Edmundo partiu em direção à marca do pênalti, preparou o chute e mandou a bola quase nas arquibancadas do Maracanã. Era o chute decisivo do primeiro Mundial de Clubes organizado pela Fifa. Em 14 de janeiro de 2000, há exatos 15 anos, o Corinthians venceu o Vasco, na decisão que lotou o Maracanã com 73 mil pessoas, e se sagrou campeão mundial.

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Por suas características, o torneio sempre foi contestado pelos rivais do Corinthians. Era realmente muito diferente ao que os brasileiros haviam se acostumado a chamar de Mundial, aquela partida única entre os campeões europeus e sul-americanos no Japão: havia dois clubes brasileiros, a final seria no Rio de Janeiro, o formato era em dois grupos de quatro times e estava tudo marcado para janeiro, não para dezembro.

De fato o torneio foi esquisito e nunca mais foi realizado com aquele formato, o que gerou muitas críticas e questionamentos. Alguns muito justos, aliás. Mas nem por isso pode ser desconsiderado como um título mundial e importante para o futebol brasileiro. Para deixar bem claro que aconteceu antes, durante e depois daqueles dez dias de competição, explicamos alguns mitos e verdades sobre o Mundial de 2000.

O Corinthians entrou como convidado – FALSO

Havia uma grande questão na cabeça dos organizadores do primeiro Mundial de Clubes da Fifa: e se o Deportivo Cali fosse campeão da Libertadores? Seria algo próximo a um desastre. Eles queriam clubes de apelo e, para garantir estádios lotados, representantes de São Paulo e Rio de Janeiro, as cidades que receberiam os jogos. Os critérios mandavam que seriam o campeão da Libertadores e do torneio nacional do país-sede. Para não deixarem ao acaso, aproveitaram o presente que o destino já lhes havia dado e anunciaram os indicados antes mesmo da decisão entre os colombianos e o Palmeiras e do início do Brasileirão.

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Quem tomou a iniciativa foi a Conmebol, indicando o Vasco, campeão sul-americano de 1998. Ricardo Teixeira foi na esteira, alegando “uniformidade de critérios”, para colocar o Corinthians na festa. Para ele, o sucesso da competição era importante politicamente para reforçar as chances do Brasil na candidatura à Copa do Mundo de 2006. Tanto que tomou um susto quando Nicolás Leoz, dirigente máximo sul-americano, disse, em 15 de junho, véspera da final da Libertadores que estudava rever a indicação do Vasco. Uma declaração meramente política do paraguaio para não ter que explicar por que o vencedor daquele jogo não estaria no Mundial. Alegou que achava que o torneio seria em julho, o que nunca foi sequer considerado. Teixeira foi rápido para “liquidar” a questão, em suas próprias palavras, e garantir o Vasco.

Algumas questões de bastidores foram ligadas às indicações. Eurico Miranda era o braço direito da CBF na Câmara Federal, e a Traffic, à época parceira do Corinthians, também fazia negócios com a entidade e trabalhou o marketing do Mundial de Clubes. Do ponto de vista da legitimidade, o clube paulista é o pior dos problemas. Os Mundiais seguintes da Fifa também tiveram representantes do país-sede e ele venceu o Campeonato Brasileiro de 1999. Seria indicado de qualquer jeito.

O Palmeiras vendeu a vaga por R$ 1 milhão – FALSO

O Palmeiras foi campeão da Libertadores em 16 de junho. No dia 24 daquele mês, a Conmebol confirmou o Vasco e avisou que “não caberia nenhum recurso”. Os alviverdes acataram sem fazer barulho porque haviam recebido a promessa de disputar a edição de 2001, na Espanha. Os grupos foram até sorteados. O Palmeiras enfrentaria o Galatasaray, o Al Hilal (Arábia Saudita) e Olimpia (Honduras) na primeira fase. Produziu, em parceria com agências de viagem, um extenso material de comunicação para levar a torcida até Madri, onde estaria sediado. Havia até data para a abertura do torneio: 28 de julho de 2001. O que não havia era alternativa à falência da International Sports and Leisure, a famosa ISL, envolvida nos escândalos de corrupção de João Havelange e Teixeira. Tudo foi cancelado.

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Nos bastidores do Palmeiras, sempre transitou a história de que Mustafá Contursi havia vendido a vaga por R$ 1 milhão, mas não foi bem assim. Em entrevista ao Jornal da Tarde, de 25 de maio 2001, Luiz Felipe Scolari, técnico daquela época, disse que o argumento que convenceu o ex-presidente alviverde foi que “se ganhássemos o Mundial, do Japão, em dezembro de 1999, só teríamos um mês para desfrutá-lo”. E foi além: “Não se abre mão de um direito adquirido em nome de nada. Fui contrário desde o início. Em futebol não se confia em ninguém. Sinto raiva, bronca, vergonha”. O Palmeiras ameaçou entrar na Justiça contra a Fifa, mas se contentou com uma indenização de U$ 750 mil, da qual surgiram os boatos de que havia vendido a participação. O problema é o seguinte: de acordo com o Estado de S. Paulo, o prejuízo do clube pelo cancelamento do torneio foi de R$ 10 milhões.

Um dos folhetos do "Mundial" de 2001
Um das páginas do folheto do “Mundial” de 2001. Veja todos aqui.
Não havia critério uniforme de classificação – VERDADEIRO

Houve dois problemas. As confederações indicaram os campeões de seu principal torneio, mas a Ásia fez diferente. Ao invés de classificar o vencedor da Copa dos Campeões, dau a vaga a quem ganhasse a Supercopa (confronto entre o vencedor da Copa dos Campeões com o da Recopa). Assim, o Pohang Steelers, da Coreia do Sul, perdeu seu lugar para o Al Nassr, da Arábia Saudita. A segunda confusão de critérios é em relação ao ano em que os time haviam conquistado a vaga em torneios continentais. Os representantes de Ásia, América do Sul (Vasco), país-sede (Corinthians) e Intercontinental (Real Madrid) vieram de 1998, enquanto que os de Europa (Manchester United), Concacaf (Necaxa), Oceania (South Melbourne) e África (Raja Casablanca) eram os de 1999.

A Fifa nem sempre reconheceu o torneio – FALSO

Essa história surgiu porque às vésperas do Mundial de 2005, quando a Fifa retomou a organização do torneio após um hiato de cinco anos, o site da entidade listou os 25 campeões do Intercontinental e esqueceu o Corinthians. O título de 2000 foi creditado ao Boca Juniors, vencedor do jogo único em Tóquio, patrocinado pela Toyota, contra o Real Madrid. Diante da repercussão negativa dessa negligência, o porta-voz da entidade teve que vir a público pedir desculpas ao clube paulista. Hoje em dia, a página do campeonato de 2000, se é esse o critério, não deve em nada à dos outros torneios interclubes organizados pela Fifa, mas tambem é verdade que até 2005 a entidade nunca se esforçou muito para demonstrar carinho à competição disputada no Brasil.

Foi um balão de ensaio – na teoria, FALSO, na prática, VERDADEIRO

A Fifa não organizou o torneio pensando em “teste”, que seria abandonado se falhasse. Mas o Mundial de 2000 acabou tendo realmente esse papel para a elaboração do torneio a partir de 2005. Dois motivos, principalmente, levaram a esse hiato de cinco anos entre a primeira edição e a segunda. Um deles foi a falência da ISL, embora a entidade já tenha driblado dificuldades várias vezes quando realmente queria organizar alguma coisa. Blatter explicou o outro no aniversário de dez anos, antes de sortear as chaves da edição de 2010 do Mundial. “Sentimos que algo estava errado e precisávamos de outro formato, pois tivemos o que não poderíamos ter: dois clubes do mesmo país na final. Então tivemos que interromper a competição por diferentes razões. Além disso, nos anos seguintes, houve outros problemas na Fifa”, disse. A solução para esse problema foi sediar o Mundial em países de pouca expressão futebolística, como Japão, Marrocos e Emirados Árabes.

A Globo ignorou o torneio – VERDADEIRO

Para não dizer que ignorou, deu muito pouca atenção. Para começar, não quis comprar os direitos de transmissão, negociados pela Traffic porque considerava o torneio “experimental”. Preferiu o Pré-Olímpico de Sidney 2000. De acordo com reportagem da Folha de S. Paulo daquela época, os telejornais da emissora foram orientados a falar o mínimo possível do torneio e cumpriram a determinação à risca. Antes de entrevistar jogadores do Corinthians ou do Vasco para pautas diferentes, os repórteres pediam para que o Mundial não fosse mencionado. O Globo Esporte do dia da abertura, com rodada dupla no Morumbi (Raja Casablanca x Corinthians e Real Madrid x Al Nassr), reservou apenas 25 segundos para o torneio. A Copa São Paulo de Juniores ganhou 5 minutos e 44 segundos.

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Bom, a Globo se deu mal. A partida entre Real Madrid e Corinthians deu a liderança do ibope para a TV Bandeirantes. Entre às 18h45 (Brasília) e às 20h37, a emissora paulista teve média de 25,5 pontos de audiência contra 24,5 dos cariocas. A média normal da Bandeirantes nesse período era de apenas três pontos – cada ponto representa 80 mil telespectadores na Grande São Paulo. A final bateu 53 pontos ganhando com sobras do Jornal Nacional e da novela Terra Nostra. Foi a maior audiência da história da emissora. Acompanhe a narração de Luciano do Valle:

A organização foi ruim – VERDADEIRO

Digamos que se a ideia de Ricardo Teixeira era usar o Mundial para ganhar a Copa do Mundo de 2006, dá para entender por que a Fifa preferiu a Alemanha. As criticas à organização saíram de vários lados, especialmente das bocas de ingleses e espanhóis. O Real Madrid só faltou fazer uma lista de problemas. O técnico Vicente del Bosque ficou irritado por ter que jogar antes do Corinthians na última rodada da fase de grupos, já que a vaga seria decidida no saldo de gols. Falou mal da arbitragem, que validou o gol inexistente do Corinthians contra o Raja Casablanca e, na sua opinião, deixou de marcar um pênalti em cima de Redondo contra o Al Nassr. Os diretores não ficaram satisfeitos com as instalações do Pacaembu e preferiram treinar na Barra Funda, no campo do São Paulo. Também questionaram a premiação que receberiam da Fifa pela participação, argumentando que um dos fundadores da Fifa e o melhor clube do século 20 deveria ganhar mais que o Raja Casablanca.

Algumas justificadas, outras nem tanto (até porque, em relação a arbitragem, o Corinthians teve um gol legítimo anulado no confronto direto contra o Real). Pelo menos, foram um pouco mais educados que os jornais ingleses. O Financial Times escreveu que os estádios foram preparados em cima da hora, comparou as torcidas organizadas brasileiras aos hooligans ingleses e atacou o Campeonato Brasileiro, “com regras que quase ninguém entende, pois mudam todo o ano. Datas e locais de partidas frequentemente são alteradas”. O The Times lamentou a estreia “vergonhosa” do Manchester United contra o Necaxa – empate por 1 a 1 – e ironizou a expulsão de Beckham. “Beckham, na verdade, fez um favor aos organizadores ao ser expulso e pelo menos injetar um pouco de controvérsia em uma competição fadada ao fracasso desde o início”. O tablóide Daily Mirror, mais popular que seus concorrentes e, ao mesmo tempo, com menos papas na língua, quis saber qual era o sentido de o United disputar um “torneio mal concebido, que a cada dia alcança novos índices de incompetência e farsa”.

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Quem dera apenas os europeus tivessem reclamado. Houve também uma confusão a respeito do centro de treinamento que o Corinthians usou no Rio de Janeiro antes da final. A delegação paulista ficou concentrada em São Conrado, na zona sul, mas descobriu de última hora que teria que treinar em Laranjeiras, no campo do Fluminense, e não no CFZ, clube de Zico, no Recreio dos Bandeirantes. Oswaldo alegou que teria mudado o local da concentração, se soubesse dessa mudança com antecedência. O treinamento estava confirmado para o CFZ até a hora do embarque em São Paulo. A assessoria de imprensa do torneio rebateu que ele sempre esteve marcado para Laranjeiras.

E nem para Eurico Miranda dar uma mãozinha. O vice-presidente de futebol do Vasco, na vitória por 2 a 1 sobre o Necaxa, insistiu em colocar o seu filho Mário dentro dos vestiários do clube carioca. Mas a Fifa não é a Federação Carioca e restringe o acesso de qualquer um que não esteja portando a credencial específica para cada jogo. O diretor de marketing da Fifa, Keith Cooper, chegou a puxar Eurico pelos suspensórios quando ele tentou passar por uma porta proibida. O assessor de imprensa do torneio Ricardo Setyon tropeçou por causa da confusão, caiu e deslocou a clavícula. Mário acabou entrando nos vestiários. Em mais uma tentativa de mostrar que ninguém manda em Eurico Miranda, ele assistiu à decisão no banco de reservas do Vasco sem o crachá de membro da comissão técnica e ignorou as orientações do árbitro holandês Dick Jol. Foi preciso que Romário, conhecido na Holanda pela sua passagem pelo PSV, convencesse o juiz, que aceitou a presença do dirigente, mas prometeu relatar o caso na súmula.

Edílson prometeu dar um rolinho em Karembeu – FALSO

Cinco meses antes do Mundial, Edilson comentou com Vampeta que Karembeu era “ruim para caramba” perto de alguns jornalistas. Quando o clube espanhol veio ao Brasil, a imprensa repercutiu essa declaração com os espanhóis. O jogador foi polido e disse apenas que não o conhecia. O vice-presidente Juan Onieva, por sua vez, afirmou que o baiano precisaria de “três vidas para chegar ao mesmo nível de Karembeu”. Luizão afirma que Edilson prometeu “ir para cima dele”, mas que era impossível prometer um golaço daqueles. Em entrevistas posteriores, o autor do drible não confirmou a promessa e disse à Gazeta Esportiva que “alguém se lembrou dessa história e publicou que Edílson prometeu dar uma caneta no Karembeu”.

Pela personalidade de Edílson, se ele tivesse feito a promessa, contaria a história aos risos em todas as oportunidades que tivesse. Como faz com o passeio de elevador que defrutou ao lado de Vampeta e de meia dúzia de jogadores do Real Madrid, entre eles Roberto Carlos. Olhou nos olhos do compatriota, tirou uma nota de dinheiro, dobrou e colocou no bolso. Disse que faria o mesmo com o lateral esquerdo. E quando a bola rolou, essa promessa ele cumpriu.

Sucesso de público – MAIS OU MENOS

As partidas envolvendo os clubes brasileiros levaram muita gente, mas os outros eram quase vazios. Assim, o torneio não teve um público tão bom no geral. A média das seis partidas em São Paulo foi de apenas 23 mil pessoas, segundo a Fifa. No Rio de Janeiro, um pouco melhor, com 44 mil pagantes por jogo. O grande destaque do Morumbi foi Corinthians x Real Madrid, sob os olhos de 55 mil torcedores. A decisão, no Maracanã, levou 73 mil. O formato com dois grupos de quatro times pode ser democrático, mas também causa partidas como Raja Casablanca x Al Nassr, assistida por apenas 3 mil testemunhas. Ou South Melbourne x Necaxa, com público de 5 mil. Precisa haver um meio termo para impedir que partidas do Mundial de Clubes tenham público inferior aos do Estadual.

Os europeus não deram bola – VERDADEIRO

O Manchester United encarou o Mundial de Clubes como uma missão diplomática. O calendário estava apertado para o clube inglês que, 36 dias antes da abertura do torneio no Brasil, estava em Tóquio para enfrentar o Palmeiras pelo intercontinental. Não estava muito afim de aceitar o convite da Fifa, mas o governo britânico interveio para reforçar as chances da Inglaterra receber a Copa do Mundo de 2006. O executivo-chefe do clube Martin Edwards chegou a dizer que já se considerava campeão mundial “por causa doa resultado do jogo de Tóquio”. O site do United deseconrajou os torcedores a viajarem para o Rio por questões de segurança, e Alex Ferguson disse que “há muito mérito em ir para o Brasil nesta fase da temporada, mas quatro jogos em dez dias vai ser muito difícil”.

A mídia espanhola deu mais atenção à lesão de Nicolas Anelka do que a qualquer outra coisa, e Roberto Carlos, em entrevista à ESPN Brasil, ilustrou a falta de interesse dos seus colegas. “Sinceramente, muitos jogadores do nosso time ficavam acordados até às 5h, 6h da manhã. O pessoal não dormiu. Muitos vieram aqui a passeio. Além do mais, os times europeus enfrentaram um calor enorme. O pessoal do Manchester United, então, lá no Rio, ficava só na piscina”, afirmou.

O ex-lateral esquerdo disse que os atletas europeus jogavam bola sem dormir, mas, curiosamente, o que causou polêmica foi justamente algo que não teve conotação negativa: o uso do termo “Mundialito”, como se diminuísse o Mundial. A imprensa espanhola sempre usou essa palavra para se referir ao Mundial, desde os encontros da década de 1960 ao último conquistado pelo Real Madrid no Marrocos. Foi apenas um “espanholês” de Roberto Carlos. Mas na época ele jogava pelo Corinthians e precisou emitir uma nota oficial para esclarecer as suas declarações.