A Eurocopa não é o torneio de seleções mais tradicional do mundo. Outras competições talvez tenham uma história mais longa. Por exemplo, a Copa América, iniciada em 1916, para não falar da própria Copa do Mundo. Sem contar que, algumas vezes, técnica não foi o forte de determinadas edições da Euro.

Todavia, durante sua história de 60 anos, a Eurocopa construiu a merecida fama como o maior torneio continental envolvendo seleções, após os Mundiais – por fatores como as seleções que nela marcaram época (para ficar em apenas duas, a Holanda de 1988 e a França de 2000); o regulamento enxuto e compreensível (bem diferente das mudanças constantes na Copa América) ;e a periodicidade bem definida (início das eliminatórias logo após a Copas do Mundo, torneio final disputado em anos olímpicos, sempre assim desde 1958, até que a pandemia interferisse em 2020).

A ideia de um campeonato europeu de seleções surgiu muito antes de ser concretizada: já em 1927, o francês Henri Delaunay, secretário-geral da federação de seu país, sugeriu à FIFA, em parceria com o técnico austríaco Hugo Meisl, a fundação de uma Taça da Europa, a ser disputada simultaneamente às Copas, com eliminatórias bienais. Entretanto, a iniciativa caiu no ostracismo, tanto pela ausência de uma confederação europeia de futebol, quanto pelo temor da Fifa de que a competição esvaziasse o interesse pelos Mundiais.

Somente quando fundaram a Uefa , em 1954, a sugestão foi levada adiante. O próprio Henri Delaunay a encampou novamente, agora como secretário geral da recém-fundada entidade. Com algumas alterações no projeto inicial – como desistir da disputa concomitante com as Copas e um formato menor – e incentivos como o do jornal francês L’Équipe (por sinal, o mesmo em que trabalhava Gabriel Hanot, idealizador da Liga dos Campeões), foi questão de tempo para o torneio ser oficializado. Nem mesmo a morte de Delaunay, em 1955, retardou o desenvolvimento da ideia: seu filho, Pierre, o substituiu na secretaria geral da Uefa, sendo nomeado chefe do comitê de organização da Taça das Nações Europeias (primeiro nome da Euro).

E, em 1958, o torneio foi lançado, com as primeiras eliminatórias, para que a fase final ocorresse em 1960. Como homenagem ao pai da Euro, o troféu da competição ganhou o nome de Henri Delaunay. O formato com uma fase de grupos antes do mata-mata foi implantado em 1980. Para isso, aumentou-se o número de equipes: oito. Em 1996, a Euro cresceu para 16 participantes, e surgiram as quartas-de-final. Já em 2016, o maior número de seleções, com o novo aumento para 24 times.

Em 6 de julho de 1960, há exatos 60 anos, a Iugoslávia batia a França num sensacional 5 a 4 e a União Soviética também vencia a Tchecoslováquia por 3 a 0. Aquelas partidas inauguraram a história das fases finais da Eurocopa. Aproveitando a data, a Trivela decidiu republicar a história de todas as edições da Euro, em série originalmente produzida ao blog do jornalista Vitor Birner, pouco antes da edição disputada na Áustria e na Suíça em 2008 – e reeditada aqui mesmo no site em 2012.

O especial foi revisto e ampliado, para descrever como o torneio de seleções do Velho Continente chegou até o ponto atual, em que atrai a atenção do mundo todo. Publicaremos em quatro partes, com a inclusão também das edições mais recentes, de 2012 e 2016.

França 1960: A vitória é vermelha

O primeiro campeonato europeu de seleções apresentou números modestos, ainda: somente 17 seleções nacionais decidiram participar de um torneio que era disputado num sistema diferente do que é conhecido hoje. Após playoffs de classificação, oito equipes disputavam as quartas de final. E, em todos esses duelos, o sistema era de partidas de ida e volta, em cada país. Só então, os classificados disputariam a fase final numa mesma sede, definida entre os quatro, de comum acordo, com jogos únicos.

