A história da Libertadores também é escrita por mulheres. Mulheres indissociáveis ao futebol sul-americano, mulheres que representam a paixão nas arquibancadas, mulheres que ajudaram a construir diversas agremiações. Nesta edição da competição, há diversos clubes com uma matriarca em sua fundação. O caso mais notável é o do Junior de Barranquilla. Em 1924, Micaela Lavalle liderou a criação do Juventud Infantil. O time de bairro servia para que seus filhos e os jovens da vizinhança praticassem o esporte, já que eram muito novos para o Juventud – outra equipe local. Uma ideia que prosperou graças aos esforços da colombiana. De maneira parecida, o Cerro Porteño dependeu de Dona Susana Núñez, que ofereceu sua casa e apoio os filhos na criação dos azulgranas. Ela bordou a primeira bandeira do Ciclón e determinou suas cores. No Uruguai, há o caso de María Mincheff de Lazaroff, imigrante búlgara que morava em Montevidéu. Quando seus filhos decidiram organizar um clube, ela sugeriu o nome do rio que banha sua terra natal: Danubio. O estádio dos alvinegros leva o seu nome. E mesmo no Brasil é possível citar o exemplo de Alice Neves, também mãe de um fundador do Atlético Mineiro. Foi ela quem costurou os primeiros uniformes e a primeira bandeira do Galo, além de fundar a primeira torcida feminina.

Um nome que merece ser celebrado neste 8 de março, no entanto, não participou dos primórdios do clube que resguarda. Ainda assim, tem uma história representativa que será celebrada nesta Libertadores. Ester Roa batiza o único estádio com nome de mulher nesta fase de grupos da competição continental – já que o Danubio não passou das preliminares. Ela não influenciou diretamente a ascensão da Universidad de Concepción no futebol. Em compensação, sua trajetória na política foi bastante ligada ao esporte. Ester Roa atuou como prefeita da cidade de Concepción e não apenas possibilitou a construção de um dos maiores estádios do país, como também enfrentou as dificuldades do terremoto ocorrido às vésperas da Copa do Mundo de 1962.

Ester Roa Rebolledo nasceu na própria cidade de Concepción, no seio de famílias tradicionais. Formou-se em Direito na Universidad de Chile, em 1952, e se tornou uma das primeiras mulheres advogadas da região. Em 1956, com apenas 27 anos, também foi a primeira mulher a ganhar as eleições municipais – com maioria absoluta dos votos. A partir daquele momento, a palavra “alcadesa”, utilizada comumente para designar a esposa do prefeito, ganharia novo significado. Seria reeleita quatro anos depois.

“Ester Roa se destacou tanto por suas decisões quanto pelas notáveis obras de sua gestão. Teve uma preocupação muito intensa com os pobres da cidade, com os bairros incipientes recebendo atenção direta no melhoramento urbano e nas necessidades urgentes. Ao mesmo tempo, preocupada com a harmonia da cidade, erradicou as moradias de emergência, assim como tomou medidas sanitárias e ornamentais que destacaram Concepción. Não menos notável para apreciar a dimensão de seu espírito é o fato de que, naquela época, os municípios praticamente não dispunham de recursos próprios, que Dona Ester soube obter”, descreveu o Diário El Sur, no obituário da prefeita.

Durante o intervalo dos mandatos de Ester Roa, o Chile se organizava para receber o Mundial de 1962. Concepción estava na lista de cidades-sede e, assim, a prefeita deu início às obras do Estádio Municipal. O local teria capacidade para mais de 30 mil espectadores. Os planos, no entanto, mudaram no início da construção do estádio. Em 21 de maio de 1960, Concepción foi o epicentro de três sismos consecutivos. Os terremotos de magnitude entre 8,1 e 8,3 na Escala Richter deixaram 125 mortos, enquanto destruíram um terço das edificações da cidade. A região ainda foi palco de incêndios e inundações, em consequência da devastação causada pelo desastre. No dia seguinte, aconteceu o terremoto de Valdívia, 400 quilômetros ao sul, com magnitude de 9,5 – a maior já registrada na história da humanidade. Ester Roa seria fundamental neste cenário decisivo, inclusive prestando contas ao lado do presidente Jorge Alessandri Rodríguez.

A prefeita ainda hoje é aclamada pela maneira como conduziu a reconstrução de Concepción. A cidade acabou não recebendo a Copa do Mundo de 1962, em consequência dos trabalhos de recuperação. Mesmo assim, o Estádio Municipal saiu do papel. Apesar das críticas à condução das obras, o governo e a própria população apoiaram no financiamento. A abertura aconteceu em 1962, durante o mês de setembro. Em 1966, a fusão de equipes locais em prol da criação do Deportes Concepción garantiu um representante forte para ocupar a praça esportiva, chegando à primeira divisão dois anos depois. Além disso, o estádio era uma alternativa ao vizinho Huachipato, que disputou a Libertadores de 1975 por lá.

Assim como aconteceu com o Estádio Nacional de Santiago, o Estádio Municipal de Concepción também seria uma das prisões utilizadas pela ditadura de Augusto Pinochet após o golpe de 1973. Uma memória preservada em suas arquibancadas, ainda que de maneira menos simbólica do que a ocorrida na capital. O local também serviria de palco a diversas competições internacionais. Recebeu Mundial Sub-17 e Sub-20, Pré-Olímpico, duas edições da Copa América. As estruturas passaram amplas reformas rumo ao torneio continental de 2015 – em momento no qual o futebol chileno era conduzida por outra mulher, Natalia Riffo, psicóloga formada pela Universidad de Concepción e então Ministra dos Esportes. Foi lá que o Paraguai eliminou o Brasil nas quartas de final, bem como a Argentina aplicou a goleada por 6 a 1 sobre os guaranis nas semifinais. Agora, a Universidad de Concepción terá mais uma Libertadores para celebrar no estádio.

Ester Roa permaneceu na prefeitura de Concepción até 1963, abandonando a carreira política depois disso. No ano seguinte, ela se mudou a Santiago e passou a atuar como advogada em instituições públicas. Fez parte da Superintendência de Previdência Social durante o governo de Salvador Allende, deixando seu cargo após o golpe militar. Permaneceu como uma figura de destaque e respeitada por seu papel na gestão, mesmo que por um curto período. Em 2010, faleceu aos 91 anos, mas o reconhecimento ao seu trabalho era tamanho que, diante da notícia, o município decidiu rebatizar o Estádio Municipal oficialmente como “Prefeita Ester Roa Rebolledo”. Uma história que prevalece.