A grande paixão de uma vida nem sempre é a primeira. No entanto, o sentimento que aflora a partir de então consegue transformar o antes em nada. Não que se esqueça o passado. Mas sua significância se aproxima do zero, diante do que se almeja viver, no presente e no futuro. Assim também acontece no futebol. E um dos exemplos mais contundentes se personifica em Antonio Di Natale. Não, o artilheiro não iniciou sua carreira na Udinese. Passou dez anos de sua vida no Empoli, além de ter rodado emprestado por outras equipes. Nem parece. Afinal, sua ligação com os friulani é tão forte que o passado inteiro parece bianconero. Amor verdadeiro que atravessou 12 anos, 227 gols e incontáveis grandes momentos. Até o ponto final, vivido neste final de semana no Estádio Friuli.

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A aposentadoria de Di Natale já era esperada há algumas temporadas. E até se prorrogou além dos rumores. Aos 38 anos, no entanto, Totò não rendeu o mesmo em 2015/16. Reserva durante a maior parte do tempo, balançou as redes apenas quatro vezes – a única vez em que ficou abaixo de 10 gols em toda a sua passagem por Udine. Já neste domingo, o adeus não foi perfeito, com a derrota por 2 a 1 para o Carpi. O camisa 10, ao menos, deixou a sua marca. Após sofrer uma lesão durante os treinos da semana, ele saiu do banco aos 33 do segundo tempo, especialmente para cobrar um pênalti e descontar a diferença no placar. Anotou o seu 209º tento pela Serie A, sexto maior goleador da história do campeonato. Um gigante.

Já ao apito final, não poderia ser diferente. A emoção tomou conta do Estádio Friuli, entre homenagens e lágrimas. Acompanhado pelos filhos, Di Natale deu sua última volta olímpica pela velha casa. Não escondeu a emoção. Que os títulos não tenham vindo, não foram poucas alegrias. “Eu acho que, no fim de 12 anos, foi uma grande jornada juntos. Eu estava relaxado, mas quando cheguei ao vestiário, comecei a chorar como uma criança. Eu vi 12 anos passarem diante dos meus olhos. Eu fiz muitas coisas por esse clube, então espero continuar na história”, afirmou o veterano, à Sky Italia.

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Pelo que construiu na Udinese, Di Natale conseguiu disputar uma Copa do Mundo e duas Eurocopas pela seleção italiana. Também foi por duas vezes artilheiro da Serie A e ganhou até mesmo o prêmio de melhor jogador do campeonato, em 2010. Passou nove temporadas com pelo menos 15 gols. Teve o gosto de disputar a Liga dos Campeões e de se colocar entre os oito melhores da Liga Europa. E, ainda assim, o enredo de sua trajetória se faz tão grande graças aos episódios nos quais a paixão de Totò se escancarou.

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Aconteceu assim, por exemplo, quando recusou propostas de outros clubes. “Juve? Não, obrigado. Quando uma palavra é dada, é isso que acontece. Agrada-me dizer que fiz como Totti ou Del Piero, me tornei uma bandeira. Minha cabeça e meus filhos estão bem. Se eu quisesse dinheiro, teria ido embora há dois anos”, declarou, em 2011, durante entrevista a uma rede de televisão italiana. Ideal reiterado no ano seguinte: “É verdade que o Milan me procurou. Entretanto, nunca deixaria a Udinese, nem se o Real Madrid viesse me sondar. Quero terminar a carreira aqui e marcar muitos gols”.

Di Natale também deu grandes mostras de seu enorme coração em abril de 2012, após a morte do amigo Piermario Morosini, vítima de um ataque cardíaco dentro de campo. A tragédia abalou tanto o artilheiro que ele cogitou até mesmo se aposentar, mas mudou de ideia algumas semanas depois. E não deixou de honrar a memória do ex-companheiro: o craque assumiu a custódia da irmã de Morosini, órfã e portadora de necessidades especiais. Já neste domingo, entrou em campo com a camisa de seu antigo parceiro.

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E se a aposentadoria de Di Natale não veio antes, foi para cumprir um sonho de seu pai. Totò cresceu muito ligado a Salvatore, a quem ajudava nos serviços como pedreiro após sair da escola. Em 2014, o pai pediu para que o centroavante seguisse na ativa e igualasse a marca de gols de Roberto Baggio na Serie A. Feito alcançado e superado ao final daquela temporada. Salvatore, porém, não pôde ver o seu sonho cumprido – falecera meses antes, aos 68 anos. Ainda assim, o camisa 10 não deixou de concretizar sua palavra.

Em sua despedida, Di Natale complementou: “Eu escolhi um estilo de vida ao continuar na Udinese durante esses 12 anos. E sou muito feliz pelas escolhas que fiz. Marcar 227 gols pela Udinese não é algo para ser desprezado. Minha família me ajudou muito. Eu marquei gols por mim, para o clube e para os torcedores. Eu não sei o que farei daqui para frente, mas certamente seguirei ligado à Udinese. Eu sempre me senti à vontade aqui, então é uma honra ser aceito por essas pessoas. Para mim, anotar mais de 200 gols pela Udinese é como ter conquistado uma Copa do Mundo. Aqui é minha casa”. Nenhum torcedor da Udinese tem dúvidas quanto a isso.

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