Durante a década passada, a Argélia chegou a disputar uma série de amistosos na França, sem grande público. O último deles havia acontecido em 2008, na cidade de Rouen. Desde então, as Raposas do Deserto se recolocaram como uma potência continental. Classificaram-se a duas Copas do Mundo e reconquistaram a Copa Africana de Nações. A seleção se fortaleceu com uma política explícita de buscar os descendentes argelinos que nasceram em solo francês. E, mais do que isso, a comunidade magrebina do outro lado do Mediterrâneo cresceu. Assim, 11 anos depois, a Argélia viveu um pulsante reencontro com sua gente. Fez da França o seu território e lotou o Estádio Pierre-Mauroy, em Lille, para derrotar a Colômbia por 3 a 0.

Atualmente, são estimados 2,5 milhões de argelinos e descendentes vivendo na França. A maior concentração desta comunidade está na costa do Mediterrâneo e na região de Paris. O norte possui uma comunidade expressiva, mas não tão grande quanto as outras duas. Ainda assim, o Estádio Pierre-Mauroy se tornou um anexo da Argélia na fronteira com a Bélgica. Ao todo, 40 mil lugares foram ocupados, cheios de bandeiras do país africano. O momento mais emocionante aconteceu durante a execução do hino nacional, com uma uníssona cantoria dos donos da casa.

A Colômbia se tornou uma mera coadjuvante no amistoso. A Argélia conquistou uma vitória sonora e apresentou o melhor de seu poderio ofensivo. O primeiro gol saiu aos 15 minutos, num bonito chute de Baghdad Bounedjah que encobriu o goleiro David Ospina. Antes dos 20, já viria o segundo. Após uma troca de passes no bico da grande área, Riyad Mahrez arriscou de fora e a bola desviada acabou nas redes. Já no segundo tempo, o próprio Mahrez matou a partida. Fez o desarme na direita, passou pelo marcador, cortou para o meio e soltou o chute cruzado que confirmou a vitória. Por mais que os colombianos não contassem com parte de seus titulares, foi um passeio magrebino.

Os gols foram seguidos de grandes erupções nas arquibancadas. A festa também tomou as ruas de Lille e o entorno do Estádio Pierre-Mauroy. Ao longo dos últimos anos, os argelinos se acostumaram a comemorar seus grandes feitos também nas cidades francesas. Assim aconteceu na classificação à Copa de 2010, na boa campanha no Mundial de 2014 ou na conquista da CAN 2019. Agora, os magrebinos puderam sentir as Raposas do Deserto um pouco mais perto. O orgulho era evidente. Seis titulares e outros dois jogadores que saíram do banco nasceram em território francês, assim como o técnico Djamel Belmadi.

A vitória ainda estabeleceu uma marca histórica à Argélia. Pela primeira vez desde sua formação, a equipe nacional encadeou 16 partidas de invencibilidade. As Raposas do Deserto conquistaram 12 vitórias no período, em sequência que auxiliou no título da CAN. Agora, o país se prepara às Eliminatórias da Copa, novamente encabeçando os favoritos. A qualificação na África não oferece muitas margens à manobra e o próprio fracasso rumo a 2018 serve de alerta. Apesar disso, os argelinos sabem que contarão com o apoio de uma massa que vai além de suas fronteiras. A esperança se renova.