Nem todos os alvinegros conhecem a importância da data, mas 6 de fevereiro de 1955 marca profundamente a história do Corinthians. Naquele dia, dentro do Pacaembu lotado, o clube desbancava o Palmeiras em um clássico que valeu o título do Campeonato Paulista de 1954. A taça do IV Centenário, de enorme representatividade nas comemorações dos paulistanos. Deu sequência a um dos períodos mais gloriosos da história do clube, com três títulos estaduais e três do Rio-SP. Consagrou uma geração de ídolos, liderada por Luizinho, Cláudio, Baltazar, Gylmar e Roberto. Criou de vez uma mística sobre Osvaldo Brandão, para muitos o maior técnico que já pisou no Parque São Jorge.

A conquista de 1954 permaneceu como a mais importante do Corinthians por pelo menos mais 23 anos. Afinal, ela marcou justamente o jejum encerrado com o gol de Basílio, diante da Ponte Preta. Mas, 60 anos depois, o feito dos heróis do IV Centenário ainda merece ser exaltado. Poucas conquistas foram tão emblemáticas ao clube, por tudo o que representou e continua representando. Pode, inclusive, servir de motivação para o clássico marcado para o próximo domingo, por outro Paulistão.

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Um dos maiores esquadrões do Corinthians

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Ao longo de sua história, o Corinthians não consagrou tantos timaços. A maioria dos grandes títulos alvinegros foi conquistada por equipes mais celebradas por sua raça do que por sua técnica. Exceção pode ser feita ao esquadrão bicampeão brasileiro e campeão mundial no fim dos anos 2000, assim como ao dono do título nacional em 2005. E, claro, ao time estrelado que Osvaldo Brandão teve a honra de dirigir em 1954. Porque alguns dos maiores ídolos da história corintiana estavam naquele elenco. Craques que combinavam não apenas qualidade técnica, como também a identificação com a fiel.

O grande time começava logo no gol, onde o novato Gylmar dos Santos Neves era o dono da posição. A defesa contava com o técnico zagueiro Homero, o Mago da Área, e o voluntarioso Olavo. Já a linha média respeitadíssima combinava a raça de Idário e Goiano com a maestria de Roberto Belangero. Chamado de Professor, o centromédio exibia um estilo clássico, sempre de cabeça erguida e ditando o ritmo de jogo. Segundo palavras de Nílton Santos, do alto de sua sabedoria, “foi um dos jogadores que vi bater mais bonito na bola até hoje”. O elo rumo ao mítico ataque corintiano naqueles anos.

Cláudio, Luizinho e Baltazar, três lendas daquele ataque de 1954

A linha ofensiva começava por Cláudio, o ponta direita que ainda hoje é o maior artilheiro da história do clube. O Gerente, autor do primeiro gol do ex-Palestra Itália, chegou ao Parque São Jorge em 1945, permanecendo no clube por 12 anos. Capitão e cérebro do time, era um perigo nas cobranças de falta e fez a fama de Baltazar, graças aos seus cruzamentos. O Cabecinha de Ouro, aliás, também ganhou a torcida naquele período. O centroavante demorou a vingar no clube, mas se tornou o grande artilheiro naqueles anos graças aos seus gols de cabeça – fundamento no qual, segundo ele, superou até Pelé.

Pela esquerda, o jovem Rafael surgiu como grande revelação da campanha, atuando ao lado do ponteiro Simão. E ainda havia Luizinho, talvez o mais genial daquele time. Levado da várzea ao terrão, o Pequeno Polegar encantava por seus dribles e sua ousadia. Nunca saiu da Zona Leste, o que criava uma identificação ainda maior com a torcida. Segundo com mais jogos na história do Corinthians, se eternizou ainda mais por ter anotado o gol decisivo no título do IV Centenário. E no banco ainda havia Osvaldo Brandão, que começava a fazer sua fama como um dos melhores técnicos da história do Brasil. Conhecido pela capacidade de mudar partidas e manter a coesão de seu elenco, o comandante fez crescer ainda mais a base forte com a qual já contava em sua chegada.

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Uma data muito representativa para os paulistas

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A comemoração do IV Centenário se transformou em um verdadeiro marco para São Paulo. Afinal, mais do que os festejos pelo marco da fundação da cidade, a inauguração de grandes obras públicas também ocuparam o calendário de São Paulo. Com projetos de Oscar Niemayer e Roberto Burle Marx, o Parque do Ibirapuera foi aberto ao público em agosto de 1954, assim como aconteceu a instalação do Monumento às Bandeiras nas proximidades do local. Em janeiro, também havia sido inaugurada a Catedral da Sé, erguida sobre o local da primeira igreja matriz paulistana e construída ao longo de 41 anos.

Além disso, a prefeitura organizou diversos eventos à população: bailes, desfiles, corridas, shows, apresentações circenses, queimas de fogos. E o Paulistão de 1954, encerrado apenas em 1955, veio para completar as comemorações. Diante de toda a comoção na cidade, valia bastante se intitular o campeão do centenário. “Seria uma decisão como outra qualquer, mas com a diferença de que essa valia o título do Centenário de São Paulo. Todos queriam esse título, pois quem ganhasse ficaria com a glória para os cem anos seguintes”, afirmou Gylmar, tempos depois.

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O triunfo alvinegro mais importante em um dérbi


Na história do dérbi paulistano, Corinthians e Palmeiras fizeram jogos memoráveis. Alguns deles, sempre exaltados pelos alvinegros. Porém, nenhum clássico gerou um título tão importante aos corintianos quanto aquele – orgulho e embaixadinhas de Edílson à parte. O primeiro grande duelo em 1954 garantiu à fiel o Torneio Rio-São Paulo, com Cláudio decidindo o dérbi por 1 a 0. Já no primeiro encontro pelo Paulistão, em outubro, uma partida eletrizante no Pacaembu. Com 25 minutos, os alviverdes já tinham aberto 2 a 0 no placar. O problema foi segurar Luizinho, empatando o duelo com dois gols. Já aos 28 do segundo tempo, o herói foi Baltazar, decretando a virada por 3 a 2 e a vantagem de quatro pontos sobre os rivais na liderança. O jogo realmente decisivo, entretanto, aconteceu quase quatro meses depois.

O empate era o suficiente para o título do Corinthians naquele jogo de 6 de fevereiro, válido pela penúltima rodada da competição de pontos corridos. O Palmeiras, por sua vez, precisava da vitória a qualquer custo e ainda torcer por uma combinação de resultados na rodada seguinte, quando os alvinegros pegariam o São Paulo. Para tentar melhorar a sorte, os alviverdes recorreram até mesmo a um pai de santo, que os mandou vestir camisas azuis. Não deu certo. O time de Osvaldo Brandão tratou de decidir rapidamente o jogo no Pacaembu. Logo aos 10 minutos, Luizinho abriu o placar de cabeça, do alto de seu 1,64 m, aproveitando um cruzamento de Cláudio. A deixa para que os palmeirenses partissem para a pressão. Nei empatou no início do segundo tempo. E, a partir de então, a defesa corintiana suportou o sufoco, sobretudo Gylmar, assegurando a importante taça.

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A afirmação de Gylmar como um gigante

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O respeito a Gylmar dos Santos Neves como um dos melhores (para muitos o maior) goleiro da história do futebol brasileiro é enorme. O camisa 1 sempre é lembrado por seus feitos na Seleção e também por ter defendido o Santos na década de 1960. O que muita gente se esquece é que, antes de descer para a Baixada, o craque passou uma década no Corinthians e se tornou lenda no Parque São Jorge. Consagrado principalmente por aquele título de 1954, quando o paredão tinha apenas 23 anos.

Gylmar chegou ao Corinthians por mero acaso, em 1951. Tinha vindo como contrapeso pela contratação de Ciciá, do Jabaquara, mas também para pressionar a renovação do contrato dos outros arqueiros do time. Entrou no time, mas uma derrota por 7 a 3 para a Portuguesa o marcou. A recuperação só viria no bicampeonato paulista de 1952. Já na disputa do IV Centenário, o camisa 1 se consagrou contra o melhor ataque do torneio, liderado por Jair da Rosa Pinto. O empate por 1 a 1 contra o Palmeiras se deu muito graças ao arqueiro, que fechou a sua meta e acabou como o herói no jogo do título. Tanto que, pelos milagres, recebeu o título de “supremo guardião do campeão do quarto centenário”. Virou titular da Seleção a partir de 1955, justamente sob o comando de Brandão.

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O último título antes do início da fila

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O Corinthians atravessou dez anos de jejum no Paulistão a partir de 1941. Os alvinegros conviviam com a seca enquanto o São Paulo ascendia sob o talento de Leônidas da Silva, e o Palmeiras tentava fazer frente. Conquistaram em 1950 o Rio-São Paulo, mas a redenção de verdade com a vitória no Paulista do ano seguinte. Abriu o caminho para um dos períodos mais vitoriosos do clube, com o bicampeonato em 1952, assim como outros dois títulos do Rio-SP em 1953 e 1954. Além disso, em 1953 o clube venceu o seu primeiro título internacional, a Pequena Taça do Mundo, disputada na Venezuela. Venceu os seis jogos, contra a seleção de Caracas, a Roma e o Barcelona – que contava com sete jogadores da seleção espanhola e o craque Ladislao Kubala, considerado o melhor jogador blaugrana no Século XX. A recepção dos “campeões do mundo” contou com milhares de torcedores em São Paulo.

Ainda em 1953, o São Paulo quebrou a sequência no Paulista, mas o IV Centenário ratificaria a força daquele time do Corinthians. Sob as ordens de Osvaldo Brandão, trazido da Portuguesa, os alvinegros perderam apenas dois jogos em toda a campanha. As duas derrotas aconteceram justamente para aquele que se tornaria o seu algoz nos anos seguintes: o Santos, ainda sem Pelé, mas já com Pepe, Zito e Del Vecchio. A partir do Paulistão de 1954, os corintianos amargariam os 23 anos de fila, incluindo cinco vices pelo caminho. Em 1977, no retorno de Brandão ao Parque São Jorge, a sofrida vitória sobre a Ponte Preta, fazendo surgir um novo marco na história do Corinthians.

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