A apoteose de Pelé: como o Rei brilhou nos títulos sul-americanos e mundiais do Santos

Não cabe entrar na polêmica de qual é o melhor time da história, mas o hall da fama precisa necessariamente contar com o Santos dos anos sessenta. Especialmente entre 1962 e 1963, quando ganhou tudo: duas Taças Brasil, posteriormente igualadas ao Campeonato Brasileiro pela CBF, mas que eram o principal torneio nacional daquela época; um Rio-São Paulo, um Paulista, e também duas Libertadores e dois Mundiais em sequência.

Entre as homenagens aos 80 anos de Pelé, completados nesta sexta-feira, contamos a história das participações do Rei do Futebol nesses quatro principais títulos que aquele Santos conquistou – e poderia até ter conquistado outras vezes se não tivesse se retirado da Libertadores – tão essenciais para a sua lenda.

Noite das Garrafadas

Pelé era um touro. Por mais supremacia técnica e tática que apresentasse, por mais inteligente e instintivo que fosse, o seu porte físico era algo de outro mundo. Atravessou as maratonas de jogos e viagens do Santos e os pontapés dos adversários por quase 20 anos até que com poucos problemas físicos. Por isso, foi um baita azar a seleção brasileira ter perdido o seu melhor jogador logo na segunda rodada da Copa do Mundo de 1962 para um estiramento muscular. Mas ficou tudo bem. Amarildo o substituiu, Garrincha chamou a responsabilidade, e o Brasil foi bicampeão mundial vencendo a Tchecoslováquia, por 3 a 1, em 17 de junho.

O Santos, porém, teria a primeira semifinal de Libertadores da sua história em três semanas, e Pelé ainda não teria condições de jogo. Mas tudo bem também. Se Lula – o técnico, não o bicho, nem o político – não tinha Garrincha ou Amarildo, tinha Pagão, Mengálvio e Pepe. Pelé havia contribuído para a campanha de três vitórias, um empate, 20 gols a favor e um 9 x 1 na fase de grupos, antes do Mundial do Chile, e perderia muita emoção nas semanas seguintes, principalmente no segundo jogo da final contra o Peñarol.

A semifinal contra a Universidad Católica foi apertada, com empate por 1 a 1 em Santiago, no mesmo Estádio Nacional em que o Brasil fora campeão, e vitória pelo placar mínimo na Vila Belmiro, gol do capitão Zito, aos 36 minutos do primeiro tempo. O adversário da decisão, para aquela época, não poderia ser mais difícil. O Peñarol, campeão das duas edições inaugurais da Libertadores, tinha uma lenda no ataque (Alberto Spencer) e outra no banco de reservas (Béla Guttman). E aí fica até difícil dimensionar o quão grande foi a vitória do Santos, ainda sem Pelé, no Centenário de Montevidéu, por 2 a 1, gols de Coutinho.

O resultado encaminhava o título do Santos. Podia até empatar na Vila Belmiro. E, de certa forma, empatou. Mas, na realidade, não empatou. Calma que você vai entender. Spencer abriu o placar para o Peñarol, mas Dorval e Mengálvio viraram para o Santos antes do intervalo. No começo do segundo tempo, Spencer empatou. O goleiro Gilmar reclamou que José Sasía havia jogado areia em seus olhos. O jogo foi interrompido e, em meio à confusão, uma garrafa acertou o auxiliar Domingo Massaro – o que levou o episódio a ficar conhecido como “A Noite das Garrafadas”.

O próprio Sasía fez 3 x 2 para o Peñarol, o que gerou outra interrupção para os jogadores do Santos reclamarem de falta no defensor Calvet. Quando o jogo foi retomado, Pagão empatou para o Santos, e os jogadores brasileiros desceram aos vestiários comemorando o título. Festa, champanhe, balões e… ops. O árbitro chileno Carlos Robles relatou na súmula que havia encerrado a partida depois do terceiro gol dos uruguaios e decidiu não avisar ninguém porque, cercado por torcedores potencialmente furiosos, temia pela sua segurança. O clube brasileiro protestou na Conmebol, sem sucesso, mas pelo menos conseguiu empurrar o jogo decisivo para o fim do mês. Porque, no fim do mês, Pelé estaria em campo.

