A Copa do Mundo de 1970 iniciava sua última semana com os preparativos às semifinais: Brasil x Uruguai e Itália x Alemanha Ocidental. No entanto, uma canetada da Fifa agitava bastante os bastidores entre brasileiros e uruguaios. O “fantasma de 1950” era outro assunto que tomava as manchetes, com o primeiro encontro em Copas do Mundo desde o Maracanazo. Confira mais um episódio de nosso diário especial sobre aquele Mundial:

A mudança do Azteca ao Jalisco

O assunto principal na segunda-feira antes das semifinais era a mudança no local onde Brasil x Uruguai se enfrentariam. A princípio, conforme a tabela, as duas equipes deveriam se encarar no Estádio Azteca – onde a Celeste eliminou a União Soviética. Contudo, em reunião após as quartas de final, a Fifa determinou que o clássico fosse transferido ao Jalisco. Assim, a Seleção se pouparia da viagem e poderia seguir em seu hotel, sem grandes transtornos ou mesmo sem a necessidade de se adaptar à altitude na Cidade do México. A notícia da permanência acabou comemorada feito uma vitória na concentração, segundo o relato do Jornal do Brasil.

A postura da Fifa não era exatamente inédita. Em 1966, aconteceu o mesmo. A Inglaterra deveria encarar a semifinal contra Portugal no Goodison Park, mas a entidade internacional agiu nos bastidores para manter os Three Lions em Wembley pelo quinto compromisso consecutivo. Quatro anos depois, com a alteração prevista em regulamento, até aguardava-se que ela pudesse se repetir – mas beneficiando o México, caso alcançasse as semifinais.

A posição era vista como um sinal de força da CBD no jogo político, mas também uma represália ao Uruguai. Presidente da Fifa, Stanley Rous não tinha gostado nada da atitude intempestiva dos charruas no imbróglio com o árbitro Aírton Vieira de Morais. Ante a acusação de que os uruguaios haviam subornado o brasileiro, Rous preferiu mudar de última hora a arbitragem para o jogo entre Uruguai e Suécia. A federação uruguaia esperneou e disse que havia um complô contra os sul-americanos, sem que fosse consultada sobre a alteração.

O Brasil não sabia de antemão que ficaria em Guadalajara. Segundo o Jornal dos Sports, as malas estavam prontas e a delegação negociava um voo fretado. Entretanto, a CBD havia manifestado seu interesse de continuar na cidade, embora imaginasse que sua permanência fosse improvável. Internamente, os brasileiros entendiam que jogar no Estádio Azteca poderia ser mais atrativo ao comitê organizador e que a Fifa preferiria não dar motivos de queixas sobre privilégios aos brasileiros. Mas, no fim das contas, a entidade não estava nem aí com o que pensavam as outras seleções. Como nem todos os ingressos no Jalisco estavam negociados, ao contrário do que acontecia no Azteca, a manutenção da Seleção era para impulsionar as vendas.

Na imprensa mexicana, surgiu um rumor de que o presidente uruguaio havia pedido a volta imediata da seleção, o que foi desmentido por Rodolfo Larren, chefe da delegação: “O Uruguai jamais pensou em abandonar a Copa do Mundo, simplesmente porque consideramos a Jules Rimet uma disputa puramente esportiva e porque ainda devemos destacar o respeito que nos merece o povo mexicano. Entretanto, está reafirmada nossa insatisfação por várias atitudes tomadas pela Fifa, especialmente pelo Sr. Stanley Rous, que, em nossa opinião, está prejudicando este Mundial e lhe dando outros aspectos que não sejam esportivos”.

O Uruguai, mais aclimatado à altitude da Cidade do México, não teria esse fator a seu favor. Além disso, a maior insatisfação se concentrava sobre os constantes deslocamentos da Celeste. Desde a fase de grupos, o time havia atuado entre Puebla e Cidade do México, partindo à sua terceira cidade. Os brasileiros não passariam por este desgaste, entre pegar o avião e chegar a um novo hotel num curto intervalo de três dias entre as quartas e as semis. “O jogo em Guadalajara estava tão fora dos nossos planos que até agora não temos sequer um lugar garantido para concentrar os nossos jogadores. É uma pena que o Mundial de 70, por culpa da Fifa, comece a descambar do terreno esportivo”, afirmou Larren.

