“A Laranja Mecânica encantou o mundo, na campanha dos vice-campeonatos mundiais, nas Copas de 1974 e 1978”. Frases como essa já foram escritas e lidas inúmeras e inúmeras vezes. De fato, com relação à Copa sediada na Alemanha, não há contestações em relação ao teor da opinião. Todavia, o Mundial ocorrido há 40 anos entra de lambuja sem poder. Porque, sim, a Holanda foi vice-campeã mundial em 1978. Com vários dos jogadores que haviam marcado época havia quatro anos. Mas fez um caminho totalmente diferente para chegar ao mesmo fim.

Totalmente diferente porque, para começo de conversa, não haveria em 1978 o galvanizador da equipe que impressionara quem gostava de futebol. A rigor, desde 1974 Johan Cruyff já anunciava que aquela fora sua primeira e última Copa do Mundo. Para muitos, em razão de uma história para sempre presente no anedotário holandês de futebol: a reportagem publicada pelo diário “Bild”, dias antes da decisão de 1974, dando conta de uma festa na piscina do Waldhotel Krautkrämer, em Hiltrup, concentração da Oranje naquele torneio, envolvendo jogadores (Cruyff entre eles) e prostitutas. No dia seguinte, “Bild” publicado, a esposa Danny Cruyff teria ligado ao marido e o feito prometer que nunca mais jogaria outro torneio. Uma das teorias, entre tantas ligadas à reportagem.

Também vigorou a teoria de que o “Nummer 14” não aceitaria ir à Argentina como protesto pelo regime militar que comandava o país-sede a partir de 1976. Ou então, que um prêmio menor da federação holandesa caso viesse o título mundial foi o estopim para a recusa. Não adiantou Cruyff revelar a razão real, em 2012 – um sequestro-relâmpago sofrido pela família, na própria residência de Barcelona, em setembro de 1977, que o fez preferir manter a segurança com Danny e os filhos Jordi, Chantal e Susila: sempre haverá quem faça boatos a respeito do porquê de Cruyff não ter tido a sua segunda chance em 1978.

Pelo menos, o símbolo maior do futebol holandês esteve na campanha tranquila das Eliminatórias da Copa. Por sinal, tranquilidade necessária, após as turbulências da Euro 1976 (uma outra história, que fica para outra vez). No grupo 4 da qualificação europeia, seis jogos – contra Bélgica, Irlanda do Norte e Islândia -, cinco vitórias, um empate e liderança absoluta. A base era a mesma de 1974: lá estavam Arie Haan, Wim Jansen, Wim Rijsbergen, Ruud Krol, Wim Suurbier, Johan Neeskens, Willem van Hanegem, Robert Rensenbrink, os irmãos Willy e René van de Kerkhof, Johnny Rep… mais alguns destaques domésticos de então, como Jan Peters, Hugo Hovenkamp e Kees Kist, trio que fazia sucesso no AZ. Sem contar Ruud Geels, goleador como sempre no cenário interno – fora artilheiro da Eredivisie por quatro vezes seguidas, entre 1974/75 e 1977/78.

A única nota destoante na segura campanha holandesa rumo à Copa fora a briga já mencionada nesta coluna que retirou definitivamente da seleção outra dupla de sucesso em seu clube: o goleiro Jan van Beveren e o atacante Willy van der Kuylen, símbolos do PSV que seria não só campeão holandês, mas também da Copa Uefa. De resto, até que um time cheio de talentos temperamentais havia sido bem conduzido pelo técnico Jan Zwartkruis, que chegara após a Euro, vindo da seleção de militares, e conseguia ajudar a seleção holandesa a manter um nível técnico elogiável.

Tudo isso mudou em 1978. Zwartkruis comandara a seleção meio interinamente, durante as Eliminatórias. E a federação holandesa decidiu que um técnico de pulso mais firme comandaria a Holanda na Copa. De fato, o nome escolhido inspirava respeito: o austríaco Ernst Happel, técnico do Feyenoord campeão europeu e mundial em 1969/70, que acumularia o comando da Laranja ao comando do Club Brugge. A Zwartkruis, caberia apenas auxiliá-lo. Happel não era lá técnico muito afeito a debates com os jogadores sobre os rumos a seguir – um dos lemas do treinador austríaco era “kein geloel, maar fussball”, em alemão mesmo (a tradução, em português coloquial: “sem mimimi, jogue bola”).

