Charles Miller desembarca no Brasil após uma temporada de estudos na Inglaterra. Traz consigo uma bola de futebol, outra de rúgbi e um livro de regras sob os braços. Inicia naquele momento a jornada para implantar o esporte em um dos países que mais aperfeiçoou o jogo de bola. Dali em diante, realizaria a primeira partida, criaria o primeiro time, fundaria o primeiro campeonato, se tornaria o primeiro craque. O mito fundador do futebol brasileiro tinha todos os elementos em um só personagem. Um grande personagem.

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A história, no entanto, não é tão simples assim. O esporte popularíssimo em vários cantos do mundo já em 1895 não foi implantado apenas pela iniciativa de Charles Miller. É claro que o “pai do futebol brasileiro” teve um papel fundamental – algo sobre o qual falaremos mais nesta terça-feira. Mas sua figura soa tal qual um Pedro Álvares Cabral do esporte. Os livros contam quem “descobriu o Brasil” por se iniciar naquele momento a história institucional. Só que outros estrangeiros (sem falar os milhares de índios que povoavam o território) já haviam pisado em terras brasileiras antes. Nenhum deles conseguiu expandir o domínio. Ou, como Miller fez, constituir uma estrutura – assim como já havia sido na própria formação do futebol na Inglaterra, em 1863.

A criação das regras já tinha maioridade quando Charles Miller voltou, mais de 21 anos desde a criação da Football Association. E, mesmo em tempos nos quais as interconexões globais eram muito menos intensas, o Brasil não estava isolado do resto do mundo. Suas praias receberam marinheiros ingleses já apaixonados pelo jogo de bola, sua mão de obra especializada nas novas tecnologias ganhava o know-how dos britânicos, as escolas começavam incorporar os padrões de educação física da Europa. Desde a década de 1870, pelo menos, o futebol já estava presente no Brasil – e há fontes que apontem para o papel de ingleses e também franceses, holandeses e alemães desde 1864. Não ainda com as bases para se expandir, o que só veio a acontecer em 1895, com Charles Miller.

Os primórdios do futebol no Brasil sempre estiveram envoltos nas brumas do mito, de onde emergia a figura impávida e bigoduda de Charles Miller, que teria trazido da Europa uma bola embaixo de cada braço e ensinado sozinho o esporte bretão aos nossos compatriotas. Tal gênese servia como uma luva à determinada visão das origens do nosso futebol, como produto da ação voluntariosa de uma elite em contato direto com as fontes britânicas do esporte.
José Geraldo Couto, no prefácio do livro Visão de Jogo – Primórdios do Futebol no Brasil, de José Moraes dos Santos.

Os ancestrais tupiniquins do futebol

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Chutar uma bola (ou algo parecido com isso) não era exclusividade dos ingleses até o século 19. Há registros históricos de jogos parecidos com o futebol desde milênios antes, nas partes mais dispersas do mundo. Da China Imperial à Austrália aborígine, da Grécia Antiga à Itália Medieval. Alguns deles, realizados pelos povos nativos das Américas muito antes de Cristovão Colombo dar as caras por aqui.

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Na Mesoamérica, há bolas datadas de 1500 antes de Cristo, assim como sítios arqueológicos parecidos com estádios em territórios olmecas, maias e astecas. Os jogadores precisavam enviar a bola em um alvo no campo adversário, em algumas versões conduzindo com os pés, naquele que era considerado um ritual sagrado. Já no Paraguai, os jesuítas descreveram um esporte nos quais uma bola de borracha era o alvo de chutes dos índios guaranis, o chamado ‘mangai’ – em que o objetivo não era marcar mais gols, mas ficar mais tempo em campo.

O Brasil isolado da influência portuguesa e europeia também possuía os seus jogos, difundidos em algumas das milhares de tribos indígenas espalhadas pelo território. O mais famoso é o xikunahity, em que uma bola é golpeada com a cabeça e tradicionalmente faz parte de competições modernas entre povos indígenas. Registrado por Cândido Rondon na virada do século 20, a modalidade é jogada por Paresis e outras tribos do Mato Grosso. No Alto do Xingu, também já existia o katulaiwa, praticado com os joelhos. E as bolas de látex também serviam a jogos de etnias da região amazônica, como os kaiapós. Invenções endêmicas, longe da irradiação que Charles Miller conseguiu a partir de sua temporada de estudos na Inglaterra.

Os marinheiros também vieram ao Brasil

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Durante a instituição do futebol, em 1863, o Reino Unido era o maior império do mundo. A Coroa Britânica possuía intensas relações comerciais em diversas partes do mundo, rainha dos mares com seus navios mercantes. E o imperialismo se deu também através do futebol, que chegava através das praias, pelos pés dos marinheiros. A história do esporte em muitos países começou assim. Não à toa, quase sempre com litoral. E em cidades portuárias: Buenos Aires, Montevidéu, Valparaíso, Boston, Kobe, Calcutá, Odessa, São Petersburgo, Gênova, Le Havre, Salônica, Natal-Kwazulu, Hobart – pelos quatro cantos do mundo, todas pioneiras nos países de mais diversa colonização.

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O Rio de Janeiro não passou a parte deste processo. A capital do Império de Dom Pedro II teve os seus jogos entre marinheiros britânicos. Meras exibições, sem nada que ficasse para a prática contínua da modalidade por aqui. Traziam a bola, mas também a levavam de volta para os navios. Um dos primeiros relatos fala sobre uma pelada na região da Glória, em 1874. Quatro anos depois, seria a vez de um jogo nas Laranjeiras – coincidentemente, o berço da seleção brasileira, quase quatro décadas depois. Na lendária Rua Paysandu, os tripulantes do navio Crimeia jogaram em frente da residência da Princesa Isabel. Nada que tocasse a monarquia brasileira para impulsionar o esporte.

Ainda no Rio, outras partidas de futebol aconteciam eventualmente na comunidade britânica, que também chegava para trabalhar em empresas de tecnologias de ponta para a época. O críquete era o esporte difundido pelos imigrantes naquelas décadas, com a constituição de clubes para a prática na capital. Um dos principais, o Rio Cricket surgiu em 1872. Em seus primórdios, já contavam com alguns bate-bolas entre os funcionários das companhias férreas. Para anos depois, em 1897, receber aquela que é considerada a introdução do futebol carioca. Além disso, o clube também participaria das primeiras edições do campeonato estadual.

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Mas o litoral brasileiro não se resumia ao Rio de Janeiro. E outros cantos da extensa costa nacional também receberam forte influência estrangeira no final do século 19. Entretanto, os registros sobre a presença do futebol são escassos. Um desses centros era Belém, que chegou a contar com uma linha diária de navios até o porto de Liverpool. Segundo o historiador Loris Baena Cunha, os britânicos das companhias de navegação, telégrafo e gás realizaram o seu rachão no Pará pela primeira vez em 1890. Dois anos depois, também teriam tornado comuns os jogos no Largo de Nazaré, realizados pelo Clube de Esgryma. Mas nada com a repercussão de Charles Miller em 1895.

Da mesma maneira, o estado de São Paulo desfrutava da riqueza gerada pela produção de café. O dinheiro da exportação se convertia em linhas ferroviárias e telegráficas que se expandiam do porto de Santos e da capital através do interior. Em meio ao caminho das estradas de ferro, Jundiaí e Santo André tiveram as suas partidas de futebol, graças a funcionários da São Paulo Railway mais antigos do que Charles Miller. Na Vila Paranapiacaba, inclusive, está localizado aquele que é considerado o primeiro campo de futebol da história do Brasil. Construído em 1894, o local segue recebendo partidas amadoras.

Além disso, a introdução do esporte inglês se deu até mesmo de maneira indireta, através da influência de Montevidéu e Buenos Aires sobre o Rio Grande do Sul que se expandiu para os campos de futebol. Em cidades na fronteira uruguaia, como Santana do Livramento e Uruguaiana, existem relatos de peladas entre o final da década de 1880 e o início dos anos 1890. Não à toa, o futebol se desenvolveu no Rio Grande do Sul com intensidade parecida a São Paulo e Rio de Janeiro, ainda que as principais instituições de organização surgissem entre as duas capitais do sudeste.

Os primórdios do futebol também nas escolas

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A difusão do futebol pelas universidades inglesas no início do século 19 tem papel fundamental para a sua constituição, em 1863. O esporte se popularizou entre os estudantes, mas com as regras particulares de cada instituição. O passo fundamental aconteceu justamente quando houve a iniciativa para unificar o jeito de se jogar, o que permitia os confrontos entre os clubes de futebol recém-surgidos, a partir da década de 1850.

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Até então, o futebol era principalmente uma ferramenta educacional. Servia para transmitir os princípios de cavalheirismo e nobreza entre os abastados estudantes do “college”, enquanto valorizava as atividades físicas, cuja noção de importância se expandia naquela época. E não apenas pela Inglaterra. Além dos marinheiros e dos trabalhadores, os professores também tiveram papel fundamental para espalhar o futebol pelo mundo. Em diversos países, as primeiras equipes nasceram justamente nas escolas. Algo que alguns historiadores também defendem no Brasil.

Durante a última década de seu reinado, Dom Pedro II enviou o diplomata Rui Barbosa à Europa, pretendendo trazer novas ideias ao ensino público no Brasil. Concomitantemente, os colégios do país também passaram a importar métodos de outros países, em especial as instituições jesuítas. A educação física se introduziu especialmente neste momento. Em alguns casos, com a presença do futebol entre as atividades difundidas entre os estudantes. Tanto que os jornais entre o fim do Império e o início da República já descrevem o uso da modalidade por padres para “afastar os jovens do ócio”.

O exemplo mais famoso é o do Colégio São Luís, de Itu, que educava garotos das famílias de elite de todo o estado. Segundo o historiador José Morais Neto, autor do livro Visão do Jogo – Os Primórdios do Futebol, as disputas aconteciam no pátio da escola. As regras se inspiravam no que dizia a Football Association, ainda que não seguissem à risca em seus primeiros anos. Com o passar do tempo e a popularização do jogo entre os alunos, as equipes internas começaram a se formar e o campo foi constituído, com traves nos lugares das antigas marcas nas paredes. A partir de 1887, o futebol ganhou seus principais traços no colégio. Se Charles Miller é o pai da modalidade no Brasil, o padre José Mantero, reitor do São Luís e responsável por essas mudanças, pode ser considerado o “avô”.

Já no final da década de 1890, muitos dos ex-alunos deram suas contribuições para a iniciativa de Charles Miller. Eles chegaram a participar dos primórdios da federação paulista e da fundação dos primeiros clubes do estado. Não de maneira tão efetiva, mas o futebol também apareceu em outras instituições de ensino no final do Império, como no tradicional Ginásio Nacional, no Rio de Janeiro.

O concorrente de Charles Miller vivia em Bangu

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Por mais que a histórias do futebol pelo Brasil antes de Charles Miller sejam bastante difusas, o maior concorrente pela paternidade do esporte era seu contemporâneo. Thomas Donohoe nasceu na Escócia em 1863 e veio ao Brasil aos 31 anos, para trabalhar na Fábrica Bangu, uma indústria têxtil no subúrbio carioca. Junto com as máquinas europeias que mandou importar em setembro de 1894, também trouxe bolas e uniformes para os primeiros jogos.

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Segundo os historiadores que pesquisam sobre a participação de Donohoe na formação do futebol brasileiro, a primeira partida foi disputada naquele momento, sete meses antes do jogo organizado por Charles Miller. As traves foram improvisadas e, sem goleiros, os funcionários da Fábrica Bangu se dividiram em dois times de cinco, para a disputa de um bate-bola no domingo de tarde. De certa forma, um duelo até mais rudimentar do que aqueles que eram organizados pelo Colégio São Luís.

Donohoe aprendeu a gostar de futebol justamente no período em que o esporte conquistava a massa operária no Reino Unido. O jogo institucionalizado em Londres logo começou a se espalhar pelo fabril norte da Grã-Bretanha, o berço da Revolução Industrial. Por lá é que nasceu o profissionalismo, com os jogadores que tinham empregos de fachada em fábricas, mas na verdade ganhavam dinheiro para vencer nos gramados. E também na região que o futebol se tornou uma arte, pelos pés dos escoceses que criaram o estilo de toque de bola.

Tintureiro na região de Glasgow, Donohoe cresceu assistindo ao Queens Park, melhor time do mundo naquela época. E que também jogava pelo Busby. Quando chegou ao Brasil, o escocês não encontrou uma equipe para se filiar e precisou disputar os próprios rachões com outros empregados da fábrica. Se não recebe a paternidade do futebol brasileiro, ele ao menos pode ser considerado o “pai das peladas” ou do “futebol de várzea”. Para quem aprendeu a acompanhar futebol nas ruas e nos campos da Escócia, não bastava nada muito além da bola e do conhecimento oral.

A paixão de Donohoe pelo futebol, contudo, não se reverteu na organização imediata de um clube ou de campeonatos regulares. Dez anos depois, em 1904, é que o escocês se tornou um dos fundadores do Bangu Atlético Clube, quando a proposta finalmente teve a aceitação do presidente da indústria. Naquela época, o futebol já se arraigava no Rio de Janeiro com suas primeiras instituições, especialmente graças ao incentivo de Oscar Cox, um dos introdutores do futebol no Rio Cricket, em 1897 – e que também se tornou o primeiro presidente do Fluminense. De qualquer maneira, o Bangu deu sua contribuição pioneira ao futebol brasileiro. Junto com a Ponte Preta, foi um dos primeiros times a abrir as portas aos negros no futebol.

Quando o Bangu surgiu, o futebol introduzido por Charles Miller em São Paulo já estava consolidado. O São Paulo Athletic Club venceu o seu terceiro título do Campeonato Paulista naquele ano, estrelado justamente pelo pioneiro, artilheiro do certame em 1902 e 1904. Uma modalidade restrita às elites, é verdade, mas que logo começava a ganhar o gosto popular e a se espalhar também pela várzea, com a criação de clubes proletários. A tal da “paixão nacional”, como conhecemos hoje. E que se valeu bastante da organização de Charles Miller, pioneiro justamente por ensinar as regras que aprendeu como estudante ao resto do país. Uma história que completa 120 anos neste 14 de abril de 2015, com os 120 anos do primeiro jogo “oficial”.

Este texto é a primeira parte de uma série especial dos 120 anos da institucionalização do futebol no Brasil, que será publicada pela Trivela nesta semana. Nos próximos capítulos, falaremos sobre a figura de Charles Miller, a expansão do esporte pelo país, os antigos campos pioneiros e o arraigamento do esporte na cultura nacional.

Aproveitando o momento, em memória, esta série também é dedicada a Eduardo Galeano, que tanto ajudou a preservar o rico passado do futebol através de suas eternas palavras. E um agradecimento especial ao amigo Caio Brandão, com a ajuda sobre os primórdios do futebol paraense.