Ser goleiro vai além de ocupar uma mera posição. É mais do que um simples ofício. É uma vocação. Um sacrifício constante. O homem que passa a maior parte dos 90 minutos isolado – e, quando não passa, convive com a provação dos ataques adversários. Aquele que precisa beirar a perfeição em campo, mesmo relegado a um pequeno retângulo. Que não importa quantas defesas faça, não pode errar. Em compensação, quando não erra e atinge a perfeição, possui o direito concebido da beatificação. Não é nem preciso chamar o Papa para se transformar em santo, diante dos milagres que realiza perante os olhos de milhares de testemunhas.

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Entre os goleiros, há uma cumplicidade. Apenas eles têm noção da alegria e da dor de carregar o número 1 às costas. De trabalhar intensamente durante a semana, por apenas algumas bolas durante os 90 minutos. Os goleiros se entendem. E, ao longo dos últimos anos, poucos se entenderam tão bem quanto Gianluigi Buffon e Iker Casillas. Inegavelmente craques de luvas, entre os maiores da história. Ídolos incontestáveis em clube e seleção, capitães de respeito, campeões do mundo com seus milagres testemunhados nas finais. Gigantes que, há 14 anos, cultivam uma amizade dentro de campo. Uma cordialidade digna das lendas que são e sempre serão.

O primeiro encontro entre Buffon e Casillas aconteceu em 2003. Um, já o goleiro mais caro do mundo, fenômeno de duas Copas do Mundo e oito anos de carreira nas costas. Sempre primou pelo posicionamento impecável e pela excelência em todos os fundamentos, com uma elasticidade única. O outro, o prodígio que despontou em um esquadrão, quando muito esperava de seu futebol nas categorias de base, cumprindo logo todas as promessas. Dono de uma agilidade impressionante, capaz de realizar defesas à queima-roupa inesquecíveis. Apesar dos companheiros galáticos ao lado do espanhol, o italiano se deu melhor. A Juventus eliminou o Real Madrid nas semifinais da Liga dos Campeões 2002/03. Na decisão, Gigi realizou aquela que considera a defesa mais impressionante de sua vida, mas, embora tenha segurado o empate, acabou derrotado pelo Milan nos pênaltis.

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Desde então, os dois monstros dividiram a cancha em 19 oportunidades. Buffon se deu melhor com a Juventus. Foram cinco vitórias pelos bianconeri, sempre avançando nos mata-matas. Liderou a classificação na Champions não apenas nas semifinais de 2002/03, mas também nas oitavas de 2004/05 e nas semifinais de 2014/15. Nesta última, com atuações gigantescas de Gigi, vibrando e salvando a Velha Senhora rumo à decisão continental, que não experimentavam fazia justamente 12 anos.

Casillas, por sua vez, preponderou com a seleção. A Espanha impôs algumas das derrotas mais amargas à Itália ao longo da última década. A Fúria eliminou os azzurri durante as quartas de final da Euro 2008, com o camisa 1 brilhando nos pênaltis. Depois, aplicou uma goleada dolorida na decisão da Euro 2012, para o capitão erguer a taça pela segunda vez, símbolo de um sistema defensivo praticamente infalível. E avançou também nas semifinais da Copa das Confederações de 2013, no gramado do Castelão.

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O último encontro aconteceu em junho, pela Euro 2016. Casillas, já fora do Real Madrid e em declínio durante os anos mais recentes, se tornou reserva de David De Gea. Independentemente disso, Buffon saiu ao encontro do velho companheiro. Cumprimentou o antigo capitão, como se acostumou a fazer tantas vezes no centro do gramado, para decidir entre bola ou campo. Justamente desta vez, Gigi triunfou com a sua Itália. O camisa 1 operou defesas magistrais, quebrando o tabu e eliminando a Espanha nas oitavas de final do torneio continental.

Nesta quarta, Buffon e Casillas se cruzarão em campo pela vigésima vez, a primeira com o espanhol vestindo uma camisa que não a do Real Madrid ou a da seleção. Buffon permanece como um dos melhores goleiros do mundo, protagonista de uma Juventus multicampeã e fundamental para todo o seu sucesso. Casillas vem entre os altos e baixos dos últimos anos, mas se recuperando com o Porto nas últimas semanas, inclusive operando defesas de reflexo que mais lembram seu ápice no Bernabéu. De novo, se cumprimentarão e se abraçarão. De novo, mostrarão a grandeza de dois goleiros que marcam a história.

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Nos últimos meses, aliás, o carinho mútuo entre Buffon e Casillas não dependeu necessariamente dos jogos um contra o outro. O italiano se opôs à perseguição que o amigo vinha recebendo no Real Madrid e declarou que a perda de espaço com a idade também era um sinal para ele. Já o espanhol apontou que a longevidade de seu colega é uma motivação a mais para seguir se empenhando na carreira. Nos últimos dias, enquanto Gigi exaltou a “grande forma” do adversário, Iker afirmou que “o futebol italiano nunca mais contará com um goleiro como ele”. Juntos, estão entre os melhores. O que fizeram durante boa parte deste século não deixa ninguém ter dúvidas.