A Liga Europa não é o torneio mais importante da Europa, mas permanece como o mais diverso. O entretenimento na competição não se limita a ver necessariamente os principais craques ou a consagração dos maiores esquadrões. Ela está nas boas histórias: nos clubes que reaparecem além das fronteiras, nas torcidas que vivem um momento inesquecível, no mapa expandido além dos países ocidentais. Pode-se até dizer que a imprevisibilidade dos campeões anda prejudicada, entre o domínio da Espanha e a afirmação da Inglaterra. De qualquer forma, a Liga Europa vai muito além de sua final. Da Premier League ao Campeonato Luxemburguês, há um banquete de futebol, mesmo que exista questões a se melhorar na competitividade.

Aproveitando o início da fase de grupos, fazemos uma nova edição do nosso tradicional guia do torneio, com os detalhes de dentro e de fora dos campos para você acompanhar. Confira os destaques:

– A hegemonia que os ingleses constroem na Liga Europa

Por algum tempo, os clubes ingleses pareceram ignorar a Liga Europa. A competição continental era um interesse menor aos representantes do país, que seguiam priorizando a Premier League. No entanto, o fortalecimento financeiro dos ingleses e a oferta de uma vaga a mais na Liga dos Campeões mudaram um pouco esse status. O país passou a se colocar como principal favorito no torneio – mesmo que seus clubes mais poderosos continuem poupando forças. A Inglaterra somou quatro finalistas e dois títulos nas últimas quatro temporadas. Ameaça a supremacia que antes era da Espanha. Arsenal e Manchester United, dois destes finalistas recentes, são outra vez candidatos à taça.

– O retorno do Wolverhampton ao cenário continental

A Premier League, além do mais, possui um terceiro participante para se acompanhar. O Wolverhampton tem tradição continental, de quem motivou a criação da Champions League e já foi finalista da antiga Copa da Uefa. No entanto, a partir de seu ocaso nos anos 1980, os Lobos nunca mais haviam conseguido figurar num torneio continental. Após 39 anos de espera, a boa temporada passada credenciou o clube e, apesar dos desafios, ele conseguiu se impor nas preliminares desta Liga Europa. O ponto será o comportamento do time de Nuno Espírito Santos. Ao mesmo tempo em que o Wolverhampton tem qualidade para chegar longe, o começo claudicante no Campeonato Inglês preocupa. A equipe precisará de equilíbrio nas missões.

– A viagem do Manchester United a Belgrado

O Manchester United, em particular, terá um compromisso especial nesta temporada. Os Red Devils encaram o Partizan na fase de grupos. Será o primeiro compromisso oficial dos mancunianos em Belgrado em mais de 50 anos. A cidade, afinal, é o ponto de partida na maior tragédia vivida pelo clube: os Busby Babes haviam enfrentado o Estrela Vermelha e saído da capital iugoslava, antes da escala que resultou no Desastre de Munique. Certamente será uma ocasião emocionante, com homenagens às vítimas. Além disso, o United também está na história do próprio Partizan. Os sérvios derrotaram os ingleses nas semifinais da Champions de 1966, quando alcançaram a decisão contra o Real Madrid.

– Porto, uma década depois

O Porto vinha de oito participações consecutivas na fase de grupos da Champions League. A eliminação contra o Krasnodar foi dolorosa, mas pode trazer boas lembranças aos portistas mais supersticiosos. Na última vez em que o clube disputou a Liga Europa desde a fase de grupos, ergueu seu último título continental. Foi em 2010/11, quando os lusitanos sequer conseguiram alcançar as preliminares da Champions. A equipe treinada por André Villas-Boas protagonizou uma campanha arrasadora e, inspirada por Radamel Falcao García, ficou com a taça depois de derrotar o Braga na decisão. O sonho de reafirmar a grandeza continental no Estádio do Dragão segue em frente para o clube.