E as quartas de final trariam uma curiosidade que marcou o torneio. Para isso, é necessário lembrar algo: vez por outra, usa-se “vermelho” como sinônimo de “comunista”. Sob esse ponto de vista, pode-se chamar a primeira Euro de “vermelha”: dos quatro que chegaram à fase final, três do Leste Europeu (Tchecoslováquia, União Soviética e Iugoslávia) enfrentaram a França, dona da casa. E o aspecto político não ficou apenas nessa curiosidade: a URSS só avançou às semis ao vencer por W.O. o duelo contra a Espanha, que seria em Moscou. A razão do W.O.: o Generalíssimo Francisco Franco simplesmente proibiu a delegação espanhola de ir à capital soviética.

A França mais uma vez justificou a fama de seleção goleadora, que ostentara a partir da Copa de 1958: contando ainda com Just Fontaine e Raymond Kopa no ataque, além de Jean Vincent, aplicou 5 a 2 e 4 a 2 na Áustria. Contando já com a liderança de Josef Masopust e Jan Popluhar, além do destaque Vlastimil Bubnik, no ataque, a Tchecoslováquia não deu a menor chance à Romênia para chegar à fase final, fazendo 3 a 0 e 2 a 0. Já a Iugoslávia teve mais dificuldades contra Portugal: foi superada em Lisboa (2 a 1, com o principal destaque luso sendo Matateu, do Belenenses), mas devolveu com juros e correção monetária na volta: foi às semifinais com um 5 a 1, em Belgrado.

Na fase final, os soviéticos provaram que não chegaram ali apenas por benefício do W.O. espanhol. Na semifinal, em Marselha, destroçaram os tchecos por 3 a 0. A outra semi foi bem mais equilibrada: em Paris, no Parque dos Príncipes, iugoslavos e franceses protagonizaram o jogo que teve mais gols até hoje na história da Euro (nove). A Iugoslávia de Drazen Jerkovic, futuro artilheiro da Copa de 1962, foi heroica, tendo virado o placar adverso de 3 a 1 para 5 a 4.

A Tchecoslováquia conseguiu bater a França na decisão do terceiro lugar, fazendo 2 a 0. Na final, também em Paris, o heroísmo foi da União Soviética. Pouco antes do intervalo, Milan Galic pôs a Iugoslávia na frente. Já no início do segundo tempo, Slava Metreveli empatou. E o goleiro Lev Yashin tratou de fazer uma jornada exemplar, levando o jogo para a prorrogação. E aí, Viktor Ponedelnik – eleito o melhor do torneio -, aos 8 do segundo tempo, deu o título da primeira Euro aos soviéticos.

Espanha 1964: Por muito tempo, a única

A fase de play-offs trouxe uma grande surpresa: a seleção de Luxemburgo, que eliminou a Holanda e avançou para as quartas de final. Nelas, a surpresa quase foi ampliada: dois empates contra a Dinamarca (3 a 3 e 2 a 2), e a decisão precisou de um terceiro jogo. Mas Ole Madsen (que fez todos os gols nos duelos contra os luxemburgueses) trouxe os daneses para a fase final, disputada na Espanha.

Os donos da casa, por sua vez, não tiveram dificuldades: numa geração comandada por Luis Suárez Miramontes (destaque da Internazionale campeã europeia naquele 1964), o time de José Villalonga contava com bons jogadores, como o goleiro José Iribar e o atacante Amancio, e eliminou a Irlanda com duas vitórias, tanto em Sevilha quanto em Dublin. A União Soviética também garantiu sem sustos a chance de tentar o bicampeonato, superando a Suécia no jogo de volta, em Moscou, por 3 a 1, após empate por um gol em Estocolmo. Finalmente, a Hungria eliminou a França para chegar às semifinais.

Na semifinal disputada no Camp Nou, os soviéticos mantiveram o sonho do bi vivo, com um 3 a 0 nos dinamarqueses, em que um dos gols foi marcado por Viktor Ponedelnik, autor do gol do título de 1960. A partida de Madri, no entanto, foi mais emocionante: apesar de sair na frente, ainda na etapa inicial, com Jesús Maria Pereda, os espanhóis permitiram o empate húngaro, com Ferenc Bene, aos 39 do 2º, o que levou o jogo à prorrogação. Mas, graças a um gol de Amancio, a cinco minutos do fim do tempo extra, os anfitriões chegaram à final.

