Se alguém perguntasse a um torcedor do São Paulo qual era o sonho dele, nos dias finais de 1992, a única resposta possível seria que 1993 fosse igual ao ano que terminava. Afinal, o Tricolor encerraria aqueles 366 dias (1992 foi ano bissexto) com as taças do Campeonato Paulista, da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes. Bem, 1993 não terminou exatamente igual, porque não houve o tricampeonato paulista são-paulino. Nada de que a torcida reclamasse. Porque aquele time até hoje lembrado com saudades manteve excelência suficiente para ganhar o bicampeonato sul-americano. E há exatos 25 anos, em 12 de dezembro de 1993, o São Paulo Futebol Clube engrossou a voz, contra o Milan, em Tóquio, para reafirmar: o melhor futebol do planeta, em clubes, estava no Morumbi.

Era até engraçado imaginar que, no começo daquele ano, com os tropeços no Campeonato Paulista (empates com Portuguesa e Mogi Mirim, derrotas para União São João e Guarani), mesmo com um time ainda se recuperando da maratona do ano anterior, a torcida ainda tivesse ânimo para reclamar – o que, claro, levou a respostas ásperas do técnico Telê Santana, na “Folha de S. Paulo”, em 28 de fevereiro de 1993, dia de jogo contra o Bragantino: “Dizer que o torcedor paga ingresso e por isso tem o direito de vaiar é pura invenção. Eu sei quando o time deve ser cobrado. Não preciso que ninguém fale para mim o que tenho de fazer. (…) Estes jogadores, há menos de dois meses, foram carregados por toda a torcida como heróis. Agora eles [os torcedores] esquecem tudo que estes atletas fizeram. Nós merecemos um crédito de confiança”.

 

Crédito de confiança plenamente justificado. Porque não demorou para o São Paulo recuperar a técnica, manter o fôlego (na roda-viva de jogo quarta-sexta-domingo) e alcançar um dos quadrangulares semifinais do Campeonato Paulista – até hoje a torcida reclama do impedimento de Neto, no gol da vitória corintiana que praticamente tirou o lugar na decisão. Na Libertadores, o roteiro de 1992 foi repetido. Superação contra o Newell’s Old Boys nas oitavas de final, repetindo o duelo da final do ano anterior; equilíbrio contra o Flamengo, nas quartas de final, valendo-se da maior quantidade de nomes decisivos e da empolgação da torcida no Morumbi para avançar; sofrimento nas semifinais, quando o Cerro Porteño não só restringiu a vantagem da ida a 1 a 0 no Morumbi, como também pressionou a defesa são-paulina de modo quase irrespirável – pelo menos, foi mantido em Assunção o 0 a 0 que levou a mais uma final continental. Nela, os são-paulinos tiveram mais uma compensação: por mais que a Universidad Católica tenha pressionado no jogo de ida, o 5 a 1 do Morumbi foi um verdadeiro recital. Os Cruzados até assustaram um pouco com o 2 a 0 no primeiro tempo da volta, mas o São Paulo já era experimentado para controlar os danos e alcançar o bicampeonato sul-americano.

Daquele título até o 12 de dezembro de 1993, algumas coisas mudaram. Raí, o nome entre nomes dentro de campo, o símbolo do 1992 onírico vivido pelo São Paulo, já sabia que seu destino era o Paris Saint-Germain tão logo a Libertadores acabasse. Se no mesmo dia em que o bi continental foi assegurado, o Olympique de Marselha também surpreendera o Milan para conquistar a Liga dos Campeões da Europa, as estripulias feitas pelo OM dentro do futebol francês – tendo como cabeça de tudo o mecenas do clube marselhês, Bernard Tapie – renderam a perda do direito de disputar a final do Mundial Interclubes/Copa Intercontinental em Tóquio. Por linhas tortas, o destino escrevia o duelo certo, o duelo que todos esperavam. Porque ninguém duvidava que o São Paulo era o melhor time da América do Sul. E ninguém duvidava que o Milan era o melhor time da Europa.