– Os recordes do Sporting

O Sporting nunca conquistou a Liga Europa, nem nos tempos de Copa da Uefa. No máximo, os leoninos chegaram a uma final, dolorosamente perdida dentro do Estádio José Alvalade para o CSKA Moscou em 2005. No entanto, o clube permanece como o participante mais costumeiro da competição secundária. São 33 edições, três a mais que qualquer outro clube europeu. Os sportinguistas figuraram no torneio sete vezes desde o rebatismo como Liga Europa. Além disso, podem abocanhar o recorde de pontos nesta edição. O time tem 208 pontos, na segunda colocação do ranking geral, com 18 a menos que a Internazionale.

– O Sevilla em sua casa e a invencibilidade do Espanyol

Mais uma vez, o Sevilla não conquistou a classificação à Champions League. A ausência no torneio, entretanto, nem de longe parece um problema aos andaluzes. É a oportunidade de reafirmar a sua dinastia na Liga Europa e também de recolocar a Espanha como país mais forte no certame. Só não deu muito certo na temporada passada, quando os rojiblancos caíram nas oitavas de final, num jogo maluco contra o Slavia Praga. Outro representante espanhol que merece respeito é o Espanyol. A equipe acumula uma invencibilidade de 21 jogos por competições continentais, um recorde histórico. Tudo bem que os catalães não figuram nos torneios da Uefa desde 2007, quando perderam a final da Copa da Uefa justamente para o Sevilla. De qualquer maneira, a boa campanha nas preliminares anima os Pericos. E a terceira armada espanhola é o Getafe, que merece respeito por sua caminhada na última Liga. Em sua terceira aparição europeia, os Azulones tentam igualar as quartas de final de 2008.

– Roma e Glasgow, os dérbis paralelos

Duas grandes rivalidades estarão presentes na fase de grupos desta Liga Europa. Os únicos clubes italianos no torneio são Roma e Lazio, que não vivem o melhor momento, mas têm peso para chegar longe. A campanha de ambos pode ser importante ao Ranking da Uefa, no qual a Itália tem ascendido nos últimos tempos. Com oito aparições, os laziali são recordistas em participações na Liga Europa desde o seu rebatismo. Já na Escócia, a Old Firm bate cartão com Celtic e Rangers – o que já ocorrera na temporada passada. Enquanto os Bhoys se adaptam a uma realidade mais modesta, os Gers almejam o seu renascimento internacional. O time de Steven Gerrard busca a classificação que não conseguiu em 2018/19.

– Holanda e suas camisas pesadas

A Holanda caiu no Ranking da Uefa por campanhas ruins de seus times nas competições continentais, sobretudo na Liga Europa. Os vexames foram um tanto quanto frequentes nas últimas preliminares. Desta vez, no entanto, a Eredivisie se coloca como uma das ligas mais fortes na fase de grupos. O PSV não se sustentou na Champions, mas pelo menos não viu um desastre maior neste momento de reformulação. O Feyenoord e o AZ também se impuseram nas preliminares. Só o Utrecht ficou no caminho. Depois do que fez o Ajax nos últimos anos, o fortalecimento em conjunto beneficia a liga como um todo.

– O clássico escandinavo

Um duelo curioso acontecerá nesta fase de grupos. Copenhague e Malmö foram sorteados no mesmo grupo. Mais do que a rivalidade entre Dinamarca e Suécia, há também uma ligação histórica entre as cidades, separadas por um estreito de cerca de 10 quilômetros de distância. A proximidade é tão grande que existe até mesmo uma ponte para unir os municípios. Esta é a primeira vez que os dois clubes se enfrentarão por uma competição europeia. Serão curiosas as invasões das torcidas – apesar dos riscos de hooliganismo. Ainda assim, tende a ser um confronto culturalmente rico e com boas histórias para contar.

– Dudelange: a honra de, outra vez, botar Luxemburgo no mapa

Se alguém dissesse há alguns anos que um clube de Luxemburgo estaria na fase de grupos de uma competição europeia, as chances de ser tratado como louco seriam enormes. O Dudelange conquistou seu pequeno milagre em 2018/19, quando derrubou Legia Varsóvia e Cluj na qualificação, antes de dar trabalho até mesmo a clubes como Betis, Olympiacos e Milan. Pois os nanicos repetiram a façanha. Desta vez os sorteios ajudaram e os luxemburgueses eliminaram oponentes de Macedônia do Norte, Estônia e Armênia para alcançar a fase de grupos. Independentemente disso, a oportunidade de encher os bolsos e ganhar experiência é grande. O clube segue como azarão contra adversários acostumados a disputar os torneios da Uefa, mas desta vez pode até sonhar com a classificação, diante de Sevilla, Apoel e Qarabag. A equipe costuma dar trabalho em casa e possui jogadores importantes de sua ascendente seleção, como o goleiro Jonathan Joubert e o meia Danel Sinani.

