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La Liga volta nesta quinta-feira, e logo pegando fogo. O clássico entre Betis e Sevilla marca o reinício da competição, que terá mais 11 rodadas pela frente. Será uma maratona intensa de jogos, com duas partidas por semana a cada clube, até que a conclusão do torneio aconteça no meio de julho. Considerando a falta de ritmo dos elencos, tal exigência física poderá ser cabal para mudanças mais drásticas na tabela.

O Espanhol oferece uma disputa mais aberta pelo título, com a corrida palmo a palmo entre Barcelona e Real Madrid. Não é, porém, uma grande campanha de ambos os gigantes – com muitas oscilações e diversos craques devendo. Enquanto Messi segue sendo valiosíssimo aos blaugranas, os merengues podem se valer de um elenco mais qualificado no geral. Além disso, há muito mais a se resolver na Liga, em especial pela embolada briga rumo às copas europeias e também pelo risco de clubes tradicionais serem rebaixados.

Sem mais delongas, vamos com a coluna especial desta semana, reapresentando o Campeonato Espanhol neste novo início. Separamos 15 histórias, abordando os principais times e os objetivos na tabela. Confira:

O Barcelona tateia o seu caminho

O Barcelona lidera La Liga com dois pontos de vantagem e, apesar da derrota no clássico pouco antes da paralisação, se valeu dos tropeços do Real Madrid para se manter na posição. Mas não quer dizer que está tudo bem com os blaugranas. Que a sequência fosse positiva, o time não tinha entrado nos trilhos desde a chegada de Quique Setién, com vitórias pouco convincentes. Como se não bastasse, os catalães também lidam com uma grave crise política. O fim de ciclo de Josep Bartomeu à frente do Barça se torna cada vez mais problemático, em especial depois da saída de seis diretores em abril, com a acusação de corrupção cometida pelo presidente. O barulho da bomba já vinha diminuindo, até que a demissão de uma executiva nesta semana (justamente a responsável por alertar irregularidades) tenha elevado o ruído. E, indo além do escândalo, ninguém nega a péssima gestão da agremiação durante os últimos anos.

É nesse clima que o Barcelona tentará conquistar o título. O Espanhol é a meta mais acessível, mas as ambições ainda se concentram na Champions, e os blaugranas precisarão apresentar uma revolução em campo se quiserem mesmo se candidatar à taça continental. A paralisação, ao menos, teve seu lado positivo a Setién. O treinador pôde assentar suas ideias e se fazer melhor entendido pelos jogadores, diante dos relatos de dificuldades de diálogo na reorganização da equipe. As semanas de treinamentos extras foram importantes ao comandante, com uma visão bastante distinta de Ernesto Valverde, mas que precisará apresentar sua eficiência nas partidas da Liga. A sequência pelo menos dá sua forcinha, com sete confrontos contra times na metade inferior da tabela e só Atlético de Madrid e Sevilla como grandes barreiras.

O Barcelona sabe que não pode ser apenas o Lionel Messi FC, por mais que o craque fizesse uma temporada exuberante. Seus números de gols até estavam abaixo de sua média (o que está longe de significar que são ruins), mas ele vinha brilhando por seu papel na criação e seguia decisivo. Só que não dá para ficar tão dependente do craque, quando as alternativas são necessárias para resolver partidas mais amarradas. Será importante, neste ponto, uma subida de produção do meio-campo – que não vinha rendendo tão bem, a exemplo do novato Frenkie de Jong. Além do mais, outra dependência corriqueira é a de Marc-André ter Stegen. Mesmo com o goleiro garantindo pontos essenciais, os vacilos defensivos custaram tropeços bobos ao longo da campanha. A competitividade passa, naturalmente, por mais consistência na zaga – sobretudo ao pensar na Champions como objetivo. De preocupação, há ainda a falta de profundidade do elenco, o que tende a ser prejudicial com os muitos jogos concentrados em poucas semanas.

A hora de Griezmann?

As críticas ao Barcelona recaem, necessariamente, sobre os jogadores que não contribuem conforme o esperado. Messi acaba sobrecarregado também porque muitos companheiros não ajudam tanto. Luis Suárez resolve algumas partidas, mas não com a mesma frequência, dando sinais de seu declínio – e a parada até o ajudou, se recuperando de lesão. Ousmane Dembélé, por sua vez, mal consegue ficar saudável e está no departamento médico outra vez. O papel de escudeiro do gênio sobraria a Antoine Griezmann, até pelo investimento realizado. Entretanto, o francês está longe de repetir o nível de desempenho notado nos tempos de Atlético de Madrid. Que tenha descido degraus na nova hierarquia, muitas vezes não demonstra a adaptação necessária para realmente se impor.

