A final do Torneio Clausura do Campeonato Mexicano em 2013 será relembrada por séculos. O duelo seria especial por si, ao reunir os rivais Cruz Azul e América. Depois da vitória em casa por 1 a 0, os Cementeros iam triunfando também no Estádio Azteca, no jogo de volta. E quando tudo parecia inalterável, eis que o incrível aconteceu. As Águilas empataram aos 43 do segundo tempo, com Aquivaldo Mosquera. Ainda assim, precisavam de um gol. Que surgiu nos acréscimos, graças à subida do goleiro Miguel Múñoz ao ataque, dando a épica vitória por 2 a 1. Com o resultado, os azulcremas forçaram as penalidades, e não seria isso que tiraria a taça de suas mãos. Dentro deste contexto é que, cinco anos depois, América e Cruz Azul se reencontraram na decisão do Apertura 2018. O clássico já era considerado como a “Revanche do Século”, pela oportunidade aos azules. Termina como a “Freguesia do Século”. Com o triunfo por 2 a 0 neste domingo, os americanistas ampliam o jejum dos rivais, que perdura desde 1997, e de quebra se tornam os maiores campeões do país.

A sina do Cruz Azul é das mais torturantes deste século. Desde que o clube conquistou o Torneio de Inverno em 1997, nunca mais levou o Campeonato Mexicano. São seis vices desde então, três deles registrados entre 2008 e 2009. Como consolação, os Cementeros chegaram a faturar duas vezes a Copa México (a última delas em outubro) e a Concachampions em 2014. De qualquer maneira, a ambição dos azules é encerrar a chacota na liga nacional. Uma oportunidade histórica que ressurgia no Apertura 2018.

Cruz Azul e América passaram pela fase de classificação com as duas melhores campanhas. Primeiro colocado, o clube azul despachou o Querétaro e o Monterrey nos mata-matas. Já os azulcremas ganharam confiança, primeiro por um duelo difícil contra o Toluca nas quartas, depois por aplicar a goleada por 6 a 1 sobre o Pumas nas semifinais, a maior da história do clássico. No primeiro jogo da decisão, o 0 a 0 prevaleceu. Os Cementeros, aliás, tiveram as chances mais claras. Forçaram uma defesa espetacular de Agustín Marchesín no primeiro tempo e carimbaram a trave no segundo. Nada que adiantasse para ficar em vantagem.

E a penúria do Cruz Azul se confirmou na noite deste domingo, dentro do Estádio Azteca tomado por sua própria torcida. O América abriu o placar no início do segundo tempo, em lindo chute de Edson Álvarez. O meio-campista bateu forte da entrada da área e mandou no ângulo de José Jesús Corona, que se esticou e não alcançou a bola. Os Cementeros insistiram, sem sucesso. Tudo para que a pá de cal acontecesse já nos instantes finais. Em bola que saiu do tiro de meta cobrado por Marchesín, Álvarez aproveitou um rebote de Corona e mandou às redes, completando o triunfo por 2 a 0. O gol do título americanista.

À beira do campo, mais uma vez, o técnico Miguel Herrera protagonizou cenas da mais pura insanidade na comemoração. Se a vibração do treinador do América tinha ficado gravada na retina em 2013, cinco anos depois ele repete o feito em cima do Cruz Azul. É seu segundo título nacional como técnico e também o segundo com os azulcremas, após suas passagens pela seleção mexicana e pelo Tijuana. De volta ao clube em maio de 2017, enfim consegue transformar o poderio financeiro dos millonetas em taça.

O América, afinal, possui um time qualificado em todos os setores e com vários jogadores de seleção. Marchesín é um dos melhores goleiros do continente na década. Na defesa, o paraguaio Bruno Valdez e o argentino Emanuel Aguilera compõem a legião estrangeira, ao lado do selecionável Paul Aguilar. No meio, Mateus Uribe fez ótima Copa do Mundo pela Colômbia, assim como Álvarez integrou o México, em setor que ainda conta com o argentino Guido Rodríguez e com o equatoriano Renato Ibarra. Mais à frente, uma gama de opções que inclui os mexicanos Oribe Peralta e Diego Lainez, os colombianos Roger Martínez e Andrés Ibargüen e o paraguaio Cecílio Domínguez. Isso sem contar o francês Jérémy Ménez, parte do elenco campeão, mas ausente por causa de lesão.

Este é o terceiro título nacional do América desde 2013. Se o norte do país tem dominado o Campeonato Mexicano nesta década, sobretudo com Tigres e Santos Laguna, as Águilas dão a resposta da capital. Além do mais, a taça desta vez proporciona outro gosto especial. Desde a década de 1960, o Chivas Guadalajara (maior rival americanista) era o clube com mais troféus na liga. Os azulcremas passaram à frente na contagem em 2014 e, após o empate do Rebaño Sagrado em 2017, agora voltam a liderar a contagem histórica. São 13 conquistas do América, contra 12 do Chivas. Por todos os seus contornos, um momento memorável.