Em meio a um momento de ânimos renovados após a vitória por 3 a 0 sobre o Manchester City e o encontro marcado com o rival Manchester United pela Liga Europa, o primeiro entre os dois em uma competição continental, os torcedores do Liverpool têm nesta sexta-feira mais um motivo para celebração. Kenny Dalglish, ídolo do clube como jogador e também como técnico, faz 65 anos. Data que, mais do que de parabenização ao escocês, transporta os torcedores dos Reds para tempos mais vencedores do que os atuais.

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A história de Kenny Dalglish pelo Liverpool é muito conhecida e, de forma resumida, inclui seis títulos de Campeonato Inglês, três Copas dos Campeões da Europa, uma Copa da Inglaterra, outras conquistas de menor relevância e diversas premiações individuais. Mas e aquelas outras histórias menos lembradas, de seu tempo tanto como técnico quanto como jogador? Em referência ao número 7 que tão brilhantemente carregou às costas pelos Reds, reunimos sete episódios da trajetória de Dalglish no futebol que você talvez não conheça.

“Tomou” Shearer do Manchester United em 1992

A torcida do Manchester United tinha uma música para Solskjaer em que, gratuitamente, atacava Alan Shearer. O maior artilheiro da história da Premier League  não é bem visto pelo torcedor dos Red Devils, mas a história poderia ser completamente diferente se não houvesse um Kenny Dalglish no caminho em 1992. Shearer interessava ao time de Alex Ferguson, mas teve conversas com o então técnico do Blackburn e decidiu assinar pelos Rovers, pelos quais venceu a Premier League em 1994/95.

Fez testes no West Ham e no Liverpool aos 15 anos

Apenas em 1977, aos 26 anos, Kenny Dalglish chegou ao Liverpool, clube em cuja história escreveria importantes capítulos pelos 13 anos seguintes como jogador, até sua aposentadoria. Sua prestação de serviços aos Reds, entretanto, poderia ter começado bem antes, quando Dalglish era apenas um moleque. Aos 15 anos, em 1966, o então garoto fez um teste nos Reds, jogando pelo time B contra o Southport Reserves, em partida de uma liga local. O Liverpool B venceu por 1 a 0, mas Dalglish foi para casa e não recebeu contato algum do clube posteriormente. No mesmo ano, o escocês fez um teste no West Ham. Chegou a treinar com os profissionais e impressionou a todos, anotando um golaço logo que pegou a bola, como relembrou Harry Redknapp, à época jogador dos Hammers, em texto para o Daily Mail: “Vamos ficar com ele?”, perguntou Redknapp ao técnico do West Ham em 1966, Ron Greenwood, que respondeu: “Sem chances. Tentamos. Todos querem ele, mas ele vai para o Celtic”. De fato, Dalglish assinou com os Bhoys, onde ficou até 1977, tornando-se conhecido na Europa antes mesmo de ir para o Liverpool.

Custaria £ 77 milhões?

Em novembro de 2014 o jornal Liverpool Echo News fez uma estimativa hipotética de quanto Kenny Dalglish custaria se jogasse nos dias de hoje. Levando em conta que o jogador foi contratado por uma quantia recorde à época pelo Liverpool – £ 440 mil –, marcou pelo menos 21 gols por temporada em seus seis últimos anos no Celtic, anotou 167 gols em 320 partidas pelos Bhoys, venceu quatro títulos nacionais, havia participado de Copa do Mundo e já somava 40 atuações pela seleção escocesa, o periódico chegou ao “chute” de £ 77 milhões. Palpite calcado também na impressão que se tinha de Dalglish à época. Best dizia que ele estava no patamar de Di Stéfano, Graeme Souness o via como melhor que Maradona, Rummenigge e Platini, enquanto Beckenbauer dizia que ele era “um dos melhores jogadores na história do futebol”. O Liverpool Echo News então calcula que Dalglish, atualmente, estaria no nível de Suárez, Ibrahimovic e Bale, jogadores caros e que estariam atrás apenas de Messi e Cristiano Ronaldo. Levando em conta que o uruguaio custou £ 75 milhões e o galês, quase £ 80 milhões, o jornal chegou aos £ 77 milhões.

