A final da Champions League de 1998/99 é o tipo de jogo que mesmo quem não viu ao vivo tem em sua memória. Sinônimo de virada impossível tornada realidade, o 2 a 1 do Manchester United sobre o Bayern de Munique no Camp Nou completa 20 anos neste domingo. Um duelo até hoje ainda vivo, por tudo que representou não apenas ao clube inglês, mas à competição e ao futebol em si.

Você pode ter certeza que muitos dos jogadores que vemos atualmente em campo tiveram parte de sua identidade no futebol moldada por aquele jogo, o exemplo perfeito de que, enquanto dentro das quatro linhas, a toalha não deve ser jogada. De que enquanto há tempo, há chance.

A torcida parecia saber que aquela noite reservava algo de especial. Oficialmente, a Uefa distribuiu 38 mil ingressos para torcedores do Manchester United. Entretanto, 55 mil deles tomaram as ruas de Barcelona e as arquibancadas do Camp Nou em uma das maiores “invasões” da história do futebol europeu – as imagens de arquivo pessoal de alguns desses seguidores fieis ajudam a pintar o quadro do que foi aquele dia.

Alex Ferguson, ao longo de seus 26 anos e meio em Old Trafford, mudou o clube de patamar, acumulando vitórias emblemáticas, empilhando títulos, mas nenhum momento supera aquela noite no “fim de maio de 1999”, como canta ainda hoje em todos os jogos a torcida dos Red Devils.

Requer um certo tipo de grupo e uma mentalidade específica para se conseguir algo como o que fez o Manchester United naquele 2 a 1 contra os bávaros. Ole Gunnar Solskjaer, hoje técnico do clube, conta que Ferguson colocou em todos os jogadores uma mistura de entrega e humildade, “um desejo de trabalhar duro e vencer”. “Nunca aceitávamos derrotas. Nos treinos, chutávamos uns aos outros para ganhar. Em quizzes com o chefe, tínhamos que vencer”, relembrou Ole em entrevista à BBC.

A temporada de 1998/99 do Manchester United é frequentemente lembrada em dois pontos principais: o fato de o time ter vencido a tríplice coroa, com Premier League, Champions League e Copa da Inglaterra, e o milagre em cima do Bayern na Catalunha. A história pouco lembrada nas menções àquele time é que, olhando em retrospecto, o milagre na verdade só estava esperando para acontecer.

Milagre em construção

Antes do primeiro jogo daquela temporada, Ferguson disse ao elenco que havia escrito o nome de seis jogadores que ele temia que o desapontariam até o fim da campanha. Não passava de uma jogada – o único nome que havia escrito era o próprio. Mas o resultado esperado veio: um time com gana de vencer e que tinha um grande medo de decepcionar o patriarca.

O decorrer da temporada só serviu para os Red Devils reforçarem seu espírito de que nenhum jogo estava perdido. Pelo quarto round da FA Cup, em 23 de janeiro de 1999, o time enfrentou o arquirrival Liverpool. Um gol de Michael Owen no começo do jogo colocou os Reds à frente, e assim o placar ficou até os 41 minutos do segundo tempo, quando Dwight Yorke apareceu para empatar após bola cruzada por David Beckham e desviada por Andy Cole. Nos acréscimos, a partida, que parecia se encaminhar para a realização de um jogo extra, foi definida por Ole Gunnar Solskjaer: 2 a 1.

Alex Ferguson: “Não havia nada que eu admirasse ou valorizasse mais neles do que o espírito de equipe”.

Já na semifinal da copa nacional, o adversário foi o Arsenal. Com 0 a 0 no placar, o confronto foi para o replay. David Beckham e Dennis Bergkamp haviam marcado, e, com o 1 a 1, as equipes se encaminhavam para a prorrogação. No último minuto do tempo regulamentar, os Gunners tiveram um pênalti marcado a seu favor. Na bola, Bergkamp, que até então havia batido seis penalidades pelo time e convertido todas. O lance que poderia enterrar as chances de uma tríplice coroa acabou no fim virando apenas mais uma camada ao espírito brigador e milagreiro que aquele time construía: Schmeichel pegou o pênalti, levando o jogo para o tempo extra, quando Ryan Giggs marcou o gol que até hoje é considerado o mais bonito já feito na competição mais antiga do mundo.