Ernst Happel e a comissão técnica da Holanda

Começou a pagar o preço disso durante a preparação para o torneio, com o ataque perdendo opções. Sem espaço nas convocações, Ruud Geels ficou de fora da lista preliminar de 26 jogadores – assim como Kees Kist. Lesionado no AZ, Jan Peters também não foi à Copa. Johnny Rep ameaçava: ou era titular na frente, ou preferia deixar a seleção. No gol, havia certa indefinição: optar por Piet Schrijvers, reserva em 1974, melhor debaixo das traves, ou manter Jan Jongbloed, 37 anos, mais afeito ao jogo com os pés? Com todas essas dúvidas, a dupla Happel-Zwartkruis convocou os 22 nomes que viajaram à Argentina, numa mescla dos remanescentes do Mundial anterior com alguns nomes novos – alguns vindos do campeão PSV, como o zagueiro Ernie Brandts e o lateral direito Jan Poortvliet.

Mas aí veio o pior: a pouco mais de duas semanas do início da Copa, Van Hanegem, dos melhores e mais experientes remanescentes de quatro anos antes, deixou a delegação holandesa. Pelo mesmo motivo da ameaça de Rep: Ernst Happel não lhe garantira um lugar entre os titulares. Jovem que poderia ser aposta, Hovenkamp se lesionou nos treinos e ficou inutilizado para a Copa. Restou a Happel adiantar Arie Haan para o meio-campo, sua posição original. E apostar numa escalação conhecida para a estreia, contra o Irã, em Mendoza, no dia 3 de junho de 1978: os 11 jogadores que foram a campo haviam estado na Alemanha. A única exceção seria o atacante Dick Nanninga, substituto de René van de Kerkhof no segundo tempo.

Se a estreia contra o Uruguai em 1974 mesmerizara o mundo, contra os iranianos o cenário foi diferente. Mesmo diante de uma equipe estreante em Copas, mesmo com remanescentes tecnicamente capazes, o time holandês decepcionou. Ganhou por 3 a 0, jogando sem a menor velocidade. Valeu para que um destaque despontasse: Rensenbrink, autor dos três gols, dois de pênalti. Tentando acelerar mais o time, Happel mudou do 4-3-3 para o 3-4-3 o esquema tático para o segundo jogo – contra o Peru, em Mendoza, no dia 7 de junho -, possibilitando a entrada de Poortvliet.

Mas a Holanda fracassou: de novo, morosidade preocupante. Até houve algum trabalho ao goleiro Ramón Quiroga, mas o empate sem gols deu a mostra de como, pelo menos naquela fase, o Peru era um time respeitável: a equipe contou com os pilares Héctor Chumpitaz, César Cueto e Teófilo Cubillas a perturbar a defesa holandesa. A Laranja decepcionava. Ou, para usar a manchete da revista “Veja” na notícia sobre as expectativas frustradas com os holandeses, “o carrossel enguiçou”.

Com três pontos, liderando o grupo pelo melhor saldo de gols, a Holanda até estava em boas condições para se classificar, mas convinha não bobear contra a Escócia, em Mendoza, no dia 11 de junho. Pois a Oranje quase bobeou. O adversário começou melhor, já mandando uma bola na trave aos nove minutos – Bruce Rioch, de cabeça. Além disso, com dores abdominais, Neeskens teve de ser substituído, no minuto seguinte. Pelo menos, Rensenbrink fez história com a classe que tinha nas cobranças de pênalti, justificando porque tomara de Neeskens o posto de batedor oficial: fez 1 a 0 sobre os escoceses ainda na etapa inicial, marcando o milésimo gol da história das Copas.