Seu filho foi jogador e hoje é técnico no Canadá

O legado de Kenny Dalglish foi tão enorme para o futebol que se arrastou através de seus genes também. Seu filho Paul Dalglish seguiu os passos do pai, foi jogador, passando por Newcastle, Norwich e Blackpool, entre outros, e hoje, no Ottawa Fury, do Canadá, tenta a sorte como técnico de futebol, assim como Kenny. Com apenas 39 anos, o ex-jogador ainda tem tempo de se especializar e se tornar um técnico com alguma relevância, até mesmo para apagar a carreira pouco impressionante que teve como jogador. Quando Paul teve gêmeos, uma brincadeira de Kenny Dalglish deu o tom da qualidade do filho  como atleta: “Estamos muito contentes, acho que é a primeira vez que ele marca duas vezes em um jogo”.

Contratou Rafael Scheidt (e foi um desastre)

Nem só de títulos e sucessos foi feita a carreira de Dalglish no futebol. Como treinador, em 2000, o escocês comandava o Celtic e quis reforçar sua defesa. Foi, então, atrás de um jogador jovem, que já tivesse algum destaque, e assinou com Scheidt, de 23 anos, que tivera um bom ano de 1999 pelo Grêmio e já acumulava passagem pela Seleção (apenas duas, para sermos justos). Essas, por si só, parecem descrever uma boa contratação, mas o investimento foi um desastre. Scheidt custou £ 4,8 milhões aos Bhoys, passou menos de um ano no clube, atormentado por lesões, e foi taxado pelo jornal Guardian, em lista feita em 2001, como a segunda pior contratação da história do futebol. Para completar, seu nome, falado em inglês, significava “merda”, o que, desde o início, não era um bom sinal.

Ídolo do Celtic, mas torcedor de infância do Rangers

Kenny Dalglish assinou com o Celtic em 1966, estreou pelo time profissional em 1969, passou oito anos no clube, anotou 167 gols em 320 jogos, conquistou quatro títulos escoceses como jogador, tornou-se referência pelos Bhoys e ainda foi técnico do clube em 2000, mas toda essa história bonita escrita com o clube alviverde não apaga o fato de que um dos maiores ídolos do Celtic era torcedor dos Rangers quando criança. Dalglish inclusive sonhava jogar com seus ídolos na equipe, mas foi o Celtic quem lhe deu a primeira chance no futebol. Há até um rumor de que quando assinou pelos Bhoys, Dalglish recebeu Sean Fallon, então assistente técnico do Celtic, em seu quarto e foi forçado a arrancar pôsteres dos Rangers da parede, história frequentemente negada pelo ex-jogador, mas que resistiu ao teste do tempo e das tentativas de desmentir de Dalglish.

Quase pediu demissão antes do título do Blackburn para voltar ao Liverpool

Muita gente compara a campanha feita pelo Leicester nesta temporada com a do título do Blackburn em 1994/95, quando conquistou a Premier League, deixando o Manchester United para trás. As circunstâncias são bem diferentes, afinal os Rovers tiveram um tipo de investimento que, proporcionalmente falando, os Foxes não tiveram para essa temporada. Ainda assim, foi uma conquista marcante, até hoje vista como a exceção para a era de grandes clubes vencendo os títulos que se instaurou a partir da criação da Premier League, e essa história riquíssima poderia não ter acontecido. Isso porque Kenny Dalglish revelou que pensou seriamente em deixar o Blackburn antes do início daquela que seria uma temporada gloriosa.

Em sua autobiografia, lançada em 2010, Dalglish revela que nos dois últimos anos em que estever no Ewood Park estava desesperado para voltar ao Liverpool. Tentou o retorno no verão de 1994, mas os Reds não tiveram interesse em sua contratação. Seguiu então por mais uma temporada nos Rovers, conquistando o Campeonato Inglês.