Ter o “reforço” de Griezmann seria importante ao Barcelona para confirmar seu pretenso favoritismo dentro do Campeonato Espanhol. São oito gols e quatro assistências ao francês na campanha, um número que não é tão ruim, mas que está abaixo do protagonismo que se aguarda pela aposta. Bola não falta ao astro, especialmente pelas diferentes formas como pode se encaixar no time. Um desafio a ele, e a Setién, está justamente em encontrar essa combinação para se tornar melhor com Messi. A sequência do campeonato providencia jogos acessíveis para provar esse valor e, quem sabe, elevar o nível na Champions. O Barça ainda precisa passar pelo Napoli, após o empate na ida das oitavas.

Um Real Madrid que busca novos caminhos

Ainda mais do que na última campanha, esta é uma temporada de renovação ao Real Madrid. Zinedine Zidane ganhou novas peças e começou a desenhar de maneira mais sistemática o seu novo time, com medalhões barrados pela queda de desempenho e outros protagonistas. Logicamente, isso não tira o Campeonato Espanhol da mira merengue, como um título que dará sentido aos novos passos. A situação na Champions não é das mais cômodas, com a derrota diante do Manchester City em casa na partida de ida. Assim, recuperar-se na Liga e alcançar o Barcelona parece algo bem mais palpável.

A situação poderia até estar mais tranquila ao Real Madrid nesta paralisação, considerando a vitória no último clássico. O problema é que o time, de franca ascensão na virada do ano, voltou a desperdiçar pontos e permitiu que o Barcelona recuperasse a dianteira. Mesmo assim, nada que atrapalhasse tanto as possibilidades dos madridistas, até pela vantagem que possuem no confronto direto em caso de empate no topo da tabela. A sequência de jogos é um pouco mais difícil que a dos blaugranas, com mais adversários que sonham com a vaga na Champions. Além disso, o elenco precisará se adaptar ao acanhado Estádio Alfredo Di Stéfano, onde mandará suas partidas enquanto o Santiago Bernabéu segue seu cronograma de obras. Estão acostumados aos treinos por lá e agora disputarão seus compromissos sem público.

O Real Madrid desta temporada conquistou seus melhores resultados graças à solidez defensiva atingida por Zidane. Sergio Ramos e Raphaël Varane seguem formando uma das melhores duplas de zaga do futebol europeu, enquanto Thibaut Courtois realmente se prova com uma sequência de boas atuações. Além do mais, há ótimas opções nas laterais, inclusive com Marcelo se recuperando e apresentando seu talento habitual. De qualquer maneira, a força se concentra no meio. A ascensão de Federico Valverde é a grande notícia aos merengues até aqui, um jogador completo e de muito futuro. Une-se à conhecida regularidade de Casemiro e também ao destaque de Toni Kroos, mais solto para chegar ao ataque e produzindo bem. Luka Modric é outro que melhora seu jogo depois de meses em baixa. Já na frente, Karim Benzema é o homem de confiança, mas que precisa reencontrar o bom futebol do primeiro turno. Mesmo com a queda, não foge da responsabilidade.

Como ficarão os medalhões do Real

O elenco do Real Madrid, sem muitas dúvidas, é melhor que o do Barcelona. Há mais opções de qualidade nos diferentes setores e também mais jovens com condições de assumir o fardo. O problema está na maneira como muitos dos medalhões andam subaproveitados. As maiores expectativas se reservam sobre Eden Hazard, obviamente. O belga chegou por uma dinheirama ao Bernabéu e fez pouquíssimo até o momento. Com uma ou outra aparição boa, falta sequência por causa das lesões e também números melhores, seja em gols ou em assistências. Talento ele não perdeu, mas ainda há uma questão de encaixe, até pela curva ascendente de Vinícius Júnior antes da parada. Segundo o Marca, é mais provável que o brasileiro volte como titular.

E antes fosse um entrave só limitado a Hazard. Isco é outro bem menos efetivo do que pode, mas recebeu certo prestígio antes da paralisação. James Rodríguez ganhou mais chances que o esperado no início da temporada, até se ausentar com as lesões e também não parece nos planos principais de Zidane. O debate maior se concentra sobre Gareth Bale. Entre as polêmicas e uma perceptível má vontade, o galês se contenta em receber o seu salário sem ajudar tanto. Recuperá-lo um pouco seria importante não só à sequência de jogos, como também às próprias finanças. Com a saída provável do astro, o prejuízo tende a ser maior no cenário de recessão.

