Pela primeira vez na história, um clube da Nova Caledônia conquistará a Liga dos Campeões da Oceania. A final acontece neste sábado, mas a ilha da Melanésia já sabe que um de seus representantes ficará com a taça. Afinal, Magenta e Hienghène Sport foram capazes da maior façanha na semifinal: os clubes neocaledônios eliminaram os favoritos neozelandeses. Enquanto o Magenta se encarregou de derrotar o Auckland City, eneacampeão continental, o Hienghène Sport cumpriu sua missão contra o Team Wellington, dono da taça na última temporada. Agora, prometem uma decisão memorável no Stade Numa-Daly Magenta, casa da seleção local. Será a primeira vez desde 2010 (e a segunda desde a debandada da Austrália para a AFC) que o principal torneio de clubes da Oceania não consagrará uma equipe da Nova Zelândia.

O marco deste final de semana, porém, não é isolado ao futebol da Nova Caledônia. O território ultramarino de 278 mil habitantes ainda possui seu cordão umbilical ligado à França, mas é independente no futebol. A federação local existe desde 1928 e foi admitida pela Fifa em 2004, incorporando a equipe nacional às Eliminatórias. Antes disso, alguns jogadores da ilha construíram carreiras expressivas no futebol francês e até chegaram ao topo da Copa do Mundo. E a impressão é que, mesmo com a liga amadora da nação, dá para evoluir. As seleções de base dão esses indícios. Horas antes da alternativa finalíssima, apresentamos um pouco da história dos neocaledônios nos gramados. Confira:

– Christian Karembeu, o maior

Christian Karembeu não é um craque, mas seu currículo fala por si. Naturalmente, se tornou o maior símbolo do futebol na Nova Caledônia. O meio-campista é de origem canaque, o povo indígena da ilha, e nasceu em uma família de 18 irmãos na cidade de Lifou. Começou a jogar futebol em sua própria tribo, antes de desenvolver o talento na escola e se juntar ao Gaïtcha, clube da capital Nouméa. De lá, ganharia uma chance para atuar nas categorias de base do Nantes e deixaria o Pacífico aos 18 anos, após passar pelos rituais tradicionais dos canaques. Transformaria-se em um dos principais jogadores do futebol francês.

Dono de um estilo de jogo muito físico, Karembeu se profissionalizou com o Nantes em 1990. Seu grande sucesso com o clube aconteceu em 1994/95, conquistando a Ligue 1 como pilar de um time ofensivo e letal. O sucesso com os Canários o levaria à Sampdoria, até atrair o interesse do Real Madrid em janeiro de 1998. Foram três temporadas no Bernabéu, com direito a duas conquistas da Champions. Embora tenha chegado apenas para a reta final, anotou três gols nos mata-matas do título em 1998. Passaria ainda pelo Middlesbrough e seria ídolo do Olympiacos, antes de encerrar a carreira com passagens por Servette e Bastia.

Já as principais memórias sobre Karembeu aconteceram na seleção francesa. Ganhou sua primeira convocação em 1992. O impacto com o Nantes garantiu o seu lugar na Euro 1996, antes de conquistar a Copa do Mundo em 1998. Dava vigor ao lado direito do meio-campo, compondo uma trinca ao lado de Emmanuel Petit e Didier Deschamps. Reserva, também fez parte do elenco que faturou a Eurocopa em 2000. Somou 53 partidas pelos Bleus, despedindo-se da equipe nacional em 2002. Apesar da importância, recusava-se a cantar a Marselhesa, pelas referências ao passado do país. Seu bisavô chegou a ser levado a Paris em 1931, ao lado de outros canaques, para ser apresentado como um “canibal” em uma exposição colonial do governo. Ainda assim, o bisneto conseguiu escrever uma outra história ao seu povo. Embaixador da Confederação da Oceania, realizou um amistoso com seus antigos companheiros de 1998 em Nouméa, 20 anos após o título mundial.

– Marc Kanyan Case, um pioneiro

Localizado na Córsega, o Bastia possui uma ligação histórica com os jogadores da Nova Caledônia. Vários atletas nascidos no Pacífico vingaram no clube do Mediterrâneo. O pioneiro foi o atacante Marc Kanyan Case. Aos 19 anos, ele conquistou os Jogos do Pacífico de 1963 com a seleção neocaledônia e se transferiu à base do Gazélec Ajaccio. Por lá, chegou a compor a seleção francesa amadora, que disputou os Jogos Olímpicos de 1968. Já a mudança ao Bastia aconteceu em 1969, somando 58 gols em 182 partidas pela agremiação.

Pois o veterano ainda teria uma importância curiosa depois de se aposentar. Ele era amigo de Paul Karembeu, pai de Christian. Foi ele quem conseguiu um teste para o garoto no Nantes. Após a aprovação do meio-campista, Kanyan Case ainda precisou insistir com a mãe do prodígio, até que ela aceitasse a mudança do adolescente à Europa. Por fim, o ex-atacante ainda entrou para a política durante a década passada. Parlamentar na Nova Caledônia, é uma das lideranças contra a independência da ilha, votada em novembro de 2018. O “não” venceu o referendo com 56,4% dos votos.

– Jacques Zimako, o primeiro da seleção principal

Quando Kanyan Case ainda defendia o Bastia, o clube trouxe mais um jogador da Nova Caledônia ao seu elenco profissional. Era o ponta Jacques Zimako, nascido em Lifou. Dono de muita qualidade para bater na bola, não demoraria a deslanchar. Depois de cinco anos na Córsega, transferiu-se ao Saint-Étienne. Ao lado de craques como Michel Platini e Johnny Rep, conquistou a Ligue 1 em 1980/81, anotando cinco gols em 30 partidas. Além disso, Zimako também brilhou nas participações europeias dos alviverdes, com direito até a gol olímpico (uma especialidade sua) contra o Aris na Copa da Uefa de 1978/79. Seu moral era tamanho que se tornou o primeiro jogador da Nova Caledônia a ser convocado à seleção principal. Disputou 13 jogos pelos Bleus, entre 1977 e 1981, presente nas Eliminatórias para a Copa de 1982. Também defenderia o Sochaux, antes de encerrar a carreira no próprio Bastia.

– Simei Ihily, o ídolo do Bastia

Se Zimako foi o nome mais marcante entre os neocaledônios do Bastia, o mais presente é o meia Simei Ihily. Ele permanece como o nono jogador que mais atuou pela agremiação, com 255 partidas, 211 pela primeira divisão. Seu maior feito aconteceu em 1981, titular na equipe que conquistou a Copa da França em cima do Saint-Étienne – que tinha em seu elenco o próprio Zimako. O herói daquela decisão foi Roger Milla, autor do gol que valeu o título.

– Antoine Kombouaré, sucesso como zagueiro e treinador

A partir da década de 1980, Antoine Kombouaré ascendeu como o principal representante da Nova Caledônia no Campeonato Francês. O zagueiro começou no Plum Nouméa, até ser descoberto pelo Nantes em 1983. Faria parte de equipes competitivas dos Canários e conviveria com futuros craques da seleção, a exemplo de Marcel Desailly. O ápice de sua carreira, de qualquer forma, aconteceu após a transferência ao Paris Saint-Germain em 1990. O defensor viveu a primeira ascensão dos parisienses como uma potência nacional, graças ao dinheiro injetado pelo Canal+. Seu instante mágico aconteceu nas quartas de final da Copa da Uefa de 1992/93, quando assinalou um gol aos 51 do segundo tempo e, com a goleada por 4 a 1, determinou a classificação sobre o Real Madrid após os 3 a 1 sofridos no Bernabéu. Também fez parte do timaço que conquistou a Ligue 1 em 1993/94 e foi um dos capitães do PSG na campanha até as semifinais da Champions em 1994/95. Depois, passaria por Sion, Aberdeen e Racing de Paris, até pendurar as chuteiras.

Em 1999, Kombouaré iniciou sua carreira como treinador. Dirigiu equipes tradicionais, como Strasbourg, Lens e Guingamp. Além do mais, era justamente o comandante do PSG quando os catarianos chegaram para investir na agremiação. Campeão da Copa da França em 2010, foi demitido de maneira um tanto quanto precoce para a chegada de Carlo Ancelotti em 2011. Atualmente trabalha no Dijon.

– O domínio nos Jogos do Pacífico

Mesmo antes de ser admitida pela Fifa, a Nova Caledônia batia cartão no torneio de futebol dos Jogos do Pacífico – uma espécie de Olimpíada envolvendo as ilhas da região. E os neocaledônios podem ser considerados como a grande potência da competição. São sete medalhas de ouro, contra cinco do Taiti e duas de Fiji. A equipe dominou a competição nas primeiras edições, presente nas cinco primeiras finais. Pois a hegemonia dos Cagus (ave típica da região, que apelida a seleção) seria retomada nas últimas três edições, com os títulos consecutivos em 2007, 2011 e 2015. São novamente favoritos para 2019, com os Jogos sediados em Samoa.

– A façanha na Copa das Nações de 2012

Se a Champions de 2019 representa o maior feito da Nova Caledônia entre seus clubes, a grande façanha de sua equipe nacional aconteceu em 2012. Naquele ano, os neocaledônios foram capazes de interromper a hegemonia da Nova Zelândia na Copa das Nações da Oceania – o torneio continental de seleções. Os Cagus chegaram ao seu primeiro vice-campeonato em 2008, quando ficaram na segunda colocação do quadrangular final, abaixo dos neozelandeses. Já na edição seguinte, com a mudança no regulamento, os nanicos buscaram seu milagre. Eliminaram os All Whites nas semifinais, anotando 2 a 0 no placar. Bertrand Kaï abriu o marcador no segundo tempo e, já nos acréscimos, Georges Gope-Fenepej matou a partida. O problema aconteceu na decisão, quando o histórico Taiti de Eddy Etaeta venceu o clássico por 1 a 0 e, além de erguer a taça, se confirmou na Copa das Confederações de 2013.

Aquela edição da Copa das Nações ainda serviu como classificatório às Eliminatórias da Copa de 2014. A Nova Caledônia deu o troco no Taiti, vencendo os dois confrontos no quadrangular. Porém, também viu a Nova Zelândia se vingar e, com 100% de aproveitamento, os All Whites avançaram à repescagem do Mundial. O treinador dos neocaledônios na ocasião era Alain Moizan, que comanda o Magenta desde 2010. Nascido em Senegal, o ex-volante jogou por Monaco, Lyon e Saint-Étienne na Ligue 1, além de fazer parte da seleção francesa entre 1979 e 1981. Como técnico, chegou a trabalhar em seleções africanas, antes de aportar no Pacífico.

– A presença no Mundial Sub-17

A seleção adulta da Nova Caledônia nunca disputou a fase principal de uma competição internacional. Uma façanha alcançada por seus garotos, em 2017. Há dois anos, os Cagus alcançaram o vice-campeonato juvenil da Oceania e, com duas vagas dedicadas ao continente, se classificaram ao Mundial. Não foi uma campanha tão ruim assim. Os neocaledônios começaram tomando uma goleada de 7 a 1 justamente contra a França, antes de perderem para Honduras por 5 a 0. Ainda com chances na rodada final, arrancaram o empate contra o Japão, 1 a 1. Uma geração que pode dar frutos à nação.

– A outra final do Magenta na Champions

Não é a primeira vez que a Nova Caledônia tentará conquistar o título da Liga dos Campeões da Oceania. A primeira final aconteceu em 2005, durante o ressurgimento da competição, após a recriação do Mundial de Clubes. O Magenta terminou na liderança de seu grupo na fase de classificação e, nas semifinais, superou o Pirae – tradicional representante do Taiti. Só não deu para competir com o Sydney FC, na última presença dos australianos no torneio. Treinado por Pierre Littbarski, o clube da A-League venceu a decisão por 2 a 0. Camisa 10 da equipe, o destaque do Magenta era Pierre Wajoka. Já aposentado, o meio-campista é o recordista em jogos pela seleção neocaledônia, com 39 aparições.

– A vitória neocaledônia na Copa da França

A Copa da França é conhecida por ser uma competição completamente plural. E, por pluralidade, entenda também a participação dos territórios ultramarinos do país. A Nova Caledônia integra o torneio a partir da sétima rodada, representada pelo campeão da copa nacional. E, apesar da fragilidade de seus times, conquistou a classificação uma vez, em 2010/11. O Magenta enfrentou o Dunkerque (clube famoso especialmente por desencadear o imbróglio que resultou na Lei Bosman) e derrotou os adversários da quinta divisão nos pênaltis. Mas não duraria muito a jornada pela metrópole. Na fase seguinte, equivalente aos 64-avos de final, os neocaledônios sucumbiram diante do Paris FC, então na terceirona.

– Bertrand Kaï, a referência local

Por fim, vale mencionar o nome mais célebre da final deste sábado. Entre os jogadores que ainda atuam na Nova Caledônia, Bertrand Kaï é o maior ídolo local. O atacante de 35 anos é a principal referência do Hienghène Sports, conduzindo a equipe à decisão da Liga dos Campeões da Oceania. De qualquer forma, sua história é mais ampla. Em 2011, ele se tornou o primeiro futebolista da seleção neocaledônia a ser eleito o melhor do ano na Oceania, superando os destaques de países mais badalados. Também seria um dos artilheiros da Copa das Nações de 2012, anotando o primeiro gol na supramencionada vitória sobre a Nova Zelândia. E é exatamente o maior goleador da seleção, com 20 tentos assinalados. Nesta Champions, foi importante nas quartas de final, abrindo o placar no apertado triunfo contra os fijianos do Ba. Capitão, poderá erguer a taça diante do Magenta, um clube com histórico mais vitorioso que o Hienghène.