A partida final da Libertadores foi disputada no Monumental de Núñez, em Buenos Aires, com arbitragem do holandês Leopoldo Horn, e 46 mil pessoas nas arquibancadas. E o Peñarol aprendeu que é melhor não cutucar a onça com a vara curta. Depois de Coutinho – ou melhor, Caetano, contra – abrir o placar no primeiro tempo, Pelé marcou duas vezes, com uma pancada da entrada da área e outra, mais próxima, após dominar o passe de Coutinho no peito.

Na próxima vez, marca o Pelé

O Santos tinha Pelé. O Benfica tinha Eusébio. E tinha também Costa Pereira, Coluna, José Augusto e Simões, outras referências que ficariam em terceiro lugar na Copa do Mundo de 1966. É redundante dizer que os Encarnados eram um dos melhores times da Europa. Haviam, afinal, conquistado a Copa dos Campeões pela segunda vez seguida fazendo 5 a 3 sobre o Real Madrid, e chegariam mais duas vezes à final nos três anos seguintes. Com Puskás e Di Stéfano próximos do fim das suas carreiras, eram mesmo o melhor time da Europa naquele momento.

Depois do bicampeonato europeu, Béla Guttmann entrou em divergências econômicas com a diretoria do Benfica – ele queria receber mais, a diretoria não queria pagar mais – e pediu demissão, soltando a maldição que até hoje ecoa no Estádio da Luz: “Nenhuma outra equipe portuguesa será bicampeã europeia e o Benfica, sem mim, jamais ganhará uma Copa dos Campeões nos próximos 100 anos”. Ninguém acredita em bruxas, mas de fato nenhum outro time português foi bicampeão europeu em anos consecutivos e o Benfica não ganhou outros títulos continentais nem em competições menores. Ou mesmo mundiais.

O substituto de Gútman foi o chileno Fernando Riera, credenciado por ter levado a seleção da casa ao terceiro lugar no Mundial de 1962 e com passagem pelo futebol português no comando do Belenenses. O primeiro jogo do Mundial contra o Santos foi disputado no Maracanã diante de 85 mil pessoas. Riera armou o time em um 4-4-2, com Cavém, Santana, Coluna e Simões no meio-campo, Eusébio e José Augusto no ataque. O esquema foi considerado “retranqueiro” pela Gazeta Esportiva e responsável por anular “70% das infiltrações de Pelé e seus companheiros”. Acontece que não foram necessários mais do que 30%.

Pelé abriu o placar, aos 31 minutos, pegando rebote de uma falta cobrada por Pepe. No segundo tempo, Simões lançou Santana, que ganhou na velocidade e tocou na saída de Gilmar. Pepe respondeu acertando a trave, e Coutinho, encantando os espectadores. Dominou no peito dentro da área, deu um chapéu no marcador e estufou as redes: 2 a 1. “Foi um cruzamento, não lembro se foi do Dorval ou do Mengálvio”, recorodou Lima, em entrevista à reportagem, em 2012. “E ele dominou no peito, tinha uma facilidade incrível para isso, deu um chapeuzinho bem curto e pegou a bola sem deixar cair e meteu a bola na rede”. Aos 40, Pelé ampliou. Após três trocas de passe com seu eterno escudeiro, viu Coutinho invadir a área e perder o controle da bola ao tentar driblar o goleiro. Pelé ficou com a sobra e fez 3 a 1. Santana descontou antes do fim.

Antes da viagem a Portugal, o ambiente ficou um pouco conturbado. O Santos levou a virada da Portuguesa após estar vencendo por 2 a 0, e os jornais relataram discussões entre Pelé e Dorval. Nada de muito importante. “Ele queria que fizéssemos o que ele fazia, então confesso que não era fácil”, contou Pepe. A delegação levou 17 jogadores e comissão técnica, o presidente Athiê Jorge Cury, os diretores Modesto Roma e Vasco Faé, outros dirigentes e o prefeito de Santos, José Gomes, como presidente de honra. Profissionais de A Gazeta Esportiva, A Tribuna, O Globo e Última Hora foram juntos. Leônidas da Silva comentou a partida ao lado do narrador Fiori Giglioti pela rádio Panamaericana, atual Jovem Pan, e o governo autorizou que o programa A Voz do Brasil não fosse veiculado no dia do jogo para não atrapalhar a cobertura da partida.

