16 histórias da carreira de Daniele De Rossi, um cara que ajudou a valorizar a paixão ao redor do futebol

Um dos mais icônicos jogadores da sua geração, Daniele De Rossi se aposenta com feitos que vão muito além do gramado

Segundo jogador que mais entrou em campo pela Roma. Quarto em aparições pela seleção italiana. Os números absolutos guardam a Daniele De Rossi um lugar especial na história do futebol. E não é apenas com as marcas centenárias que se exalta a grandeza do que construiu o meio-campista. O camisa 16 romanista anunciou sua aposentadoria nesta semana, aos 36 anos, mas permanecerá como um símbolo da entrega e da paixão dentro de campo. Teve altos e baixos na carreira, nem sempre se colocou entre os melhores. Mas, de tão passional, o veterano ajudou a tornar o futebol também um pouco mais apaixonante.

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De Rossi levava consigo uma imagem de “jogador violento”, e com seus motivos. Os rótulos, porém, tantas vezes ignoraram o baita volante que muito fez por clube e por seleção. E o italiano, de qualquer forma, não é dos caras que se resumem apenas ao que acontece em campo. De Rossi valorizou como poucos o sentimento inerente ao torcedor. Ele carregou esse sentimento durante as mais de 700 partidas que disputou como profissional e também o representou em outros episódios ao redor do esporte. O veterano incorporou o espírito que muitos gostariam de ver no ídolo de seu próprio time – e por isso sempre foi mais fácil simpatizar com o romanista.

Abaixo, para marcar a despedida de Daniele De Rossi, relembramos 16 histórias de sua carreira. Os maiores feitos esportivos, claro, foram incluídos. Mas há também outros causos em que ele apresentou os sentimentos mais aflorados de um torcedor. Colocou-se entre os grandes especialmente por se manter fiel à essência do futebol.

O primeiro uniforme

Em sua carta de despedida à Roma, publicada no último mês de maio, De Rossi apresentou uma fotografia de quando ainda era um garotinho. Aparece com seu primeiro uniforme do clube que, conforme conta, teve os números costurados pela própria tia. “Olhando para esta foto de menino, uma foto que todos conhecem muito bem, eu percebo quanta sorte eu tenho – uma boa sorte que eu nunca tomei como garantida, ainda que nunca poderei ser grato o suficiente por ter recebido. Foi uma longa jornada, cheia de eventos e intensa, mas sempre motivada pelo amor que tenho por este clube”, escreveu. O amor mais puro, de uma criança que realizaria o seu sonho continuamente ao longo de década. O sonho de quem já estaria feliz em atuar uma só vez pela Roma, mas que vestiu a mesma camisa em 616 jogos.

As três vezes em que recusou a própria Roma

A cena do pequeno Daniele com a camisa da Roma é mais do que natural. Nascido no seio de uma família romanista, é filho de um antigo prata da casa do clube, que depois se tornaria treinador da base. Seu tio Osvaldo também era um romanista fanático, o responsável por dar aquele primeiro uniforme. E, por mais que o menino tenha começado a frequentar as arquibancadas do Olímpico aos dez anos, recusaria por um tempo se integrar ao clube que tanto ama. O ponto é que De Rossi não começou a dar seus primeiros passos no futebol dentro da Roma, e sim no Ostia Mare, um pequeno time de sua vizinhança. A equipe possuía convênio com os giallorossi e logo o então atacante seria convidado para se juntar à potência da Serie A. Pois ele se negou, abrindo mão dos três primeiros convites. Era tão envolvido com os amigos no Ostia Mare que não queria abandoná-los. Contudo, ao jogar uma competição em Trigoria, o menino aumentou seu fascínio pelo clube do coração. Aos 12 anos, na quarta tentativa da Roma, passou a vestir a camisa que tanto adora. Já em 2001, aos 18 anos, faria sua estreia oficial.

