Poucos jogadores no futebol mundial possuem a autenticidade de Zlatan Ibrahimovic. Há, claro, um personagem ao redor do artilheiro. Ainda assim, suas entrevistas geralmente são bastante genuínas e trazem aspectos particulares do futebol. Neste sentido, sua conversa com a BBC nesta quinta-feira se tornou tão importante para entender o sueco. Lançando o livro ‘I am Football’, ele traz uma nova perspectiva sobre momentos diferentes de sua carreira e fala sobre o seu empenho dentro de campo – seja para se aprimorar como atacante, seja para se recuperar da séria lesão que sofreu há duas temporadas. Abaixo, destacamos os principais trechos.

Sua autoafirmação

Eu vim do meu próprio planeta, como algo que ninguém tinha visto antes. Sou um rapaz dessa área que pensam ser o gueto. Eles me viram de maneira diferente, não me fizeram sentir bem-vindo, não me fizeram sentir como todos os outros. Mas eu vim com algo diferente e agora todos seguem isso. Vim do meu próprio planeta – o planeta Zlatan.

Como a Serie A o transformou

No começo, onde eu cresci, não era sobre marcar gols. Era sobre quem tinha as melhores habilidades, a melhor técnica. Eu levava isso para onde quer que fosse. Em certo momento, ouvi: “Esse é o alto nível, você precisa decidir. Você é um atacante, precisa nos dar gols. Se não marcar, não preciso de você”. Isso mudou quando cheguei à Juventus, eu penso. Estava no Ajax, jogando bonito. Tinha pressão lá também, mas foi na Itália que tudo se tornou sobre gols, com Capello. Tudo era novo para mim. A Juventus era como “uau, grande clube, grandes jogadores, grande técnico, grande história, uau”. Foi quando o futebol italiano estava no topo e eu sabia que, para permanecer ali, tinha que trabalhar duro. Senti que estava lá por uma razão, porque era bom, não por sorte.

Desde o primeiro dia de treino ouvi Capello gritar “Ibra!”, e aí surgiu o apelido. Ele apenas apontava para o seu assistente, um homem mais velho chamado Italo. Ele já tinha levado rapazes para as categorias de base e para os juniores, eu treinava com eles. Cruzavam a bola e eu anotava os gols, todos os dias ao longo de 30 minutos. Algumas vezes eu apenas queria ir para casa, porque estava cansado e não desejava chutar mais. Não queria ver o gol ou o goleiro. Eu tentava ir para casa antes de todos e ouvia “Ibra!”, já sabia o que era. Estava chutando, apenas chutando. Bons chutes, chutes ruins.

No fim, eu me tornei uma máquina: diante do gol, eu balanço as redes. Especialmente na Itália, onde ser atacante é a posição mais difícil, porque eles são taticamente muito bons, e naquela época existiam todos aqueles defensores de primeira classe. Eu me lembro de um jogo contra Maldini e Nesta. Você não tem uma chance, talvez apenas meia, e atrás deles ainda há Dida, um grande goleiro. Mas eu tinha sorte de treinar na Juventus. Encarava Thuram e Cannavaro, você não passa por eles se sentindo bem, se passar sentirá dor em todos os lugares. Então precisa de força para marcar, mas ainda tem Buffon para passar. Então eu tinha um bom ambiente para treinar essa habilidade de balançar as redes e os gols vinham quanto mais você treinasse.

Passagem pela Premier League

Quando cheguei à Inglaterra, estava conversando com diferentes jogadores que conhecia bem e confiava que poderiam me dar uma opinião honesta. De todos eles ouvi “não faça isso”, porque não seria bom à minha carreira. Falavam que você bota toda a sua carreira em jogo durante uma temporada. Se eu não fosse bem, as pessoas diriam que o restante das coisas que fiz antes seriam inúteis, porque não joguei bem na Inglaterra. Isso me provocou. Era o tipo de desafio que queria. Fui contra todos e disse que era isso que eu gostaria de fazer. Eles pensaram que eu estava muito velho. Tinha 35 anos e, na realidade, fiz a Premier League parecer velha. Precisei de três meses para convencer a todos quem eu era. Era um desafio e eu nunca recuso um desafio.

Manchester United e Pogba

Sinto falta de todos eles. Tive uma passagem fantástica pelo United. Wazza [Wayne Rooney], Michael Carrick… Também os jovens que querem mostrar ao mundo quem são jogando futebol e têm muita fome para mostrar. Eu me diverti porque conheci todo mundo, era o cara maduro com todos aqueles garotos que não eram maduros. A Premier League deve estar feliz por eu não ter chegado 10 anos antes, porque seria uma história diferente. Você vê todos os meus números e eles estariam na Premier League. Fui para o clube certo quando escolhi o United. Era o clube e a camisa onde eu deveria brilhar, consegui isso.

Nunca tinha jogado com Pogba e não o conhecia pessoalmente. Temos o mesmo empresário e, quando o conheci, descobri a pessoa fantástica e o jogador fantástico, mas alguém que precisa ser guiado. Ele é um cara profissional que trabalha a cada jogo e nunca perde um treino. Todas essas coisas as pessoas não veem, apenas julgam por aquilo que aparece na televisão ou nos 90 minutos no estádio. Quando você se conecta com uma pessoa, isso acontece naturalmente. Nossa conexão em campo era fantástica, nós nos ajudamos muito bem, eu precisava dele e ele de mim. No primeiro ano de United, nós tivemos uma temporada fantástica. Ele me fez sentir como Benjamin Button. Eu estava ficando mais  e mais jovem, quando infelizmente me machuquei.

A lesão

Quando a lesão aconteceu, eu não entendi o que estava se passando, nunca havia sofrido uma contusão grave. Eu era como o Super-Homem. Era inquebrável, ninguém poderia me quebrar, apenas Zlatan poderia machucar Zlatan. Eu pensei que não era assim que gostaria de parar com o futebol. O jeito que entrei era o jeito que sairia, não mancando ou outra pessoa dizendo que acabou. Foi um novo desafio para mim e disse que voltaria quando estivesse pronto, jogando como antes. Quando eu não puder fazer isso, não continuarei, porque não estou no futebol por caridade.

Depois da minha lesão, quando fui relacionado, disse a Mourinho que não queria desapontá-lo ou desapontar meus companheiros. Eles tinham um Zlatan antes da lesão e um depois, não podia oferecer o Zlatan que estavam acostumados, porque não estava pronto. Não me sentia pronto no meu segundo ano no United. Estava me sentindo diferente, como se começasse do zero e tivesse que ensinar ao meu joelho como jogar novamente. Depois de um tempo minha confiança cresceu, eu precisava de um novo ambiente para me sentir confortável.

A foto dos pés na parede de casa

Minha esposa não me permite ter fotos de mim mesmo. Ela diz que há assunto demais sobre mim, que não quer me ver nas paredes, que já é suficiente me ver na vida real. Mas há uma foto dos meus pés. É isso que nos deu o que temos, é uma lembrança para a família, não para mim, do que temos. Eles que criaram toda a situação, todo o assunto ao meu redor – os dois pés. Eu pratico este belo esporte com meus pés. Mesmo que sejam dedos feios, não nos importamos. Coloquei na parede apenas como um lembrete. Temos comida graças a esses pés, então vocês precisam beijá-lo todos os dias – não, isso não, é brincadeira.