O Santos ficou no Hotel Príncipe em Lisboa. Uma barraquinha à frente do estabelecimento estava vendendo ingressos para a terceira partida, que seria realizada apenas se o Benfica vencesse a segunda. Lima ficou curioso. Foi buscar mais informações com a mulher que cuidava da banca e, ao ouvir que eles eram de fato para uma partida que ainda não existia, disse: “Escuta, para fazer esse terceiro jogo vocês precisam ganhar da gente”. E ela respondeu: “Mas o Benfica nunca perdeu no Estádio da Luz (em jogos internacionais, pelo menos)”. “Brinquei que para tudo tem uma primeira vez”, disse Lima. O porteiro do hotel cortou a conversa propondo uma aposta: dois sacos de café versus duas garrafas de vinho. “Depois do jogo, quando chegamos ao hotel, ele veio pagar o que devia”, assegurou o ex-jogador do Santos.

O livro Donos da Terra, escrito pelo jornalista Odir Cunha sobre o primeiro título mundial do Santos, traz uma declaração do lateral direito Fernando Cruz: “O Riera foi o melhor técnico que eu tive. Disse: ‘Vou marcar Pelé por quê? Cem mil pessoas vêm aqui para ver o Pelé’.”.

Aos 17 minutos, aquelas 100 mil pessoas (mais para 85 mil) viram Pelé aparecer na segunda trave com a perna esticada para completar o chute cruzado de Pepe e abrir o placar para o Santos.

Aos 25, Pelé deu um drible de corpo em Cavém, deixou Humberto para trás, viu Raul não conseguir chegar à bola, e marcou o segundo com um chute cruzado de canhota.

No começo do segundo tempo, Pelé driblou Cavém, passou por Humberto, deu uma meia-lua em Fernando Cruz e cruzou rasteiro para Coutinho fazer o terceiro.

Depois, Pelé arrancou pelo meio, cercado por três, deixou dois para trás, entrou na área e bateu de esquerda. Costa Pereira defendeu, mas deixou o rebote para Pelé fazer o quarto da goleada por 5 a 2 que deu ao Santos o seu primeiro título mundial.

Enfim, era melhor ter marcado Pelé. Se é que dava.

Valentia na Bombonera

Mané Garrincha começou o seu declínio em 1963. Havia carregado o Brasil ao bicampeonato mundial no ano anterior, mas seus joelhos o haviam abandonado. Teria momentos de brilho, mas nunca mais seria o mesmo jogador de antes. Ainda entrou em um sério litígio financeiro com o Botafogo na época da final da Taça Brasil contra o Santos de Pelé, quando houve um confronto de verdade entre os dois.

As três partidas, para definir o campeão de 1962, foram disputadas entre março e abril de 1963. Em uma mistura de motim com uma suspensão motivada pelo motim, Garrincha não atuou na primeira, vencida pelo Santos por 4 a 3. A situação foi resolvida antes do segundo jogo, no Maracanã, onde Garrincha “pintou o diabo com a defesa santista”, segundo a biografia de Ruy Castro sobre o ponta direita, e os cariocas venceram por 3 a 0. O resultado lhe rendeu uma breve e apenas temporária paz com a torcida. As vaias tomaram conta do Maracanã quando o Santos goleou por 5 a 0, dois dias depois, e ficou com a taça.

Quando chegou o confronto pelas semifinais da Libertadores – o Santos, como atual campeão, entrou direto naquela fase -, os joelhos de Garrincha estavam piores do que nunca. Segundo Ruy Castro, o jogo de volta, após 1 a 1 em São Paulo, foi a única vez que Mané entrou em campo no mês de agosto. “E para fins de guerra psicológica. O Santos fora campeão sul-americano e mundial de clubes em 1962 e preparava-se para ser bi em 1963. Se havia um jeito de tentar parar Pelé & Cia, era com Garrincha. Mas com o antigo e irresistível Garrincha – não com aquele que já não conseguia completar um drible e que, numa arrancada para a linha de fundo, parecia anquilosado e sem pernas para acompanhar a bola”.