Por tudo isso, um nome era comum nos dias antes daquele encontro no Estádio Nacional de Tóquio: lá ocorreria o “Jogo do Século”. Poucas vezes havia uma sensação tão forte de que aquela partida, de fato, definiria o melhor time do mundo naquele momento. Por mais que o São Paulo seguisse na roda-viva de partidas, por mais que a fome de títulos continuasse insaciável (a chance do título brasileiro só acabou em 4 de dezembro, no 2 a 0 do Palmeiras num clássico, por um dos quadrangulares semifinais – no jogo “daquele gol do César Sampaio”), a torcida sabia: Tóquio era a meta, como havia sido em 1992. Por isso, todos estavam em volta das tevês, com muita ou pouca gente, em grandes eventos (como uma exibição pública na churrascaria Dinho’s Place, no Morumbi, rega-bofe organizado pela TV Bandeirantes) ou no aconchego do lar, naquele fim de noite/começo de madrugada brasileira, nas transmissões da Bandeirantes e também da TV Globo.

Por um lado, havia motivos para respeitar o Milan. O “trio holandês” que tanta história fizera estava dissolvido, é verdade: Ruud Gullit passava um ano emprestado à Sampdoria, Frank Rijkaard já voltara ao Ajax, Marco van Basten estava na luta quase perdida contra a lesão na cartilagem do tornozelo que encerrou sua carreira. Mas ainda sobravam nomes de técnica elogiável na estelar equipe de Fabio Capello. Franco Baresi era sinônimo de zagueiro técnico; Alessandro Costacurta era um coadjuvante esforçado de Baresi; na lateral esquerda, Paolo Maldini já caminhava por uma estrada pavimentada para ser ícone rossonero; Marcel Desailly, vindo justamente do Olympique de Marselha, dava firmeza no meio-campo; Demetrio Albertini mostrava habilidade na saída de bola; Roberto Donadoni era a experiência na criação de jogadas; e para fazer os gols que Van Basten já não podia, havia o esforço de Daniele Massaro, a rapidez de Florin Raducioiu, o faro de gol de Jean-Pierre Papin.

Muitos nomes respeitáveis, de fato. Mas o São Paulo tinha amplos motivos para olhar o Milan na mesma altura. Se o equilíbrio técnico não era tamanho como fora em 1992, quando o jogo contra o Barcelona foi uma sucessão de chances de parte a parte, o time de Telê se reformulara quase à perfeição. Raí já não estava mais lá? Tudo bem: Palhinha ainda dava velocidade, no estertor de seus bons momentos no Morumbi. Muller ainda era garantia de gols – e gols decisivos com a camisa são-paulina. Cafu era a velocidade na lateral direita, constante opção de jogadas. Leonardo já tinha habilidade demais para ficar só na lateral esquerda, e dividia a criação com Toninho Cerezo, de vitalidade inacreditável para seus então 38 anos. E como não há meio-campo sem os coadjuvantes que marquem mais, Doriva e Dinho estavam a postos para isso. Era um São Paulo menos brilhante que o da Libertadores, mas mais coletivo. E por isso, como comentou Juarez Soares na TV Bandeirantes antes do apito inicial do juiz francês Joël Quiniou, “o São Paulo motivado, o São Paulo descansado, tem futebol para jogar de igual para igual com qualquer time do mundo. Seja Barcelona, seja Milan, seja Juventus da Itália, seja qualquer time”.

E de certa forma, o time brasileiro comprovou isso no primeiro tempo. Porque o Milan atacou mais no primeiro tempo. Pressionava a zaga são-paulina, com a velocidade de Raducioiu. Quase marcava, num chute de Massaro que bateu na trave e nas costas de Zetti, aos 14 minutos. Com agilidade, o camisa 1 agarrou. E Galvão Bueno, narrando diretamente de Tóquio, exclamou: “Zetti deu toda a sorte do mundo”. Estava apertada, a situação. Só não estava mais apertada porque Válber e Ronaldão (então ainda Ronaldo) faziam uma das melhores partidas de suas respectivas carreiras, na zaga.

