50 anos do Celtic campeão europeu: Os Leões de Lisboa, um dos maiores contos de fada que o futebol já produziu

Lisboa é muito mais que uma mera referência geográfica à torcida do Celtic e, especialmente, àqueles que moram em Glasgow. A simples menção da capital portuguesa carrega consigo um turbilhão de sensações e de lembranças. É o palco da conquista mais importante dos Bhoys, a incensada decisão da Copa dos Campeões de 1967, que completa 50 anos nesta quinta. Mas a representatividade daquele feito vai muito além. É um orgulho de um povo sobre a sua concepção de futebol. A trajetória de garotos da região que estabeleceram um marco. O dia que carrega consigo diversas histórias sobre paixões e superações. Um dos maiores contos de fadas que o futebol já produziu, e que permanece tatuado no peito de cada um dos torcedores alviverdes, novos ou velhos, que contam a epopeia de cor. Que sabem que o seu reconhecimento como nação futebolística dependeu do esforço daqueles 11 conterrâneos e de seu mestre em Lisboa. Os rapazes que viraram leões e, assim, lendas.

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O fato concreto de que o Celtic foi o primeiro britânico e também o primeiro não-latino a conquistar a Copa dos Campeões costuma ser bastante mencionado, e devidamente exaltado. Mas só o dado frio não traz à tona a grandiosidade da façanha. Afinal, se os escoceses sempre tiveram motivos para se orgulhar de seu futebol, faltava mesmo um fato que pudesse ser colocado de maneira absoluta em toda a Europa. Que não deixasse dúvidas sobre a supremacia construída pelo time de Jock Stein.

A Escócia tinha criado o futebol-arte. O jogo de passes, instituído para valorizar a criatividade dos jogadores e a fluidez sem depender da força física, era patenteado pelos escoceses. Os “professores”, mais habilidosos que os jogadores ingleses e que, assim, impulsionaram o profissionalismo no esporte. Que revolucionaram não só na bola, mas também nas ideias, por aquilo que seus mentores concebiam sobre o jogo. E, a partir destes, os escoceses ensinaram a beleza ao resto do mundo, com pioneiros que se espalharam inclusive pela América do Sul e pelo Leste Europeu. Mas qual era a grande glória do futebol escocês, em si? As histórias dos craques e as lições valiosas recheiam livros, mas não salas de troféus. Vitórias apoteóticas sobre os ingleses, que inflavam o peito pela rivalidade, mas não diziam muito além da ilha? Conquistas domésticas e aparições esporádicas nos grandes torneios?

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Para que a Europa ficasse aos pés dos escoceses, faltava “A Taça”. Até porque a autoestima do futebol local não era das mais altas desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com a integração maior no cenário internacional. A Tartan Army se acostumou a ver sua seleção se ausentar da Copa do Mundo e, quando muito, ser uma mera figurante. Bater na Inglaterra era o que mantinha a honra, mas não merecia maiores reverências do continente. Por isso mesmo, os Leões de Lisboa representam um rompimento. O momento em que a excelência do jogo escocês o glorifica. E da melhor maneira possível, seguindo os cânones do passado. Praticando um estilo ofensivo, e enraizado, proporcionado pelos rapazes de Glasgow. O futebol total antes mesmo do Futebol Total.

Diante deste cenário, a repercussão daquela taça extrapola o futebol em si. É a injeção de orgulho em toda uma torcida (e, de certa forma, no restante da nação) em anos transformadores. A cidade fabril e endurecida virava símbolo da vanguarda. A população operária e de baixa escolaridade recebia os louros por expressar sua capacidade acima do comum. Um povo marginalizado por sua religião ou por suas origens podia encher a boca para falar de sua conquista. E mesmo os sectarismos existentes na sociedade se rompiam dentro do elenco, com membros de diferentes crenças unidos como irmãos. Sobretudo, a Escócia deixava de ser uma terra esquecida mais ao norte para acabar aclamada. Muito por um jogo cujo significado não se contém em si, por homens que não passarão um dia de suas vidas sem serem exaltados. E, se depender dos torcedores do Celtic, os aplausos perdurarão pela eternidade.

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Explicar a formação do Celtic campeão europeu não é um processo tão simples. Afinal, não é a promoção dos jogadores ao elenco principal ou mesmo a chegada deles às categorias de base que satisfaz o enredo. O início varia conforme suas certidões de nascimento: 14 dos 15 jogadores relacionados para a decisão europeia nasceram e cresceram num raio de apenas 10 milhas (16 quilômetros) de distância de Parkhead, casa dos Bhoys. A exceção era apenas Bobby Lennox, mas que não veio de tão longe, 20 milhas a mais. E dentro deste perímetro estava também Jock Stein, o grande responsável por transformar o grupo de vizinhos, todos de origens proletárias, em grandes campeões.