A presença constante desde as seleções de base

Não é apenas a Roma que está extremamente atrelada à trajetória de Daniele De Rossi. O meio-campista também fez parte das seleções de base desde a adolescência. E o romanista foi um nome importante ao encabeçar a sua geração com os azzurri. Integrou a Itália a partir do sub-19, até chegar ao ápice em 2004. Treinada por Cláudio Gentile, a equipe conquistou a Euro Sub-21, ao derrotar Sérvia e Montenegro na decisão. De Rossi anotou o primeiro gol na vitória por 3 a 0, em Bochum. Ao todo, 15 jogadores daquele elenco chegaram à seleção principal e cinco deles conquistaram a Copa do Mundo em 2006. Em agosto de 2004, De Rossi ainda levou a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atenas. Andrea Pirlo e Giorgio Chiellini eram reforços à base formada no sub-21.

O pênalti na final da Copa do Mundo

Em franca ascensão na Roma, De Rossi se tornou titular da Itália às vésperas da Copa do Mundo de 2006. Sua participação na campanha seria marcada pela cotovelada em Brian McBride na fase de grupos, que rendeu uma suspensão de quatro jogos. Seu retorno aconteceu justamente na final e o volante saiu do banco durante o segundo tempo, no lugar de Simone Perotta. Às vésperas de completar 23 anos, não apenas deu conta do recado durante a tensa prorrogação contra a França, como também fez sua parte na disputa por pênaltis. Acertou um chutaço no ângulo, sem chances a Fabien Barthez, no terceiro dos cinco penais convertidos pelos italianos. Com isso, receberia a taça em suas mãos. Seis anos depois, outro momento importante do meio-campista pela Azzurra aconteceu na Euro 2012. Foi um dos melhores do time na campanha até a final e terminou eleito para a equipe ideal do torneio continental.

A medalha ofertada ao roupeiro da seleção

O mais tocante episódio de Daniele De Rossi relacionado à Copa de 2006, porém, aconteceu uma década depois. Em março de 2016, Pietro Lombardi faleceu aos 92 anos. O veterano trabalhava como roupeiro da seleção italiana desde 1994 e era um personagem muito querido pelos jogadores – chamado de “Spazzolino”, o “Escova de Dentes”, por seu cuidado com as chuteiras. O volante compareceu ao velório do idoso em Florença e depositou sua medalha de ouro recebida no Mundial dentro do caixão do amigo. O gesto, testemunhado apenas pelos presentes no adeus a Lombardi, tornou-se um símbolo da gratidão e da lealdade do romanista.

O chocolate para cima da Internazionale

É uma pena que De Rossi nunca tenha conquistado o Scudetto. O meio-campista tornou-se profissional só depois do título faturado sob as ordens de Fabio Capello em 2000/01 e bateu bastante na trave, com oito vice-campeonatos na Serie A. Seus maiores feitos se restringiram à Copa da Itália, conquistada duas vezes, com o bicampeonato em 2006/07 e 2007/08. No primeiro título, os giallorossi golearam a Internazionale por 6 a 2 na primeira partida da decisão. Depois que Totti abriu o placar, De Rossi ampliou logo aos cinco minutos. Já na temporada seguinte, de novo contra os interistas, o volante portaria a braçadeira de capitão, ante a ausência de Totti.

Melhor jogador italiano da Serie A

E se faltam títulos para referendar a grandeza de Daniele De Rossi na Roma, vale ressaltar que o meio-campista ganhou suas premiações individuais. Ele terminou eleito como o melhor jogador italiano em atividade na Serie A durante a temporada 2008/09. A honraria destaca o excelente momento técnico do volante, quando a Internazionale dominava o Scudetto e encadeava o seu pentacampeonato nacional. A Roma, além do mais, faria uma campanha relativamente fraca durante aquele ano: terminou na modesta sexta colocação do campeonato. O melhor desempenho do time viria em 2009/10, quando os giallorossi deixaram a liderança escapar no final e encerraram a Serie A dois pontos atrás dos nerazzurri.