Um dia antes da decisão, o terceiro lugar foi disputado, no Santiago Bernabéu. A Hungria provou do próprio veneno que dera aos espanhóis, nas semifinais: após Bene abrir o placar, Carl Bertelsen igualou para os dinamarqueses, a oito minutos do fim do tempo normal, forçando a prorrogação. Mas, nela, Dezsõ Novák precisou de três minutos, na segunda parte, para garantir o prêmio de consolação aos magiares: aos dois minutos, de pênalti, marcou o segundo gol, e fez o 3 a 1 final aos cinco.

Desta vez, o ditador Franco permitiu a disputa contra a União Soviética. E a final, em Madri, trouxe novo sofrimento para os espanhóis: mal Pereda abriu o placar, aos 6 minutos do 1º, Galimzyan Khusainov empatou, aos 8. Todavia, novamente aos 39 do 2º, Marcelino Martínez fez o gol da única taça graúda que a Fúria comemoraria em muito tempo. Até 2008…

Itália 1968: Na moedinha e no repeteco

No meio da transição entre o time que dera vexame na Copa de 1966 e o vice mundial em 1970, havia uma Euro para a Itália de Dino Zoff, Giacinto Facchetti e Gigi Riva, treinada por Ferruccio Valcareggi. Para ajudar aquela Azzurra, que começava a renascer, a fase final foi disputada na Bota. E, após superar a Bulgária, nos dois jogos das quartas de final, o time de Valcareggi chegou para buscar o título europeu com bastante vontade – e inegável habilidade, presente ainda em outros jogadores, como o atacante Pietro Anastasi.

Mas haveria pedras no caminho. Para começar, a Iugoslávia, vice em 60, tinha uma geração completamente renovada. Destaques não faltavam na equipe que superara a França, nas quartas: comandada por Dragan Dzajic, a equipe tinha o lateral direito Mirsad Fazlagic, e dois futuros técnicos no meio-campo: Ilija Petkovic e Ivica Osim. Era um bom começo para uma boa geração na história do futebol iugoslavo.

De quebra, a campeã mundial Inglaterra demonstrava o que ainda podia fazer. Eliminando a campeã Espanha, nas quartas, os Three Lions ostentavam o favoritismo, e a mesma base que levara o país à loucura em 1966: Gordon Banks no gol, Bobby Moore capitaneando a equipe na zaga, Bobby Charlton como cérebro da equipe, Martin Peters e Alan Ball no ataque… sem contar a União Soviética, já velha-de-guerra em Euros. Em meio à mudança de geração, a equipe comandada por Mikhail Yakuschin eliminou a Hungria, nas quartas, e ostentava muitos atletas já experientes da Euro anterior.

Na primeira semifinal, em Florença, iugoslavos e ingleses fizeram uma partida bem tensa. A ponto de ser definida somente no final: aos 41 minutos da etapa complementar, Dragan Dzajic marcou, e os iugoslavos conseguiram neutralizar os Three Lions: 1 a 0. Mas a semifinal de Nápoles… 120 minutos e nada de gols, nem italianos, nem soviéticos. Pênaltis? Não, moedinha. Pois é: os dois capitães decidiram a vaga na final ao escolher cara-ou-coroa, mediados pelo árbitro alemão Kurt Tschenscher, em pleno gramado. E deu Azzurra na final.

Na decisão do terceiro lugar, a Inglaterra conseguiu diminuir a frustração de não justificar o título mundial que ostentava, fazendo seguros 2 a 0 nos soviéticos, em Roma, com Bobby Charlton e Geoff Hurst, o mesmo cujo gol trouxera tanta confusão em 1966.

Mas o sofrimento prosseguiu na decisão, em Roma: mais 120 minutos, com 1 a 1 ao cabo deles. E a Itália só empatou a dez minutos do fim do tempo normal, com Domenghini (Dzajic abriu o placar, aos 39 minutos da etapa inicial). Moedinha de novo? Não: italianos e iugoslavos voltaram a campo dois dias depois, em 10 de junho, para um repeteco da final. Sabe-se lá como, Gigi Riva e Anastasi arrancaram fôlego para, ainda no primeiro tempo, matarem o jogo: 2 a 0 e Itália campeã europeia, comprovando a reação que seria confirmada em 1970.