O Sevilla pode mostrar mais?

A terceira colocação é ótima ao Sevilla, uma equipe que se manteve no pelotão principal do Campeonato Espanhol durante toda a campanha. Entretanto, as opiniões sobre o time de Julen Lopetegui não são unânimes. Os andaluzes possuem um sistema defensivo que foi eficiente sobretudo no primeiro turno e um dos elencos mais homogêneos entre os candidatos ao G-4, considerando as variadas opções em certas posições. Mas não é uma equipe que gozava de tanta confiança, dadas as oscilações e os pontos desperdiçados em jogos mais fáceis. A ótima vitória sobre o Getafe pouco antes da parada deixou uma impressão de que os rojiblancos podem mais do que vinham fazendo.

E há jogadores para crescer, neste sentido. O ataque anda com números magros, analisando o renome de suas referências, dentre as quais apenas Lucas Ocampos se supera. Luuk de Jong e Nolito são dois com marcas modestas em gols, enquanto Suso e Youssef En-Nesyri chegaram podendo contribuir mais depois da série de treinamentos nesta paralisação. Talvez a falta de um meio-campo mais recheado pese contra. O clássico contra o Betis logo de cara tem a capacidade de significar uma injeção de ânimos dentro do Nervión.

Real Sociedad, pura energia

A Real Sociedad possui uma das equipes mais interessantes do Campeonato Espanhol. O técnico Imanol Alguacil aplica um futebol agressivo e tem diversos talentos à disposição. É um elenco essencialmente jovem que, dentro disso, talvez esteja um passo à frente na recuperação imediata após a pandemia. Fisicamente, pode ser um time menos impactado, até por possuir boas opções para formar seu ataque. Martin Odegaard puxa a fila dos txuri-urdin, ao lado de outros tantos talentos – como Alexander Isak, Mikel Oyarzabal, Adnan Januzaj e Mikel Merino, que vinham em alta até então. Há qualidade técnica de sobra, bem como capacidade individual, num momento em que isso será valioso, com os oponentes pegando no tranco.

Assim, a Real Sociedad se torna ainda mais candidata à vaga na Champions League. Os bascos já vinham em boa toada e ocupavam a quarta colocação, à frente do Getafe nos critérios de desempate. A Copa do Rei não representa mais um desafio no meio do caminho, como antes, mas gera uma expectativa de título no horizonte – com a final prometida para o momento em que os estádios espanhóis puderem reabrir por completo ao público. E a tabela ainda guarda uma série de confrontos diretos à sua reta final, o que pode ser importante, sobretudo se os txuri-urdin estiverem embalados nessa maratona. Resta saber qual ritmo a ser imprimido por esta geração. A classificação à Champions tende a ser decisiva à permanência de Odegaard por mais tempo, diante de seu empréstimo pelo Real Madrid.

O Getafe e a espera por um grande feito

Talvez o Getafe tenha sido um dos clubes mais prejudicados pela paralisação do Campeonato Espanhol. O momento dos Azulones, como um todo, era excelente. A equipe de Pepe Bordalás havia eliminado o Ajax na Liga Europa e lutava para entrar no G-4 de La Liga. No entanto, sua diretoria também teve um papel importantíssimo em expor a inatividade da Uefa diante dos graves riscos da pandemia, ao se recusar a enfrentar a Internazionale no torneio continental. O boicote geraria repercussão e reverteria a negligência dos cartolas ante a preocupação. De qualquer forma, há um preço esportivo que pode ser pago nesta retomada de suas campanhas.

O Getafe possui um elenco envelhecido. A média de idade dos Azulones é a terceira maior de La Liga e os medalhões se concentram especialmente no ataque – onde Jorge Molina, Ángel Rodríguez e Jaime Mata somam 102 anos entre si. Além do mais, a filosofia de Bordalás prega uma condição física invejável para exercer o jogo sufocante sem a bola, que não costuma dar tréguas aos adversários. Não dá para saber muito bem como estará o ritmo, após os meses inativos e o natural medo de lesões. Vale dizer ainda que o Getafe tem um plantel enxuto, que não garante tantas opções dentro da realidade de cinco substituições. A classificação inédita à Champions continua nos planos e está ao alcance, mas a expectativa pelos resultados diminui e o próprio presidente disse que ficaria satisfeito com a nova vaga na Liga Europa.

