Conseguir títulos em sequência ou mesmo em grande número não é tarefa das mais fáceis. Um treinador tem de ser competente para obtê-los. Conquistar um título continental na Europa, então, é coisa para poucos. Mas o que dizer de vencer a Champions League com um time provincial, mediano e até então desconhecido de boa parte do mundo. E repetir o feito no ano seguinte.

 

Pois foi isso que conseguiu o treinador Brian Clough. Uma lenda no comando de uma equipe não somente por vencer dois títulos nacionais ingleses, mas por conquistá-los por times que nunca haviam sentido o gosto da maior honraria nacional.

Mais do que isso, Clough é reconhecido como um dos primeiros “managers” do futebol inglês, gerindo o dia-a-dia do Nottingham Forest durante 18 anos. E até hoje é considerado o melhor técnico inglês a nunca comandar o English Team.

Um atacante goleador

Nascido no distrito de Grove Hill, na cidade de Middlesbrough, no nordeste da Inglaterra, em 1935, Clough foi o sexto dos nove filhos de uma confeiteira. Abandonou a escola aos 15 anos para trabalhar em uma indústria química.

Apesar do gosto pelo futebol, admitiu certa vez que sua primeira paixão fora o críquete. Mas aos 16 anos começou a jogar pelas divisões de base do Middlesbrough, principal time da cidade. Ainda jovem teve passagem pelo modesto Billingham Synthonia, antes de se profissionalizar pelo Boro.

Nos Smoggies, em apenas seis anos, tornou-se uma lenda no ataque, marcando 197 gols em 213 partidas, sendo o artilheiro da equipe por cinco temporadas consecutivas, número que o coloca, ainda hoje, como o terceiro maior goleador do clube. Apesar da fama, nunca conseguiu obter a promoção com o time para a divisão de elite do futebol inglês.

Em 1961, assinou com o Sunderland, também na segunda divisão inglesa, onde atuou por três temporadas, anotando 54 gols em 61 partidas e sendo o goleador máximo do time em dois anos. Teve sua passagem pelos Black Cats prejudicada por uma lesão no ligamento cruzado.

Apesar de voltar ao time dois anos depois, jogou pouco e encerrou a carreira de atleta aos 29 anos. Antes disso, disputou duas partidas pela seleção nacional, contra País de Gales e Suécia.

Um “manager” em início de carreira

Um ano após abandonar a carreira de jogador, Clough tornou-se técnico do modesto Hartlepool United contando, como assistente, com o ex-goleiro Peter Taylor, que o acompanharia em grande parte de sua carreira, sendo responsável por boa parte das descobertas de jogadores que fariam sucesso nas equipes de Clough. Aos 29 anos, era o mais jovem dos treinadores na Liga.

Em duas temporadas na quarta divisão do futebol inglês, não foi além de um oitavo lugar. No comando do time, somou 35 vitórias em 84 partidas, mas deu adeus em maio de 1967.

Um mês depois voltou à segunda divisão nacional para assumir o cargo de técnico do Derby County, que há anos vivia de campanhas irregulares sem ascender à elite.

Com uma campanha fraca em seu primeiro ano à frente do clube, Clough reestruturou por completo o elenco do Rams, deixando apenas quatro jogadores e trazendo alguns que se tornariam lendas no County, entre eles o zagueiro Roy McFarland, os meias John McGovern e Alan Hinton, além do atacante John O'Hare.

No clube já dava mostras de seu estilo de comando e gerenciamento das equipes. Além do elenco, reformulou boa parte do corpo administrativo e começou a ganhar fama pela capacidade de tornar o jogo favorável às suas equipes.

Confusões e títulos em Derby

Já em 1969 o clube conquistou o título da segunda divisão, o qual não vencia há mais de 50 anos e obteve a vaga na elite. No ano seguinte, em seu primeiro torneio jogado na divisão principal do país, obteve um excelente quarto lugar, mas, por conta de irregularidades financeiras, o time foi impedido de disputar competições europeias.

Ainda assim, conquistou o título da Copa Watney no ano de 1970, competição na qual goleou o Manchester United na final por 4×1.

