Há 40 anos, o futebol paraguaio viveu o ano mais vitorioso de sua história. Os guaranís conseguiram conquistar a América de duas maneiras diferentes em pouco mais de quatro meses. O primeiro a registrar a façanha foi o Olimpia. Se hoje em dia os franjeados são vistos como uma potência adormecida além das fronteiras, naquela época eram tratados como azarões. Ainda assim, foram capazes de faturar o inédito título da Libertadores. Sob as ordens do mítico Luis Cubilla, deram a volta olímpica dentro da Bombonera. Quebraram a hegemonia do trio de ferro Argentina-Brasil-Uruguai, que reinaram sozinhos na competição por quase duas décadas.

A epopeia do Olimpia, porém, teria outros desdobramentos. E o clube também seria base da seleção paraguaia que conquistou a Copa América, a segunda de sua história, rompendo um jejum que durava 26 anos. Além dos franjeados, a Albirroja contava com outros nomes famosos do futebol guaraní, que na época apenas despontavam – ídolos da estirpe de Gato Fernández, Roberto Cabañas e Romerito. A equipe foi capaz de desbancar Uruguai e Brasil, antes da final conquistada diante do Chile, em dezembro de 1979

Cabe dizer que, em tempos tenebrosos na América do Sul, os feitos dos paraguaios tiveram seu uso político. O ditador Alfredo Stroessner, no poder a partir de 1954, se aproveitou da fama internacional do futebol para abafar as violações ocorridas no país. Ao mesmo tempo, aquelas conquistas deram um fio de alento a muitas pessoas que sofriam naquele período. O orgulho pelas conquistas, ao menos, dura bem mais que seu sujo uso.

A Libertadores de 1979

O Olimpia era um veterano da Libertadores, mas ainda não havia dado um passo além na disputa. Foram 13 participações até a conquista de 1979, mas geralmente o time fazia papel de figurante. As melhores campanhas aconteceram nas duas primeiras edições, quando os poucos jogos encurtavam o caminho. Pentacampeões paraguaios, os franjeados alcançaram a decisão de 1960 após entrarem direto nas semifinais e eliminarem o forte time do Millonarios. Caíram na decisão para o histórico Peñarol, que seria o seu carrasco também nas semifinais de 1961, quando os guaranís derrubaram o Colo-Colo na etapa anterior.

A partir disso, o Olimpia encadeou campanhas modestas na Libertadores. No máximo, alcançou as quartas de final em 1969. Em tempos nos quais o Cerro Porteño era mais vitorioso, os alvinegros quase sempre saíam na primeira fase. Uma realidade que começou a mudar a partir de 1978, quando um dos maiores esquadrões da história dos franjeados passou a ser formado. O título do Campeonato Paraguaio iniciou uma hegemonia inédita no país, rendendo o hexacampeonato. E não demorou a esse domínio se refletir no resto da América.

O Olimpia já tinha uma base forte que se aprimorou ao longo da década de 1970. A começar pelo goleiro, uma das maiores lendas alvinegras: Ever Hugo Almeida. O uruguaio começou no Cerro de seu país e foi levado a Assunção pelo Guaraní em 1972. No entanto, um ano depois já era contratado pelos olimpistas e se firmaria como uma referência no futebol local, a ponto de se naturalizar para a seleção paraguaia. Tornaria-se recordista em jogos pela Libertadores, uma marca que permanece incólume três décadas depois de sua aposentadoria.

Já no ataque, a principal figura franjeada era o meia Hugo Talavera. Formado em arquitetura, continuava tocando os seus projetos profissionais enquanto se dedicava ao futebol. E seu refinado talento permitia tal vida dupla. Chegou a ser tricampeão nacional com o Cerro Porteño, pouco antes de se transferir aos rivais em 1975. Também transformaria o Olimpia, tornando-se uma liderança, a ponto de usar a braçadeira de capitão.

