Meus pêsames pelos momentos em que você, assistindo ao jogo entre Besiktas e Lyon, precisou piscar. E pêsames infinitamente maiores se você não pôde ver ao menos algum instante da partidaça em Istambul. Sem medo de cometer exageros, dá para dizer que o reencontro pelas quartas de final da Liga Europa foi um dos melhores jogos das competições europeias nos últimos anos. Foram 120 minutos de puro futebol, ofegantes, em que a vitória dos turcos por 2 a 1 ficou pequena para tudo o que aconteceu em campo. Afinal, juntos, os dois times finalizaram incríveis 53 vezes – 28 a 25 para os franceses, com uma série de bolas na trave, defesaças e lances salvos pela zaga. Mas o destino é caprichoso. Os deuses da bola queriam mais: pênaltis. E a marca da cal reservou novas emoções, com cobranças perfeitas na série inicial, até as alternadas. Depois de 16 penalidades e só três erros, os Gones se confirmaram nas semifinais, com o triunfo por 7 a 6.

O primeiro jogo, na França, já tinha sido bastante emocionante – em alguns aspectos, com a confusão nas arquibancada, até de maneira desnecessária. O Lyon arrancou a vitória por 2 a 1 nos últimos minutos, contando com a colaboração do goleiro Fabri em um erro juvenil. Por isso mesmo, o Besiktas precisava partir para cima. E, arriscando mais durante os primeiros minutos, os turcos abriram o placar aos 26. Após cruzamento de Oguzhan Ozyakup, Anderson Talisca dominou na entrada da área, virou e bateu no cantinho, sem qualquer chance de defesa para Anthony Lopes. Tornou ainda mais incontrolável a insanidade nas arquibancadas da Vodafone Arena, onde os torcedores alvirrubros começaram cantando alto e pulando desde antes do apito inicial.

O Lyon, porém, conta com um ataque de potencial imenso. Técnico, rápido e letal em suas boas jogadas coletivas. Não à toa, o empate já saiu aos 34, em belíssimo lance dos Gones. Maxime Gonalons deu uma enfiada de bola pelo alto, magistral. Deixou Alexandre Lacazette de frente para o gol. Com muita categoria, o atacante tocou por cima do goleiro Fabri. E a virada poderia ter saído antes mesmo do intervalo, com o próprio Lacazette acertando a trave. Naquele momento, a balança pendia para o Lyon.

Na volta do intervalo, o Besiktas intensificou a sua atitude, pressionando no ataque. Talisca, em fase iluminada, voltou a decidir. Adriano fez o cruzamento e o meio-campista cabeceou com firmeza, tirando do alcance de Anthony Lopes. O brasileiro, aliás, chamava demais a responsabilidade, ao lado de Ricardo Quaresma. Foram oito finalizações do baiano em 58 minutos. Depois disso, o panorama do jogo voltou a virar. O Lyon recuperou a posse de bola e a iniciativa, colocando o Besiktas contra a parede. Lacazette, Valbuena e Tolisso estavam inspirados, mas a defesa turca se desdobrava para segurar a diferença e os alvinegros buscavam ainda uma bola parada ou um contragolpe. Pela vontade de ambos os times, parecia impossível que o placar se mantivesse inalterado até o apito final. Porém, um chute de Lacazette que esbarrou no travessão aos 45 deixava claro que tinha mais.

Mesmo sem gastar de cara as alterações, os dois times mantinham a correria na prorrogação. Ainda mais, a manutenção da diferença no marcador parecia impossível. Foi quando os goleiros, que já vinham pegando demais, realizaram os seus principais milagres. Anthony Lopes voou para espalmar uma bola espetacular. Do outro lado, pouco depois, Fabri se redimiu do erro na ida aparecendo do nada para afastar o perigo quase em cima da linha. Foram 14 arremates nos 30 minutos extras. Nem assim o gol saiu. Quem não tinha enfartado, ainda precisava encarar os pênaltis.

Então, se sobressaiu a precisão dos batedores na marca da cal. As cobranças de ambos os times eram perfeitas. Dez chutes, dez gols, até o início das alternadas. Os primeiros da nova série acertaram. Para, então, a definição acontecer. Anthony Lopes saltou no canto para barrar o arremate de Tosic, antes de Jallet isolar para o Lyon. Pouco depois, o goleiro dos Gones voltaria a se colocar como herói, agarrando a batida de Mitrovic. Até que, enfim, o jogaço teve o seu ponto final com a conversão de Gonalons. Apesar da queda, os torcedores do Besiktas reconheceram o esforço de seus jogadores com muitos aplausos.

O Lyon vem forte demais nesta Liga Europa. Que a campanha na Champions tenha sido decepcionante, eliminados por Juventus e Sevilla sem oferecer muita resistência, os franceses atropelam os adversários nos mata-matas da outra competição. Massacraram o AZ Alkmaar, superaram a forte Roma em duas grandes partidas e agora viveram uma montanha russa diante do Besiktas. Já sem chances de alcançar as três primeiras colocações da Ligue 1, o clube joga a temporada no torneio continental. E como joga. Principalmente pelos seus homens de frente, alguns deles especulados em grandes equipes europeias, e que vem fazendo por merecer tal badalação. Por aquilo que apresentou desde os 16-avos de final, é quem apresenta as melhores credenciais nas semis.