Dois anos depois, chegou ao ápice em sua passagem pelos Rams. Em um disputado campeonato, superou Leeds, Liverpool e Manchester City por apenas um ponto e levou o clube ao seu primeiro título nacional na primeira divisão.

Polêmico, no ano seguinte o treinador envolveu-se em grandes confusões com o presidente do clube, Sam Longson, e o conselho de administração do County, entre elas fechando contrato com o zagueiro David Nish por um valor recorde à época sem o consentimento da direção.

Em uma partida contra o Liverpool atacou duramente a atitude da torcida que vaiava a equipe antes da virada obtida pelos comandados de Clough. Contado com um espaço como colunista e participando constantemente de programas na televisão britânica, possuía canais diretos com a mídia que incomodavam boa parte da diretoria pela sua característica de não medir palavras.

Crítico do estilo de jogo do Leeds de Don Revie, grande rival do seu time, levou a campo contra os Whites seu time titular para uma disputada partida, poucos dias antes de um importante jogo da semifinal do campeonato europeu contra a Juventus (ITA), no qual seria derrotado, ficando de fora da decisão continental.

Pressionado pelo presidente do clube, apresentou sua demissão sem o conhecimento do auxiliar, acreditando que a diretoria o apoiaria em detrimento do mandatário do clube. Sem sucesso, mesmo contando com o apoio de boa parte da torcida, Clough e Taylor deixaram o comando da equipe.

Com um total de 135 vitórias em 289 partidas, além de 70 empates e 84 vitórias, é até hoje o treinador mais vitorioso da história do clube e responsável por levar o Derby, pela primeira vez em sua história, ao nível dos grandes no futebol inglês.

Passagens curtas e fracasso no Leeds

Duas semanas após sua saída do County, Clough e Taylor assumiram o pequeno Brighton & Hove Albion, recém-rebaixado para a terceira divisão. Numa prova das dificuldades que estavam por vir, logo na estreia o time foi goleado por 4×0.

Conquistando apenas 12 vitórias em 32 partidas, recebeu um convite para assumir o comando do Leeds, onde ocuparia o cargo deixado vago por Don Revie, que fora comandar o English Team.

Então campeão nacional, na nova empreitada, contudo, não teria mais o apoio de Taylor, que recusara a saída, permanecendo como técnico do Albion, sob a justificativa de respeito ao contrato firmado.

Era o primeiro grande desafio de Clough em uma equipe de ponta. Mas os resultados foram decepcionantes. Em seu pior desempenho na carreira, o técnico afastou estrelas como Johnny Giles, Norman Hunter e Billy Bremner, teve atritos com dirigentes e somou apenas uma vitória e três empates em sete jogos, o pior início do time em 15 anos na liga inglesa. Nessa passagem, não deixou de criticar de forma veemente o estilo de jogo da equipe que o desagradava desde a época de Davies.

Dessa forma, teve também sua passagem mais curta no comando de uma equipe, sendo demitido pouco após sua chegada. Ficaria até o fim de 1974 sem trabalhar. Na volta assumiria o último clube de sua carreira. Mal sabia ele que seria também o clube onde entraria para a história.

Uma lenda em West Brigdford

No dia 6 de janeiro de 1975, Clough assumiu o cargo de treinador do Nottingham Forest, clube da cidade de West Brigdford, até então pouco conhecido no cenário europeu e distante das grandes forças do futebol britânico.

Até então, os Reds, já centenários, gabavam-se da conquista de dois campeonatos da segunda divisão (o último tendo sido conquistado há mais de cinquenta anos), um da terceira e, principalmente, da FA Cup de 1959, vencida sobre o Luton Town.

Quando assumiu, o Forest ocupava o 13º posto na segunda divisão. Terminou o ano em 16º e, em sua primeira temporada completa no comando do time, alcançou o oitavo lugar na tabela.

Na temporada seguinte, já novamente ao lado de Taylor, começou a forjar a equipe que mudaria seu legado no futebol inglês e mundial. Já em 1977 terminou o campeonato na terceira colocação, obtendo a promoção para a primeira divisão.