Almeida e Talavera eram nomes mais experientes no elenco, que reunia diversos titulares ainda nos primórdios da carreira, por volta dos 25 anos. Muitos deles eram formados pelas próprias categorias de base olimpistas e também começavam a despontar na seleção paraguaia. Roberto Paredes, Alicio Solalinde, Luis Torres, Enrique Villalba e Osvaldo Aquino logo ganharam espaço na equipe nacional. Já os maiores destaques desta nova geração eram o meio-campista Carlos Kiese e o atacante Evaristo Isasi, que não demoraram a emplacar em alto nível.

Ao comando técnico, o Olimpia apostaria em um algoz. Luis Cubilla foi nome célebre do Peñarol bicampeão da Libertadores em 1960 e 1961. Na decisão de 1960, inclusive, ele marcou o gol do título em Assunção, aos 38 do segundo tempo. Atacante de três Copas do Mundo pela Celeste, El Negro ainda faturaria a Libertadores com o Nacional em 1971 e seria vice com o River Plate em 1966, além de passar pelo Barcelona, em sua única aventura pela Europa. O craque se aposentou em 1976, quando o Defensor rompeu um duopólio de quatro décadas para ficar com o título no Campeonato Uruguaio. E, logo ao iniciar a carreira de técnico, foi convidado para dirigir os franjeados em 1979, já depois do título nacional.

Cubilla ajudaria a transformar a mentalidade do Olimpia. Em sua apresentação, já disse que o clube conquistaria a Libertadores, o que foi tratado com risos pelos próprios atletas. Eles mesmos provariam que o uruguaio estava certo. O veterano trouxe outros charruas para a comissão técnica, incluindo o fiel assistente Aníbal Paz. Implantariam novidades na preparação do time, especialmente pelo foco especial no trabalho físico, antes do aprimoramento tático e técnico realizado a partir de uma intensa pré-temporada. Fez toda a diferença.

O Olimpia, além do mais, embarcava na transformação do próprio futebol paraguaio. Num momento em que Nicolás Leoz ganhava poder na Conmebol, graças à amizade com João Havelange, a liga local passou a realizar mais investimentos e a segurar seus jogadores – uma histórica dificuldade dos clubes guaranis até então, que viam seus grandes craques se mudarem rapidamente a países vizinhos de economia mais forte.

Os olimpistas tinham até mesmo seu mecenas. O presidente do clube era um empresário com diversos empreendimentos, inclusive a loteria esportiva do país. De família próxima à do ditador Alfredo Stroessner, também era acusado de se valer das relações e se enriquecer através do contrabando, sobretudo com o comércio de cigarros falsificados. Seu nome? Osvaldo Domínguez – o pai de Alejandro Domínguez, atual mandatário da Conmebol. A força econômica e os bichos polpudos pelas vitórias auxiliaram a ascensão franjeada.

O Olimpia ainda precisaria provar sua força em campo ao longo daquela Libertadores. Cumpriria a sua missão. Durante a fase de grupos, em chave que reunia os representantes paraguaios e bolivianos, os olimpistas conquistaram cinco vitórias em seis partidas. Foi o suficiente para ficarem um ponto à frente do Bolívar e conquistarem a única vaga ao triangular semifinal.

Os alvinegros ganharam as duas partidas contra Sol de América e Jorge Wilstermann. O duelo contra o Aviador em Cochabamba, aliás, seria anedótico ao Olimpia. Era a primeira partida dos franjeados fora de casa naquela campanha. O duelo ríspido seguia a antiga cartilha da Libertadores, cheio de entradas duras. Ao final do primeiro tempo, os paraguaios venciam por 1 a 0. O problema viria na etapa complementar, quando a pancadaria estourou logo nos primeiros minutos. O árbitro José Roberto Wright (veja quem) expulsou quatro jogadores bolivianos e um paraguaio. O Estádio Félix Capriles, em obras, deu munição a uma chuva de entulhos.