Bélgica 1972: Antecipando a (falta de) surpresa

Muita gente se surpreendeu com a Holanda na Copa de 1974. E ficou mais surpresa ainda com a vitória alemã sobre a Laranja por 2 a 1 na final daquele Mundial, que deu o bi aos alemães. Se a Holanda já era a equipe revolucionária que mostraria ser, não deu para saber, já que ela não participou da fase final da Euro 72. Mas quem acompanhou o torneio – privilégio europeu, numa época em que as transmissões de rádio e tevê para outros continentes eram raras, talvez inexistentes – já conseguiu notar que o Nationalelf não era surpresa alguma na lista dos favoritos para o Mundial.

Porque ali já estava pronto, por obra e graça de Helmut Schön, aquele que é considerado por muitos o melhor time germânico de toda a história. Já estavam lá Sepp Maier, Paul Breitner, Uli Hoeness, Jürgen Grabowski, Günter Netzer (meia habilidosíssimo, fundamental na Euro, mas que acabou perdendo espaço no time que seria campeão mundial, segundo boatos, por ser desafeto do líder Beckenbauer) e, principalmente, Gerd Müller e Franz Beckenbauer.

Os alemães teriam como adversários, na fase final, uma Hungria ainda insistente em permanecer entre os grandes europeus – e com remanescentes do vice na Euro-64, como Ferenc Bene e Flórián Albert; uma Bélgica iniciando um desenvolvimento na seleção, comandada por Raymond Goethals no banco e pelo meia Paul van Himst, eleito em 2004 o Jogador Belga do Século pela federação do país, no campo; e, para variar um pouco, a União Soviética, embora já vendo o fim da geração campeã da primeira Euro e semifinalista da Copa de 1966.

Nas semifinais, poucas surpresas. Apesar de atuar em casa, os belgas não conseguiram parar Netzer e o sempre artilheiro Müller. Netzer armava as jogadas, e Müller as concluía. Ele fez os dois gols tedescos em Antuérpia. Os vermelhos batalharam, mas Van Himst não conseguiu eclipsar a principal ausência belga na Euro: o meia Wilfried van Moer, com a perna fraturada. Odilon Polleunis diminuiu para 2 a 1, mas a Alemanha chegava tranquila para a final.

Já na semi disputada em Bruxelas, no Estádio Constant Vanden Stock, húngaros e soviéticos fizeram uma partida de baixíssimo nível, com o gol da classificação russa saindo por acaso: no início do segundo tempo, Anatoli Konkov aproveitou o rebote de um escanteio e chutou. A bola desviou e matou o goleiro István Géczi. Os magiares ainda tiveram chance de empatar a cinco minutos do fim, mas o goleiro Evgeni Rudakov defendeu um pênalti, cobrado por Sándor Zämbó.

Na decisão do terceiro lugar, os belgas ainda conseguiram dar alento à sua torcida. Raoul Lambert abriu o placar, aos 24 do 1º, e Van Himst, quatro minutos depois, ampliou o marcador e fez o trigésimo gol que o tornou maior artilheiro da seleção belga. Lajos Kü ainda diminuiu no segundo tempo, mas a Bélgica ficou com o menor lugar do pódio.

Na final, disputada em Bruxelas – desta vez, em Heysel -, como que enterrando definitivamente a velha geração soviética e marcando a mudança de ordem no futebol europeu, a Alemanha foi soberana frente à URSS. Parecia jogar em casa, não só pelo futebol de alta qualidade, mas por três quartos do estádio estarem com as bandeiras tricolores do preto, vermelho e amarelo. O domínio foi tanto que, a certa altura, os alemães trocaram trinta passes consecutivos sem que os russos oferecessem resistência. Beckenbauer mostrou porque já era o protótipo do líbero: imperturbável na defesa, útil na armação, auxiliando Netzer.

Nesse cenário, até que o primeiro gol demorou: Gerd Müller, aos 27 do 1º. No segundo tempo, Herbert Wimmer ampliou e Gerd Müller marcou mais um – artilheiro da Euro, com quatro gols – e concluiu o show alemão, no que foi o primeiro título germânico. Poderia até não ser surpresa se a Holanda tivesse vencido o Mundial dois anos depois. Mas, que não foi surpresa a Alemanha levar também a Copa, não foi.