A partir daí, quase nada mais deu certo para os holandeses. Com alguma velocidade e mais habilidade nas jogadas de ataque, a Escócia empatou com Kenny Dalglish. Já no segundo tempo, Archibald “Archie” Gemmill roubou a cena: virou o jogo, e ainda fez 3 a 1 com um belo gol, driblando vários defensores. Com o Peru superando o Irã e indo à primeira posição do grupo 4, a seleção do uniforme azul sonhava: ia a três pontos, e se fizesse 4 a 1, eliminaria a vice-campeã mundial no saldo de gols, que ficaria 1 a 0 a favor dos escoceses. Aí surgiu o talento: na forma de um chute forte de Johnny Rep, no ângulo esquerdo do goleiro Alan Rough, marcando o gol salvador. A Laranja perdera por 3 a 2, mas estava salva na Copa. Todavia, a manchete de um jornal holandês dizia tudo: “A Laranja avança a despeito de uma atuação de lixo”.

Ficava claro: algo teria de mudar. E mudou. A falta de paciência e ponderação de Ernst Happel – com jogadores e dirigentes – já irritava Wim Meuleman, presidente da federação holandesa. Observando tudo isso, o auxiliar Jan Zwartkruis. Que contou o que aconteceu, em sua biografia, lançada em 2008. Falecido em 2013, ele revelou na publicação: “Já haviam cochichos de que ‘talvez seria melhor se Zwartkruis fosse o técnico principal’. De minha parte, não era o caso, mas Happel sentia que isso poderia acontecer. E entendo por quê: eu tinha mais liberdade com os rapazes”.

Para Meuleman, a gota d’água veio após um encontro com Happel, no saguão do hotel em que a delegação estava hospedada. O presidente havia feito uma sugestão de escalação para o primeiro jogo da segunda fase – contra a Áustria, em Córdoba, a 14 de junho de 1978 -, contando com mais sugestões: do diretor de futebol Jacques Hogewoning, do segundo auxiliar Arie de Vroet, do chefe de delegação Herman Chouffoer. O treinador austríaco foi inflexível: “Você é o presidente e eu sou o técnico. Certo? Obrigado”.

O nervosismo era demais até para Happel, fumante inveterado. E partiu dele a decisão: um dia antes de enfrentar a seleção de seu país natal, após o treino, ele se aproximou de Zwartkruis – coisa que nunca fizera até então naquela Copa, segundo o auxiliar – e comunicou: “Amanhã, você faz a preleção. E também fica responsável pelas alterações”. Na prática, o jogo de poder na comissão técnica mudava ali: Zwartkruis passaria a ter tanta autoridade quanto (ou até mais do que) Happel.

Se foi por pressão da KNVB sobre Happel ou se foi pela vontade própria do técnico, nunca se soube. Mas o fato é que a Holanda mudou da água para o vinho, em sua estreia num dos quadrangulares semifinais daquela Copa. Zwartkruis fez três mudanças na escalação: lesões de Neeskens, Suurbier e Rijsbergen levaram às entradas de Poortvliet, Brandts e do lateral Piet Wildschut. Além disso, Schrijvers substituía Jongbloed no gol. Tudo isso serviu para uma atuação muito mais animadora. Arie Haan, enfim, engrenou na armação das jogadas. Rensenbrink mostrou classe no ataque, enquanto a velocidade ficou com Willy van de Kerkhof, e a precisão na área, com Johnny Rep. Resultado: uma goleada por 5 a 1. A Laranja voltava a ser respeitada na Copa de 1978.

Melhor augúrio, impossível. Afinal, o jogo seguinte era justamente um reencontro com a Alemanha, algoz na final de 1974. Era uma equipe em reformulação, mediana, a alemã: acumulava o surgimento de Karl-Heinz Rummenigge à permanência de gente como Sepp Maier e Berti Vogts. No entanto, ainda se mostrava capaz de crescer em clássicos. Foi o que aconteceu: contra a vice-campeã mundial, a campeã abriu o placar logo aos três minutos, com Rüdiger Abramczik.

A Oranje sentiria o baque? Haan diria não: o meio-campista começou a mostrar a habilidade impressionante nos chutes de longe, empatando aos 27 minutos, num arremate que deixou Maier apenas olhando a bola entrar, no ângulo direito, encerrando o que até então era a maior invencibilidade de um goleiro na história das Copas (475 minutos). Pareceu até verdadeiro o que o camisa 9 comentou, à revista “Voetbal International”, na edição posterior àquele jogo: “Naquele chute foram quatro anos de ódio”.