A partida ficou interrompida por 13 minutos. Depois do reinício, o Olimpia fez mais um gol, mas a tranquilidade durou pouco. A confusão imperou de vez após um jogador boliviano cair lesionado. O duelo sequer pôde terminar pelo número mínimo de atletas. Revoltados, os torcedores arrebentaram o alambrado e invadiram o campo. Wright saiu no soco com os invasores e, com um ferimento no rosto, precisou fugir aos vestiários para não apanhar. Após os locais estourarem as portas do local, o juiz precisou tomar uma saraivada de golpes no meio da multidão e tentou se camuflar até encontrar um táxi, que o salvou, segundo suas palavras – embora outros relatos afirmem que ele se fantasiou de mulher para escapar vivo.

Enquanto isso, os próprios jogadores do Wilstermann passaram a proteger os paraguaios no círculo central. Cubilla chegou a roubar a arma de um policial para ameaçar quem se aproximasse. “Minha equipe enfrentou o problema com força. Eu pensei: a partir de hoje, sairemos campeões”, confessou o treinador, anos depois. O Olimpia ameaçou abandonar a Libertadores por conta do ocorrido. Ao final, a Conmebol aplicou sanções ao Estádio Félix Capriles e confirmou o triunfo alvinegro por 2 a 0.

A única derrota do Olimpia na primeira fase aconteceu durante a visita ao Bolívar, em La Paz, após a confusão em Cochabamba. Já nas duas últimas rodadas, além de fazer sua parte no reencontro com o Bolívar, o Olimpia precisava que os celestes tropeçassem contra o Sol de América para evitar um jogo-desempate. Os franjeados foram acusados de dar “mala branca” para incentivar os compatriotas e o Sol de América arrancou o empate por 2 a 2. Por fim, os olimpistas também fariam sua parte no confronto decisivo. Um empate seria suficiente ao Bolívar. Contudo, a vitória por 3 a 0, com dois gols de Isasi, classificou os guaranís.

O triangular semifinal não trazia camisas tão pesadas assim no continente, mas o Olimpia deveria ter cuidados redobrados contra rivais duríssimos, que atravessavam momentos emblemáticos. O Guarani conquistou o Campeonato Brasileiro com todos os méritos em 1978 e contava com um elenco talentoso. Carlos Alberto Silva tinha as suas armas para almejar a decisão, no time estrelado por Zenon, Renato e Careca. Da mesma forma, o Palestino ganhou um troféu isolado no Campeonato Chileno em 1978, mas não que representasse uma surpresa, após duas taças na Copa do Chile. Capitaneado por Don Elias Figueroa, o time possuía outros nomes com nível de seleção, a se destacar o atacante Óscar Fabbiani e o meio-campista Manuel Rojas.

Após o empate sem gols do Guarani na visita ao Palestino, o Olimpia estreou na segunda fase contra o Bugre, dentro do Defensores del Chaco –  com transmissão em rede nacional pela TV Bandeirantes. Carlos Alberto Silva escalou time completo, com todas as suas principais figuras. E lamentou muito o resultado, diante de 38 mil paraguaios. Os franjeados pressionaram durante a maior parte do jogo e conquistaram a vitória por 2 a 1. Durante o primeiro tempo, Villalba abriu o placar aos anfitriões emendando um rebote da trave. Miltão até igualou aos bugrinos aos 33 do segundo tempo, mas Paredes concluiu a vitória aos 39, aproveitando a saída ruim de Neneca. Como se não bastasse, os campineiros perderam Careca, expulso a 15 minutos do fim. Zé Carlos e Capitão ainda precisaram ser substituídos por lesão.

O resultado dificultava bastante ao Guarani na sequência da competição. E o Olimpia encaminhou sua classificação na visita ao Chile. Em Santiago, os paraguaios derrotaram o Palestino por 2 a 0. O craque Talavera anotou os dois gols alvinegros, numa partida na qual Ever Hugo Almeida pegou um pênalti no segundo tempo. Neste momento, uma vitória bastava ao time de Luis Cubilla. Ela veio no segundo jogo contra o Palestino, em Assunção. Outro resultado inapelável dos franjeados: 3 a 0 no placar, com gols de Kiese, Talavera e Vargas (contra).