E porque a eficiência são-paulina levou ao gol, aos 19 minutos, num rápido ataque, o primeiro são-paulino no jogo. Na lateral esquerda com apenas 19 anos, André Luís inverteu o jogo para a direita, enquanto Galvão Bueno era otimista: “‘Tô sentindo firmeza no lance”. Toninho Cerezo dominou do lado oposto, cruzou rasteiro (“cruzamento é bom”, para Luciano do Valle, narrando o jogo para a Band em Tóquio) e Palhinha completou de primeira, rasteiro, no canto esquerdo do goleiro Sebastiano Rossi. Claro, o narrador da TV Globo não perdeu a chance de lembrar: “Olha o gol, olha o gol! Eu disse! Eu disse!”. E o São Paulo manteve a firmeza na defesa e nas divididas (aos 34 minutos, após mais um desarme, Luciano do Valle exultava: “Esplêndido Ronaldo!”) terminando os 45 minutos em vantagem.

Na Bandeirantes, o repórter Oswaldo Pascoal reportava o que ocorria no Dinho’s Place, e Marcelo Bianconi ficava com a repercussão com a mobilização são-paulina na Avenida Paulista. Na TV Globo, enquanto a repórter Abigail Costa mostrava a festa embalada pela torcida Independente na quadra da escola de samba paulistana Rosas de Ouro, Juca Kfouri comentava os melhores momentos e o jogo, dos estúdios em São Paulo. E terminava esperançoso: “Acho que a gente ainda vai sofrer mais 45 minutos, mas alguma coisa me diz que, outra vez, o Brasil vai gritar ‘campeão mundial de futebol'”. O âncora Léo Batista reagiu: “Esperemos, vamos torcer”.

De fato, o São Paulo sofreu muito no segundo tempo. A começar pelos três minutos: enfim, a resistência defensiva foi vencida. Após um lateral cobrado por Donadoni e rebatido por Válber, Desailly aproveitou a sobra com uma bola alta. Que acabou virando lançamento e foi concluída por Massaro para as redes, no 1 a 1 que o Milan fizera por merecer. Luciano do Valle lamentou: “Deu de graça essa vantagem!”. E Juarez Soares concordou: “Esse era meu medo”. Era hora dos destaques são-paulinos aparecerem – como Leonardo começava a fazer, ajudando na marcação e sendo rápido na criação, com lançamentos precisos. Sem descuidarem da defesa: Cafu avançava demais, e dava espaços a Massaro.

No ataque, Palhinha já começava a ficar lento. Foi o suficiente para Telê levar Juninho, 20 anos (hoje Juninho Paulista), ao aquecimento. Juca Kfouri elogiou, na TV Globo: “‘Tava mais do que na hora”. Mas enquanto Juca comentava, o São Paulo contragolpeava, aos 14 minutos. Palhinha passou a Leonardo. Da esquerda, o camisa 10 são-paulino cruzou rasteiro. A bola passou por toda a área e, na segunda trave, Toninho Cerezo entrou livre para fazer 2 a 1. Prêmio justo para uma tremenda atuação do mineiro em Tóquio – repita-se: parecia nem ter 38 anos, de tanta rapidez no meio. Galvão Bueno comemorava: “Se sair o Cerezo para entrar o Juninho, os deuses do futebol podem ter iluminado Toninho Cerezo para fazer este gol!”.

Juninho entrou aos 19 minutos. Estava iniciado o melhor período do São Paulo na partida. O Milan ficou impactado pela eficiência do time brasileiro, e abriu certos espaços. Com os lançamentos de Leonardo e os avanços de Cafu, os contra-ataques ficaram mais perigosos. Mais um gol certamente abriria caminho para o bicampeonato mundial, em momentos decisivos do segundo tempo. Só que o Tricolor foi vítima do que fizera em boa parte daquela partida: sofreu novo empate, quando era superior. Após longo lançamento de Alessandro Orlando, Massaro ajeitou para trás na área, de cabeça. E Papin entrou livre para desviar, no meio da pequena área, também de cabeça. 36 minutos do segundo tempo. 2 a 2. O “olha só” de Luciano do Valle virava um lamento. Com o começo da jogada vindo de um reserva, Galvão Bueno citou: “No dedo do técnico Fabio Capello (…) Esse, você pode dizer que foi o gol do técnico”.