O equilíbrio seguiu no segundo tempo. Dieter Müller recolocou os alemães na frente aos 25 minutos. Mas a Holanda mandou uma bola na trave, acelerou a troca de passes, não descansou até René van de Kerkhof empatar, aos 37 minutos. No fim de jogo, Nanninga ainda foi expulso. Mas o empate valeu para provar o espírito de luta holandês.

Quanto mais dificuldades encarava na segunda fase, mais a Holanda crescia. Sob o comando implícito de Zwartkruis, os destaques ofensivos melhoravam: Haan assumia de vez o destaque no meio-campo, Rensenbrink e Rep se convertiam nos goleadores de que a Holanda precisava, os irmãos Van de Kerkhof eram velozes, Neeskens seguia como o coadjuvante valioso que sempre foi naquela geração.

Se havia alguma dúvida da capacidade, ela acabou na emocionante partida que levou a equipe laranja à sua segunda final seguida de Copa, contra a Itália, em 21 de junho, no Monumental de Núñez. Nada pior do que a jogada do primeiro gol da Azzurra, para fazer crer que a Holanda se renderia às decepções: ainda no primeiro tempo (19 minutos), numa falha de Ernie Brandts (pressionado pela marcação, o zagueiro “chutou” para o próprio gol), no azar de Schrijvers (o goleiro se chocou com Brandts, e o choque rendeu uma lesão que o fez ser substituído por Jongbloed, chegando assim à segunda final de Copa).

Se no primeiro tempo Brandts ficou ameaçado de ser o vilão, na etapa final o zagueiro afastou tal perigo da melhor maneira possível: empatando o jogo. E empatando bonito: num chute forte, tirando logo a perna para evitar a chegada dos zagueiros italianos, mandando a bola no ângulo direito de Dino Zoff. O empate já tranquilizava a Laranja: pelo saldo de gols, ele já a garantia na decisão. Mas faltava um lance que simbolizasse como aquela equipe melhorara na reta final do Mundial.

Este lance veio aos 32 minutos do segundo tempo: como contra a Alemanha, Haan avançou com a bola pelo meio. Também como contra a rival, o meio-campista arriscou o chute, até de mais longe. E a bola tomou o caminho das redes de Zoff, ainda batendo na trave, antes de sacramentar a virada, a vitória, a vaga holandesa na final, e se tornar um dos mais bonitos gols em chutes de fora na história da Copa. Só não foi o tento mais belo daquele torneio porque Nelinho faria o que faria, na decisão do terceiro lugar.

25 de junho de 1978. De novo, a Holanda tentaria seu primeiro título mundial – e de novo, contra a seleção anfitriã. Porém, desde o começo da preparação naquele dia, os holandeses tiveram a impressão de que seriam testados psicologicamente, diante de um país que parecia não aceitar outro resultado que não fosse o título mundial. Em primeiro lugar, o ônibus da delegação demorou a chegar ao Monumental de Núñez, preso pela torcida argentina que lotava as ruas. Nos vestiários, a preleção de Ernst Happel foi curta e grossa: “Meus senhores, [ganhem] dois pontos”.

Depois, pouco antes do começo do jogo, um fato muito lembrado pelos holandeses. Com a mão quebrada, René van de Kerkhof jogara com o local coberto de gesso durante toda a segunda fase – sem problema nenhum. Até a final da Copa: com os protestos do capitão argentino Daniel Passarella, o árbitro italiano Sergio Gonella obrigou Van de Kerkhof a cobrir o gesso. Aí, a irritação foi dos holandeses: Ernst Happel chegou até a ameaçar retirar o time de campo. Antes que o início da decisão atrasasse mais, o gesso foi coberto por ataduras, e enfim a partida começou.