Desta maneira, as duas últimas partidas serviram apenas para cumprir tabela. Guarani e Palestino empataram por 2 a 2 no Brinco de Ouro da Princesa. Já o reencontro com o Olimpia foi melancólico, diante de 2,4 mil torcedores. Por mais que os olimpistas tenham escalado seu time principal, não passaram do empate contra o mistão bugrino. Marinho abriu o placar no início do segundo tempo e Torres empatou aos visitantes em Campinas.

O Olimpia esperaria semanas para conhecer seu adversário na decisão. O outro triangular semifinal só terminou em julho, se estendendo por dois meses. Por lá, três camisas pesadíssimas: Peñarol, Independiente e Boca Juniors se digladiavam. Melhor para os xeneizes, que entraram diretamente na segunda fase por terem conquistado o título anterior. Os então bicampeões continentais sofreram, mas arrancaram um empate contra o Peñarol fora de casa para forçar um jogo-desempate com o Independiente e, na partida extra, derrotaram os vizinhos durante a prorrogação. Tentariam o tri diante do “inexperiente” Olimpia.

Era um Boca Juniors para se respeitar. O time de Juan Carlos Lorenzo não exibia um futebol tão exuberante, mas contava com uma equipe extremamente competitiva, sobretudo por sua força na defesa. Hugo Gatti, Vicente Pernía, Rubén Suñé e Ernesto Mastrángelo eram algumas das estrelas xeneizes. Os dois títulos anteriores, desbancando Cruzeiro e Deportivo Cali nas finais, falavam por si. Entretanto, o Olimpia queria apresentar uma nova ordem continental. Luis Cubilla sabia atalhos na América. Ali, nasceria o Rey de Copas.

A primeira partida aconteceu no Defensores del Chaco. E o Olimpia não jogava apenas por si. Segundo Cubilla, o Paraguai parou no intuito de acompanhar o time e empurrar a vitória inédita dos compatriotas na competição continental, inclusive muitos rivais. Até então, o título da Libertadores era restrito apenas a argentinos, brasileiros e uruguaios. As arquibancadas estavam abarrotadas por 60 mil torcedores. Motivação a mais para os olimpistas demonstrarem que não eram meras “zebras” contra o poderoso Boca Juniors.

Logo aos dois minutos, Osvaldo Aquino abriu o placar ao Olimpia. Villalba chutou e a bola bateu no atacante. Os jogadores do Boca Juniors pararam e reclamaram de um toque de mão, após o chute explodir na barriga do atacante. O árbitro chileno Gastón Castro não marcou e o paraguaio ficou livre para definir. Já aos 27 minutos, o uruguaio Miguel Ángel Piazza anotou o segundo. O defensor cobrou uma falta de longe e o míssil rasante veio quicando no campo. O morrinho artilheiro fez a diferença e Gatti aceitou o frango. O triunfo por 2 a 0 dava uma excelente vantagem aos olimpistas, por mais que o saldo de gols nada valesse ao regulamento da Libertadores na época. Uma vitória simples do Boca forçaria o terceiro duelo, no Uruguai.

O intervalo entre as partidas foi tenso. Juan Carlos Lorenzo declarou que seu time perdeu para “mortos de fome”, o que desagradou o Olimpia, sobretudo seu amigo Cubilla. Além disso, surgiu o rumor de que o presidente do Boca Juniors, Alberto J. Armando, tentou subornar Osvaldo Domínguez com US$40 mil. Ele pedia que os paraguaios permitissem a vitória xeneize, para que pudessem forçar o jogo-desempate em Montevidéu e ambos os clubes embolsassem o dinheiro da renda. Domínguez teria recusado a oferta. Além do mais, a confiança dos argentinos era tamanha que parte da torcida já havia alugado os ônibus ao terceiro duelo no Centenario. Nunca aconteceria.

O clima na Bombonera era hostil ao Olimpia. O ônibus do clube foi atingido por objetos e o recebimento proporcionado pelos 65 mil presentes intimidava – não só pelos rolos de papel ao Boca, mas também pelos ovos podres e moedas atirados sobre os visitantes. O empate por 0 a 0, entretanto, premiou a valentia dos paraguaios. Logo aos dois minutos, o árbitro uruguaio Juan Daniel Cardellino demonstrou seu rigor. Expulsou Rubén Suñé e Roberto Paredes, um jogador de cada lado. Enquanto isso, o Boca Juniors pressionava bastante, em busca do resultado. Coube aos franjeados se defenderem bravamente.

O Boca chegou a carimbar a trave durante o primeiro tempo, com um festival de bolas na área. A zaga do Olimpia rifava. Além disso, Ever Hugo Almeida seria exigido e faria seus milagres para garantir o empate. Já na segunda etapa, mais confusão. Jorge José Benítez e Carlos Kiese também foram expulsos após trocarem empurrões na área. Com nove para cada lado, os xeneizes não tiveram forças para reagir. O apito final marcou a erupção dos alvinegros, diante de uma atônita Bombonera. Pela primeira vez, o Paraguai conquistava a Libertadores.

A festa daquele Olimpia ainda se ampliaria. Os franjeados conquistaram o Mundial Interclubes, na última edição disputada em ida e volta. O Nottingham Forest, vencedor da Copa dos Campeões da Europa, desistiu da competição e abriu vaga ao Malmö, seu vice. A equipe treinada pelo inglês Bob Houghton era famosa por sua capacidade defensiva e tinha diversos jogadores da seleção sueca, com destaque a Robert Prytz, Roland Andersson e Jan Möller. Os celestes sucumbiram aos paraguaios, que venceram os dois jogos.

Em novembro de 1979, Isasi garantiu o triunfo do Olimpia por 1 a 0 na Suécia. Era um feito aos paraguaios, que estavam sem o lesionado Talavera e encararam um frio de quatro graus negativos. Já a volta demorou a acontecer, realizada apenas em março de 1980. Dentro do Defensores del Chaco, os alvinegros derrotaram os europeus por 2 a 1. Solalinde abriu o placar de pênalti, antes que Ingemar Erlandsson igualasse no início do segundo tempo. A 20 minutos do fim, o substituto Miguel Michelangnoli confirmaria o feito. Naquele momento, os olimpistas já eram treinados por Pedro Cubilla, irmão mais velho de Luis, que havia aceitado uma proposta para dirigir o Newell’s Old Boys. El Negro não só voltaria, como levaria a Libertadores em 1990.

E, entre um jogo e outro do Mundial, parte do Olimpia ainda contribuiria a outro feito paraguaio no ano: a conquista da Copa América de 1979.

A Copa América de 1979

Naqueles tempos, a Copa América não tinha uma sede fixa e sua disputa se desenrolava por meses – como as Eliminatórias. Por isso mesmo, a competição começou quando a Copa Libertadores ainda rolava. O Paraguai ao menos teve uma folga e estreou no torneio em 29 de agosto, um mês após a conquista do Olimpia em Buenos Aires. A Albirroja compunha o Grupo C da competição continental, contra Equador e Uruguai. Apenas o primeiro colocado garantiria sua classificação às semifinais do torneio.

O Olimpia não apenas cedeu os seus campeões à equipe que estreou em Quito contra o Equador. Cinco jogadores alvinegros foram titulares do time de Ranulfo Miranda e fizeram a diferença. Solalinde e Talavera anotaram os gols no triunfo por 2 a 1. E a viagem aos Andes se tornou ainda melhor em 5 de setembro, quando o Uruguai não resistiu à altitude, derrotado pelos equatorianos na segunda partida da chave. O triunfo de La Tri por 2 a 1, com gols anotados logo nos primeiros dez minutos, se provaria essencial à Albirroja.

Os paraguaios demonstravam que podiam sonhar, com uma base reforçada por destaques dos demais clubes paraguaios. Se Ever Hugo Almeida não era levado em consideração no período, a meta estava muito bem protegida pelo jovem Roberto ‘Gato’ Fernández, do Cerro Porteño – o pai de Gatito. Seu companheiro no clube, o volante Aldo Florentín usava a braçadeira de capitão. Juan Torales era outro que despontava, no Sportivo Luqueño, pronto para se tornar um dos esteios da defesa guaraní ao longo da década de 1980. Já na frente, o ponta esquerda Eugenio Morel voava baixo com a camisa do Libertad. E isso porque a Albirroja não pôde contar com os prodígios que disputavam o Mundial de Juniores no Japão. Romerito e Roberto Cabañas eram as pérolas da equipe que alcançou as quartas de final, eliminada nos pênaltis pela URSS.

Ainda em setembro, o Paraguai concluiria a participação na fase de grupos da Copa América. Já com Romerito abrilhantando a meia-cancha, o time derrotou o Equador por 2 a 0 em Assunção, gols de Juvencio Osório e Milcíades Morel. O Uruguai, por sua vez, também venceu os equatorianos em Montevidéu por 2 a 1. Mas, naquele momento, a vantagem nos confrontos decisivos contra os charruas recaía sobre os paraguaios.

A princípio, o empate sem gols no Defensores del Chaco não foi um resultado tão ruim contra o Uruguai. O Paraguai teve um jogador expulso ainda no primeiro tempo e precisou se virar com um a menos durante mais de uma hora de jogo. E a vantagem da igualdade seguia para o encontro em Montevidéu. Eugenio Morel seria o herói naquela partida, que não teve os jogadores do Olimpia. O atacante abriu o placar dentro do Centenário e, depois dos tentos de Denís Millar e Rubén Paz para a Celeste, arrancaria o empate aos 43 do segundo tempo. O placar de 2 a 2 já era suficiente para os guaranís festejarem a classificação.

E ficava claro que a empreitada não seria tão simples, quando o Paraguai se cruzou com o Brasil nas semifinais. A equipe de Cláudio Coutinho passava por uma renovação, em que Emerson Leão servia como principal referência dentro de campo. Todavia, a lista de “novatos” com menos de 20 partidas pela equipe nacional incluía Falcão, Sócrates, Éder, Edinho e outros nomes respeitabilíssimos do período. Zico era um sentido desfalque e o andamento das competições nacionais limitava o número de convocados por clube, mas nada que anulasse o favoritismo canarinho. Cinco meses antes, os brasileiros haviam goleado os paraguaios por 6 a 0 em amistoso no Maracanã.

Ranulfo Miranda ainda não era o treinador do Paraguai naquela derrota. E o veterano, convidado pela federação depois disso, sabia os caminhos da Copa América. Artilheiro e capitão do Guaraní de Assunção, o atacante fez parte do elenco vice-campeão sul-americano em 1947, sob as ordens de Manuel Fleitas Solich. Atuaria no El Dorado Colombiano durante os anos 1950, antes de abraçar a carreira de técnico. Seria o condutor da campanha histórica de 1979. Além do mais, a própria base de jogadores era diferente em relação ao amistoso do Maracanã. Garotos ganharam espaço e a afirmação internacional do Olimpia também ajudava.

O duelo contra o Brasil em Assunção possuía seus entraves. O Paraguai estava repleto de desfalques por lesão ou suspensão. Até por isso, precisaria confiar mais na juventude de seu plantel. O mais experimentado Talavera era a grande aposta de Ranulfo Miranda para imprimir o estilo de jogo veloz dos guaranís. Enquanto isso, existia um incentivo a mais na luta pela vitória. O bicho oferecido pelo triunfo era suntuoso à época. Os jogadores albirrojos ganhariam mais que o dobro da premiação paga ao Olimpia pelo título da Libertadores.

Diante de 50 mil torcedores no Defensores del Chaco, o Paraguai conquistou a histórica vitória por 2 a 1. E não foi apenas o Brasil que demorou a engrenar em Assunção. A Albirroja fez um primeiro tempo espetacular, a começar pelo gol que abriu o placar. Eugenio Morel, que infernizava seus marcadores, anotou um dos tentos mais bonitos da história da Copa América. O ponta dominou no peito o cruzamento e emendou uma bicicleta, que tocou no travessão antes de entrar, sem chances a Leão.

Gato Fernández, pouco exigido, até faria uma boa defesa para evitar o empate. Ainda assim, o segundo gol saiu aos 35, com Talavera. O meia dominou na área e tocou na saída de Leão. Já no segundo tempo, o Brasil melhorou com as substituições de Coutinho. Os visitantes conseguiram descontar aos 35, num cruzamento de Zé Sérgio que Palhinha completou de cabeça. Todavia, o Paraguai gastaria o tempo nos minutos finais e comemoraria o merecido triunfo. Iriam em vantagem para o reencontro no Maracanã, uma semana depois.

Cláudio Coutinho foi criticado pelo desempenho no Paraguai. E o treinador, que também dirigia o Flamengo na época, recorreu aos seus homens de confiança. Carpegiani e Tita seriam titulares, enquanto Júnior terminou cortado de última hora. Já na frente, Palhinha e Zé Sérgio ganharam a posição na trinca ao lado de Sócrates. Do outro lado, Ranulfo Miranda também possuía boas notícias. Roberto Paredes e Carlos Kiese retornavam à escalação, enquanto Eugenio Morel estava confirmado, apesar de problemas no joelho.

Existia uma certa soberba, como clamavam os jornais, de que a “freguesia paraguaia” pesaria no Maracanã. O que se viu, porém, foi uma história diferente no empate por 2 a 2. O Brasil tinha dificuldades para encaixar seu jogo e encontrar espaços no meio da zaga albirroja. O embate era equilibrado até a Seleção abrir o placar aos 29 minutos, num chute de Falcão no cantinho de Gato Fernández. A resposta guaraní foi imediata, com o empate dois minutos depois. Romerito (que substituíra o lesionado Talavera logo no início da partida) avançou pelo meio e abriu com Eugenio Morel, que fez o cruzamento para o centroavante Milcíades Morel fuzilar.

O Brasil sentiu o baque e dava pinta que perderia no Maracanã. A Canarinho achou o empate aos 16 do segundo tempo, em pênalti sofrido por Falcão que Sócrates converteu. Mas, novamente, o Paraguai deu o troco instantâneo. Era a noite de Romerito, que fechou a conta aos 19. O garoto recebeu na entrada da área, deu um corte seco em Marco Antônio e desferiu o tiro cruzado, no canto de Leão. O desespero bateu na Seleção e bastou à Albirroja se segurar na defesa, contando com as boas defesas de Gato Fernández para celebrar o triunfo.

O imenso resultado valeu ao Paraguai a decisão. Também teriam um adversário de peso. O favoritismo na outra chave poderia ser do Peru, mas os campeões anteriores do torneio sucumbiram ao rival Chile. Num jogo de tensões em meio ao centenário da Guerra do Pacífico, a Roja conquistou um triunfo emblemático dentro do Estádio Nacional de Lima, com dois gols de Carlos Caszely. Já em Santiago, o empate sem gols foi suficiente para os chilenos avançarem à decisão. A equipe de Luis Santibáñez também merecia respeito.

A final da Copa América seguia o regulamento da Libertadores na época. Paraguai e Chile se encararam em jogos de ida e volta. Em caso de dois empates ou uma vitória para cada lado, independentemente dos placares, aconteceria uma partida extra em campo neutro. Exatamente o que se desenrolou. O saldo de gols seria levado em consideração apenas se o terceiro jogo permanecesse empatado até a prorrogação – em tempos nos quais não existiam pênaltis.

