O Chelsea não é exatamente o clube mais simpático a todos os olhos – e talvez fosse menos ainda há 15 anos, depois de gastar mais de £200 milhões em duas janelas de transferências, valor suntuoso na época. Roman Abramovich chegou ao futebol disposto a montar uma das equipes mais poderosas do planeta e, bem, não demorou a conseguir. E que muitas pessoas neguem qualquer apreço aos Blues, não se pode ignorar a força que o time atingiu sob as ordens de José Mourinho. Olhando em perspectiva, também dá para dizer que a importância daquele Chelsea se torna até maior 15 anos depois. Foi uma máquina de recordes que avassalou a Premier League 2004/05 – antes do bicampeonato.

Naqueles tempos, o maior concorrente do Chelsea era o Arsenal, recém-saído de uma campanha invicta. Os Gunners até esboçaram repetir o desempenho assustador no início da temporada 2004/05, mas caíram de nível ainda em meados do primeiro turno. Algo que não aconteceu com os Blues. A liderança veio ao colo de Mourinho em 6 de novembro, durante uma vitória sobre o Everton em que Petr Cech e Arjen Robben brilharam. Depois disso, seria impossível brecar os londrinos, que só perderam uma vez e chegaram a emendar uma sequência de oito vitórias consecutivas. A taça foi assegurada com três rodadas de antecedência, encerrando um jejum de 50 anos do clube no Campeonato Inglês.

Nesta semana, em 30 de abril, aquele primeiro título do Chelsea de Mourinho completou 15 anos. Aproveitamos a data para relembrar um pouco sobre o time, seus craques e também seus feitos que permanecem gravados. Confira:

O jejum que perdurou por 50 anos

O Chelsea está distante de ser o clube sem tradição que muita gente gosta de pregar. De fato, não era uma potência incontestável antes da chegada de Abramovich, mas possuía um notável histórico copeiro e viveu um renascimento interessante nos anos 1990. Até a chegada do magnata russo, a lista de conquistas dos Blues incluía duas Recopas Europeias, uma Supercopa Europeia, três Copas da Inglaterra e duas Copas da Liga. O problema estava mesmo no Campeonato Inglês, com a única alegria restrita ao longínquo ano de 1954/55.

Ted Drake, treinador dos londrinos naquela campanha, possui uma importância revolucionária à história da agremiação. Antigo ídolo do Arsenal nos tempos de jogador, ele mudou até mesmo o escudo e o apelido do Chelsea, além de desenvolver a equipe com seu regime de treinamentos e suas ações no mercado de transferências. Já dentro de campo, o capitão e artilheiro Roy Bentley era a grande referência. Ainda assim, a glória acabaria isolada a um ano esparso – e com os Blues prejudicados, já que a Inglaterra não mandou representantes à recém-criada Copa dos Campeões da Europa em sua primeira edição.

Neste intervalo, muita coisa se passou em Stamford Bridge. O Chelsea seria rebaixado cinco vezes à segundona e atravessou uma fase complicadíssima nos anos 1980, quando precisou ser vendido por £1 a Ken Bates. A década de 1990 serviu para reapresentar a tradição do clube e recolocá-lo entre os primeiros da Premier League, com bons medalhões levados ao elenco. Mas nada que se comparasse à espera e à apoteose que ocorreu naquele 30 de abril de 2005. A seca de cinco décadas na liga tinha chegado ao fim. É o terceiro maior hiato entre títulos na história do Campeonato Inglês, perdendo apenas para Blackburn (81 anos) e Aston Villa (71 anos).

Os recordes empilhados

Nem todas as marcas daquele Chelsea se mantiveram com o passar dos anos, especialmente por “culpa” do Manchester City de Guardiola e do Liverpool de Jürgen Klopp. No entanto, mesmo as que não resistiram são superlativas. Uma temporada após os Invincibles do Arsenal, o Chelsea superou o total de vitórias e de pontos registrados pelo time de Arsène Wenger. Os rapazes de Mourinho não possuem um apelido tão pomposo porque sofreram uma mísera derrota, mas acumularam 29 triunfos e chegaram ao total de 95 pontos em 38 rodadas. Nem a equipe azul da campanha seguinte, com o bicampeonato, faria tanto.