Ryan Giggs comemora o gol da classificação do Manchester United contra o Arsenal na Copa da Inglaterra de 1999 (Getty Images)

No fim daquela temporada, já estava claro, portanto, que aquele time não sabia o que era derrota enquanto o árbitro não apitasse o final do jogo. A verdade é que mesmo na decisão no Camp Nou, ainda havia céticos. Fisioterapeuta do clube à época, Dave Fevre lembra que a taça da Champions League chegou a ser levada à beira do campo já decorada com as cores do Bayern. Não foi por falta de aviso.

Para preparar o time para aquela que seria a maior noite de sua história, a semifinal daquela Champions League não poderia ter sido ensaio melhor. Enquanto do outro lado o Bayern de Munique derrotara por 4 a 3 no agregado o Dynamo de Kiev, que anteriormente havia eliminado o Real Madrid, o United enfrentava a Juventus.

O poderoso time de Ferguson tinha um desafio duro. Para chegar à sua primeira decisão de Liga dos Campeões em 31 anos, precisaria quebrar a hegemonia italiana. Todas as sete finais anteriores da competição haviam tido pelo menos um clube italiano, e a Velha Senhora tinha sido a representante do país nas três últimas. A partida de ida em Old Trafford terminara em 1 a 1, e o começo não poderia ser mais terrível para o Manchester United.

Com 11 minutos de jogo no Delle Alpi, em Turim, a equipe da casa já vencia por 2 a 0, os dois gols marcados por Pippo Inzaghi. Os comentaristas na TV inglesa já falavam que o United precisaria de um pequeno milagre. E ele começou a ser escrito ainda no primeiro tempo. Em duas cabeçadas, Roy Keane e Yorke empataram o jogo, aos 24 e 34 minutos, respectivamente. Aos 39 minutos do segundo tempo, a parceria afinada no ataque funcionou mais uma vez na temporada, e Cole aproveitou a sobra do drible de Yorke em Peruzzi para marcar o gol da virada por 3 a 2.

Aquela virada, vista por alguns jornalistas e personalidades do futebol inglês como até mais relevante para a temporada do que a noite mágica no Camp Nou, representava o fim do período dourado da Itália que começara na década anterior. Representava também uma chance inédita para Ferguson: já adorado por clube, jogadores e torcida, ele tinha a oportunidade de dar o próximo passo. Era preciso um título europeu para entrar no panteão de Matt Busby, lendário treinador que reconstruiu a equipe após o acidente de Munique em 1958 e levou ao primeiro, e até 1999 único, título de Liga dos Campeões.

Alex Ferguson: “É da natureza do nosso clube sempre fazer do jeito mais difícil”.

Eu já disse ali em cima, mas cabe repetir: tudo indicava que o milagre estava a caminho. O dia 26 de maio de 1999 era a data do reencontro do United com uma decisão de Champions League, mas também o que seria o aniversário de 90 anos de Matt Busby se ele estivesse vivo.

A execução

Torcedor do Manchester United acompanha final da Champions League 1998/99 entre seu clube e o Bayern de Munique (Getty Images)

Durante maior parte da final em Barcelona, a vitória do United pareceu muito improvável. Os problemas surgiram antes da bola rolar. Com Keane e Scholes suspensos, Ferguson foi com Beckham e Butt no meio. Ryan Giggs foi deslocado para a direita, e Blomqvist assumiu a ponta esquerda. A última coisa de que o United precisava era ter que improvisar, mas se alguém algum dia soube fazer isso bem esta pessoa foi Ferguson.

O esquema não funcionou, mas, na avaliação do treinador após o jogo, aquela final teve Beckham como o meio-campista “mais efetivo em campo”, enquanto Giggs pela direita forçou o Bayern a dar cobertura ao lateral esquerdo Michael Tarnat, cansando os bávaros.

A partir do controle que teve no meio de campo, o Bayern de Munique foi dominante no jogo. Abriu o placar logo aos seis minutos, em cobrança de falta batida por Mario Basler. Markus Babbel inteligentemente se posicionou colado na barreira do United, bloqueando Nicky Butt e se desviando da trajetória da bola simultaneamente, possibilitando que ela fizesse seu caminho em um voo baixo até as redes.

O controle do Bayern era tamanho que Martin Thorpe, do Guardian, como lembrado por Jonathan Wilson no livro The Anatomy of Manchester United, definiu como sorte o fato de os Red Devils terem ido para o intervalo perdendo por apenas 1 a 0.