– Um pouco mais de atenção à Europa Central

Suíça e Áustria podem não se candidatar ao título da Liga Europa, mas têm potencial para causar barulho na campanha continental. Tradicional figurante na Champions, o Basel tenta angariar um pouco de respeito na Liga Europa, ao passo que o Young Boys tomou a hegemonia em seu país e pode também ambicionar um papel mais forte além das fronteiras. Já os austríacos, se não contam com a força reconhecida do Red Bull Salzburg desta vez, possuem candidatos interessantes. O Wolfsberger cresce no país e faz sua primeira aparição por fase de grupos nos torneios da Uefa. O mesmo ineditismo acontece com o LASK Linz, mais tradicional, que chegou a despachar o próprio Basel nas preliminares da Champions.

– Rennes e uma França que pode ser maior

O Rennes se prova como um time copeiro. Na temporada passada, a conquista da Copa da França em cima do Paris Saint-Germain marcou positivamente a história do clube, que também fez um bom papel nos mata-matas da Liga Europa, ao quase derrubar o Arsenal. Com um elenco que manteve suas virtudes e um bom começo na Ligue 1, os rubro-negros tentam repetir o sucesso europeu. Depois da final do Olympique de Marseille em 2018, o torneio secundário se mostra como objetivo acessível para os franceses tentarem mostrar que seu campeonato não se resume apenas ao PSG. O Saint-Étienne, que não começou a temporada na Ligue 1 tão bem assim, é o outro participante do país.

– A torcida abraça a Alemanha mais uma vez

Os clubes alemães não costumam se dar muito bem na Liga Europa, mas demonstram um grande apreço por ela. Durante as últimas temporadas, os representantes da Bundesliga protagonizaram grandes invasões de torcidas e festas nas arquibancadas. Já na campanha passada, mais do que embelezar o cenário, o Eintracht Frankfurt também fez por merecer os aplausos em campo, ao alcançar as semifinais. Foi a primeira vez nesta década que os germânicos ficaram entre os quatro melhores do torneio. É ver como o sucesso pode ajudar os outros alemães a darem um pouco mais de importância ao certame – que, afinal, vale pontos no Ranking da Uefa. Além do retorno do Frankfurt, a Bundesliga também é encabeçada por Borussia Mönchengladbach e Wolfsburg.

– Os novos ricos da Europa Oriental

Tradicionalmente, o Leste Europeu possui muito mais representatividade na Liga Europa do que na Champions League. E alguns clubes se tornam figurinhas carimbadas na competição secundária, por vezes aparecendo na elite. Qarabag, Astana, Ludogorets e Cluj são alguns desses figurantes que podem almejar certa relevância. Krasnodar e Istambul Basaksehir ainda não chegaram à fase de grupos da Champions, mas fazem investimentos capazes de empurrar a bons desempenhos na Liga Europa. Além disso, há mesmo um estreante continental nesta temporada: o Oleksandriya, que ganha força no Campeonato Ucraniano e conquistou vaga direta na fase de grupos após terminar na terceira colocação de sua liga.

– Ferencváros, a camisa que volta a pesar

Potência histórica da Hungria, o Ferencváros possui uma trajetória respeitável nas competições da Uefa. São 43 participações, que incluem um título na Taça das Cidades com Feiras (precursora da Copa da Uefa) e um vice-campeonato na Recopa Europeia. Clube mais popular de seu país, continuou competitivo mesmo depois do fim do regime comunista e chegou à fase de grupos da Champions em 1995/96. Entretanto, até pelo declínio do futebol húngaro, suas participações mais recentes quase sempre se limitam às preliminares. Depois de chegar à fase de grupos da Copa da Uefa 2004/05, os alviverdes rompem um hiato de 15 anos para reaparecer na fase principal nesta temporada. De certa forma, é uma reconciliação com sua história.