O Paraguai contou com força máxima para a primeira partida, em Assunção. Romerito ganhou a vaga de Talavera no meio-campo, enquanto Eugenio Morel representava a principal ameaça no ataque. Além disso, cinco jogadores do Olimpia estavam presentes em campo: Paredes, Sosa, Kiese, Torres e Isasi. E os 40 mil presentes no Defensores del Chaco assistiram a uma vitória inapelável da Albirroja, por 3 a 0.

O jogo aéreo fez a diferença ao Paraguai naquela noite. O primeiro gol saiu logo aos 12 minutos, em lance brigado dentro da área. Os chilenos poderiam até reclamar de uma falta sobre o goleiro Mario Osbén, mas o árbitro nada marcou e Romerito aproveitou a sobra. Aos 36, Milcíades Morel ampliou com uma cabeçada certeira. Já na segunda etapa, Romerito encaminhou a vitória com uma potente cobrança de falta, que sublinhava sua categoria aos 18 anos. O título parecia encaminhado à Albirroja.

Não seria tão simples, entretanto. O dinheiro que tanto motivou o Paraguai na Copa América se tornou também um problema, com jogadores e dirigentes às turras por conta dos valores. Sem a tranquilidade necessária, os guaranís saíram derrotados em sua visita a Santiago. O Chile definiu a vitória por 1 a 0 no Estádio Nacional. O gol saiu logo aos dez minutos, quando Carlos Rivas aproveitou um rebote de Gato Fernández, que não teve culpa no lance. Os chilenos ainda tiveram um gol corretamente anulado no primeiro tempo. Já durante a segunda etapa, os goleiros colecionaram defesas, em especial Mario Osbén, que frustrou os paraguaios com dois milagres. Seria necessário um terceiro jogo.

A definição da taça aconteceu em 11 de dezembro de 1979, no Estádio José Amalfitani, casa do Vélez Sarsfield. Não parecia exatamente uma final continental, diante das arquibancadas esvaziadas. Ainda assim, seis mil paraguaios fizeram a viagem e testemunharam a consagração de sua seleção. Ranulfo Miranda não retrancou o seu time, mas o empate por 0 a 0 terminou por ser suficiente à conquista da taça.

O Paraguai pressionou o Chile. Durante o primeiro tempo, a Albirroja carimbou o travessão e viu um duelo particular de Romerito com o goleiro Osbén, que voltou a acumular grandes defesas. Na segunda etapa, os chilenos equilibrariam a partida e Caszely apareceu mais. Gato Fernández também seria exigido, com uma defesa sensacional para espalmar uma cabeçada que ia em direção ao ângulo. Já na prorrogação, o zero prevaleceu, mesmo com Osbén parando outra vez Romerito, ao espalmar uma bomba à queima-roupa. Apesar do regulamento falho, o título consumado com o empate era totalmente justo à bola que a Albirroja apresentou.

A conquista do Paraguai consagrou uma geração e abriu portas a craques. Os representantes do Olimpia atingiram seu ápice, enquanto outros tantos fariam carreiras sólidas a partir de então. Gato Fernández se tornou intocável na meta paraguaia e Eugenio Morel teria certo sucesso no futebol argentino, por onde já tinha atuado. Já a principal figura seria mesmo Romerito, vendido ao New York Cosmos. Foram três anos na NASL, até retornar à América do Sul e se tornar ídolo do Fluminense.

A seleção paraguaia, em contrapartida, não emplacou seu retorno à Copa do Mundo de imediato. Dois anos depois, o Chile deu o troco ao conquistar o grupo nas Eliminatórias e se classificar ao Mundial de 1982. A Roja ganharia os dois jogos contra os paraguaios, protagonizada pelo atacante Patrício Yáñez. Caberia aos guaranís esperarem até 1986, quando voltaram a superar os chilenos e se garantiram no México. Gato Fernández, Romerito, Cabañas, Isasi e Torales eram os remanescentes do título de sete anos antes. Lideraram uma campanha digna, que terminou com a queda apenas nas oitavas de final, contra a Inglaterra.