Quando Maradona assinou o seu contrato com o Gimnasia de La Plata e alinhou sua apresentação no novo clube, fez uma exigência: queria realizar um treino aberto no Estádio del Bosque neste domingo, durante a pausa no Campeonato Argentino. Diabo velho, Diego sabia muito bem o que estava fazendo. Convocaria todo o clamor do público e poderia irradiá-lo para o elenco no gramado. E assim se cumpriu, numa tarde que mais parecia parte de um texto de Gabriel García Márquez. O realismo mágico do Lobo viu um deus vestindo agasalho e usando boné, manquitolando pelo gramado, um tanto quanto trôpego também em suas palavras emocionadas. Mas que hipnotizava uma massa de milhares de fiéis, rendidos a venerá-lo.

O primeiro culto a Maradona em La Plata viu um humano que foi pastor e objeto de adoração. As ruas ao redor do Bosque começaram a se encher horas antes do início da apresentação, já com os vendilhões oferecendo camisas, bandeiras e o que mais carregasse a imagem de Diego. Era uma convulsão social. Um carnaval maradoniano com a presença de torcedores e também daqueles discípulos que se fantasiam diante da aura do craque. Dentro de campo, totens gigantescos com a face do veterano em seus bons tempos e também com a camisa 10 albiceleste.

Antes de pisar no gramado, Maradona fez questão de conversar com seus novos sacerdotes da bola. Cumprimentou um a um de seus jogadores e transmitiu sua primeira mensagem no vestiário. E quando o treinador surgiu no campo, carregado por um carrinho por conta de sua recente cirurgia no joelho, a profissão de fé se ouviu através de um estrondoso urro que veio da multidão. A mera presença de Diego representa demais na Argentina. É só o que explica a comoção ao redor do Gimnasia neste momento. E por vezes nem dá para entender.

A trilha sonora, como não poderia deixar de ser, acabou conduzida pela canção que representa um de seus instantes mais deslumbrantes. O sentimento se assimila, mesmo que agora Maradona não precise fazer os mesmos malabarismos com a bola. O que vale é a lembrança que suscita. E, à frente de um time que ocupa a última colocação no Campeonato Argentino, assim como a rabeira no promédio, Diego não promete milagres. Promete trabalho e tudo mais que sua história pode trazer de positivo ao Gimnasia.

“Eu não sou mágico, eu gosto de trabalhar. Àqueles que falavam que eu não aguentava, eu saio com 60 graus de calor e treino às sete da manhã. Esses se equivocaram. Eu gosto de ganhar dinheiro correndo, como fiz por toda a minha vida”, afirmou, sob muitos aplausos. “E quero prometer uma coisa. Enquanto eu dirigir este elenco, ele vai ser um exemplo. Por todo o carinho que vocês nos brindam, nos darão algo a mais para ganhar as partidas. E nós vamos ganhar, nós vamos ganhar!”.

Maradona foi o mais puro Diego no microfone. Emocionou-se quando conversava com a multidão. Interrompeu as palavras para segurar as lágrimas e para que as arquibancadas clamassem o seu nome. Festejou e cantou. Até esboçou pular, independentemente das limitações dos joelhos, quando a massa passou a gritar que “quem não salta é um inglês”. Ganhou o perdão até pelo ato falho de puxar um cântico que fala sobre voltar à primeira divisão, justamente o que os torcedores do Gimnasia não esperam viver tão cedo. O que valia era a mensagem de fazer o clube grande. Com o velho ídolo, essa esperança surge como uma aparição divina, apesar da consciência sobre todas as limitações e dificuldades.

“Como posso explicar com palavras as sensações que passam pelo corpo? Não tenho palavras. Minha mãe me apareceu, pensei nos meus filhos, a quem deixo um legado. E algo para o povo argentino”, declarou, lisérgico. “Logicamente queria ser técnico. Como vocês sabem, Blatter e Grondona forçavam os dirigentes para que não me contratassem. Quando entrei aqui e vi tudo isso, não podia crer. Não pude crer. Depois da seleção, me colocaram na cruz e todos sabiam. Em 1994, o senhor Blatter e Grondona me apagaram, mas bem, estou aqui, de pé como queria minha mãe. Ela me dizia ‘não morra por essa porcaria’ e eu não morri”.

As cenas se tornavam mais inacreditáveis pelo transe da torcida, respondendo com força e com devoção. E as impressões sacrossantas de Maradona aumentaram quando cinco torcedores invadiram o campo, com a intenção de tocá-lo, de cumprimentá-lo. Não é um mero treinador de futebol. Não é um mero ídolo. É um personagem muito além dos limites razoáveis da compreensão humana. É um símbolo que provoca a loucura e o sentimento próximo a uma adoração. E esta foi apenas a apresentação, com um punhado de minutos. Tende a se repetir outras vezes, durante jogos e por onde Diego passar.

Depois daqueles minutos surreais, Maradona fez cena enquanto seus jogadores realizavam atividades básicas de treinamento, se aquecendo ou praticando arremates. Era apenas um pretexto a tudo o que ocorrera pouco antes. Depois, Diego ainda se reuniu com a imprensa para meia hora de conversa, que não pode ser chamada de uma mera conferência, mas de um show. O futuro no Gimnasia era só um assunto na coletânea de temas que passavam por seus principais feitos como jogador e pelas experiências anteriores como técnico. Com Maradona, qualquer momento precisa ter todos os holofotes a si. E ele faz valer os ingressos.

O Gimnasia atravessará dias em polvorosa. E a intranquilidade, algo inerente a Maradona, tende a não ser suficiente para um time que luta contra o rebaixamento. Por enquanto, o que se escancara é o lado positivo (e positivo até demais) da anunciação de um ídolo. O Lobo ainda precisará dar passo a passo com o seu novo treinador. Mas, antes de saber o que realmente acontecerá em campo, outro alvoroço generalizado se dará no Bosque durante a próxima semana, no primeiro compromisso pelo Campeonato Argentino, contra o Racing. Outro tipo de culto, outro conto de realismo mágico.