Não existia líder melhor para encabeçar a história. Jock Stein resume muito bem o contexto de Glasgow e a realidade do Celtic naquelas décadas. Nascido em uma família humilde em Burnbank, trabalhou em uma fábrica de tapetes por um breve período, antes de se embrenhar nas minas de carvão. O que não o afastou do gosto pelo futebol, conciliando o ofício com a carreira de jogador. O defensor se profissionalizaria apenas aos 27 anos, e já aos 29 assinou com o Celtic. Veio apenas como uma peça para o segundo quadro, mas uma série de lesões abriram caminho para que ele ganhasse uma chance, agarrada com todos os dedos. A vontade e a liderança logo o transformariam em capitão, referência na equipe que faturou a dobradinha nacional em 1953-54. Conquista que motivou a diretoria a levar seus jogadores para assistir à Copa do Mundo na Suíça. Por lá, o futuro treinador pôde acompanhar de perto o impacto produzido pelos Mágicos Magiares da Hungria, uma de suas principais influências conceituais. Ao seu lado, estava Sean Fallon, o parceiro de zaga de quem recebeu a braçadeira. Tempos depois, seria o braço direito do futuro treinador.

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A caminhada de Jock Stein ao banco do Celtic, entretanto, seria longa. O defensor pendurou as chuteiras em janeiro 1957 e, meses depois, seria convidado a treinar o segundo quadro dos alviverdes. A missão do novo comandante era bem clara: preparar uma nova geração de talentos que pudesse elevar o nível do clube. As taças eram raridade em Parkhead naquele momento. O Campeonato Escocês de 1954 encerrou um jejum de 16 anos, que se seguiria a outro de 12. Além da liga solitária, os Bhoys conquistaram apenas mais duas Copas e duas Copas da Liga entre as décadas de 1940 e 1950, bem como a Copa da Coroação, torneio disputado por ingleses e escoceses em maio de 1953 para celebrar o início do reinado de Elizabeth II. Capitão em boa parte dessas glórias, Stein era visto como o homem capaz de incentivar as novas gerações.

O trabalho de Jock Stein no setor de formação do Celtic não demoraria a chamar atenção. Logo em sua primeira temporada, conquistou a Copa Reserva, competição dedicada aos times B do país. Na decisão, os Bhoys não tiveram nenhuma piedade do Rangers, ao enfiarem 8 a 2 sobre os arquirrivais. Outro marco importante daqueles primeiros meses foi convencer a diretoria a adquirir um centro de treinamentos próprio para as atividades. Assim, os alviverdes adquiriram Barrowfield, que segue servindo como base do clube.

Stein levava em frente um trabalho bastante autêntico no segundo quadro e na coordenação das categorias de base. Não aceitava qualquer interferência da diretoria ou de Jimmy McGrory, ídolo histórico que ocupava o cargo de técnico desde meados da década de 1940. Todavia, o ex-capitão sentia uma falta de prestígio por aquilo que fazia. Os resultados e o estilo de jogo da segunda equipe superavam bastante o nível de qualidade exibido pelo time principal. Não havia reconhecimento. Pior, as perspectivas de substituir McGrory eram mínimas. Desde o final do Século XIX, quando instituiu o cargo de técnico, o Celtic só havia nomeado três treinadores. Todos ex-jogadores e, sobretudo, todos católicos. A origem protestante de Jock Stein era um empecilho claro, em tempos de sectarismo ardente. Sua transferência ao Celtic como jogador já tinha afastado pessoas queridas e nunca fora aprovada por seu pai. Mas a ascensão como técnico era barrada pelo próprio clube.

Após receber o recado da diretoria, de que já havia atingido o mais alto cargo possível como protestante, Jock Stein resolveu tomar o seu rumo. Homem de convicções fortes e altos valores éticos, não se submeteria a tamanho autoritarismo. Não submeteria o seu próprio futuro como treinador a uma barreira religiosa, preferindo caminhar pelas próprias pernas em outros clubes. Por mais que tenha feito declarações de amor em sua aposentadoria como jogador, isso não podia interferir em suas possibilidades. Em março de 1960, assumiria o comando do Dunfermline, figurante na elite do Campeonato Escocês. De qualquer maneira, já tinha semeado as sementes para o seu retorno triunfal a Parkhead tempos depois.

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A passagem de Jock Stein pelo setor de formação deu espaço a alguns jogadores que brilhariam em suas mãos na década seguinte. O primeiro dos titulares em Lisboa a se juntar ao Celtic foi Bertie Auld. Aprovado em um teste logo depois de completar 17 anos, o rapaz crescido em Maryhill, nas vizinhanças da Universidade de Glasgow, começou sua trajetória como ponta. Entretanto, logo se transformaria em um refinado meio-campista. Emprestado ao Dumbarton ainda na adolescência, logo seria alçado ao time principal, o que fez com que tivesse menos contato com Jock Stein em sua passagem pelo quadro reserva. De qualquer maneira, o jovem genial e genioso não teria tanta vez em Parkhead, negociado em 1961 com o Birmingham, por seu temperamento forte. Breve interlúdio.

A principal pérola de Jock Stein em seu primeiro trabalho como treinador estava no miolo de zaga. Naquele momento, já entraria em contato com aquele que se personificaria sua voz em campo. Mesmo vindo de uma família simples, descendente de irlandeses e lituanos, Billy McNeill demonstrava uma inteligência acima do comum – de quem, ao longo da campanha na Champions, fez questão de participar das entrevistas coletivas fora de casa sempre falando na língua local, de português ao tcheco. Um líder nato, descoberto em uma equipe juvenil da região. Assinou seu primeiro contrato em agosto de 1957 e se juntaria para auxiliar a campanha vitoriosa na Copa Reserva. O defensor primava pela solidez, sobretudo no jogo aéreo, ainda que o papel como coração do time falasse mais alto.