– A força de sempre dos repescados na Champions

É preciso ter consciência que a Liga Europa ainda não está completa quando a fase de grupos começa. A transferência dos terceiros colocados da Champions League costuma ter um impacto enorme nos mata-matas e trazer outros potenciais candidatos ao título. O Atlético de Madrid foi o campeão mais recente neste esquema, embora a presença de ao menos dois do “Top Six” da Premier League desde a fase de grupos transforme um pouco este cenário. Chelsea e Manchester United levaram a taça disputando a Liga Europa desde o seu início.

– O resgate das tradições

Se a Champions League costuma ser fechada quase sempre ao mesmo “clubinho”, apesar de todas as surpresas da última temporada, a Liga Europa é mais aberta às surpresas. As últimas temporadas proporcionaram o renascimento continental de clubes históricos. Athletic Bilbao, Benfica, Ajax e Olympique de Marseille alcançaram a final, enquanto Braga e Dnipro despontaram como possíveis zebras nesta década. Com competência e um pouco de sorte no chaveamento, dá para sonhar.

– Duelos de peso logo de cara

A fase de grupos da Liga Europa nesta temporada está bem interessante. Afinal, serão constantes os jogos entre clubes tradicionais, que dão um pouco mais de cor a uma fase arrastada. Sporting x PSV, Lazio x Celtic, Arsenal x Eintracht Frankfurt, Porto x Rangers, Roma x Borussia Mönchengladbach e Besiktas x Wolverhampton são alguns dos exemplos. Que o torneio só comece pra valer nos 16-avos de final, serão ótimos testes.

– Muito mais legal nas arquibancadas do que a Champions

A Champions pode ter mais dinheiro, mais glamour e mais craques que a Liga Europa. Entretanto, não tem mais amor nas arquibancadas. As festas no torneio secundário são constantes, com arquibancadas vibrantes e belos recebimentos. Até pela participação de equipes que nem sempre figuram no cenário continental e outras de ligas periféricas, a atmosfera ganha um clima bastante distinto dos “teatros” que povoam a Champions. Os espetáculos ocorrem a cada rodada.

– Tardes recheadas de jogos na TV

Em tempos nos quais os serviços de streaming ampliam sua fatia nos direitos de transmissão pelo Brasil, a Liga Europa ainda oferece a certeza de ver os melhores jogos na televisão. O Fox Sports permanece como detentora das partidas e oferece quatro duelos por tarde em seus canais. A quem gosta de futebol, independentemente das camisas, as quinta-feiras sempre garantem uma boa diversão.

Grupo A: Sevilla (ESP), Apoel (CHP), Qarabag (AZE), Dudelange (LUX)

Grupo B: Dynamo Kiev (UCR),  Copenhague (DIN), Malmö (SUE), Lugano (SUI)

Grupo C: Basel (SUI), Krasnodar (RUS), Getafe (ESP), Trabzonspor (TUR)

Grupo D: Sporting (POR), PSV (HOL), Rosenborg (NOR), LASK Linz (AUT)

Grupo E: Lazio (ITA), Celtic (ESC), Rennes (FRA), Cluj (ROM)

Grupo F: Arsenal (ING), Eintracht Frankfurt (ALE), Standard Liège (BEL), Vitória de Guimarães (POR)

Grupo G: Porto (POR), Young Boys (SUI), Feyenoord (HOL), Rangers (ESC)

Grupo H: CSKA Moscou (RUS), Ludogorets (BUL), Espanyol (ESP), Ferencváros (HUN)

Grupo I: Wolfsburg (ALE), Gent (BEL), Saint-Étienne (FRA), Olexandriya (UCR)

Grupo J: Roma (ITA), Borussia Mönchengladbach (ALE), Istambul Basaksehir (TUR), Wolfsberger (AUT)

Grupo K: Besiktas (TUR), Braga (POR), Wolverhampton (ING), Slovan Bratislava (SVK)

Grupo L: Manchester United (ING), Astana (CAZ), Partizan (SER), AZ (HOL)