O Atlético com seu super trunfo

A temporada do Atlético de Madrid, num contexto geral, não era boa. Algumas bases da equipe de Diego Simeone não funcionavam mais. Os colchoneros apresentavam certo desgaste, com dificuldades para vencer partidas e uma dependência excessiva de Jan Oblak. Os reflexos disso vinham na eliminação dentro da Copa do Rei e na própria falta de uma sequência contundente no Campeonato Espanhol. A pandemia, entretanto, aconteceu em meio ao melhor instante do Atleti: a vitória sobre o Liverpool em Anfield, que selou a classificação às quartas de final da Champions. Apesar da falta de bom senso da Uefa em seguir em frente com aquela partida, os rojiblancos entraram na pausa com o moral elevado e assim retornam.

As condições para brigar pelo G-4 de La Liga são totais. O modo titubeante não foi suficiente para afastar o Atlético de seus principais concorrentes neste objetivo. A tabela um pouco mais tranquila em junho antecede as pedreiras em julho, o que torna vital uma crescente dos colchoneros. O trabalho coletivo de seu jogo pode entrar nos trilhos aos poucos, enquanto as bolas paradas viram um trunfo neste período em que os adversários se reencontram. A falta da torcida no Wanda Metropolitano, avaliando o bom rendimento como mandante, pode ser um problema. Mas houve um respiro para Simeone recuperar o melhor de sua equipe, em momento no qual os rojiblancos ganham uma motivação a mais, diante da despedida de Mono Burgos do cargo de assistente. Serão semanas em que o Espanhol servirá de ignição a um objetivo maior, mais curto, na Champions.

Uma nova chance a Diego Costa e João Félix

Entre as dificuldades do Atlético de Madrid na temporada interrompida estava a falta de nomes realmente confiáveis no ataque. Os problemas eram variados, ainda que existissem opções ao setor. Dois deles, em especial, precisavam entrar mais no jogo: Diego Costa, que passou a acumular lesões e estava distante de emular o artilheiro de outrora; e João Félix, com sua etiqueta de preço sempre exposta, mas não um futebol tão valorizado ou mesmo um básico encaixe que convencesse todo mundo. Com três meses parados, deu para repensar o trabalho de ambos no Metropolitano e seus impulsos devem ser valiosos neste momento de várias partidas encadeadas em poucas semanas.

Há uma exigência maior sobre o elenco e, claro, as lesões são uma natural preocupação – até pela transição imediata ao ritmo de competição alucinante. De qualquer maneira, contar com a participação efetiva de ambos é um diferencial ao Atlético, olhando a todos os seus concorrentes à vaga no G-4. Outro nome interessante a se observar será o de Marcos Llorente. A atuação do jovem contra o Liverpool foi histórica e ele anda em altíssima consideração no Metropolitano. Simeone tem treinado com ele até mais adiantado, ocupando o ataque, e será certamente um jogador mais visado, pelo poder de decisão que apresentou em Anfield.

O Valencia e sua garotada

Não é de hoje que o Valencia realiza um trabalho brilhante na formação de atletas. Gerações de talentos transitam no Mestalla de tempos em tempos. O elenco atual, ainda assim, recebe um carinho em especial pelo potencial que apresenta. São vários jovens valores que podem não ficar durante muito tempo com os Ches, e alguns deles até sinalizam a intenção de sair num futuro próximo, mas que tem bola para contribuir a um bom final de campanha dos valencianos. José Gayà, Carlos Soler e Ferran Torres são proeminentes nas engrenagens da equipe, enquanto os forasteiros Maxi Gómez e Gonçalo Guedes também representam bastante à linha de frente. São boas alternativas dentro de uma sequência de jogos extenuante.

Logicamente, o Valencia precisa se ajeitar. Não vem sendo uma temporada fácil. O clube se meteu em crise por culpa de seus dirigentes, após a demissão de Marcelino García Toral, por mais que Albert Celades não faça um trabalho ruim. Houve uma série de lesões e alguns nomes permanecem indisponíveis, sobretudo na zaga, onde a missão recai sobre Gabriel Paulista. E a própria situação à qual os Ches foram submetidos na Champions, com o jogo contra a Atalanta servindo de ampla discussão ao coronavírus, gerou turbulências. Os valencianos não usufruirão do Mestalla em sua máxima potência como mandantes, mas possuem bons valores e uma tabela acessível pra reduzir suas distâncias do G-4.