Pelé marcou três vezes. Abriu o placar com um toque por cobertura da entrada da área e fez o segundo de cabeça, nas duas situações aproveitando as saídas meio precipitadas de Manga. Irrefreável, Pelé invadiu a área e chegou a driblar o goleiro do Botafogo, que não viu outra solução a não ser derrubá-lo. Pênalti que o próprio camisa 10 cobrou para marcar o terceiro. Lima invadiu a área para fechar a goleada por 4 a 0 e a vaga na final.

O Boca Juniors contava com o atacante José San Fillippo, uma lenda do San Lorenzo. Na categoria “carrascos de brasileiros”, foi o primeiro na Libertadores, ao fazer dois gols para ajudar a eliminar o Bahia em 1960. Seria contratado pelo clube baiano anos depois e também defendeu o Bangu. Mas quem brilhou na primeira partida da final no Maracanã foi Coutinho, com os dois primeiros gols. Pelé deu o passe para o terceiro, de Lima. Sanfillippo marcou duas vezes antes do apito final, passando a impressão de que o jogo havia sido mais apertado do que realmente foi.

A vitória permitiria ao Santos apenas empatar na Bombonera para ser bicampeão. A Libertadores estava no começo, e o mito do estádio do Boca Juniors ainda estava em construção, pelo menos para consumo estrangeiro, mas, ao site do Peixe, talvez misturando um pouco do passado com o futuro, Pepe destacou que o clima daquele jogo era algo que ele nunca havia visto “em lugar nenhum, em tempo nenhum. Por aí você vê como estava. O gramado também não era bom, com muito barro, muita terra. Lá, o Boca Juniors é quase imbatível. Veja, eu disse ‘quase’. Foi uma vitória maravilhosa, de um time que além de jogar muito futebol, tinha muita força, brio e vergonha na cara”.

E o que mais chamou a atenção na atuação de Pelé na Bombonera foi justamente a valentia. O Boca Juniors pegou pesado, o que não era incomum naquela época, mas Pelé não se escondeu. Continuou partindo para cima, mesmo e especialmente depois de Sanfillipo abrir o placar para os donos da casa no começo do segundo tempo. Deu um passe rápido para Coutinho empatar e depois, com um lindo drible na entrada da área, bateu na saída do goleiro Errea para colocar a taça da Libertadores muito além do alcance do Boca Juniors.

O substituto de Pelé x o substituto de Pelé

Diz alguma coisa sobre o tamanho de Pelé que uma parte importante da biografia de alguns jogadores seja o momento em que lhes caiu a responsabilidade de substituí-lo. O Mundial de Clubes de 1963 foi emblemático nesse sentido porque colocou dois deles frente a frente: Amarildo x Almir Pernambuquinho.

José Altafini marcou duas vezes em Wembley para negar ao Benfica a chance de se vingar do Santos. O adversário na decisão daquele Mundial seria o Milan, de Cesare Maldini, Giovanni Trapattoni, Dino Sani,  Gianni Rivera, Altafini, apelidado de Mazzola pela semelhança física com o italiano Valentino Mazzola, líder do Torino nos anos quarentena, e Amarildo.

Em maio de 1963, Trapattoni havia se destacado na marcação a Pelé em uma vitória da Itália por 3 a 0 sobre o Brasil – que contava com outros seis santistas. Quarenta dias depois, ele voltou a limitar as ações do camisa 10 em uma goleada do Milan por 4 a 0 sobre o Santos, em um amistoso. Logo, quem mais poderia ser escalado para grudar em Pelé no primeiro jogo do Mundial, em San Siro?

E não apenas isso. Aos quatro minutos, Mazzola cruzou para Trapattoni abrir o placar. Amarildo ampliou para 2 a 0, de cabeça. O negócio com Pelé é que você até pode marcá-lo bem. Mas nunca o anulará. Aos 10 minutos do segundo tempo, ele escapou da marcação de Trapattoni, arrancou em velocidade, depois passou também pelo atacante Giovanni Lodetti e colocou a bola no canto direito do goleiro Ghezzi. Amarildo, porém, não estava nem aí. Dominou uma virada de jogo de Rivera e finalizou com categoria para marcar o terceiro e depois cruzou para Bruno Mora anotar o quarto. Pelé, de pênalti, diminuiu.

Meio embriagado pela vitória, Amarildo teria dito ao semanário Supersports, sob a manchete “Amarildo: Pelé sono io!”, que “Pelé já era”. Anos depois, ele negou. “Eu seria incapaz, não sou ignorante de fazer uma afirmação daquelas. Foi uma fantasia do jornalista e do jornal para vender. Eu não dei nenhuma declaração de nenhuma espécie. Sou um grande fã de Pelé. Sempre fomos amigos”, disse. “Estou orgulhoso de ter sido o substituto de Pelé. Foi um grandíssimo jogador, o melhor de todos, ele e o Garrincha. Depois do jogo contra a Espanha (o primeiro em que substituiu Pelé no Chile, com dois gols), foi o primeiro a me cumprimentar. Estava tomando banho e ele entrou debaixo do chuveiro para me abraçar. Isso foi uma demonstração da amizade que havia entre nós”.

Verdade ou não, não pegou bem. E não pegou bem especialmente com Almir Pernambuquinho, o que era pouco recomendável. O jogador era conhecido pelo seu temperamento explosivo – foi assassinado em 1973, após uma briga de bar em Copacabana. Começou carreira no Sport e passou por Vasco, Corinthians, Boca Juniors e Genoa antes chegar ao Santos. No jogo de volta contra o Milan, no Maracanã, seria o Amarildo do técnico Lula: o responsável por substituir Pelé, que havia sofrido outra distensão muscular em um empate por 1 a 1 contra o Juventus, alguns dias antes.

“Amarildo para mim parecia um mercenário. Estava seduzido pelas liras italianas a tal ponto que agredia Pelé sem razão”, escreveu, em seu livro Eu e o Futebol, publicado pela revista Placar em 1973. “Em entrevistas à imprensa italiana, ele cansou de repetir que o Milan faturaria o título fácil. Um jogador fazer isso é normal, faz parte da guerra de nervos, mas ele não ficou só nisso. Disse também que Pelé já era, que não era mais o Rei. Eu fiquei com raiva dele não apenas porque se tratava de um brasileiro que falava mal de Pelé. Como jogador, cara que conhece futebol, Amarildo não podia ignorar que Pelé, ainda hoje, é o maior jogador de futebol do mundo. Com uma bolinha na nuca, entrei em campo como um miúra, um touro bravo daqueles que vi na Espanha. Tomei uma resolução: logo de cara vou acertar Amarildo”.

Bolinha na nuca não era descrição literal. Significava anfetamina, em um momento do futebol em que exames antidoping eram tecnologia tão avançada quanto hoje é um assistente de vídeo. Almir contou na sua autobiografia que a droga havia sido oferecida pelo assistente técnico Alfredinho e a aceitara porque o bicho pela vitória era suficiente para comprar um carro zerinho da Volkswagen. “Depois que Alfredinho me deu a bola, fiquei doido. Eu estava substituindo Pelé e precisava dar tudo de mim”, escreveu. Em contato com a reportagem, Pepe não soube dizer se Almir realmente tomou a anfetamina, mas disse que, se o fez, foi por conta própria e que um “um cara com o temperamento do Almir era capaz de qualquer coisa”. Lima negou, e Zito afirmou que o jeito como ele jogava “dava a impressão de que havia tomado”, mas também não sabia.