O recorde mais surreal, por sua vez, atribui os méritos à defesa. O Chelsea sofreu 15 gols ao longo da campanha, média inferior a 0,4 tentos tomados por partida. A equipe terminou vazada apenas seis vezes em Stamford Bridge. E, longe de seus domínios, possui o recorde de míseros nove gols engolidos. Petr Cech também tem a marca máxima de 24 “clean sheets” ao longo da Premier League. A Luva de Ouro não tinha outro dono possível.

A fortaleza de Stamford Bridge

O Chelsea de Mourinho está entre os times que mais souberam usar o fator campo a seu favor. Mais uma vez, os números falam por si. Os Blues chegaram a acumular 86 partidas sem derrotas dentro de seu estádio pela liga. Uma série que começou ainda com Ranieri, em março de 2004, e só seria quebrada em outubro de 2008, quando Felipão ocupava a casamata dos Blues. Por quatro edições consecutivas do campeonato, incluindo também os meses sob as ordens de Avram Grant, os londrinos não perderam em seu estádio.

Dos resultados em casa naquela Premier League, o destaque é mesmo a primeira vitória, logo num embate de peso contra o Manchester United. O gol de Gudjohnsen garantiu o triunfo por 1 a 0 e abriu com pé direito a primeira rodada. Os Blues ganharam 14 compromissos no local e empataram cinco, raramente sofrendo apuros por lá.

Poderoso também longe de casa

Acredite: o Chelsea conseguiu ser ainda melhor longe de seus domínios na Premier League 2004/05. Embora tenham sido derrotados na visita ao Manchester City, os Blues conquistaram mais pontos como visitantes, 48 no total – em marca só batida pelos City de Guardiola. Também tiveram um ataque mais efetivo fora do que em casa, com 37 tentos anotados.

Dos dez clubes que terminaram a campanha na metade inferior da tabela, o Chelsea só não derrotou fora o Newcastle, quando o título já estava decidido. Daqueles que ocuparam a metade superior, foram seis triunfos – incluindo em Old Trafford, Anfield, Goodison Park e White Hart Lane. Vale lembrar ainda que a taça foi assegurada no Estádio Reebok, derrotando o Bolton, que teve um rendimento acima das expectativas na liga e acabou com o sexto lugar. Aquele resultado valoriza um pouco mais o que aprontava a equipe de José Mourinho.

O estilo de jogo voraz

O Chelsea não tinha a fama de equipe mais plástica naquela época. Entre as virtudes coletivas estava a segurança defensiva e a força nas bolas paradas. Ainda assim, havia uma dose de entretenimento com o futebol veloz e de muito apoio dos jogadores que vinham de trás. As jogadas de efeito também saíam com certa frequência nas partidas dos Blues, sobretudo pelos tiros de longe e as arrancadas.

A formação básica era o 4-3-3, que por vezes variava ao 4-3-1-2. Com isso, Mourinho conseguia ter um bom controle do meio-campo contra o básico 4-4-2 utilizado pela maioria dos adversários na Premier League e dava dinamismo às transições dos Blues. As compilações de gols terão certamente vários tentos de bolas alçadas na área. Mas vale prestar atenção nas trocas de passes em velocidade, nos lançamentos às costas da defesa e na maneira como a equipe criava espaços para que alguém chegasse em condições de finalizar. Era a beleza e a perfeição daquele Chelsea fulminante.

Um Mourinho realmente especial

José Mourinho se tornou um técnico de primeira classe no Chelsea. Claro, não se pode menosprezar o tamanho de seu feito à frente do Porto, com a conquista da Champions League em uma temporada de surpresas. De qualquer maneira, a aposta de Abramovich no português servia não apenas para transformar os Blues em um time campeão, mas também valia à própria afirmação de Mou entre os melhores treinadores do mundo. O “Special One”, como declarou logo em sua apresentação, não estava para brincadeira.