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Meses depois, McNeill conheceu aquele que se transformaria em seu grande parceiro no miolo da zaga. John Clark tinha uma vida marcada por dificuldades, especialmente pela morte de seu pai, em um acidente ferroviário. Acertar com o Celtic, vindo do Larkhall Thistle, foi como ganhar na loteria ao jovem de 17 anos. Bastante empenhado em seu trabalho, atuou no início da carreira como lateral, passando ao miolo de zaga apenas no retorno de Jock Stein ao elenco principal. Cobrindo o capitão e carregando o piano em diversos momentos, ganharia o apelido de “A Escova”, por limpar o caminho.

Em fevereiro de 1959, veio o homem que selou a mitificação dos Leões de Lisboa. Steve Chalmers já tinha 23 anos quando passou a vestir a camisa listrada, buscado do Ashfield. Criado na mesma região que Jimmy McGrory, o jovem cumprira o sonho de seu pai, frustrado por não ter sido aprovado em teste pelos Bhoys durante os seus tempos de jogador. Além disso, a mera possibilidade de Chalmers atuar profissionalmente já era uma grande vitória, considerando que ele esteve entre a vida e a morte ao final da adolescência. Os médicos chegaram a lhe dar três semanas de vida, por causa de uma meningite tuberculosa. Superou a doença e se tornou um centroavante veloz, com ótima leitura de jogo e letal nos arremates.

Por fim, trazido do mesmo colégio em que McNeill foi descoberto, Bobby Murdoch era mais uma opção para o meio de campo. O garoto de 15 anos desembarcou em Parkhead em outubro de 1959, assinando apenas um contrato parcial, já que trabalhava na indústria metalúrgica. Não demorou para que o futebol se tornasse o único ofício e sua vocação. Foi outro que atuava em uma posição diferente, até ser recuado por Jock Stein anos depois, para atuar ao lado de Bertie Auld. E, realmente, se encontrou na meia-cancha, completo para a função – mesmo que por vezes fora de forma. A precisão nos passes era um dos grandes trunfos para que a máquina alviverde esmerilhasse os adversários.

Além destes, aportariam também outros nomes notáveis do esquadrão, embora não tenham entrado em campo em Lisboa. Goleiro reserva durante boa parte dos anos 1960, John Fallon assinou com os Bhoys em dezembro de 1958, semanas depois de Charlie Gallagher. O ponta de lança passou por outras categorias de base e equipes amadoras da região, até ser levado pelo clube do qual era torcedor fanático. Tinha muita qualidade para bater na bola, e com os dois pés, mas a falta de agressividade e a inconstância pesavam contra. Ainda assim, servia como uma peça útil no elenco.

Já em 1959, uma das novidades foi John Hughes, centroavante de 16 anos que logo se tornaria regular no time principal e um dos favoritos da torcida. O ‘Yogi’, apelido recebido em referência ao personagem Zé Colmeia, teve papel fundamental em toda a campanha na Copa dos Campeões, disputando cinco partidas. Desafortunadamente, sofreu uma lesão no tornozelo pouco antes da decisão, sem poder entrar em campo. No mesmo ano, outro reforço foi o lateral Willie O’Neill, de 18 anos. Predisposto a atacar, foi titular em parte da temporada histórica, mas acabaria preterido nos principais momentos.

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A evolução das pérolas que surgiam nas categorias de base foi natural. Ainda que não rendessem grandes resultados no time principal. Durante o final dos anos 1950 e o início dos 1960, o Celtic se acostumou com campanhas modestas. Não passou da terceira colocação do Campeonato Escocês e, no máximo, alcançou duas finais da Copa da Escócia, sem erguer a taça. Ao menos, os Leões de Lisboa iam se formando aos poucos. E, dentro do processo de montagem do elenco, precisa ser destacado o papel de Sean Fallon. O Homem de Ferro, parceiro de zaga de Jock Stein durante a década de 1950, seguiu ao seu lado como assistente no segundo quadro. E a saída do antigo capitão elevou a influência do antigo parceiro dentro da hierarquia em Parkhead.

Dirigindo os reservas e, a partir de 1962, servindo também como assistente de Jimmy McGrory na equipe principal, Fallon tinha enorme trânsito com o presidente Bob Kelly. Não à toa, boa parte das contratações no período tiveram o seu dedo. A constituição da espinha dorsal dos futuros campeões era avaliada por ele. Dos 11 titulares em Lisboa, apenas Willie Wallace seria trazido após o retorno de Stein à casamata alviverde.

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Neste sentido, o ano de 1961 seria decisivo ao Celtic. Num intervalo de apenas três meses, o clube assinou com três dos maiores ídolos da história de Parkhead. O primeiro a ser anunciado foi Bobby Lennox, então com 18 anos, em contrato provisório. O atacante não gozou de muito moral em seus primeiros anos pelos Bhoys, mas se transformaria depois da chegada de Jock Stein. Viraria um ponta esquerda implacável, de enorme velocidade e bastante prolífico. Fundamental dentro do sistema de jogo ofensivo, encerrou a carreira como segundo maior artilheiro da história do clube.

