Já haviam se passado 12 anos desde que Sérvia e Montenegro compartilharam seu último momento representativo juntos como um só país. O referendo votado pelos montenegrinos garantiu a independência de sua nação em 3 de junho de 2006. Entretanto, às vésperas da Copa do Mundo, o estado em desintegração ainda disputou o torneio como uma seleção. Fez um papel modestíssimo, com três derrotas nas três partidas do “grupo da morte” – contra Argentina, Holanda e Costa do Marfim. Despediu-se logo cedo e, desde então, os dois países seguiram seus próprios rumos, seja na política ou seja no esporte. A quinta-feira, no entanto, marcou o reencontro. Pela primeira vez, Sérvia e Montenegro se enfrentaram dentro de campo, em jogo válido pela Liga das Nações. Melhor aos sérvios, que venceram por 2 a 0 em Podgorica.

A separação de Sérvia e Montenegro aconteceu de maneira amistosa. Diferentemente de outras antigas repúblicas da Iugoslávia, não houve qualquer disputa sangrenta entre as nações. No referendo de 2006, 55,5% dos montenegrinos votaram pela independência, apenas 0,5% acima do mínimo estabelecido. O “sim” teve força principalmente em regiões fronteiriças com outros países e no sul de Montenegro, mais distante do território sérvio. E o jogo desta quinta guardou ares de saudosismo pela irmandade entre as populações.

Apesar dos temores sobre confrontos entre torcidas e do forte esquema de segurança montado, a atmosfera nas arquibancadas foi bastante amistosa. O hino sérvio terminou aplaudido pelos anfitriões e, juntas, as duas torcidas gritaram que “Kosovo é Sérvia”. Quando a bola rolou, ainda assim, ninguém queria perder e a Sérvia precisou lidar com as vaias vindas das tribunas. Aleksandr Mitrovic calou a massa ao abrir o placar aos 18 minutos, cobrando pênalti, e ampliou a diferença já no fim do segundo tempo. Inclusive, a contagem ficou barata diante da superioridade dos forasteiros, desperdiçando uma porção de chances.

A representatividade da Sérvia no futebol da Iugoslávia é amplamente conhecida, dos craques revelados aos sucessos de seus grandes clubes. Já Montenegro, uma república bem menos populosa e desenvolvida, sempre teve um papel de coadjuvante na modalidade – que merece ser esmiuçado.

Apenas dois clubes montenegrinos disputaram a primeira divisão do antigo Campeonato Iugoslavo, entre 1946 e 1992. O Buducnost Podgorica (na época, a capital era chamada de Titogrado) esteve presente em 26 temporadas, chegando a se classificar à extinta Copa Intertoto. Já o Sutjeska disputou a elite em nove edições. A partir das guerras de independência e do desmembramento do país, os montenegrinos foram mais frequentes na elite. De 1992 até a independência em 2006, sete agremiações participaram do Campeonato Sérvio-Montenegrino: Buducnost, Sutjeska, Zeta, Rudar, Mogren, Kom e Jedinstvo. O melhor desempenho foi do Zeta, terceiro colocado em 2004/05.

Na seleção, ao menos, os jogadores montenegrinos conseguiram ser bem mais notáveis. O primeiro a disputar uma Copa do Mundo foi Milovan Jaksic, conhecido como “El Grande Milovan”. Esteve presente no Mundial de 1930, quando uma disputa com os croatas concentrou o elenco entre os clubes sérvios. O goleiro se tornou um dos responsáveis pela vitória sobre o Brasil na fase de grupos, protagonizando os iugoslavos rumo à semifinal da competição. Atuou durante grande parte da carreira pelo BASK Belgrado e, depois de pendurar as luvas, chegou a ser dirigente do Estrela Vermelha.