E quando começou, pareceu dar razão ao que Ruud Krol disse, anos depois: “Foi o jogo mais duro da história das Copas”. Cada dividida simples era motivo para discussões – ou até para mais perigo: no intervalo, não faltaram manchas de sangue nas camisas laranjas, ou mesmo lábios inchados, ou até dois dentes perdidos por Neeskens, após uma cotovelada de Passarella. No que se viu de bola correndo, a Holanda até começou aproveitando mais o nervosismo argentino – Ubaldo Fillol fez milagre, espalmando chute de Rep à queima-roupa -, só que aos poucos a Albiceleste uniu talento e velocidade, para abrir o placar com Mario Kempes, já no final do primeiro tempo.

O ritmo do jogo foi parecido no segundo tempo. A Argentina pressionava, mas também buscava se impor fisicamente, fosse qual fosse o efeito. E se a Holanda buscava atacar mais, com a entrada de Dick Nanninga para fortalecer o jogo aéreo, também não fugia das divididas. Até uma linha de impedimento mal feita pelos argentinos, aos 36 minutos. René van de Kerkhof cruzou da direita, Nanninga entrou de cabeça e completou para a meta vazia – por mais que a câmera tenha focado a comemoração de Poortvliet após o gol, foi do atacante do Roda JC, falecido em 2015, o 1 a 1.

Foi o melhor momento da Holanda no jogo. A Argentina se abalara naquele final de jogo, temerosa de que pudesse perder a Copa em casa. E foi nos acréscimos que um lance fortuito se converteu, até hoje, como o maior símbolo do “quase” que persegue a Laranja nas Copas do Mundo – talvez só o gol perdido por Arjen Robben, no segundo tempo da final de 2010, chegue perto de simbolizar a mesma coisa.

Aos 45 minutos, já caminhando para os 46, um chute alto levou a bola para a área. Rensenbrink – “De Slangeman”, o homem-cobra, apelidado assim pela magreza e pela habilidade nos movimentos – chegou pela esquerda, indo dividir a bola com Fillol e um zagueiro. Aí, o camisa 12 laranja foi o primeiro a colocar o pé. Parecia uma jogada sem perigo. Tempos depois, o próprio atacante afirmou: “Aquilo não era uma chance propriamente dita. Foi até engraçado eu ter mandado a bola na trave”.

Pois é: o pé de Rensenbrink mandou a esférica na trave direita de Fillol. Se tivesse entrado, seria praticamente o gol a levar a Holanda ao panteão dos campeões mundiais. Para o escritor inglês David Winner – autor do seminal “Brilliant Orange” (2000), livro a traçar relações entre o futebol e a cultura holandeses -, o gol que faria Rensenbrink virar um dos nomes mais conhecidos da história do país. Mas o que até hoje ecoa nos ouvidos de quem viu aquele jogo é o do narrador Theo Reitsma, da NOS, emissora pública holandesa: “Rensenbrink! Tegen de paal!” (“Rensenbrink! Na trave!”).

O gol da virada não veio. Imediatamente depois, Sergio Gonella apitou o final do tempo regulamentar. A Argentina pôde usar a pausa rumo à prorrogação para recobrar o ânimo e a calma perdidos momentaneamente após o empate holandês. Antes do fim da primeira parte do tempo extra, Kempes também encarou uma dividida, após driblar Jongbloed, mas conseguiu superá-la e acertou o que devia: o gol. A partir dali, a Holanda já sabia: a Copa estava perdida. O gol de Daniel Bertoni, sacramentando o primeiro título mundial argentino, só confirmou isso.

E uma Copa que poderia ter refletido uma admirável reação holandesa às adversidades – a saída precoce de Cruyff, a deserção inesperada de Van Hanegem, as atuações decepcionantes da primeira fase – resultou num vice-campeonato mundial pouco lembrado, 40 anos depois. Talvez até “comemorado” pelos holandeses, que pensam no que poderia acontecer em uma Argentina incendiária, caso não fosse ela a campeã mundial. Ficou apenas a memória do “futebol numa guerra suja”, como foi batizado um livro sobre a campanha holandesa naquela Copa. E talvez por isso, por esse anticlímax tão bem simbolizado por aquela bola de Rensenbrink na trave, a Copa de 1978 virou apêndice da de 1974. Mesmo que o final igual tenha sido alcançado de modo diferente.


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