Na última quarta-feira, por volta das 9h da manhã, um prédio de oito andares, localizado perto da Dhaka, capital bengali, foi ao chão. Cerca de três mil pessoas trabalhavam no momento da tragédia, principalmente em confecções de roupas para grandes grifes mundiais. Não foi a primeira vez que algo do tipo acometeu o país, conhecido pela baixa fiscalização e condições mínimas de segurança aos trabalhadores.

Até quarta-feira (1º de maio), 2,5 mil pessoas haviam sido resgatadas dos escombros, de acordo com o ministro do Interior de Bangladesh, Mustak Ahmed. Os esforços para encontrar sobreviventes ainda continuavam, na intenção de reduzir ao máximo o número de vítimas fatais, que passava de 400 mortos.

A comunidade internacional se solidarizou com o episódio e ofereceu ajuda financeira, suprimentos e material humano para auxiliar no socorro às pessoas, mas Ahmed rejeitou, afirmando que não há necessidade de apoio externo, pois as equipes do país dão conta do recado “de forma exemplar”. Entretanto, entre os responsáveis pelo futebol bengali, a aposta é justamente na força de trabalho estrangeira…

Carrossel bengali

Com 160 milhões de habitantes, o oitavo país mais populoso, Bangladesh raramente contou com técnicos locais. Os nativos só assumiram por curto período de tempo, geralmente na condição de interinos, enquanto a federação nacional negociava com gente de fora. Com a saída do macedônio Nikola Ilievski, em dezembro de 2011, depois de sete meses à frente do time, o bengali Saiful Bari Titu (setembro a dezembro/2012) segurou as pontas, até que o novo comandante fosse apresentado.

Em janeiro de 2013, o jovem Lodewijk de Kruif, holandês de 43 anos, que treinava o Heartland (Nigéria) até maio do ano anterior, chegou com grandes planos. Ao lado do auxiliar René Koster, da mesma nacionalidade, De Kruif pretende impor características de sua terra natal:

“A meta é elevar este esporte a um novo patamar no país. Nossa intenção é inculcar o estilo de jogo holandês. Manter a posse de bola, armar o jogo pacientemente a partir da defesa, controlar o ritmo da partida para marcar gols e ter a ambição de dominar e ganhar o jogo. Tentaremos aumentar o profissionalismo tanto na maneira de pensar quanto na de trabalhar”, disse o treinador ao site da Fifa.

Lodewijk de Kruif também espera conseguir encontrar atletas de ascendência bengali na Europa, a fim de acelerar a evolução da seleção nacional. Em 2010, durante as eliminatórias 2014, o meia dinamarquês Jamal Bhuyan, hoje com 23 anos, foi convocado, mas não chegou a atuar – ele joga na segunda divisão do país europeu. Mas ele também tem olhos para a liga local, que vem apresentando crescimento, inclusive com a importação de estrangeiros.

Numa rápida pesquisa no site da entidade nacional do futebol de Bangladesh, cuja última atualização é novembro de 2012, percebe-se que a quase totalidade dos 60 atletas estrangeiros (espalhados por nove times) é de origem africana. A Nigéria é o país com mais expoentes, 29 jogadores, seguida por Gana (sete), Camarões e Guiné (quatro). Fora da África, destaque para os aventureiros do Brasil, também com quatro atletas – há até um haitiano e um bósnio.

Hora de agir

A primeira experiência oficial sob o novo técnico aconteceu em março de 2013, nas eliminatórias para a AFC Challenge Cup 2014, torneio que reúne as seleções periféricas da Ásia. No Grupo D, Bangladesh derrotou Nepal (2 a 0) e Ilhas Marianas do Norte (4 a 0), mas perdeu a vaga para os palestinos, que venceram por 1 a 0. Os bengalis só não avançaram para a fase final porque levaram desvantagem no saldo de gols (6 contra 1) para o Tucomenistão, que conseguiu a vaga, ao lado de Laos, o melhor segundo colocado geral. Tudo em razão da desistência de Brunei, que fez com que a vitória sobre Ilhas Marianas, lanterna da chave, fosse desconsiderada.

Mas nem tudo foi negativo no início de trabalho dos holandeses. Lodewijk de Kriuf, em entrevista ao site da Fifa, elogiou bastante os dois atacantes, Shakawat Rony, de apenas 21 anos, uma das promessas do país, e Toklish Ahmed, que estreou na seleção durante o torneio regional.

“Minha impressão geral sobre a equipe é bastante positiva. Os rapazes jogaram com o coração. Trouxemos algumas ideias novas ao conjunto, mas eles provaram ser capazes de se adaptar rapidamente às mudanças. Desde que assumi, enfatizei muito a defesa e a organização e a zaga mostrou solidez e entrosamento”, avaliou o treinador.

A preparação para o Campeonato Sul Asiático 2013, a ser disputado no Nepal em setembro, já começou. O momento da seleção bengali, atual 154ª colocada no Ranking da Fifa, atrás de Palestina, Santa Lúcia e Aruba, é tão bom, que o secretário-geral da federação local, Abu Nayeem Shohag, sonha alto:

“Nos últimos seis anos, nossos campeonatos nacionais evoluíram consideravelmente, e uma nova geração surgiu e chegou à seleção. Sob o comando de De Kruif, esperamos chegar ao nível das principais seleções do futebol asiático dentro de poucos anos.”

Curtas

– Com uma rodada para o fim da temporada 2012-13, o Sheikh Russel está muito perto de seu primeiro título na história. O time lidera com 32 pontos (10v, 2e, 2d), três de vantagem para o Abahani, com um jogo a mais, (é o maior campeão do país, com quatro troféus). O Sheikh Jamal, também campeão nacional (uma conquista), vem em terceiro, com 28 pontos. A rodada final ocorre entre 3 e 6 de maio.

– Como era de se esperar, os estrangeiros dominam a artilharia da liga nacional. Com 11 gols, o ganês Osei Morrison, do Dhaka Mohammedan, tem três a mais que o guineense Ismael Bangoura, artilheiro na temporada passada. O primeiro bengali a aparecer na lista é o atacante Jahid Hasan Ameli, 25 anos, do Sheikh Russel, com quatro gols – atuante apenas no futebol bengali, Jahid tem dez gols em 49 convocações pela seleção.

– Sabia que a seleção de Bangladesh já teve treinador brasileiro? Entre janeiro e novembro de 2009, Dido (Edson Silva), que jogou por Flamengo, Santos e America do Rio na década de 1980, comandou o país. Ele reserva outros trabalhos exóticos, como Marsa (Malta), Vietnã e Taiwan.

– O famoso técnico alemão Otto Pfister, de 75 anos, com experiência em várias seleções de pequeno porte, como Ruanda, Burquina Fasso, Togo, Trinidad & Tobago e vários times africanos, pode se orgulhar de ter dirigido Bangladesh. O profissional trabalhou entre 1995 e 1997.