A amizade de 99 anos entre Boca e Nacional, eternizada até em conto de Eduardo Galeano

Apesar da presença costumeira, os duelos pela Libertadores são raros. Mesmo assim, Tricolores e xeneizes sustentam uma longa relação.

Boca Juniors e Nacional do Uruguai possuem uma vasta história na Copa Libertadores. Juntos, argentinos e uruguaios levantaram a taça nove vezes. Mas, apesar das glórias e das presenças constantes na competição, esta será apenas a segunda ocasião em que se cruzam. Os primeiros duelos aconteceram em 2013, pela fase de grupos. E foi até melhor para ambos que os embates eliminatórios só venham ocorrer agora – evitaram atritos. Afinal, xeneizes e tricolores carregam entre si uma amizade de quase um século.

Ao longo da história, foram 62 partidas entre os clubes. Apenas oito por competições da Conmebol. Em compensação, 29 amistosos e outros 25 duelos por torneios amigáveis. O primeiro encontro aconteceu em 1917. Vitória do Bolso por 5 a 2, no mesmo Parque Central que receberá a partida desta quinta. E a relação se fortaleceu a partir daquela data.

Enquanto o Peñarol se identificava com o River Plate, tricolores e xeneizes se uniam. Quase todos os anos realizavam amistosos. Em 1924, os uruguaios foram convidados para inaugurar o velho estádio de madeira onde depois se ergueu La Bombonera. Também naquele ano, o Boca Juniors mandou suas felicitações ao Uruguai, campeão olímpico com uma base formada por jogadores do Bolso. Nas visitas de um time à cidade do outro, era normal que os torcedores fossem receber os vizinhos no porto. E quando o Nacional se tornou o primeiro clube sul-americano a fazer uma excursão pela Europa, em 1925, o Boca se tornou o segundo, o seguindo logo depois.

decano

O ápice da amizade aconteceu em 1938, durante um amistoso entre as duas equipes. Os xeneizes colocaram o escudo do Nacional no peito de sua tradicional camisa, ao passo que os tricolores fizeram o mesmo, mas com o emblema portenho do lado direito. Troca de afagos que contou com a participação do Nacional no aniversário de 25 anos do Boca e vice-versa, quando o Bolso completou meio século de fundação em 1949. Juntos, mantiveram-se ideologicamente unidos até nas cismas ocorridas dentro das federações. Na sede do Nacional, há até mesmo uma placa de felitações do Boca Juniors, dada na época de sua inauguração. Em parceria também com o Newell’s Old Boys, as três diretorias chegaram a permitir que os sócios de um clube poderiam entrar de graças nas partidas de qualquer um dos outros dois – fosse em Montevidéu, Buenos Aires ou Rosário.

E como não poderia deixar de ser, há também ídolos em comum: Ángel Romano, Domingos da Guia, José Sanfilippo. Um episódio notável aconteceu em 1913, quando Carlos Scarone resolveu deixar o Peñarol para rumar ao Boca Juniors – a contragosto de seu pai, carbonero fanático. “Vou ficar? Para comer o que? Para comer merda?”. No ano seguinte, Scarone voltou. Justo para o Nacional. E, no primeiro clássico, ao chamar os ex-companheiros de “mangiamerda”, motivou um apelido pejorativo que se segue até hoje, “manyas”. O ídolo tricolor conquistou nove títulos e se tornou o primeiro técnico do clube, enquanto o seu irmão mais novo, Héctor Scarone, se consagrou como lenda do Bolso e da Celeste Olímpica.

Porém, o caso mais notável entre os dois clubes aconteceu nas últimas semanas de 1937. O Boca ofereceu ao Nacional uma lista de jogadores transferíveis. E o dirigente do clube uruguaio, Atilio Narancio, fez sua escolha às cegas: “Quero este rapaz que se chama como eu, deve ser bom”. Aos 23 anos, o jovem atacante não pretendia deixar Buenos Aires, até que se convenceu. “Qualquer coisa, conheço as praias e volto”. Em seu primeiro teste, após 45 minutos pouco empolgantes, um dirigente tentou substituí-lo. O novato foi defendido pelo capitão Roberto Porta, que saiu do campo para que ficasse. E o reforço recompensou a gentileza, marcando dois gols na vitória sobre o Chacarita Juniors. Foram os dois primeiros de Atilio García, maior artilheiro da história do Bolso, com incríveis 486 tentos em 449 jogos. Goleador do Campeonato Uruguaio oito vezes, campeão nacional oito vezes. E também o maior algoz do Peñarol em todos os tempos, com 34 gols no clássico.

atilio

A fama de Atilio era tanta que mereceu até mesmo um capítulo no livro “Futebol ao Sol e à Sombra”, de Eduardo Galeano. Eternizou como literatura também um dos tantos amistosos entre Nacional e Boca Juniors. Ainda que a fúria do centroavante não tenha deixado evidente a amizade entre os clubes nas entrelinhas do escritor uruguaio. Pois foi a boa relação que permitiu a existência da história.

Gol de Atilio

Foi em 1939. O Nacional de Montevidéu e o Boca Juniors estavam empatados em dois gols, e a partida estava chegando ao fim. Os do Nacional atacavam; os do Boca, recuados, aguentavam. Então Atílio García recebeu a bola, enfrentou uma selva de pernas, abriu espaço pela direita e engoliu o campo comendo os adversários.

Atílio estava acostumado às machadadas. Batiam nele de tudo o que é jeito, suas pernas eram um mapa de cicatrizes. Naquela tarde, a caminho do gol, recebeu entradas duras de Angeletti e Suárez, e deu-se ao luxo de esquivá-los duas vezes. Valussi rasgou sua camisa, agarrou-o pelo braço e lhe deu um pontapé e o corpulento Ibáñez plantou-se na sua frente em plena corrida, mas a bola fazia parte do corpo de Atílio e ninguém podia parar aquele redemoinho que derrubava jogadores como se fossem bonecos de trapo, até que no fim Atílio desprendeu-se da bola e seu tiro tremendo sacudiu a rede.

O ar cheirava pólvora. Os jogadores do Boca cercaram o juiz: exigiam que anulasse o gol pelas faltas que eles tinham cometido. Como o árbitro não lhes deu atenção, os jogadores se retiraram, indignados, do campo.