No Athletic, por Aduriz

O Athletic Bilbao indicou que poderia fazer bem mais nessa temporada, com um início de campanha empolgante. Também mostrou seu poder em alguns jogos de peso, vide a classificação sobre o Barcelona na Copa do Rei. Mas não é uma trajetória regular dos bascos e parece difícil tirar a diferença de pontos para brigar por algo a mais nestas rodadas restantes. Se há uma motivação pelo caminho, além da própria final da Copa do Rei quando o público for permitido, é dedicar o esforço a Aritz Aduriz – o ídolo que não pôde encerrar a sua carreira dentro de campo com os leones. Diante da necessidade de fazer uma cirurgia no quadril, o artilheiro anunciou o fim da carreira (já previsto para o final da temporada) tão logo retornou aos treinamentos.

Aduriz já ocupava um posto menos visível na equipe titular do Athletic Bilbao, embora permanecesse como uma liderança fundamental. Homenagear e honrar a lenda será um norte à equipe de Gaizka Garitano nesta reta final. Por toda a sua pujança física, será bastante interessante acompanhar o rendimento de Iñaki Williams, o grande nome dos leones, decisivo na Copa do Rei. Terá grande exigência, já que os alvirrubros possuem um elenco relativamente raso, especialmente quando são consideradas as limitações nas contratações. Recomeçar contra o Atlético de Madrid é um obstáculo e a tabela guarda jogos difíceis, embora a pausa tenha sido válida para dar um respiro à virada de ano ruim dos bascos. Outra questão-chave será lidar com a falta do rugido de San Mamés, um dos estádios mais difíceis aos adversários em La Liga.

Quem pode se alavancar

A disputa pela Champions League e pela Liga Europa no Campeonato Espanhol está bastante acirrada, mas há espaço para que alguns times subam de produção neste recomeço. Há bons figurantes na zona central da tabela e uma guinada não seria tão surpreendente. O Villarreal é quem se coloca mais próximo disso, na oitava colocação. O time de Javier Calleja tinha feito barulho no mercado de inverno ao levar Paco Alcácer e, agora, poderá ver seu novo artilheiro mais encaixado no sistema. Há muitos medalhões, com o melhor exemplo do sempre magistral Santi Cazorla. Mas também é um elenco com média de idade alta, que pode sofrer um desgaste maior pela falta de descanso. Olho em Samuel Chukwueze, que pode render mais do que vinha mostrando até então nesta temporada, e Gerard Moreno, em excelente fase.

O Granada está emparelhado com o Villarreal, mas dava sinais de que seu melhor momento na campanha tinha ficado para trás. Os andaluzes foram a sensação no primeiro turno de La Liga, ao superarem as expectativas e, na temporada após o acesso, frequentarem até mesmo a liderança. A virada dos turnos foi dura, mas havia sinais de recuperação e o time fez um bom papel na Copa do Rei. O jovem técnico Diego Martínez precisará criar pouco com muito, em elenco de nomes modestos, mas que se mostrou um bom conjunto. E há o Betis, essa eterna incógnita, que se reconstrói sob as ordens de Rubi. No papel, sem dúvidas é um belo time, especialmente pelos excelentes valores do meio para frente – do veterano Joaquín ao badalado Nabil Fekir. Mas há uma letargia que perdura e desfalques nessa volta. Mais importante, agora, é já lançar bases à próxima campanha.

Os times que buscam a salvação

A luta contra o rebaixamento em La Liga costuma ser das mais acirradas, até pelo equilíbrio entre as equipes e pelos times abaixo do rendimento, que poderiam estar em condições mais confortáveis na tabela. Mais uma vez, o exemplo disso é o Celta. Os galegos viveram alguns bons momentos no passado recente, mas parecem cada vez mais acostumados a lutar contra a degola. O técnico Óscar García chegou a Vigo em novembro e o clube até sinalizava uma resposta, apesar do excesso de empates. Considerando o inverno badalado em Balaídos, com reforços chegando, um salto é aguardado. Ainda assim, o fardo segue nos ombros de Iago Aspas, acostumado a salvar a desesperança de sua torcida.

Um pouco mais tranquilos na tabela estão Osasuna, Levante e Alavés. Não são os elencos mais tarimbados, mas todos eles contam com bons protagonistas (Roberto Torres, Roger Martí, Lucas Pérez) e abriram certa folga na pontuação anteriormente. Navarros e bascos não podem se descuidar nos confrontos diretos, enquanto os valencianos terão uma tabela com jogos mais pesados contra oponentes acima na classificação. Mais abaixo, o sinal de alerta pisca a Valladolid, Eibar, Mallorca e Leganés.

