Por fim, o duelo contra o PSG resgatou o Neuer decisivo, como nos maiores momentos da carreira.

Neuer parecia intransponível em Lisboa, mesmo com os adversários impedidos (MANU FERNANDEZ/POOL/AFP via Getty Images/One Football)

Chegou um momento da noite em Lisboa que nada parecia capaz de superar Neuer. Nem com o adversário impedido conseguiam vazá-lo. Algumas vezes, é claro, os atacantes parisienses poderiam ter feito melhor. Mas, tecnicamente, esta foi uma atuação perfeita do camisa 1. Agigantou-se nos pés dos oponentes, em uma de suas maiores virtudes, pela maneira como fecha o ângulo na hora dos arremates. Estava sempre muito bem posicionado e muito atento para facilitar as defesas. Agarrou bolas razoavelmente difíceis, pela curta distância e pela liberdade, sem nem dar rebote. Neymar ou Mbappé não viram brechas para vencer o alemão.

Desde a Copa de 2014, muitos se acostumaram a resumir Neuer por seu jogo com os pés e por sua movimentação além da grande área. De fato, é uma de suas especialidades e seus passes também contribuíram à vitória do Bayern neste domingo. Diante da postura do PSG em pressionar bastante a saída ao redor da área, Neuer totalizou 46 passes e até participou do início da jogada que resultou no gol. Mas não dá para cair na simplificação para falar sobre o melhor goleiro da década. À memória fraca, esta final da Champions é um remédio e tanto sobre o lugar do alemão na história.

E outro ponto a se destacar é a própria confiança dos jogadores do Bayern em relação a Neuer. A tranquilidade que o goleiro transmite contribui bastante para que o time siga construindo seu jogo. Um bom exemplo disso aconteceu no segundo tempo, quando Alphonso Davies resolveu recuar uma bola de cabeça no calor do placar mínimo. Tudo se desenrolou naturalmente, sem sobressaltos. Um sinal claro de que os bávaros sabem: ao mínimo risco, há um arqueiro capaz de fazer a diferença. Pois fez, muitas vezes, nesta decisão em Lisboa.

A trajetória de Neuer, em partes, pode ser comparada com a de Gianluigi Buffon. Não sei vocês, mas em certo momento na virada da década, eu cometi o sacrilégio de pensar que Gigi não estava mais no ápice, por não vê-lo tão fantástico. Bastou a Juventus voltar ao topo, com grande contribuição do próprio arqueiro, para que meu erro se evidenciasse: o Buffon da sequência de Scudetti seria tão preponderante quanto aquele de 2006. Neuer parece fazer parte do mesmo grupo seletíssimo de goleiros sobrenaturais. Em boas condições físicas e com sequência de partidas, é difícil imaginar uma fase menos que ótima, porque todos os requisitos a um camisa 1 de primeira classe estarão ali. Os grandes títulos, como esse da Champions, servem para lembrar.

A reputação de Neuer se gravou com as partidas memoráveis nas duas campanhas de Champions no começo da década, quando o Bayern chegou à decisão – em especial na semifinal de 2011/12 contra o Real Madrid. A Copa do Mundo de 2014, então, veio para não deixar margens a ceticismos. O segundo título continental neste domingo, enfim, reforça a excelência aos 34 anos – agora com a braçadeira de capitão. Torna-se mais forte a imagem de quem, desde antes, já podia reivindicar seu lugar acima de Sepp Maier e Oliver Kahn na galeria de mestres da melhor escola de arqueiros do planeta.