Algo precisava mudar, e Ferguson, um mestre na gerência humana, entrou na cabeça de seus jogadores com um discurso que viria a ficar famoso.

“Vocês estarão a dois metros da Copa Europeia, mas não poderão tocá-la. Quero que vocês pensem no fato de que estarão tão perto dela e que, para muitos de vocês, isso é o mais perto que chegarão. E vocês odiarão este pensamento pelo resto de suas vidas. Então certifiquem-se de que vocês não percam. Não ousem voltar aqui sem dar tudo de si.”

Discurso famoso e eficaz, de fato, mas não até os acréscimos do segundo tempo. Porque o domínio bávaro se manteve. O time de Ottmar Hitzfeld seguiu tendo as melhores chances, e a reta final do jogo indicava que o Bayern chegaria ao seu segundo gol.

Bayern acumulou chances de fazer o 2 a 0 (Getty Images)

Stefan Effenberg foi o primeiro a assustar o United, tentando encobrir Schmeichel, mas o dinamarquês salvou o lance com um toque providencial para escanteio. Em lance seguinte, o mesmo Effenberg chutou perto da trave esquerda.

Mehmet Scholl, da meia-lua, aos 34 do segundo tempo, também encobriu Schmeichel. O dinamarquês não conseguiu desviar esta, e restou apenas torcer. “Eu não virei de costas porque eu sabia que era o 2 a 0. Quando ela voltou para mim, eu sabia que venceríamos.” A bola batera na trave direita.

Quatro minutos depois, Carsten Jancker completou cabeçada de Scholl e, de bicicleta, acertou o travessão de Schmeichel. Na sequência, um chute perigoso de longe forçou Schmeichel a espalmar para escanteio. Os organizadores da Uefa, vendo esses lances e sabendo da história do Manchester United naquela temporada até então, não podiam ter levado a taça perto do campo com as cores do Bayern.

Àquela altura, os heróis do épico já estavam em campo. Teddy Sheringham entrara no lugar de Blomqvist aos 22 do segundo tempo, enquanto Solskjaer veio mais tarde, aos 36. A pressão dos ingleses se intensificou nos oito minutos finais, e a aposta foi pelas bolas cruzadas na área.

“Can Manchester United score? They always score.”

Quando a placa eletrônica subiu apontando que os acréscimos teriam três minutos, era a hora de abandonar todo o comedimento. Schmeichel, gigante sob as traves e parceiro delas, foi à área bávara para o escanteio aos 46 do segundo tempo. Beckham levantou a bola na área, ela caiu no ponto em que o dinamarquês brigava com dois adversários pelo espaço. A sobra para Yorke, a afastada da zaga, o chute de Giggs para dentro da área novamente e o leve desvio de Sheringham, em sequência, foram os quatro segundos mais demorados da história do Manchester United, mas o time estava de volta à disputa: 1 a 1.

Teddy Sheringham comemora gol do empate com Nicky Butt (Divulgação/Manchester United)

Dois minutos depois, aos 48 do segundo tempo, Beckham se posicionou novamente para cobrar o escanteio pela esquerda. Sheringham subiu alto no primeiro pau, desviou para dentro, e Solskjaer, como fizera contra o Liverpool em janeiro daquele ano, apareceu para completar e sacramentar o milagre há tanto tempo engendrado.

“Beckham, into Sheringham, and Solskjaer has won it. Manchester United have reached the promised land!”

Em uma era marcada por dificuldades como a vivida pelo Manchester United desde a aposentadoria de Alex Ferguson em 2013, não é surpresa alguma que o clube vire para o passado para buscar a salvação do futuro. A aposta em Solskjaer é mais do que a confiança depositada em um seguidor dos ensinamentos do escocês. É, tão importante quanto, uma busca simbólica por alguém capaz de fazer os jogadores atuais entenderem a grandeza do clube e a aura que cercou os anos de glória com Ferguson.

Solskjaer respirou Manchester United em seus 11 anos como jogador. Desenvolveu seu inglês com um sotaque mancuniano, se envolveu na comunidade local, aprendeu a história do clube. Ora, escreveu a história do clube também.

Da mesma maneira como o pé do norueguês concluiu a narrativa de um milagre engendrado ao longo daquela mágica temporada, o clube espera que seu retorno às glórias seja um milagre também anunciado quando olhado em retrospectiva.