O Leganés é quem terá a missão mais ingrata, não apenas por estar na penúltima colocação. Os pepineros passaram o campeonato inteiro no Z-3, exceção feita à primeira rodada, e perderam seus dois principais atacantes num mercado de inverno desleal – sobretudo pela saída de Martin Braithwaite ao Barcelona depois do fechamento. É um clube que fez papéis acima do esperado em suas últimas participações na liga, mas que sofre seu desgaste, apesar de alguns bons valores. O rodado Javier Aguirre tenta o milagre. Dos outros, o Eibar luta contra as suas limitações. Sofreu algumas derrotas dolorosas e tem um elenco modesto, mas confia no bom trabalho que levou à elite mesmo em sua pequenez. Por fim, Mallorca e Valladolid possuem planos de crescimento em médio prazo e se inserem em contextos mais próximos, com uma série de promessas cedidas por empréstimo. Por ter a sequência mais difícil na tabela e também a defesa menos consistente, o Mallorca é quem tem mais motivos para noites de insônia.

O desespero do Espanyol

O Espanyol disputou 85 temporadas na primeira divisão do Campeonato Espanhol. Todas as suas passagens pela segundona foram breves, com quatro campanhas nas quais caiu e subiu logo em seguida. Os pericos estão na elite sem interrupções desde 1994. Mas só um milagre faz acreditar na salvação, diante do caminho tortuoso atravessado no Cornellà-El Prat durante os últimos meses. Os investimentos chineses ou a contratação do bom técnico Abelardo não parecem suficientes para garantir o respiro ao time, afundado na lanterna. São apenas quatro vitórias em 27 rodadas, até um contraste à boa campanha que os blanquiazules fizeram rumo aos mata-matas da Liga Europa, inclusive quebrando recorde de invencibilidade. Durante a paralisação, as mudanças na diretoria que aconteciam desde dezembro se aprofundaram.

O elenco não é tão ruim quanto os 20 pontos na tabela indicam, mas ninguém realmente deslancha. Até o ataque, com um bom número de alternativas, não vê ninguém cumprindo o esperado. E os catalães tiveram o plantel mais afetado pelo coronavírus, com oito infectados, o que naturalmente provocou uma retomada mais lenta aos treinos. Para a recuperação, uma carta na manga é o impacto que os reforços de inverno podem gerar, depois de contratações emergenciais para evitar o descenso. Raúl de Tomás, que chegou já fazendo a diferença, é quem carrega as maiores expectativas. Além do mais, o fato de ser um mandante horrível, com uma mísera vitória em seus domínios, reduz as preocupações com portões vazios. A reta da final da campanha guarda alguns confrontos diretos valiosíssimos contra times que também lutam pela sobrevivência. O ponto é que a situação no Espanyol não permite essa esperança.

Os brasileiros para ficar de olho

O Campeonato Espanhol conta com 24 jogadores brasileiros em atividade, sendo o país estrangeiro mais representado na competição. E sempre há bons atletas para observar. Casemiro vivia aquela que talvez fosse sua temporada mais notável pelo Real Madrid e permanece como esteio no meio-campo. A ascensão de Vinícius Júnior, em alta sobretudo pelo gol no clássico, e a adaptação de Rodrygo eram outros dois assuntos recorrentes entre os merengues. Ainda há Reinier, por ora no Castilla, e Militão, dentro da rotação na zaga. No Barcelona, existe um interesse sobre o que Artur pode fazer, já que o meio-campista andava abaixo da crítica.

A melhor dupla brasileira da Liga talvez esteja no Atlético de Madrid. Renan Lodi faz uma temporada de estreia marcante, enquanto Felipe é a referência no sistema defensivo. Ambos serão nevrálgicos a Simeone. Willian José tenta recuperar seu moral na Real Sociedad, depois de quase sair para o Barcelona, e também tem peso na luta pela Champions. Deyverson e Kenedy são alternativas ao Getafe na luta pelo G-4. Gabriel Paulista (Valencia), Diego Carlos (Sevilla) e Emerson (Betis) cumprem papéis importantes em suas respectivas equipes, com merecido destaque. Por fim, na rabeira da tabela, Rafinha tenta providenciar a salvação ao Celta e Matheus Fernandes se adapta ao Valladolid enquanto aguarda o salto rumo ao Barcelona.