Torcedores locais também não aprovam a troca

Não era só o Uruguai que reclamava da mudança de local. Responsável pela venda de ingressos, a ‘Clubes Unidos de Guadalajara’ (formada por Chivas, Atlas e Oro) protestou contra a decisão da Fifa. Os compradores estariam insatisfeitos, porque desejavam assistir a outros times em seu estádio. Segundo o jornal O Globo, eles preferiam ver Itália x Alemanha Ocidental porque “o Brasil eles já viram quatro vezes”. Havia até mesmo uma ameaça de que o Estádio Jalisco ficaria vazio, caso o público se recusasse a comprar os ingressos. Governador do estado de Jalisco, Ascensio Medina declarava que “gastamos 30 milhões de pesos no Mundial e não podemos ficar privados de ter em nossa casa um clássico do futebol europeu, tendo que contentar-nos outra vez com uma partida sul-americana que conhecemos muito bem”.

Olé até nos torcedores e jornalistas brasileiros

Escrevia o Jornal dos Sports: “Os brasileiros começaram a perder a cabeça no México. Depois da vitória sobre o Peru, muita gente nem esperou que a Fifa se pronunciasse sobre o local da semifinal com os uruguaios. Os jornalistas foram os primeiros a deixar Guadalajara às pressas, para se alojarem melhor na Cidade do México. Depois, seguiram centenas de torcedores em automóveis, ônibus e aviões. Só na noite de domingo, 250 desembarcaram na capital. Ontem cedo, eles começaram a retornar a Guadalajara lamentando tempo e dólares perdidos”.

João Saldanha, em sua coluna n’O Globo

“Quais as vantagens e as desvantagens de permanecer em Guadalajara? Bem, em primeiro lugar, a adaptação. Quem fica em casa não precisa mudar de cama. Existe também, e é muito importante, a questão do campo de jogo. A grama do Azteca é diferente da do Jalisco. Quem está jogando num campo conhece todos os lados positivos e negativos. É o que se pode chamar de ‘tocada de bola de acordo com o campo’. Mas a questão principal: aclimatação (não confundir com adaptação). Como muitos sabem, existe no México uma diferença fundamental de altitude entre Guadalajara e Cidade do México. Desta maneira, é totalmente compreensível a atitude dos uruguaios em não querer aceitar a situação de modificação. Claro que levaram desvantagem”.

Zagallo lembra do Maracanazo

Zagallo fazia parte da polícia do exército quando o Brasil enfrentou o Uruguai na partida decisiva da Copa de 1950. Ele estava trabalhando no Maracanã durante aquele duelo e viu tudo das arquibancadas. Revisitou as memórias ao Jornal dos Sports: “É a pior recordação de toda minha vida. O silêncio que se seguiu ao segundo gol dos uruguaios continua gravado na minha mente. Espero que desta feita tudo acabe de uma vez por todas e que o povo brasileiro exulte de alegria em frente às televisões, apagando aquela triste imagem do passado distante, mas que sempre nos persegue no presente”.

“Se o Brasil tivesse vencido aquela Copa, a Jules Rimet estaria conosco desde 62 e eu a teria conquistado como jogador. Agora tenho fé de que a conseguiremos de qualquer maneira, pois temos uma equipe superior e que está preparada para tudo. E além do mais não acredito que eles abusem da autoridade do juiz. Nossos jogadores não aceitarão as provocações se estas ocorrerem e também saberão impor-se aos adversários”, complementou.

Gérson lembra do Maracanazo

“Eu fui às ‘Touradas em Madri’, os 6 a 1 sobre a Espanha. Naquele tempo tinha nove anos e já gostava de futebol. Chorei em casa quando papai não me deixou ir junto para ver a decisão com o Uruguai. Ele disse que era muito perigoso, que poderia ocorrer algum acidente comigo. Por isso me conformei e permaneci em casa. Foi até bom. Não gostaria de ver o Brasil perder o título no Rio. Aquela derrota nos serviu de lição. Creio que o futebol brasileiro já superou essa fase há muito tempo – se não me engano, no Sul-Americano de 59, em que ganhamos deles na bola e no pau. Psicologicamente, não influirá em nada. Eles poderão fazer o diabo, que vamos fazer tudo para vencê-los, sem nos preocuparmos com a possível catimba”, rememorou, ao Jornal dos Sports.

Zagallo, sobre Pelé e Tostão

Quando chegou à Seleção, Zagallo tinha resistência em escalar Pelé e Tostão juntos. A percepção mudou durante a preparação e chegou ao ápice durante o Brasil x Peru, com ótimas tabelas entre os dois atacantes. O Velho Lobo se rendia, a’O Globo: “Todos dizem que eu era teimoso, mas quando vejo que estou errado, não tenho medo em mudar de opinião. No caso de Tostão, foi justamente isso que aconteceu. Afinal, convenci-me que ele poderia jogar ao lado de Pelé e estou satisfeito com as suas atuações no Mundial”.

Everaldo fala sobre os uruguaios

“Estou acostumado às viagens a Montevidéu e a receber equipes do Uruguai lá no Rio Grande do Sul. É certo que eles melhoraram ultimamente. Porém, da maneira que nós estamos jogando, eles tinham que fazer milagres. Não é excesso de otimismo, é opinião franca. Estou plenamente recuperado, só espero ordens do Zagallo, disposto a contribuir para mais uma grande vitória”, analisou o lateral, ao jorna O Globo.

Uruguai não muda suas características

Às vésperas da semifinal, o técnico Juan Hohberg comentava a partida ao Jornal dos Sports: “Não posso prometer ao povo uruguaio que iremos ganhar a Copa. O que prometo é luta, muita luta. Garanto que por falta de esforço não deixaremos de ganhar a Copa. O futebol uruguaio é, geralmente, lento. O que fizemos contra os soviéticos foi justamente o que determinei: tocar a bola para cansar o adversário, para assim poder sair no segundo tempo dando tudo para conseguir o gol. Contra o Brasil, ainda estou pensando. É o que já disse: jogamos o melhor que pudemos contra os soviéticos e esperamos fazer o mesmo contra o Brasil”.

A visão sobre Hohberg

Treinador do Peñarol, em turnê pelo Brasil, Ernesto Ledesma criticava o trabalho de Hohberg à frente da Celeste: “Nacional e Peñarol formam, como sempre, a base da seleção, cedendo 85% do elenco que está no México. A federação viu-se entregue a um problema político às vésperas do certame. Se convocasse o treinador do Nacional, certamente teria problemas para conseguir os jogadores do Peñarol e vice-versa. Por isso a solução encontrada foi buscar Hohberg, que dirige um clube pequeno. Não bastasse aquela velha briguinha entre Nacional e Peñarol, que sempre foi maléfica ao nosso futebol, Hohberg não pôde contar com os jogadores do Peñarol, muitos deles titulares da seleção, pois eles estavam atuando pelo clube na Libertadores. A seleção saiu para um giro pela Europa e teve péssimos resultados, o que veio a aumentar o pessimismo de todos. Além disso, na convocação, ele se esqueceu de alguns craques. Poderíamos citar como exemplos Gonçalves, Viera e o próprio Forlán”.

Ataque contra defesa

Histórico capitão do Peñarol nos anos 1960, Néstor Gonçalves foi outro a avaliar o Brasil x Uruguai do Jalisco: “O Brasil já tem aquela prevenção em jogos contra os uruguaios e nós também entramos em campo sabendo que sempre haverá uma séria rivalidade. E isso vai acontecer de novo, na semifinal. O quadro uruguaio é fraco, quase ridículo no aspecto ofensivo, mas tem uma ótima defesa. Justamente o inverso do Brasil, que demonstrou excelentes condições do meio-campo para frente, mas uma defesa cheia de falhas. O goleiro Félix, apesar de criticado, me aprece bom, mas muito abaixo do nosso. Mas o clima psicológico vai ser o fator principal: quem demonstrar mais tranquilidade levará certamente uma enorme vantagem”.

Didi projeta o futuro

“Eu passei quatro anos no Peru dando um duro tremendo, ganhando experiência, porque queria ser um bom técnico. Hoje tenho consciência que sei dirigir bem um time. Meu trabalho à frente da seleção peruana está aí como prova. Digo sem vaidades que me orgulho bastante, porque foi um trabalho de altos méritos. Quando me escolheram e selecionei os jogadores que desejava, fui malhado de todo o jeito porque tinha chamado jogadores que os jornalistas nunca tinham dado importância. Quase ninguém acreditava que o Peru passaria nas Eliminatórias. Depois, fui elogiado, condecorado, virei até comendador do esporte peruano. Tudo isso me alegra, porque representa o reconhecimento à orientação que dei ao futebol peruano. Eles foram gentis, carinhosos e sou muito grato. Mas vou tentar agora outra etapa como técnico. Não deverá ser no Brasil, porque o plantei para colher bastante e o mercado de trabalho do Brasil não pode pagar o que quero ganhar”, apontou Didi, técnico da seleção peruana, ao Jornal do Brasil.

Helmut Schön vibra

Técnico da Alemanha Ocidental, Helmut Schön falava sobre a virada contra a Inglaterra, ao Jornal dos Sports: “Eu sempre tenho fé na minha equipe, porque sei até onde podemos chegar. Continuei confiante até mesmo quando os ingleses marcaram o segundo gol. Eu sabia que nossa seleção tinha condição de virar o jogo, como aconteceu. A saída de Bobby Charlton pode ter nos favorecido, não vou negar, mas mesmo com ele em campo melhoramos. Com certeza houve razões para sua substituição, mas este assunto só pode ser esclarecido por Alf Ramsey. Uma coisa que eu quero deixar clara é que nós vencemos pelo nosso esforço, como em 54”.

O comandante alemão também se posicionou sobre o espírito de revanche contra a Inglaterra, após o vice no Mundial anterior: “É difícil fazer uma comparação, porque o jogo em Wembley foi muito diferente deste. Lá nós tínhamos tudo adverso. Aqui foi tudo igual para os dois e por isso não perdemos. São dois jogos que não podem ser comparados. Quanto ao espírito de forra, este sempre foi o nosso pensamento. Provar que fomos prejudicados em 66 e que tínhamos condições de vencê-los. Temos mais futebol, sempre tivemos, e a prova está aí. Foram quatro anos de espera, mas esta vitória vale tanto quanto a conquista do Mundial para nós”.

Alf Ramsey lamenta

Técnico da Inglaterra, Alf Ramsey dava sua opinião sobre a queda diante da Alemanha Ocidental, de virada: “Isto nunca deveria ter ocorrido com nossa defesa. Nenhuma equipe internacional, especialmente a Inglaterra, pode perder uma vantagem de dois gols. Isto é inédito na história da Inglaterra. Vá lá o primeiro gol de Beckenbauer, mas o de Seeler nunca poderia explicar. Foi imperdoável deixá-lo receber sozinho frente à nossa meta. As condições físicas das duas equipes eram iguais. Os métodos utilizados pelas duas seleções foram similares e, desde o momento em que fizemos 2 a 0, deveríamos ter ganho. Foi azar o que nos aconteceu. Eles reagiram bem e imprimiram o ritmo deles, também”.

Gigi Riva fala sobre a Alemanha

Destaque da Itália, Gigi Riva comentava sobre o adversário das semifinais, a Alemanha Ocidental. A’O Globo: “Pior será agora contra os alemães. Não deve ter sido mole virar o jogo contra a Inglaterra. A turma lá de trás vai ter um trabalho louco, pois os alemães estão fazendo muitos gols. Acredito que tanto para nós quanto para eles será difícil o triunfo. O que existe é que cada um tem confiança em si. Eu, por exemplo, acredito na nossa equipe, mas não posso deixar de dizer que respeito muito o quadro da Alemanha”.

Mazzola ou Rivera

Depois da boa participação de Gianni Rivera na armação da Itália durante o segundo tempo contra o México, mais uma vez o técnico Ferruccio Valcareggi era perguntado sobre suas preferências no setor, onde também havia Sandro Mazzola: “Sempre me perguntam sobre Rivera ou Mazzola. Uma vez coloquei os dois juntos e outra Rivera só. Na verdade, gostei de Rivera contra o México. Da maneira que nós jogamos, ter dois jogadores clássicos no meio-campo não dá. Mas, apesar da Itália possuir sua maneira própria de jogar, é preciso termos inúmeras variações para cada partida. Contra a Alemanha precisaremos de muito mais do que possuíamos antes. É a partida mais difícil até o momento”.

Orgulho mexicano

Treinador do México, Raúl Cárdenas comentava a atuação valente de seu time contra a Itália, apesar da eliminação. A’O Globo: “Não nos faltou futebol para enfrentar os italianos, faltou-nos apenas mais experiência, mais madureza, nada mais do que isso. A desvantagem, o entusiasmo do público e a vontade de ganhar acabaram tomando conta de todos e a derrota veio logo. Apenas isso nos tirou do campeonato. Futebol mostramos que tínhamos. Muitos falam que a Itália só jogou contra nós. Que se tivéssemos sorte, poderíamos ter outro adversário. Entretanto, isso de nada vale agora, pois já estamos de fora. O que vale mesmo é que soubemos representar o futebol mexicano e caímos diante de um dos favoritos”.