As propostas que poderiam levá-lo a outros destinos

Não foi por falta de ofertas que De Rossi deixou de buscar títulos em outros cantos. O meio-campista recebeu sondagens algumas vezes ao longo de sua carreira, as principais de clubes da Premier League. Sir Alex Ferguson bem que tentou levá-lo ao Manchester United, onde o italiano poderia se tornar um sucessor de seu ídolo Roy Keane, mas o negócio nunca se concretizou. O Chelsea foi outro a oferecer cifras altas para o meio-campista nos tempos de Carlo Ancelotti, o que não resultou em acordo com a Roma. E ele também poderia ter encabeçado o projeto do Manchester City, após receber o convite de Roberto Mancini. Preferiu se manter atrelado à camisa giallorossa e alimentar seu sentimento como torcedor.

Quando se tornou um torcedor a mais no dérbi

Após se tornar titular absoluto da Roma, na temporada 2004/05, De Rossi demorou mais de 10 anos para se ausentar de seu primeiro dérbi contra a Lazio. Lesionado, ele sequer ficou no banco durante o clássico pela Serie A em novembro de 2015. E aquele torcedor ilustre nas tribunas do Estádio Olímpico escancarou o tamanho de seu fanatismo pelos giallorossi. Foi mais um no meio da multidão, vibrando demais com a vitória por 2 a 0. “Meu primeiro dérbi como jogador foi tão profundo quanto o primeiro que experimentei como torcedor: a cidade para e te joga em uma turbina de emoções. Manter isso sob controle não é fácil. Em campo, você precisa manter a intensidade e a concentração. Mas eu irei admitir que a paixão que vem das arquibancadas nunca pode deixá-lo indiferente”, avaliou, depois do triunfo.

O companheirismo a Florenzi e a tantos outros

Muitos podem questionar o jogo duro (e por vezes desleal) de Daniele De Rossi contra os seus adversários. No entanto, o tamanho de seu companheirismo é explicitado por um capítulo em particular, ocorrido em outubro de 2016. Alessandro Florenzi sofreu uma grave lesão durante um jogo contra o Sassuolo e foi encaminhado ao hospital, sob a suspeita de ter rompido seus ligamentos do joelho. De Rossi se prontificou a acompanhar o jovem rumo ao pronto socorro e permaneceu por lá até o meio da madrugada, quando saíram os resultados dos exames. Infelizmente, a contusão mais séria foi confirmada. O meio-campista, ao menos, pôde consolar Florenzi e também tranquilizar os familiares do colega.

Enfim, capitano

De Rossi e Totti foram praticamente duas faces de uma mesma moeda em Roma. Dois jogadores extremamente dedicados ao clube e que transformaram a camisa em sua segunda pele, por mais que representassem sentimentos distintos dentro de campo. Enquanto Francesco era o craque que resolvia no ataque, Daniele era o motor que fazia as coisas funcionarem no meio. Naturalmente, havia uma grande “herança” do eterno Capitano ao seu amigo: a braçadeira. De Rossi usou a faixa pela primeira vez aos 22 anos, mas só pôde ganhá-la em definitivo em 2017/18, após a aposentadoria de Totti. Foram apenas dois anos como capitão principal dos romanistas, um período pequeno perto de sua história, mas significativo à transição. “A faixa foi herdada do braço de um irmão, um grande capitão e o jogador mais incrível que eu vi usar esta camisa. Nem todo mundo joga ao lado de seu ídolo por 16 anos”, afirmaria De Rossi.

A honradez após o melancólico adeus à seleção

O sangue quente dentro de campo, todavia, também não precisava se manter fora das quatro linhas. E um imenso sinal de respeito aos adversários foi oferecido por De Rossi em seu último jogo pela seleção italiana, após perder a vaga na Copa de 2018 durante a repescagem contra a Suécia. O volante já tinha deixado à posteridade sua imagem indignada no banco de reservas, quando o técnico Gian Piero Ventura o chamou para entrar em campo e ele tentou mudar a ideia do comandante, num momento em que o time necessitava de mais ofensividade. Já na saída do San Siro, uma dose de consideração aos suecos. De Rossi foi até o ônibus adversário pedir desculpas em nome dos compatriotas, depois que a torcida vaiou a execução do hino escandinavo. Além disso, também se desculpou pela agressividade exagerada de alguns jogadores no duelo, inclusive ele mesmo, e parabenizou os oponentes pelo feito. Os suecos elogiaram publicamente o “cavalheirismo” do veterano.