No topo do futebol europeu

Em seu primeiro ano na elite do futebol inglês com o Nottingham, Clough alcançou o título logo de cara, deixando o todo poderoso Liverpool há sete pontos de distância. Com o feito, tornou-se o primeiro técnico a conquistar o nacional por duas equipes distintas desde Herbert Chapman. Como se não bastasse, também em 1977, venceu o mesmo Liverpool na final da Copa da Liga e conquistou a dobradinha.

Os títulos vieram numa sequência impressionante. Moldando o time à sua forma, realizou uma transferência que entraria para a história do futebol mundial. Consciente da importância de um atacante de renome interessou-se por Trevor Francis, do Birmingham, que fazia parte da seleção inglesa e passara dois anos emprestado ao futebol norte-americano.

Para contratá-lo pagou o equivalente a um milhão de libras, tornando a transferência a mais cara da história até então e a primeira a ultrapassar a barreira do milhão. Para concluí-la, utilizou o dinheiro do prêmio recebido pelo clube com o título da Liga.

Já na temporada seguinte alcançou o tão sonhado campeonato europeu. Em uma campanha de sonhos, deixou para trás o então campeão (e freguês) Liverpool, AEK (GRE), Grasshopper (SUI), Köln (ALE) e o Malmo (SUE), esse último já na grande final, em Munique. Mais do que simplesmente vencer, os ingleses colecionaram goleadas que encantaram o futebol europeu. Para coroar a participação e Clough, o gol do título europeu foi marcado pelo recém-contratado atacante Francis.

Apesar do estilo provinciano e do fato da participação de clubes sem tanta tradição na época aliada ao formato mata-mata permitir a chegada de clubes menores às fases mais decisivas do principal torneio europeu, até então nenhum clube desconhecido ou sem um grande reconhecimento no cenário do Velho Continente havia conquistado a taça.

A temporada 1978-79 seria a melhor da carreira do treinador e da história dos Reds. Além da conquista continental, vieram também o bi da Copa da Liga e a Supercopa Europeia, derrotando, na final, o poderoso Barcelona. O técnico conquistou também o prêmio de “Treinador Inglês do Ano”.

Mesmo perdendo o título nacional para o Liverpool (foi vice-campeão), o Forest voltou à competição continental, como detentor do título. Muitos consideravam o feito do ano anterior um enorme acidente de percurso e viam como algo impossível a repetição do ocorrido.

Mas Clough e o Nottingham conheciam o caminho das pedras. Colocando em segundo plano o campeonato inglês, o time eliminou Öster (SUE), Arge? Pite?ti (ROM), Dynamo Berlin (ALE), Ajax (HOL) e o então campeão alemão Hamburgo na final. Por sinal, o time que havia goleado o Real Madrid na semi por 5×1.

O que muitos consideravam impossível ocorrera. Não bastava apenas conquistar a Europa. Clough e os Reds provavam que o “acidente” se tornava algo concreto.

Além das conquistas, os números provavam o poderio da equipe. Entre 1977 e 1978 o Forest alcançou uma marca de 42 partidas de invencibilidade no campeonato, recorde somente superado pelo Arsenal em 2004.

Fim da era de ouro

Na década de 1980, apesar dos poucos títulos de expressão, o Nottingham de Clough ainda conquistaria o bi da Copa da Liga, batendo, nas decisões, Luton Town em 1989 e Oldham Athletic no ano seguinte.

Apesar de pouco brigar pelo título da primeira divisão inglesa, Clough colecionou fãs no clube vermelho. Sob seu comando, o clube terminou apenas uma temporada com uma colocação abaixo do 10º lugar (foi 12º em 1982). Após o rebaixamento da equipe, na primeira temporada da nova Premier League, em maio de 1993, o técnico pôs fim a sua carreira.

Com Clough dirigindo a equipe, os Reds alcançaram a incrível marca de 411 vitórias em 907 partidas, um aproveitamento de 45%. Sob seu comando, no Forest, atuou também uma lenda do clube, seu filho Nigel, autor de 131 gols e segundo maior artilheiro da história do Nottingham.

Além dele, sob o comando de Clough, outros grandes jogadores entraram para a história do time, como os zagueiros Steve Chettle e Stuart Pearce ou o meia Ian Bowyer. Mas para os torcedores do clube, nenhum foi tão importante quanto Clough.

Após abandonar a carreira, Clough se viu envolto na luta contra o alcoolismo, que o atingiu durante boa parte de sua carreira. No início da década de 2000 foi submetido a um transplante de fígado. No dia 20 de setembro de 2004 faleceu de câncer do fígado, aos 69 anos.

Polêmico, sincero e vencedor

No mundo do futebol boa parte dos treinadores são definidos como “de clube pequeno”, acompanhados da característica de não realizar bons trabalhos em clubes maiores. E em grande parte dos casos isso pode ser considerado uma verdade, dada a pressão e o tamanho do desafio ao qual são submetidos ao chegarem ao topo da carreira.

Poucos treinadores, contudo, se adequaram tão bem a essa pecha quanto Brian Clough. Para ele, mesmo que talvez não o quisesse, as condições ideais não eram encontradas nos grandes clubes, mas sim, em clubes pequenos. Não minúsculos, insignificantes. Nem médios ou grandes em decadência.

O desafio para Clough era assumir um clube que ainda não havia atingido o sucesso e tirar o máximo possível, aplicando seus conceitos, gerenciando todos os seus departamentos, agindo com liberdade.

Talvez por isso não tenha tido sucesso no então campeão Leeds. Em um grande Clough não estava livre das amarras, dos resultados imediatos. Para isso, precisava dos pequenos. E esses precisavam de Clough.

Apesar do clamor de muitos para sua chegada ao English Team, a dúvida sempre foi se ele teria sucesso na seleção? Em 1987 recebeu um convite da federação galesa, mas os diretores do Forest não aceitaram dividir seu comandante. Clough frustrou-se, talvez por que soubesse que naquela seleção, e não na poderosa Inglaterra, teria verdadeiras chances de fazer história.

Polêmico e autor de frases que entraram para a história do futebol britânico, não poupava adversários e, principalmente, os rivais. Sobre a participação do Manchester United no Mundial de Clubes, em 2000, disse: “Manchester no Brasil? Eu espero que eles peguem uma diarreia”.

Crítico do crescimento do número de estrangeiros no país, dizia: “Eu não consigo nem mesmo soletrar espaguete em italiano. Como vou pedir para um jogador italiano pegar a bola? Ele pode pegar a minha…”.

Formal no trato com os jogadores afirmava que, quando discutia com um atleta, ambos sentavam-se para conversar durante 20 minutos e, ao fim, concluíam que era ele quem tinha razão.

Sua mais famosa definição sobre seu nível era: “Não digo que fui o maior treinador. Mas sempre estive entre os top 1”.

A importância de Clough para o futebol inglês é facilmente percebida pela decadência de Forest e County após sua saída. Ambos hoje estão longe do topo inglês. A maior disputa é travada no campo de qual foi o clube preferido de Clough. Ambos possuem estátuas do técnico e a estrada que liga as duas cidades possui o nome do lendário manager.

Retrato de uma parceria histórica

Personagem do filme “Maldito Futebol Clube”, lançado em 2009, e que retrata sua fraca passagem pelo Leeds, Clough possui, em seu currículo, centenas de histórias mais vitoriosas, mas o longa talvez explicite do melhor jeito as características do técnico.

Ciente da importância de seu auxiliar Taylor na descoberta de bons valores, nunca negou a importância do mesmo para suas equipes, retomando o contato com o velho parceiro após a conturbada saída do Leeds.

A parceria entre os dois sofreu um abalo após a saída de Taylor para comandar novamente o County e a contratação do ex-jogador do Forest, John Robertson, em 1983, sem o consentimento de Clough, em uma transferência que incluiu disputas judiciais e ataques por meio de tabloides britânicos.

Outro ponto de discórdia entre os dois foi o lançamento da autobiografia de Taylor relatando o trabalho conjunto sem o aval de Clough, na década de 1980. Mas após a morte de Taylor, o técnico lamentou-se por não reatar a amizade com o antigo auxiliar.

Agraciado com a Ordem do Império Britânico pelos serviços prestados, Clough caracterizou-se por passar por cima de dirigentes, jogadores e até mesmo torcedores quando necessário para atingir seus objetivos. Mas Forest, County e seus admiradores até hoje agradecem por isso.


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