Era um Mourinho bem mais “charmoso”, afinal, sem estar contaminado pelas atitudes ranzinzas que começariam a estragar seu ambiente. O humor ácido do português e até mesmo a leve arrogância nas entrevistas pareciam bem mais tragáveis na época, com os resultados em campo indicando que não era só petulância, era talento. Ainda que seu estilo de jogo não fosse necessariamente o mais ofensivo, a capacidade dos Blues era inegável. Foi bacana acompanhar a imposição de um dos maiores treinadores da história.

Porque, no fim das contas, não é para qualquer um tomar a Premier League de assalto daquela forma logo em sua temporada de estreia. Mourinho peitou de uma só vez Arsène Wenger e Sir Alex Ferguson, para botar os recordes abaixo. Não precisou se adaptar ao novo ambiente e deu sua cara ao time em pouquíssimo tempo. Tudo bem, o Chelsea não era um peso morto nos tempos de Ranieri, longe disso. Mesmo assim, a ascensão foi meteórica na liga, que pedia fôlego.

O melhor do melhor Petr Cech

Petr Cech merece um lugar entre os 10 melhores goleiros do mundo neste século – pelo menos. E se a carreira do tcheco na meta do Chelsea é fantástica, sua forma naquela temporada de 2004/05 impressionava ainda mais. Raros arqueiros tiveram um auge em nível tão alto quanto o de Cech – na época um jovem rapaz de cabelos arrepiados, sem a necessidade de usar capacete. As defesas cheias de plasticidade e os milagres à queima-roupa já valiam o ingresso, e eram incrivelmente frequentes a cada partida dos Blues.

Antes de chegar a Stamford Bridge, Cech foi especulado pelo Manchester City, mas a diretoria preferiu manter a aposta no veterano Peter Schmeichel. O tcheco desembarcou na Inglaterra valorizado, contratado junto ao Rennes por £7 milhões, após participar da ótima campanha de sua seleção na Euro 2004. Ainda assim, sua missão não era simples: vinha para tomar o lugar de Carlo Cudicini, personagem muito querido no Chelsea, após cinco temporadas consecutivas no clube. Porém, bastaram poucas partidas para que todos se convencessem sobre o novo titular.

A fase de Cech explica bastante os números absurdos registrados pela defesa azul naquela Premier League. Sua grande atuação viria em 2 de fevereiro: pegou um pênalti de Paul Dickov, possibilitou a vitória por 1 a 0 sobre o Blackburn e quebrou o recorde de minutos sem sofrer gols na Premier League, que era de Schmeichel. O dinamarquês havia registrado 694 minutos sem buscar a bola no fundo das redes com o Manchester United. O tcheco completaria 1.025 minutos, insuperável na liga durante 10 partidas completas e mais de dois meses. Seria ultrapassado por Edwin van der Sar depois, mas nada que diminuísse sua façanha.

O reconhecimento a John Terry

Nenhum outro membro daquele Chelsea conhecia melhor o significado da conquista do que John Terry. Nenhum outro membro do elenco, afinal, conhecia tão bem o clube. O zagueiro estava em Stamford Bridge desde 1995, quando se juntou às categorias de base. Profissionalizou-se pouco depois e acompanhou de perto o processo paulatino de crescimento, que começou antes mesmo da injeção financeira realizada por Roman Abramovich. O beque entendia o valor das copas faturadas anteriormente e como outros estrangeiros contratados pelos Blues, a exemplo de Gianfranco Zola e Ruud Gullit, tinham parte naquele processo.

Terry cresceu ao lado destes e de outros astros antecessores. E se preparou para se transformar em uma grande liderança do Chelsea dominante de José Mourinho. O zagueiro nem era tão tarimbado assim, com apenas 24 anos completados durante a temporada. Contudo, herdou a braçadeira de Marcel Desailly e parecia ter nascido para ostentar aquela faixa em seu braço. A energia de Terry no miolo da zaga era contagiante, sobretudo em seu auge. Naturalmente se erigiu como um dos melhores zagueiros do mundo naquele momento.

E a postura era apenas uma das virtudes de John Terry. O camisa 26 tinha muita qualidade para estar em campo, especialmente pelo domínio no jogo aéreo e pela firmeza nos combates. Complementou-se muito bem ao lado de Ricardo Carvalho, um parceiro mais técnico e com mais capacidade na cobertura, que havia sido trazido por Mourinho naquela mesma temporada. Formaram uma das grandes duplas de zaga da Premier League, em linha defensiva que guardava outros valores, como William Gallas ou Glen Johnson. Nenhum deles com a ascendência de Terry sobre o grupo.

Lampard, candidato à Bola de Ouro

Pela consistência de seu jogo, Lampard talvez tenha sido o maior dos “senadores” do Chelsea. O camisa 8 fazia o time funcionar, o que ocorreu ao longo de diversas temporadas, enquanto ele permaneceu em Stamford Bridge. No entanto, ainda é possível escolher a melhor versão de Lampard. E, em 2004/05, o meio-campista não apenas protagonizou o Chelsea em uma conquista arrebatadora. Ele também se colocou como um dos melhores jogadores do mundo. Para quem se lembra das diabruras de Ronaldinho no Barcelona, ser o segundo colocado na votação da Bola de Ouro era motivo de enorme honra. Foi o que o inglês conseguiu em 2005.

Lampard era mais um a estar no Chelsea desde antes do período abastado. A antiga promessa do West Ham não floresceu totalmente no clube onde seu pai e seu tio foram ídolos. A mudança para Stamford Bridge fez bem ao amadurecimento do meio-campista. Quando Mourinho chegou, ele já era um jogador pronto, para liderar tecnicamente os Blues. Foi exatamente o que aconteceu em 2004/05.

Sem perder a combatividade, Lampard contribuía muito com sua capacidade ofensiva. E as imagens mais vivas daquele Chelsea certamente possuem a presença inescapável do meia. Ele foi artilheiro do time na Premier League, com 13 gols. Aparecia na área para concluir as jogadas, embora a especialidade se concentrasse nos petardos do meio da rua. Além disso, a capacidade de pegar bem na bola também se convertia em muitas assistências, 16 no total. Fatiava a bola e mandava lançamentos precisos, que contribuíam ao jogo vertical dos Blues. Era um deleite ver potência e precisão mescladas daquela maneira.

Como jogava bola Makélélé!

Não dá para dizer que Claude Makélélé era um coadjuvante naquele Chelsea. A versão ancestral de N’Golo Kanté permitia que o jogo ofensivo fluísse, como o ponto de equilíbrio dos ingleses. Leitura de jogo, capacidade física de um maratonista, precisão nos desarmes: tudo isso se reunia no diminuto camisa 4 – que, curiosamente, estourara como meia ofensivo anos antes, com o Nantes. E a verdade é que a contratação do francês seria uma grande pechincha de Abramovich na temporada anterior. Substituto de Fernando Redondo no Real Madrid, o volante viu os merengues abrirem mão de seu trabalho enquanto visavam jogadores mais midiáticos. Perderam uma referência e sofreram por isso.

Melhor ao Chelsea, que pôde encaixar seu ataque e sua defesa ao redor de Makélélé. A linha de quatro defensores se via muito bem protegida pelo cão de guarda, que contribuía bastante ao serviço na faixa central limpando os trilhos. Enquanto isso, ele carregava o piano para que os demais companheiros se soltassem rumo ao ataque. O brilho de Lampard tinha influência do francês, que permitia a utilização de um quinteto bem mais ofensivo à sua frente. Por vezes, contava com outras peças mais esforçadas ao seu lado – a exemplo de Tiago, Geremi e Smertin.

O símbolo máximo da consideração por Makélélé viria no jogo da entrega da taça, contra o Charlton, em Stamford Bridge. O Chelsea teve um pênalti a seu favor aos 45 do segundo tempo e todos pediram para que Makélélé cobrasse, em busca de seu primeiro tento pelo clube. O goleiro Stephan Andersen até pegou a cobrança, mas o camisa 4 marcou no rebote e recebeu uma enorme festa. Alegria dos companheiros que conseguiam homenageá-lo um pouco e também da grata torcida, ciente do tamanho de sua importância.

A versão mais meteórica de Robben

Uma das medidas do Chelsea na pré-temporada foi buscar uma dupla ofensiva que fazia barulho no PSV. Mateja Kezman e Arjen Robben vieram de uma só vez, em transação que rendeu mais de £17 milhões aos alvirrubros. O centroavante não se adaptaria tão bem ao futebol inglês. Já o ponta se transformou em verdadeiro meteoro. Não era só a a velocidade que chamava atenção no garoto de 20 anos recém-completados. Seu repertório de dribles era fora do comum – até mais do que nos tempos consagrados de Bayern de Munique, quando as lesões já tinham deixado bem mais calejado o holandês.

Não seria uma temporada completamente saudável de Robben, infelizmente. O ponta disputou apenas 18 partidas naquela Premier League, estreando na décima rodada e se ausentando na reta final praticamente inteira. Em compensação, quando jogou, o novato impulsionou o Chelsea à liderança. Por exemplo, seu primeiro mês completo na campanha veio só em novembro. Sem problemas: neste mesmíssimo período, os Blues superaram o Arsenal na ponta da tabela e o garoto receberia o prêmio de melhor jogador do campeonato no mês. A equipe, antes limitada a vitórias magras, passou a golear.

Robben também foi eleito para a seleção da temporada pela PFA, a associação de jogadores. Foram sete gols e nove assistências, média de quase um tento produzido por jogo, e isso atuando aberto como ponta. Seu rendimento até o Boxing Day foi simplesmente absurdo, ficando claro o acerto do Chelsea em contratá-lo. Melhor do que isso eram os dribles do holandês, na maioria das vezes atuando pela esquerda, onde buscava mais a linha de fundo e os lances no mano a mano. A última lembrança que deixou foi cabal: na vitória sobre o rival Fulham, em sua última aparição no campeonato, deu uma caneta no marcador e entregou o passe para Lampard marcar. Imparável.

Joe Cole, Duff e os fundadores do novo Chelsea

O Chelsea de 2004/05 tinha outros nomes que, sem o cartaz das principais estrelas, merecem lembranças. E a montagem da equipe se deve não apenas a Mourinho, mas também a Ranieri. A primeira janela de transferências com Abramovich seria bastante ativa, incluindo a compra de 14 novos jogadores. Nem todos deram certo, incluindo craques do porte de Hernán Crespo e Juan Sebastián Verón. Entretanto, havia uma base formada ali, com bons coadjuvantes, a exemplo de Damien Duff e Joe Cole.

Joe Cole conquistou seu respeito e, não fosse a queda repentina, poderia ser incluído entre os senadores. Comprado junto ao West Ham, o ponta de 23 anos vestia a camisa 10 e podia ser escalado de diferentes maneiras. Jogou como meia ofensivo, como terceiro homem no meio-campo ou como ponta. Tinha grande serventia pela maratona de jogos e também pelas lesões de Robben, mas não era apenas isso. Cole pegava bem na bola e contribuiu com oito gols, carrasco em especial do Liverpool. Seria eleito o melhor jogador da Premier League em março, mês em que também desequilibrou contra o Barcelona na Champions.

Duff, por sua vez, havia sido a contratação mais cara do Chelsea no primeiro ano de Abramovich. O irlandês desembarcou do Blackburn por £17 milhões e tinha um ótimo rendimento, por mais que não tenha se colocado na primeira prateleira. O camisa 11 combinava um estilo de jogo vertical e certa dose de talento. Foi outro que cresceu de produção entre outubro e dezembro, quando o time de Mourinho encontrou seu encaixe ideal, com ele aberto pela direita. Foram seis gols e seis assistências na campanha, quase todos neste período mais inspirado do irlandês.

Quando Drogba dividia holofotes com Gudjohnsen

Didier Drogba é o melhor e mais decisivo centroavante da história do Chelsea. Ponto. E o marfinense também veio muito bem cotado do Olympique de Marseille, por £24 milhões – o negócio mais caro de Abramovich até então. No entanto, aquela primeira temporada do camisa 15 não seria exatamente impressionante. Por vezes reserva e com algumas lesões, Drogba anotou 10 gols ao longo da campanha na Premier League, além de cinco assistências. O monstro que conhecemos levaria um pouco mais de tempo a se firmar.

Não quer dizer que Drogba tenha sido um qualquer no time, longe disso. Mas a máquina de gols, naquela época, era usada muito mais para abrir espaços aos companheiros e contribuir a quem chegava de trás. Em diversas partidas, Drogba precisou ceder espaço a Eidur Gudjohnsen, mais antigo no elenco e que viveu a grande temporada de sua carreira em 2004/05. Os dois passaram a se entender melhor sobretudo quando o islandês foi recuado por Mourinho, se aproximando mais de Lampard no meio-campo e quebrando as linhas a partir do trabalho de pivô de Didier mais à frente.

As principais atuações de Drogba em 2004/05 aconteceram nos torneios de mata-mata, com gol decisivo contra o Liverpool na final da Copa da Liga e também destroçando o Bayern nas quartas de final da Champions. Já pela Premier League, os 12 tentos de Gudjohnsen terminaram sendo mais preponderantes. O islandês fez na estreia contra o Manchester United, buscou o empate no confronto direto contra o Arsenal em Highbury e determinou o triunfo sobre o Everton em Goodison Park. Também ajudou a eliminar o Barcelona nas oitavas da Champions.

Sem temer os grandes jogos

Ganhar as duas contra o Manchester United de Sir Alex Ferguson, inclusive na abertura da Premier League? Aconteceu. Ganhar também as duas contra o Liverpool de Rafa Benítez na liga? Deu certo. Não se intimidar com o embalado Everton, sensação da campanha? É claro. Conquistar resultados marcantes também na Champions, como carimbar a faixa do campeão Porto, eliminar o incensado Barcelona e derrubar ainda um bem montado Bayern de Munique? Tudo isso foi possível ao Chelsea de José Mourinho, um time que parecia moldado aos jogos de peso.

Dentre os principais concorrentes, apenas o Arsenal terminou sem perder dos Blues naquela temporada. Foram dois empates na Premier League. Mas nada que diminua o que aprontou o Chelsea, que superaria a campanha anterior dos Gunners em certos aspectos, sem se intimidar com o que os Invincibles representavam. Já a única derrota na liga veio para o Manchester City, o antídoto a Mourinho. Os Citizens fizeram 1 a 0 em casa, com um gol de pênalti de Nicolas Anelka, e arrancaram o empate dentro de Stamford Bridge no segundo turno.

O outro título da temporada

O Liverpool provocou a derrota mais amarga do Chelsea naquela temporada, com seu 1 a 0 na semifinal da Champions. O polêmico gol fantasma de Luís García permitiu o Milagre de Istambul dias depois, mas até hoje não desce aos londrinos. Qualquer torcedor dos Blues dirá que a bola realmente não entrou quando Gallas tirou de bico em cima da linha. Fato é que o clube precisaria esperar um bom tempo até que a Europa finalmente fosse sua.

Como consolo, o Chelsea havia batido o Liverpool antes, em seu primeiro título da temporada. A conquista da Copa da Liga aconteceu em fevereiro, num jogo dramático dentro do Millennium Stadium. Após eliminar o Manchester United nas semifinais, os Blues precisaram buscar o prejuízo na decisão. John Arne Riise abriu o placar logo no primeiro ataque dos Reds, até que um gol contra de Steven Gerrard colocasse os londrinos no jogo a dez minutos do fim. O triunfo por 3 a 2 seria concluído na prorrogação. Drogba fez o segundo e Kezman abriu vantagem, antes que Antonio Núñez descontasse no fim.