Num empate, com apenas nove minutos de tempo regulamentar, só mesmo algo diferente poderia ainda mudar os rumos da disputa do Mundial Interclubes. Mudou, como a torcida do São Paulo sempre se lembrará: lançamento longo de Cerezo para a área, aos 41 minutos. Costacurta, Rossi e Muller foram para a mesma disputa. A bola poderia ter sido agarrada pelo camisa 1 milanista. Poderia ter sido afastada pelo zagueiro rossonero. Mas bateu no calcanhar de Muller, indo lentamente para a meta. “Gol! Gol!”, vociferou Galvão Bueno na TV Globo, forçando a voz, parecendo não acreditar na sorte são-paulina. De um modo deliciosamente acidental, vinha o 3 a 2 para premiar a precisão são-paulina. A chance que o atacante tanto esperava para se vingar das chateações que Costacurta lhe causara, quando ambos se enfrentaram nos Milan x Torino da vida, na malograda passagem de Muller pelos grenás. Vingança expressa num “este gol é pra você, seu palhaço”, dito pelo nativo de Cuiabá na cara do zagueiro, em bom italiano.

Na TV Bandeirantes, Luciano do Valle também se mostrava eufórico: “O São Paulo, em cima da hora!”. Galvão tentando explicar a jogada: “Do jeito que deu, meio de costas, meio de joelho, mas muito com o coração, com a vontade, com a garra e com a raça do futebol brasileiro!”. E Juca Kfouri, aliviado, nos comentários: “Agora, não dá mais! Não há quem tire esse título mundial do São Paulo”. De fato, nada mais evitaria que o São Paulo confirmasse que era o grande clube do planeta, naquele começo dos anos 1990. Bem relacionado com Telê, Juca Kfouri lembrava ironicamente um momento dramático da carreira do treinador, naquele momento em que ele chegava novamente à glória: “3 a 2, Galvão, como em 1982…”

O narrador global, por sinal, contava os minutos “para o surdo bater fundo, para o tamborim alegrar, para a cuíca roncar alto, para o samba rasgar a madrugada no Brasil”. Justamente depois disso, Joël Quiniou apitou o fim do jogo. Vinha o característico “Acabou!” de Galvão. Luciano do Valle, emocionado, resumia na Bandeirantes: “Bicampeão do mundo em cima deste extraordinário Milan! Todos queriam saber quem era o maior! O maior é o futebol brasileiro! O maior é o São Paulo!”. Juarez Soares completou: “É preciso que a gente – nós, brasileiros – acreditemos no nosso futebol! Não nos encantemos com os nomes e as pronúncias estrangeiros! Porque hoje, o São Paulo, que já não tem a força que tinha no ano passado, conquista o título mundial!”. Lembrando a boa condição interna que o São Paulo tinha, Juca Kfouri concluiu na Globo: “Bicampeão mundial, apesar de tudo conspirar contra ele, no que diz respeito à estrutura do nosso futebol. Mas mesmo assim, o São Paulo de Telê – o ranheta, que põe o dedo na ferida todo dia – (…) é bicampeão mundial. Com um mínimo de organização, a gente chega lá. E chega porque o São Paulo ensina o caminho para chegar”.

Depois do brilho técnico de 1992, o São Paulo voltava ao paraíso, de um modo diferente. Mais coletivo, mais preciso nas poucas chances que teve. No meio da festa que unia titulares (como Cerezo, eleito o melhor da partida) e reservas (como o lesionado lateral Jura, o jovem atacante Guilherme e um tal de Rogério Ceni, que seria o destaque na volta, 12 anos depois), coube ao grande símbolo dessa voluntariedade – Ronaldão, de grande atuação – pedir o respeito que o time mereceu: “Se o Barcelona e o Milan são supertimes, o que é o São Paulo, afinal? Gostaria que me respondessem”. Se no começo de 1993, Telê dizia que o time merecia um “crédito de confiança”, ele foi ganho naquele 12 de dezembro de 1993. Para sempre.


(Melhores momentos da decisão do Mundial Interclubes de 1993, na transmissão da TV Globo)


(Melhores momentos da decisão do Mundial Interclubes de 1993, na transmissão da TV Bandeirantes)


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