Semanas depois, o acerto viria com Tommy Gemmell, também de 18 anos, que estava em uma equipe amadora da região. O lateral passou por um período de testes, treinando no Celtic, até ganhar a oportunidade de se juntar definitivamente ao elenco. Era um jogador bastante agressivo com a bola, apoiando demais pelo flanco e também se apresentando para definir as jogadas. O chute potente, aliás, era sua característica mais famosa, que o colocou na condição de cobrador de faltas e pênaltis da equipe. Além disso, Lisboa guardaria um papel especial ao defensor, com o primeiro tento dos Bhoys na ocasião.

E no mesmo dia em que Gemmell assinou, conheceu aquele que é considerado pela maioria dos torcedores do Celtic como o maior jogador que já vestiu a camisa alviverde. Jimmy Johnstone cresceu batendo bola na região de Viewpark e se transformou na grande esperança da família quando seu irmão mais velho, Pat, que vinha sendo especulado pelo Celtic, sofreu uma séria lesão e precisou se afastar do futebol. Aos oito anos, já passou a ser tratado como uma pérola. Nos tempos de colegial, se destacava nas competições nacionais e, durante uma viagem a Manchester, teve a oportunidade de assistir a Sir Stanley Matthews, seu ídolo. Contagiado pelo momento, devorou a autobiografia do veterano e passou a replicar suas técnicas para melhorar suas habilidades. Transformou-se em um ponta tão deslumbrante quanto, de dribles magníficos e lances inacreditáveis.

O sucesso precoce, todavia, quase privou Johnstone do Celtic. O Manchester United cresceu os olhos sobre o garoto em outra viagem à cidade. Mas ele nunca se tornaria um Busby Babe, graças ao capelão de seu colégio, torcedor fanático dos Bhoys. Ele atravessou o caminho dos Red Devils, dizendo que o prodígio já estava próximo do acerto com o clube escocês. Blefe que, aí sim, gerou uma oportunidade para que o ponta fosse observado em Parkhead. Depois de permanecer treinando duas vezes por semana nos alviverdes por quase um ano, enfim ganhou sua primeira chance em partida do time reserva. Vitória por 4 a 2, com um gol e três assistências do adolescente. Firmou seu primeiro contrato na mesma noite.

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A partir de então, o Celtic tinha sua base formada, se aclimatando ao clube e desenvolvendo o seu talento. Mas nada que funcionasse, em uma equipe mal treinada. Jimmy McGrory possuía um respeito imenso pelo homem que era e pelo craque que tinha sido antes. Mas seu desempenho com a prancheta não impressionava nem um pouco. A gota d’água veio na temporada 1964-65. Com os Bhoys ocupando posições intermediárias no Campeonato Escocês, o velho ídolo não resistiu no cargo. Em março, McGrory recebeu o bilhete azul. A ideia do presidente Bob Kelly era passar o cargo ao assistente Sean Fallon, seu homem de confiança. Contudo, a torcida acreditava que o nome certo ao cargo era outro: Jock Stein, então no comando do Hibernian.

Fallon não se sentiu preterido por Kelly acabar cedendo à pressão. Pelo contrário, reencontrava o velho amigo e seria empossado por ele como seu braço direito, responsável direto por observar jogadores, assim como auxiliar para os treinamentos do primeiro time e para gerir o elenco. Além do mais, a experiência de Stein nos cinco anos em que passou longe de Parkhead o referendava. Primeiro, no Dunfermline, o treinador tinha transformado a equipe modesta em uma força nacional. Conquistou a inédita Copa da Escócia em 1961 (com uma vingança particular contra o Celtic na decisão) e chegou ao quarto lugar no Campeonato Escocês, melhor posição do clube até então. Também fez estrago nas copas europeias, chegando a eliminar o Everton na Taça das Cidades com Feiras. Já no Hibernian, em poucos meses, salvou o time do rebaixamento e o colocou na briga pelas primeiras posições na temporada seguinte. Venceu um amistoso contra o poderoso Real Madrid, então pentacampeão espanhol, e registrou o melhor aproveitamento de um técnico na história do clube. No entanto, o chamado do Celtic o fez voltar para casa.

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Quando ainda estava em Edimburgo, Jock Stein reforçara o Celtic ao intermediar o retorno de Bertie Auld. Mas, se todos se enchiam de esperanças com o retorno do técnico, uma exceção estava na meta dos Bhoys. Antigo ídolo do Newcastle, Ronnie Simpson era o goleiro do Hibernian até setembro de 1964 e tinha deixado o clube por entrar em rota de colisão com o comandante. Já pensava em fazer as malas novamente quando o retorno de Stein foi anunciado. Só que ambos tiveram a grandeza de espírito de passar por cima do imbróglio. O veterano de 34 anos serviu de referência no time com tantos jovens. Além disso, auxiliava no estilo de jogo, por ter uma qualidade com os pés acima do comum para alguém de sua posição. No meio da mesma temporada de reviravolta, outro a chegar foi o lateral Jim Craig. Formado em odontologia na Universidade de Glasgow, assinou o seu primeiro contrato profissional aos 22 anos, após se destacar nas equipes estudantis. Jogador esforçado, logo seria aproveitado.

Jock Stein demorou semanas para conquistar seu primeiro título em Parkhead. No final de abril, o time derrotou o Dunfermline por 3 a 2 e faturou a Copa da Escócia, primeira taça dos Bhoys em sete anos. Todavia, o final de temporada no Campeonato Escocês foi inconstante, a equipe terminando num modesto oitavo lugar. Um ponto fora da curva, até que o Celtic voltasse a dominar a liga, de uma maneira como nunca tinha feito antes. Se alguém pedir um exemplo de como um treinador pode causar uma reviravolta nas ambições de um clube, Stein serve de belíssimo exemplo. Depois de uma décadas sem títulos na competição, os alviverdes enfileiraram as nove taças seguintes. Próximo dos jogadores, apesar do estilo duro, o comandante sabia tirar o melhor de cada um deles. Não à toa, diversos mudaram de posição a partir de seu retorno. Alguns deles, velhos conhecidos do segundo quadro. Outros, que seriam eternamente gratos pela guinada que sofreram em suas carreiras.

Para 1965-66, o principal reforço do Celtic se encaixou no ataque. Joe McBride foi a primeira contratação de Jock Stein, comprado junto ao Motherwell por £22 mil. E, por mais que não tenha jogado em Lisboa, auxiliou demais na caminhada do clube até lá. O artilheiro protagonizou os Bhoys na reconquista do Campeonato Escocês. Visto como o herdeiro de Jimmy McGrory na linha de frente, anotou 43 gols na temporada. O ataque arrasador, inclusive, teve enorme peso na regularidade da campanha. Somando dois pontos a mais que o Rangers, os alviverdes confirmaram a volta ao topo batendo o Motherwell na rodada final, graças ao tento de Bobby Lennox. Além disso, o time ainda foi vice da Copa da Escócia, faturou a Copa da Liga e atingiu as semifinais da Recopa Europeia, eliminado pelo Liverpool de Bill Shankly, amigo pessoal de Stein.

O título causou uma enorme comoção em Glasgow. O trabalho, porém, não podia parar. Cinco dias depois, o Celtic estava em campo do outro lado do Oceano Atlântico. Os Bhoys iniciaram uma excursão pela América do Norte, que passou por Bermudas, Canadá e Estados Unidos. Ao longo da turnê, os escoceses massacraram equipes locais e fizeram jogos parelhos contra outros clubes europeus, incluindo Tottenham, Bayern de Munique e Bologna. Mas, mais importante que os resultados, foi a noção de conjunto que aquela viagem provocou. Jock Stein realizou ajustes no time, enquanto os jogadores se aproximaram. Força coletiva que potencializou ainda mais tantos talentos individuais.

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Inteiros após as férias, os jogadores do Celtic mostraram que aquele seria um ano diferente logo no primeiro jogo da pré-temporada. Em Parkhead, os Bhoys golearam o Manchester United por 4 a 1 – com Sir Matt Busby, Bobby Charlton, George Best, Denis Law e outras lendas do lado oposto. Uma injeção de ânimo considerável. E as vitórias se tornaram corriqueiras no começo daquela temporada de 1966-67. O time ganhou os seus 13 primeiros compromissos, incluindo aí dois triunfos na Old Firm, contra o rival Rangers. No final de setembro, enfim, começaria a empreitada europeia. Pela primeira vez em sua história, os alviverdes disputariam a Copa dos Campeões.

Apesar da ótima forma, o time não via a competição continental como sua prioridade. “No começo da temporada, a Copa Europeia não estava em nosso horizonte. Nós pensávamos que apenas iríamos aproveitar a aventura”, declarou Bobby Lennox, em 2007, à revista FourFourTwo. Assim, sem qualquer peso da pressão, os escoceses receberam o Zürich em Parkhead, diante de 47 mil torcedores. Treinados por László Kubala, os campeões suíços tinham investido em sua equipe, mas não exibiram nada além de um futebol defensivo. Gemmell (em chutaço da intermediária) e McBride determinaram a vitória por 2 a 0. Na semana seguinte, o reencontro na Suíça contou com novo triunfo escocês. Gemmell anotou mais dois gols, enquanto Chalmers fechou a conta em 3 a 0. Resultado dedicado a Jock Stein, que completava 44 anos naquele dia.

O Celtic sobrava naquele início de temporada. Foram 23 vitórias consecutivas, contando também a pré-temporada, até o primeiro tropeço, em empate com o St Mirren no início de novembro. Já no final do mês, o time voltava a campo pela Champions, num desafio maior pelas oitavas. Pegaria o Nantes, atual campeão francês e com quatro jogadores convocados aos Bleus. Sob uma chuva torrencial no Stade Marcel Saupin, os anfitriões saíram em vantagem. Todavia, os alviverdes não se intimidaram e buscaram a virada. McBride empatou no primeiro tempo, enquanto Lennox e Chalmers decretaram o 3 a 1 na segunda etapa. Placar que se repetiria em Glasgow, com Jimmy Johnstone arrebentando. O ponta fez o primeiro tento e deu duas assistências, para Chalmers e Lennox.

Naquele mesmo dia, o último dos Leões de Lisboa aportaria em Parkhead. Willie Wallace era um desejo antigo do Celtic, assim como do Rangers. Contudo, o acerto saiu apenas em dezembro, com os Hoops se antecipando aos rivais e pagando £30 mil ao Hearts, um recorde para o clube na época. Acrescentaram um atacante voraz e voluntarioso, que podia marcar gols de diferentes maneiras. E que, aliás, acabaria sendo útil diante de uma enorme infelicidade. Na véspera do Natal, Joe McBride sofreu uma grave lesão, que o tiraria do restante da temporada. Coube ao novato de 26 anos preencher a lacuna. Uma semana depois, aliás, os Bhoys sofreram sua primeira derrota, superados pelo Dundee United.

Não era o tropeço que minaria o embalo do time de Jock Stein. Mas o nível de dificuldade na Champions aumentaria consideravelmente. Nas quartas de final, cruzariam com o Vojvodina, que tinha desbancado o Partizan (vice-campeão europeu em 1966) no Campeonato Iugoslavo e era uma das bases da fortíssima seleção de seu país. Na etapa anterior, o Atlético de Madrid tinha sido a vítima dos eslavos, treinados pelo excelente Vujadin Boskov – anos depois, consagrado por Real Madrid e Sampdoria. Sob uma enorme pressão, o Celtic se saía muito bem na defesa. Quando teve chance de marcar, parou no goleiro Ilija Pantelic, titular da seleção. Mas um erro de Gemmell permitiu que Milan Stanic garantisse a vitória dos anfitriões por 1 a 0 em Novi Sad.

O Celtic precisava de uma reviravolta delicada em Parkhead. Por isso mesmo, Jock Stein convocou a massa alviverde e 70 mil pessoas lotaram as arquibancadas, em reencontro que aconteceu uma semana depois da derrota na Iugoslávia. Logo nos primeiros minutos, o Vojvodina perdeu uma chance claríssima de ampliar a vantagem no agregado. Apesar disso, aquela noite guardaria o mais puro exemplo da incessante ofensividade do Celtic. O primeiro gol sairia no início do segundo tempo, com Gemmell se redimindo. O cruzamento do lateral não foi neutralizado por Pantelic e Chalmers completou para as redes. O Vojvodina se segurava na defesa como podia e, com a derrota mínima, ia garantindo um jogo-extra em Roterdã. Mas o Parkhead viria abaixo no último minuto, em escanteio que o capitão McNeill desviou para as redes. Um dos gols mais celebrados pela torcida alviverde. O gol da classificação às semifinais.

Para quem queria “curtir” a Copa dos Campeões, o Celtic já tinha chegado longe demais. E sabia que, dali, só gostaria de parar no alto do pódio. O Dukla Praga era um pesadelo ainda maior nas semifinais. Dominante na Tchecoslováquia, o time era a base da seleção vice-campeã do mundo cinco anos antes. Geração envelhecida, mas que nem por isso deixava de ser talentosa, liderada por Josef Masopust. Tanto que eliminaram o Ajax, dando os primeiros passos com Johan Cruyff e Rinus Michels.

Desta vez, ao menos, os Hoops começariam decidindo em casa. Algo que garantiu certa tranquilidade no confronto. Apoiados por 75 mil no Parkhead, os anfitriões fizeram seu trabalho com a vitória por 3 a 1. Simpson começou a partida salvando os escoceses, até que Johnstone abrisse o placar, aos 27 minutos. Antes do intervalo, o Dukla empatou com Stanislav Strunc. Já na segunda etapa, Willie Wallace pagou a sua contratação com uma atuação decisiva. Balançou as redes duas vezes e só não completou o hat-trick porque carimbou a trave.

A euforia dos escoceses era enorme para o reencontro em Praga. Afinal, neste intervalo, com quatro jogadores do Celtic em campo (Simpson, Gemmell, Wallace e Lennox), a seleção nacional desbancou a Inglaterra em Wembley, em vitória histórica sobre os então campeões do mundo por 3 a 2. Resultado que aumentava os olhares sobre o Celtic, mirando a taça continental. No entanto, Jock Stein preferiu atuar de maneira mais cautelosa na visita à Tchecoslováquia. Armou o time defensivamente e mandou Wallace colar em Masopust, o maestro adversário. A experiência de Ronnie Simpson valeu muito, fazendo boas intervenções e mantendo os nervos de seu time. Já quando o Dukla atacava de maneira massiva, se sobressaiu o trabalho de McNeill, soberano pelo alto. Apesar de todas as dificuldades, os Bhoys seguravam o empate por 0 a 0, suficiente para a classificação. Garantiam a viagem para Lisboa.

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A passagem do Celtic à final continental causou uma enorme comoção. Ninguém queria perder a oportunidade de ver os alviverdes na decisão da Champions. Por isso mesmo, o que se viu foi uma mobilização enorme dos alviverdes, impensável em tempos de transportes mais precários. Quinze mil escoceses fizeram a viagem até Lisboa. Os que tinham mais recursos financeiros pegaram voos até a capital portuguesa. Mas teve também que se aventurou de carro, em uma viagem de 30 horas, atravessando o Canal da Mancha de balsa. Epopeia que valia a pena, quando a expectativa sobre o que os Hoops poderiam fazer era tão grande.

A partir de então, eternizaram-se várias histórias sobre a paixão dos torcedores do Celtic rumo a Lisboa. Uma das mais famosas é a de Ernie Wilson. Então com 25 anos, o fanático estava desempregado, enquanto via as hordas deixando a cidade rumo à Península Ibérica. Foi quando tomou um impulso um tanto quanto insano: venderia a própria casa para ver seu time na decisão. “Eu vi torcedores saindo de carro e ônibus, foi quando percebi que tinha que estar lá. Eu teria feito qualquer coisa, menos matar ou roubar um banco. Mas eu estava sem emprego, então dei meu cachecol a um amigo, porque pelo menos meu cachecol estaria lá”, contou, à FourFourTwo. “Eu estava desesperado, quando tive uma ideia. Decidi vender minha casa. Disse à minha esposa que estava me mudando com a minha mãe e consegui um depósito para ir a Lisboa. Quando voltei, tinha que seguir em frente com a venda e isso não caiu bem. Foi o fim do casamento. Mas valeu cada centavo”.

Players of the Scottish football club Celtic throw up their arms in jubilation after Stevie Chalmers, number 9, had scored their second goal in the European Cup Final match against Inter-Milan, in Lisbon, Portugal, May 25, 1967. Celtic defeated Inter 2-1. (AP Photo)

Apesar da confiança da torcida, o Celtic tinha consciência que sua missão era dificílima. O favoritismo se concentrava na Internazionale, e não sem motivos. Os nerazzurri eram bicampeões continentais, levantando a taça em 1964 e 1965. Contavam com Helenio Herrera no banco de reservas, desde já considerado um dos melhores técnicos da história, apesar de seu Catenaccio não agradar a todos. E, em campo, uma seleção de grandes jogadores, com Sandro Mazzola, Giacinto Facchetti, Tarcisio Burgnich, Mario Corso, Armando Picchi, entre outros. O único desfalque era o espanhol Luis Suárez, com uma torção. Ainda assim, os escoceses precisariam de uma preparação especial.

Antes da viagem a Portugal, o Celtic reafirmou sua força na Escócia. Conquistou a Copa em cima do Aberdeen e garantiu o bicampeonato na liga com uma rodada de antecedência, graças a um empate diante do Rangers. Reforçava a confiança para que Jock Stein focasse seus comandados. O treinador tomou cuidados impensáveis para a sua equipe, evitando até que os jogadores tomassem sol. Enquanto isso, aplicava os famosos ‘jogos mentais’. Em um dos treinos do Celtic, as estrelas da Inter apareceram nas arquibancadas para assistir. Davam risadas e brincavam, como se quisessem intimidar os visitantes. Só que os Hoops também tinham a sua carta na manga. Stein pediu para que seus jogadores trocassem de posição e fizessem uma mera atividade recreativa, para enganar as visitas. Leveza que ajudou a evitar a tensão para o lado alviverde, algo vital diante de um adversário tão badalado.

Já na antevéspera da partida, assim como tinha feito contra o Dukla Praga, Jock Stein chamou a responsabilidade para si. Divulgou a escalação publicamente e desafiou Helenio Herrera para o embate tático. “Eu irei dizer para o Herrera como o Celtic se tornará o primeiro time a levar a Copa dos Campeões para a Grã-Bretanha, mas isso não o ajudará de nenhuma maneira. Nós vamos atacar como nunca atacamos antes”, afirmou, em promessa feita diante dos microfones.

Jock Stein anunciava uma estratégia pouco usual para um desafiante daquela Inter. Diante das excelentes qualidades defensivas do time de Helenio Herrera e pela contundência de seu ataque, os rivais temiam partir para cima dos nerazzurri. Preferiam se resguardar, porque sabiam que uma virada contra o esquadrão era praticamente impossível. Desta maneira, o Celtic assumia o risco. Ou melhor, apostava na qualidade técnica de seus jogadores, algo fundamental para bater os favoritos. Justamente o que acabou se desenhando no Estádio Nacional do Jamor, naquele histórico 25 de maio de 1967.

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Apesar da montanha que teriam que atravessar, os jogadores do Celtic entraram em campo sem sentir o peso da responsabilidade. Eram os desafiantes da noite, já conseguindo muito em relação aos anos recentes, nos quais a seca prevalecia em Parkhead. Além disso, a torcida estava com eles. Não apenas pelos milhares de escoceses que viajaram a Lisboa, um terço dos 45 mil presentes no Jamor. Os portugueses também decidiram abraçar os Bhoys. A alegria dos visitantes pelas ruas contagiou a população local. Fora isso, havia uma relação de irmandade por causa da religião: como o jogo aconteceu no feriado de Corpus Christi, a multidão escocesa nas igrejas terminou de conquistar a maioria católica na capital lusitana.

As disparidades entre Celtic e Internazionale eram visíveis nas próprias figuras dos jogadores. Enquanto os nerazzurri mais se assemelhavam a estrelas de cinema, os alviverdes eram os rapazes bem menos imponentes. E nem por isso menos confiantes, como conta o capitão Billy McNeill: “Saímos do vestiário e entramos no túnel. Eles nos mantiveram lá por um tempo. Eu me lembro de olhar para o lado e ver que a equipe italiana parecia magnífica. É um uniforme bastante inspirador, além de serem jogadores atléticos, com belos rostos italianos. Então Bertie Auld, um grande caráter, começou a cantar ‘The Celtic Song’ e todos nós o acompanhamos. Vocês deveriam ver as expressões nas faces dos italianos”.

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O jogo começou com as duas equipes evitando se expor. A Internazionale tinha mais posse de bola, tentando decidir o quanto antes. Já o Celtic baseava o seu jogo a partir dos lados de campo, tentando dar espaço para os seus laterais atacarem. Logo aos sete minutos, entretanto, a decisão ficou nas mãos dos italianos. Jim Craig cometeu um pênalti sobre Renato Cappellini. Na cobrança, Sandro Mazzola só deslocou Ronnie Simpson e deixou o confronto à mercê do Catenaccio. Os Hoops precisariam se superar.

A partir de então, o que se viu foi um bombardeio do Celtic. Enquanto a Inter se resguardava em sua sólida defesa, os escoceses não economizavam nos chutes – 39 ao longo dos 90 minutos. A estratégia de Jock Stein era justamente balançar as redes de fora da área, porque sabia que suas chances de se aproximar da meta de Giuliano Sarti eram mínimas. Cumpria-se a promessa da coletiva intimidatória do treinador. Os Bhoys atacavam como nunca, evidenciando o seu jogo de muita pressão, em uma velocidade altíssima.

O empate insistia em não sair. Os muitos e muitos chutes paravam em uma atuação magnífica de Sarti, acumulando milagres. Além disso, o goleiro contava com uma pitada de sorte, em dois arremates do Celtic que explodiram nas traves. O massacre alviverde só daria resultado aos 18 do segundo tempo, em um dos gols mais bonitos das finais europeias. A bola chegou limpa na entrada da área para Tommy Gemmell, que ressaltou a sua especialidade com um chute violentíssimo, para estufar as redes. Um tento que mostrava como os escoceses estavam no caminho certo.

Nem mesmo o empate mudou a atitude do Celtic, que mal deixava a Internazionale respirar. Os bicampeões continentais continuavam sendo amassados contra a parede, sem criar qualquer perigo em contra-ataques. E, sem dar brecha à prorrogação, os Bhoys perseveraram até buscar a virada, apontada antes do jogo como impossível. Mais uma jogada de Gemmell pela esquerda, passando para Bobby Murdoch na entrada da área. O meio-campista arriscou o chute rasante e contou com um leve desvio de Steve Chalmers dentro da área, vencendo Sarti. O relógio marcava 39 do segundo tempo. Os escoceses precisavam apenas administrar os minutos restantes. E fizeram isso com o brilhante Jimmy Johnstone, em partidaça. O craque botou a bola no pé e passou a infernizar a tal melhor defesa do mundo com seus dribles. Não havia quem o segurasse. Não havia mais quem tirasse a taça das mãos do Celtic, com o apito final.

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A multidão de escoceses nas arquibancadas invadiu o campo para celebrar com os seus jogadores. Uma alegria caótica, pela façanha completa. Ali se forjavam os Leões, os rapazes nascidos num raio de apenas 30 milhas do Celtic Park, que rugiram mais alto diante de um gigante continental e se eternizaram em Lisboa. Um orgulho que nenhum torcedor alviverde poderia conter dentro de si. Demorou um tempo até que a massa ensandecida fosse controlada e a taça acabasse nas mãos do capitão Billy McNeill. Para que a loucura estourasse novamente, merecidamente. A ofensividade se impunha sobre o futebol de resultados, em um triunfo elogiado por toda a imprensa europeia. Não havia contestação sobre quem jogou mais bola naquela noite, com os cumprimentos de Herrera a Jock Stein e a exaltação do amigo Shankly, presente no estádio.

Na volta a Glasgow, boa parte da população tomou as ruas para festejar os seus campeões. Para receber os seus vizinhos, que elevaram o nome do futebol escocês a um patamar inédito até então. Parkhead transbordou gente no desfile da taça. E, curiosamente, por muito pouco a cidade não viveu outro carnaval dias depois, com sua metade azul. O Rangers chegou à decisão da Recopa Europeia, mas não teve a mesma competência dos rivais para superar um adversário de peso. Foram derrotados pelo Bayern de Munique, na primeira conquista continental dos bávaros.

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Duas semanas depois do épico na Champions, os Leões de Lisboa voltariam a campo para outro jogo gigantesco. Antes mesmo da glória, o Celtic havia sido convidado para participar da despedida de Alfredo Di Stéfano. Encarariam o Real Madrid, campeão continental no ano anterior, diante de 120 mil pessoas no Santiago Bernabéu. E os Hoops trataram de ratificar que eram mesmo os melhores da Europa: bateram os espanhóis por 1 a 0, gol de Bobby Lennox. O final perfeito para uma temporada perfeita, em que conquistaram os quatro títulos que disputaram.

Ano após ano, os Leões de Lisboa foram festejados. Alguns já faleceram, outros estão com a saúde debilitada. Mas nada que impeça o Celtic de exaltar os seus heróis. A sua história. Uma das mais belas histórias de superação já proporcionadas pelo futebol. Nos últimos dias, várias foram as ações celebrando os 50 anos do título: a nova camisa, o belíssimo mosaico da torcida, até a festa pelo título invicto que não vinha desde 1899. E o melhor são os aplausos àqueles senhores que se superaram. Que deram uma porção de lições além do futebol.

BÔNUS

Cortesia do amigo Emmanuel do Valle, um mapa com as origens dos membros mais importantes dos Leões de Lisboa e o exemplo concreto do raio de 30 milhas de Parkhead. Confira: