O Campeonato Brasileiro é cheio de qualidades, apesar dos desmandos e dos dirigentes. Por isso mesmo, tem muito o que melhorar. Há problemas que são tão evidentes que é estranho que ainda não tenham acontecido. Então, resolvemos juntar aqui 10 pontos que o Brasileirão precisa melhorar. Há muitos outros, é claro, mas escolhemos alguns que podem fazer diferença para o campeonato, para os clubes e para os torcedores. Confira:

Criação de uma liga

A criação de uma liga é primordial para o Campeonato Brasileiro. Primeiro, porque uma liga cuidaria de interesses tão somente do campeonato, não de uma entidade que está preocupada com muito mais coisas, como é a CBF. E não é apenas o fato da CBF ser uma entidade duvidosa. A questão é que uma federação de futebol do país tem uma função diferente de uma liga. E para quem quer ser grande – e nós queremos que o Brasil seja -, é preciso que a liga trate dos interesses do campeonato, tal como arbitragem (incluindo adoção ou não e tecnologia), promoção e, sim: venda de direitos de TV de forma coletiva.

É essencial que isso aconteça e que se crie um mecanismo para isso. Não é preciso que seja divisão igualitária, mas é preciso que não seja um abismo como é hoje. Audiência e transmissão na TV é um fator, pode entrar na conta, mas é importante eu entre na conta também um fator técnico, como a posição na tabela. A liga poderá dar mais voz aos clubes, trabalhar de forma independente da CBF e não criar amarras com as federações, como a CBF tem. O Brasileiro pode ser um campeonato muito mais importante do que é e até ter mais divisões, algo que é necessário dado o tamanho do Brasil. A federação de futebol do país tem que cuidar da promoção do esporte, fazer investimentos na base e cuidar da seleção. A liga fica por conta da liga.

TEMA DA SEMANA: O Brasileirão 2014 acabou e falamos sobre o que ficou dele

Parar com o mando de campo itinerante

Brasília, Belém, Cuiabá, Manaus. O que essas cidades têm em comum? Todas estão sem times na Série A neste momento. Mesmo assim, receberam jogos do Campeonato Brasileiro da primeira divisão. Mas como? Bom, culpa de um fenômeno que se tornou comum no Brasil: o mando de campo itinerante. Flamengo, Goiás, Botafogo, Santos, todos mandaram jogos fora de seus estádios.

É simples: um grupo paga uma quantia fechada para o time mandar seu jogo em outro estádio, enquanto lucra com os ingressos altos de um jogo que se torna atração para a cidade. Afinal, são times que não costumam jogar por lá. Tem acontecido sistematicamente no Campeonato Brasileiro. Ótimo para os empresários e empresas que administram os estádios nessas cidades, alguns deles elefantes brancos da Copa do Mundo, como o de Manaus.

Isso é ruim para o campeonato. Quando um time como o Goiás vende o mando de campo para jogar em Belém, porque foi punido e não podia jogar em Goiânia, prejudica o campeonato. De um lado, torna a logística mais complicada ao levar o jogo para mais longe. Segundo, porque o campo escolhido foi para favorecer a renda e, portanto, tinha maioria da torcida rival. Ou seja, na prática, o Corinthians jogou com o mando, o que torna desigual com os demais times, que tiveram que enfrentam o esmeraldino no Serra Dourada. Vale o mesmo para diversos outros mandos, como foi o Botafogo levando o jogo com o São Paulo para Brasília, causando um efeito parecido.

É o tipo de coisa que precisa ser regulada. Primeiro, é preciso discutir as punições, mas se for punir o clube, que jogue de portões fechados, o que trará um prejuízo financeiro direto. Perder o mando e ser obrigado a jogar longe, às vezes, não é prejudicial, porque o time acaba lucrando com isso. A CBF precisa regular isso. Até porque se um dia quisermos ter um campeonato com o sistema de tecnologia na linha do gol, como acontece na Premier League e como acontecerá na Bundesliga na próxima temporada, é preciso que os estádios estejam determinados antes do campeonato para estarem com a tecnologia devidamente instalada.

Menos intervenção do STJD

Ah, o STJD… Toda a burocratização do judiciário, com o bônus do autoritarismo e prepotência que por vezes vemos os juízes tendo. Com a diferença que o STJD não é judiciário. É um órgão esportivo que responde às organizações esportivas e são pagas por ela. E que atrapalha, e muito, o futebol brasileiro, porque como todo tribunal, ele não está isento de política. Mas o pior dele é que atenta à picuinha, aos pormenores, ao legalismo canalha que detona os pequenos e alivia a barra dos grandes. Ou, quando envolve dois grandes, toma as decisões por motivos que não se sabe dizer.

Tem um outro efeito ainda. Falamos sempre sobre a questão de festa nos estádios e como a justiça, e seus órgãos, é o STJD que criou esse fantasma maluco de “não pode acender sinalizador porque se não o time será punido”, ou coisas do gênero. Sim, racismo e homofobia devem, sim, ser julgados e punidos pelo tribunal. Mas sinalizadores se tornaram um pecado capital, como os promotores do ministério público paulista já tinham tornado as bandeiras como um problema sério da violência – e as pessoas continuam não sendo punidas individualmente.

É verdade que há uma regulamentação de lei que torna obrigatória a existência de uma justiça desportiva, mas não é preciso que ela seja como é. Há alternativas e já falamos disso aqui na Trivela, inclusive propondo o que poderia ser feito.

Arbitragem de melhor nível

Tudo bem que tem o fator mimimi e desculpas dos times e técnicos, mas é verdade também que o nível da arbitragem brasileira é terrível. Os erros são constantes e a falta de critério é latente. Isso para não falar nas escalas mal feitas – um sorteio bem tosco e que não tem sentido –, da falta de transparência e de prestação de contas de quem comanda a arbitragem e de um melhor preparo dos árbitros, com reciclagem, congressos e debates mesmo com os clubes e o público em geral. Afinal, é preciso tornar os critérios mais claros, falar sobre as decisões da arbitragem. E isso não significa atirar pedras nos árbitros que erram, mas sim deixar claro quais são as orientações da Fifa, o que a CBF e a sua comissão de arbitragem orientam e ouvir também.  Todos podem contribuir para a melhora.

Há ainda a questão sobre a profissionalização. Há quem seja contra, outros que sejam a favor, e esse foi tema de uma série de reportagens da Trivela. É preciso falar sobre arbitragem, critérios e sobre como se comanda esse elemento crucial para que o jogo siga bem. A profissionalização é um dos tópicos, a transparência é outro, a própria discussão sobre as regras é também importante. Afinal, as regras mudam porque o futebol muda. Ainda que isso não dependa da CBF, e sim da Fifa, é preciso haver discussões sobre rumos da arbitragem e dar condições do árbitro poder melhorar, seja profissionalizando, seja de outra forma.

Planejamento do calendário de jogos

Já reparou que todo ano, na data que muda o horário de verão, a rodada do Brasileirão não muda de horário? Pois é, é um dos problema que a organização do Campeonato Brasileiro tem. Parece que o horário de verão é uma surpresa, decretada na calada da noite. Só que não é. O horário de verão tem dia para acontecer pelos próximos anos todos. É só procurar no Google que você encontra as datas de começo e fim do horário de verão até 2028. Aliás, CBF, anota aí: em 2015 será no dia 17 de outubro. Nos jogos do dia 18, domigo, favor já trazer a tabela com o início do jogo às 17h, não às 16h, ok?

Talvez você lembre também que houve uma enorme confusão em relação aos locais dos jogos da última rodada do Brasileirão. O Corinthians e o Palmeiras tinham jogos marcados para o mesmo dia, mesmo hora e na mesma cidade, em lugares diferentes. Em outros lugares do mundo, como em Londres, que concentra seis dos 20 times da primeira divisão inglês, jogos na mesma cidade acontecem sem problema. Não chegamos a esse patamar ainda, por várias razões. Tudo bem, mas passar a semana discutindo se os jogos aconteceriam ou não no mesmo horário e na mesma cidade, sendo que a tabela está pronta desde fevereiro, parece um pouco demais. Era só ter programado uma solução melhor. Não é difícil fazer com que só um dos times da cidade jogue em casa e os outros joguem fora. São só três. Mas é preciso planejar, tentar olhar o que pode ser problemático e tratar disso antes.

Rodadas em datas Fifa

O jogador do seu time foi convocado. Qual é a sua reação? Orgulho? Feliz por ver o cara que você defende vestir a camisa do seu país? Não, boa parte dos torcedores xinga e fica possesso quando vê alguém do seu time convocado. Significa que ele perderá uma ou duas rodadas do Brasileirão, quando não mais.

O Campeonato Brasileiro não para durante as datas Fifa, o que complica demais a vida dos clubes, que ficam sem seus principais jogadores, e do técnico da seleção, que não pode convocar quem ele quiser: precisa limitar a dois por time, ou um por time, ou até ninguém, como foi o caso do último amistoso da seleção brasileira no ano. Dunga não convocou ninguém do Brasil, porque os jogadores perderiam a final da Copa do Brasil e rodadas decisivas do Brasileirão. Um negócio estúpido e impensável.

É preciso repensar o calendário para não esmagar os jogos em tão poucas datas. Sim, será necessário diminuir de algum lugar (alguém falou estaduais?), ou então viveremos esse eterno martírio que só faz mal ao futebol de clubes e de seleção.

Janelas de transferências delimitada

Quantas vezes ouvimos no ano que os times estão procurando reforços? De janeiro a dezembro, todos os clubes estão procurando reforços. É impressionante como acontece casos ridículos de jogador estreando com dois terços do campeonato disputado. Destaques da Série B são chamados às pressas por times da Série A para tentar o milagre (alguém falou em Cléber Santana no Criciúma?), é um entra e sai danado. A única regra é: o jogador não pode ter feito sete partidas por outro clube na mesma divisão.

Não há uma janela interna de negociação. As janelas que temos definem o prazo apenas para contratações do exterior. É pouco. É preciso que haja um começo e fim da janela de transferências. O caso brasileiro é peculiar em comparação aos campeonatos europeus, porque lá não tem estaduais. Mesmo assim, é possível criar algumas regras e definir janelas. Por exemplo: janeiro a março. Dentro desse período, os times podem contratar à vontade, independente do número de jogos do time no campeonato. Depois, um mês de contratações em maio, mês que começa o Brasileirão. Por fim, outra janela, em agosto ou setembro, por mais um mês. Depois disso, não se pode mais contratar.

É importante ter janela porque isso obriga os times a se planejar, o jogador não fica sendo jogado para cima e para baixo e ainda é possível criar clímax. Na Europa, o último dia de janela de transferências é um evento altamente movimentado. Afinal, depois de fechado não será mais possível contratar, então se fazem loucuras como a contratação de Fernando Torres pelo Chelsea e Andy Carroll pelo Liverpool, em 2011.

Ingressos mais baratos

Precisamos falar sobre preço de ingressos. Sim, vivemos um aumento do poder aquisitivo do cidadão. Sim, também vimos um aumento de receitas dos clubes e um acirramento na disputa por jogadores, inclusive com uma inflação no preço das contratações e nos salários. Sabemos que os clubes precisam disputar os jogadores com outros mercados que têm muito dinheiro, como a Europa, o Oriente Médio e a China (em breve, talvez até os Estados Unidos). Mas tudo isso precisa mesmo ser às custas do torcedor, com preços de ingressos tão altos?

Tivemos um aumento da média de público no Brasileirão desse ano, mas ainda estamos muito aquém da nossa capacidade. A média de público em 2014 foi de 16.537, a maior desde 2008, quando tivemos 16.992. A última vez que o Brasileirão teve média superior a 20 mil pessoas por jogo foi em 1987, 20.877. É muito pouco. É preciso criar uma política de fidelização, que atraia mais os torcedores a estarem no estádio em todos os jogos. Isso passa por organização, é claro, mas também pela, e muito, pelo preço.

O São Paulo de 2013 é talvez o maior exemplo disso, aumentando imediatamente a sua média de público quando fez uma promoção de ingressos. Foi uma promoção agressiva, é verdade, que um clube que almeje título talvez não consiga manter. Mas é preciso encontrar o equilíbrio entre ingressos que dão prejuízo e preços que esfolam o torcedor. Até porque os extremos costumam não ser positivos para ninguém.  Bom, talvez para alguns poucos clubes que consigam aumentar sua arrecadação sem perceber que poderiam aumentar muito mais.

Premiação por colocação

Um dos grandes assuntos na reta final do Brasileirão sempre é a tal da mala branca. Quem pagará para quem ganhar, porque precisa do resultado. Uma bobagem que nós, imprensa, alimentamos mais do que se deveria. Estamos cheios de exemplos de como isso é uma enorme bobagem e em 2014 tivemos mais uma vez: Santos vencendo o Vitória no Barradão mesmo sem ter interesse algum no campeonato, Atlético Paranaense engrossando o jogo contra o Palmeiras no Allianz Parque mesmo não fazendo nenhuma diferença, o Icasa vencendo o Boa Esporte na última rodada da Série B, impedindo o acesso do time mineiro, mesmo já estando rebaixado.

Mas vá lá, é preciso criar medidas que acabem com esse tipo de suspeita e, mais do que isso, faça com que os times estejam interessados nos jogos. Uma medida simples é: premiação vinculada à posição. Sim, isso já acontece nas primeiras posições, mas tanto faz se o time fica em 10º ou 14º. Seria importante criar premiações para os times por posições, fazendo com que cada pontinho fosse disputado, porque valeria mais dinheiro.

Uma medida melhor ainda faria com que uma parte dos direitos de TV também ficasse vinculada ao desempenho. Na Inglaterra, por exemplo, os times recebem uma cota fixa, uma cota por jogos exibidos na TV (e é aqui que os grandes times, mais populares, faturam mais) e outra por posição no campeonato. Ou seja: o sétimo irá receber mais que o oitavo. Vale, sim, brigar pelo troféu sétimo lugar, porque em último caso ele vale dinheiro a mais para o clube. Muitos clubes definem a premiação dos jogadores assim também, de forma proporcional: cada posição significa um dinheiro a mais, porque o clube também recebe a mais. É uma medida simples e eficaz.

Criar uma identidade

Já reparou que alguns dos grandes campeonatos do exterior possuem uma marca, um símbolo e até uma música padrão, independente do canal que os exibem? Isso acontece porque os campeonatos possuem uma identidade, que os torna mais conhecidos. Para quem acompanha futebol internacional, certamente se lembra quando a Premier League adotou uma música do Kasabian na sua abertura. Ah sim, ainda tem isso: a liga cria um vídeo de abertura para o campeonato, o que o torna único, seja onde for exibido.

No Brasil, não temos sequer uma liga, que dirá uma identidade. Quem cuida disso são as próprias emissoras que transmitem os jogos. As emissoras criam uma chamada para o campeonato por conta própria. A da Globo é um sertanejo de gosto bem duvidosa (e nada contra o estilo, mas a música ficou meio boba mesmo), mas a do SporTV é bem legal. Mas como a chamada é da emissora, não do campeonato, ela valoriza so profissionais da casa, não tanto o campeonato. O que é natural, aliás. Mas seria importante, até internacionalmente, criar uma marca, uma abertura, criar uma identidade.

Veja as duas aberturas do Brasileirão da Globo e do SporTV:

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