De 1945 a 1992, a Iugoslávia teve 12 jogadores montenegrinos que disputaram dez ou mais jogos pela equipe nacional. O primeiro a despontar neste intervalo histórico foi Tomislav Crnkovic, de origem croata, mas que nasceu na cidade de Kotor. Considerado um dos melhores defensores de seu tempo, participou de duas Copas e do vice na Euro 1960. No Mundial de 1958, teve a companhia de Vasilije Sijakovic, também semifinalista em 1962. Já Branko Rasovic não disputou competições internacionais, mas fez parte do Partizan vice da Champions em 1966.

O grande expoente na década de 1970 foi Zoran Filipovic, atacante venerado no Estrela Vermelha. Foi artilheiro do Campeonato Iugoslavo e depois faria sucesso no Benfica, goleador da Copa da Uefa pelos encarnados em 1982/83. Faltou apenas representar a seleção em uma competição internacional. Seus contemporâneos, Ljubomir Radanovic e Zoran Simovic jogaram a Euro 1984 – o segundo, eleito o jogador iugoslavo do ano em 1984 e recebendo o prêmio de melhor jogador em atividade na Turquia em duas oportunidades, quando arrebentava no Galatasaray. De qualquer maneira, os anos áureos dos montenegrinos viriam na virada da década.

O primeiro a ascender foi o meio-campista Dragoljub Brnovic, que defendeu o Buducnost por longos anos e esteve presente na Copa de 1990. No Mundial da Itália, foi companheiro do melhor jogador montenegrino de todos os tempos: Dejan Savicevic. O meia, outra cria do Buducnost, tinha 23 anos na época da competição e havia perdido a temporada de 1988/89 por causa do serviço militar obrigatório. De qualquer forma, logo deslancharia no Estrela Vermelha, protagonista na conquista da Champions de 1991. Também destruiria no Milan campeão europeu de 1994, tornando-se a grande da seleção que disputou a Copa de 1998.

Outros quatro montenegrinos de nascimento compunham o elenco da Iugoslávia no Mundial da França: o goleiro Ivica Kralj, o lateral Zeljko Petrovic, o volante Branko Brnovic e o atacante Predrag Mijatovic. Branko, irmão mais jovem de Dragoljub, teve uma carreira longa no Espanyol. Já Mijatovic dispensa apresentações. Um dos melhores atacantes de sua época, explodiu na seleção sub-20 campeã mundial em 1987. Depois, faria sucesso no Valencia e, sobretudo, no Real Madrid, herói na conquista da Champions em 1998, com o gol que encerrou o jejum continental de 32 anos dos merengues. Já na Euro 200, o centroavante teria a companhia, além de Kralj, do zagueiro Nisa Saveljic. Já na Copa de 2006, o solitário representante montenegrino foi o goleiro Dragoslav Jevric.

Depois da independência, os antigos ídolos dos tempos de Iugoslávia continuaram ajudando Montenegro. Zoran Filipovic e Branko Brnovic chegaram a trabalhar como técnicos da seleção montenegrina. Savicevic foi treinador da Sérvia e Montenegro entre 2001 e 2003, antes de se tornar presidente da federação montenegrina em 2004, aos 37 anos. O craque advogou pela independência do país e se mantém no cargo até hoje, presente na tribuna de honra durante o duelo contra a Sérvia nesta quinta.

E se sérvios e montenegrinos tivessem se mantido unidos? Dava para imaginar uma seleção ainda mais competitiva. Stevan Jovetic e Stevan Savic seriam os principais nomes “cedidos” por Montenegro atualmente. De qualquer forma, para um país com pouco mais de 600 mil habitantes, a seleção local apresenta uma boa competitividade. Nas eliminatórias da Euro 2012, a equipe estrelada por Mirko Vucinic chegou a disputar a repescagem contra a República Tcheca, mas ficou pelo caminho. Também terminou em terceiro de sua chave nas três últimas edições das Eliminatórias da Copa. E não se duvida que a seleção ascenda em breve. O aumento das vagas nas competições internacionais pode providenciar o passo a mais.