Enfim, com bolinha na nuca ou não, a primeira coisa que Almir fez quando o árbitro apitou o início do jogo foi colar em Amarildo e lhe dar um pontapé no tornozelo. “Logo que entrei em campo, mirei o Amarildo e disse comigo que desta vez ele não escapava. Eu ia dar por mim e pelo Pelé, que nem sabia da minha intenção. O cara que fala mal de Pelé tem de receber o troco na hora. O tempo estava meio chuvoso, não caía tanta água como no primeiro jogo, mas isso afastou um pouco o público (que vaiou Amarildo). Com um minuto de jogo, Amarildo pegou a bola e fez uma jogada que executava no Maracanã desde os tempos de Botafogo. Eu tinha sido advertido para isso, manjei bem o estilo dele. Ele descambou para a esquerda e procurou se aproximar da linha de fundo, por fora da área. O danado tinha bom domínio de bola, driblava bem, chutava como gente grande. Vinha saçaricando, queria impressionar o público, estava naquela de mostrar que era o Possesso, apelido que ganhou na Copa do Mundo de 1962. Mas o possesso ali era eu. Falei: ‘deixa esse filho da mãe comigo’. Foi um toco só. Ele caiu se contorcendo de dor, mas acho que fez cena demais. Depois disso, o cacete comeu firme dentro de campo”, escreveu.

Amarildo acredita que Almir estava com carta branca do árbitro para fazer o que quisesse, único motivo por não ter sido expulso. O próprio Almir disse em seu livro que ouviu do então vice-presidente do Santos, Nicolau Moran, que o árbitro Juan Brozzi estava comprado e ele poderia fazer o que quisesse. Acreditando ou não em Pernambuquinho, Amarildo não se intimidou e, aos 12 minutos, foi à linha de fundo e cruzou para Mazzola abrir o placar. Depois, Cesare Maldini lançou para Mora, que tocou na saída de Gilmar para fazer 2 a 0 ao Milan.

O Santos estava em situação periclitante. Precisava virar o jogo, chovia no Maracanã e os jogadores do time dizem que o papo nos vestiários era que o Milan já estava comemorando o título. Amarildo, novamente, nega que fosse o caso, mas serviu de motivação para os santistas voltarem com tudo para o segundo tempo. Almir abriu os trabalhos acertando a trave. Pepe diminuiu em cobrança de falta, e Almir Pernambuquinho empatou. Mengálvio lançou para Lima chutar de fora da área e virar a partida, antes de Pepe, novamente aproveitando o gramado encharcado, ampliar em outra bola parada.

O jogo decisivo seria novamente no Maracanã. O treinador do Milan, Luis Antonio Carniglia, trocou o goleiro Ghezzal, responsabilizado pela imprensa por três dos quatro gols do Santos no jogo anterior, por Luigi Balzarini. Balzarini, aos seis minutos, estava sangrando. Havia levado um chute de Almir na cabeça. Cesare Maldini foi tirar satisfações, e o clima já ficou tenso. Aos 30 minutos, o zagueiro Mario Trebbi escorregou, e Almir ficou meio livre. Maldini tentou cortar a bola e acertou o jogador do Santos.

O que coloca em dúvida a veracidade das afirmações de Almir sobre doping e compra de juízes é que ele era claramente meio exagerado. “Lima fez um cruzamento alto, eu estava mais ou menos pela marca do pênalti. Chegaria um pouco atrasado na bola, mas tinha de tentar, acreditar em mim. Eu vi quando Maldini, desesperado, levantou o pé, tentando cortar o lançamento. Eu tinha de dar tudo naquele lance, meter a cabeça para levar um pontapé de Maldini, correr o risco de uma contusão grave, ficar cego, até mesmo morrer”, escreveu em seu livro.

Almir não morreu, nem ficou cego, mas ganhou o pênalti. Maldini, já meio bravo, partiu para cima do árbitro – novamente o argentino Brozzi – e foi expulso. Após quatro minutos de paralisação, Dalmo cobrou o pênalti do segundo título mundial do Santos. “Eu tenho respondido essa pergunta há quase 50 anos”, frisou Pepe, ao respondê-la mais uma vez, em 2012. “Por que eu não bati o pênalti? Antes do jogo, Lula falou: ‘Se tiver pênalti, cobra o Dalmo ou o Pepe’. Eu não vinha em uma fase muito boa. Quem estava batendo pênalti era o Pelé. Dalmo estava muito seguro. Foi a melhor coisa que aconteceu. Eu poderia ter marcado o gol do título, mas fiquei muito contente porque o Dalmo é muito meu amigo e merecia, por tudo que fez, estar na história do Santos”.

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