O maior momento na Champions League

De Rossi não viveu anos vitoriosos na Serie A e também acumulou suas frustrações na Champions League. Poucos podem se lembrar, mas o único tento da Roma na goleada por 7 a 1 aplicada pelo Manchester United em 2006/07 foi do volante, num lindo chute de primeira. As penúrias, ao menos, seriam pagas com juros em 2017/18. O meio-campista se tornou essencial na campanha até as semifinais continentais, algo que o clube não vivia desde os anos 1980. E a memorável virada sobre o Barcelona no Estádio Olímpico teve o veterano como protagonista. Garantiu o equilíbrio e tomou para si a liderança, enquanto também participou da construção do necessário placar de 3 a 0. O lançamento para o primeiro gol foi do capitão, enquanto ele se encarregaria de anotar o segundo cobrando pênalti. Foi alma, cérebro e pulmão dos giallorossi numa vitória inesquecível aos torcedores.

A despedida no Estádio Olímpico

A Roma não ofereceu o final que De Rossi merecia. O clube preferiu não renovar o contrato do capitão e recebeu muitas críticas, inclusive do técnico Claudio Ranieri. Coube, então, aos próprios torcedores no Estádio Olímpico se encarregarem de um adeus digno à estatura do meio-campista. “Hoje, pelo menos, vou me permitir chamar vocês de ‘meus torcedores’ – porque eu era um de vocês dentro de campo e o amor que vocês sempre mostraram me ajudou a seguir em frente. Vocês são toda a razão pela qual escolhi esta cidade, esta vida, de novo e de novo. Domingo será a 616ª vez que eu fiz essa escolha, a escolha certa”, escreveu, em sua carta de despedida. De Rossi entrou em campo recebido por muita festa nas arquibancadas, onde se erigia sua enorme imagem em meio a um mosaico. Quando foi substituído na partida contra o Parma, o volante recebeu uma arrepiante ovação dos romanistas, dentre os quais também apareciam os amigos Totti e Buffon. Já depois do apito final, o veterano retornou para uma volta olímpica ao lado da família, em agradecimento ao amor da torcida.

A empolgação com a paixão ao redor do Boca Juniors

A aventura de Daniele De Rossi pelo Boca Juniors começou como um namoro apaixonado, mas não teve um casamento tão longo. Sete jogos depois, a passagem do italiano por Buenos Aires terminou com ares de fracasso, ao menos esportivamente. No entanto, ainda restou uma história bacana do lado de fora, pela maneira como o veterano abraçou a oportunidade e também pela recepção de braços abertos dada pelos xeneizes. Fascinado pelas festas na Bombonera, o meio-campista já acompanhava os jogos do time em Roma. Em sua chegada, diria: “O futebol me devora. Não quero um lugar que me apague. Vivo futebol 24 horas por dia. Farei tudo para que me dê bem, mas esta lição me fará melhor como pessoa. Escolhi vir a um país com as pessoas mais loucas por futebol”. Uma pena que as lesões atrapalharam sua sequência. Mesmo assim, se emocionou na despedida: “Não pensava em amar tanto uma equipe que não fosse a Roma, além de tudo o que sinto por aquele clube. Parte do meu coração fica na Bombonera. As pessoas do Boca me deram muito mais do que eu os deixei”.

A famosa tatuagem

E se há um símbolo que representa Daniele De Rossi, nada supera a famosa tatuagem em sua panturrilha. Ela apresenta o volante ávido por brigar por cada bola e que não alivia a qualquer adversário, mas também é um recorte bem-humorado do que foi um dos melhores jogadores de sua posição ao longo deste século. O camisa 16 era muito mais que os meros carrinhos, por mais que primasse no fundamento. Some-se a isso os frequentes gols, a visão de jogo e a qualidade imensa aos lançamentos. A mentalidade e a dedicação, por fim, terminam de engrandecer o veterano que deixa seu nome à história. Vale relembrar seu talento: