A ameaça está em casa

Os primeiros dias da pós-temporada britânica, como não poderia deixar de ser, foram das especulações. Desta vez, porém, ao lado da inevitável história sobre as novas contratações do Chelsea, especula-se intensamente sobre a sobrevivência de algumas equipes e, principalmente sobre a saúde financeira de seus donos.

Nesta segunda-feira, o vendido foi o West Ham. A equipe pertencia a um milionário islandês que viu sua riqueza derreter junto com a de seu país – considerado um “modelo” do boom da economia e, não por coincidência, um dos que mais sofre com sua explosão. O clube, na realidade, não foi vendido, mas simplesmente transferido aos credores de Bjorgolfur Gudmundsson.

Os novos donos se apressaram em garantir Gianfranco Zola e Steve Clarke, e também mantiveram o executivo-chefe, Scott Duxbury. Além disso, o clube terá dinheiro para transferências “dentro de uma política orçamentária adequada à geração de recursos do West Ham United.” E está nesta frase a grande questão da maior parte dos clubes ingleses. 

Que se especule sobre a sobrevivência do Leeds já deveria ser preocupante, ou ainda do Newcastle, que acaba de cair para a segundona com uma folha salarial polpuda. Os dois clubes sobre cuja sobrevivência – pelo menos nos atuais moldes – mas se especula atualmente são simplesmente os dois maiores do país, o Manchester United e o Liverpool.

Ambos os clubes são de americanos donos de “franquias” esportivas em seu país, e foram adquiridos da mesma foram, por meio de um “leveraged buyout”. Em termos simples, significa o seguinte: o cara pega dinheiro no banco para comprar o clube, fica dono dele e depois passa essa dívida que contraiu junto ao banco para o clube. Assim simples. Até você poderia comprar – é claro, se o banco te emprestasse o dinheiro.
 

Com isso, o clube mais rico do mundo, o sem dívidas Manchester United, passou a ser um dos mais endividados. E embora os resultados não tenham piorado, nem tenha diminuído o dinheiro para investimento em novos jogadores, a dívida só cresce. O que faz com que o modelo depende profundamente de ótimos resultados dentro de campo.

Assim também é com o Liverpool, com a diferença de que, ao contrário do que aconteceu em Manchester, na cidade dos Beatles os novos donos foram recebidos com pompa e circunstância. O principal item do novo projeto: um estádio novo para o clube. Que, pelo jeito, não vai sair.

As primeiras dificuldades dos dois gigantes começaram a aparecer na mídia britânica no final de março, quando o Guardian revelou que a dívida do United estava sendo negociada no mercado por 70% do seu valor. Isso significa que alguém que tenha 1000 libras para receber está vendendo este crédito por 700 libras. O que só pode acontecer por dois motivos: 1- o dono da dívida precisa de dinheiro, e não pode esperar ela vencer; ou 2- o dono da dívida não acreditra que vai receber, e, por isso, passsa o “mico” adiante.

No caso do United, a aposta é que se trata do primeiro fenômeno, ou seja, ainda não chegamos no momento em que os investidores acham que os Glazers não vão pagar o que devem. A situação do Tampa Bay Buccaneers, entretanto, que é a equipe de futebol dos irmãos, mostra outros sinais para preocupação. O time é um dos que tem mais “folga” no limite de salários para a próxima temporada. Entretanto, o time não está contratando – e o motivo óbvio só pode ser a falta de dinheiro. 

As “franquias” americanas também são o que tira o sono dos liverpudlianos. No caso, porém, os Texas Rangers, time de beisebol que já foi de George W. Bush, podem ser a salvação dos Reds. Os Rangers pertencem a Tom Hicks, o mesmo que já foi “dono” do Corinthians.Junto com George Gillet, Hicks é o dono da Kop Investments, dona do Liverpool. A empresa divulgou na semana passada um relatório de seus contadores que diz com todas as letras que, na atual situação, a propriedade do clube por seus atuais donos está em sério risco.

A diferença entre o Liverpool e o United, em princípio, é que o que se discute não é a sobrevivência do clube, mas sim a quem ele pertencerá. O que, convenhamos, acaba dando na mesma se ele se tornar uma massa falida cheia de dívidas.

Manchester United e Liverpool dominam o futebol inglês de hoje quase sem ameaça. Se no passado os torcedores esperavam que esta ameaça viesse de fora, mais especificamente de Londres, nos atuais tempos o problema mora dentro de casa, no caixa. A questão, mais do que gerar resultados financeiros que permitam manter a gastança em juros, é saber se o modelo pode se sustentar no médio e longo prazos. O que não parece ser o caso.