O dia 2 de julho de 2010 foi marcante na história da Copa do Mundo. Há 10 anos, na primeira Copa na África, Gana entrou em campo contra o Uruguai pelas quartas de final daquele Mundial. O duelo acabou empatado, mas com contornos extremamente dramáticos, que partiram o coração dos jogadores, torcedores e de muitos do continente que torciam para os Estrelas Negras. O jogo poderia ser histórico para os africanos, mas acabou marcado pela mão de Luis Suárez, no final da prorrogação, em um episódio que deixou marcas no time que saiu de campo derrotado naquele dia. Lembramos deste jogo em março, na quarentena.

A Copa do Mundo chegou à África pela primeira vez em 2010, mas seus representantes acabaram caindo quase todos na primeira fase. A anfitriã, África do Sul, caiu na primeira fase, apesar do esforço dos Bafana Bafana. Nigéria, Argélia, Camarões e Costa do Marfim também caíram logo na primeira fase. E o quase só existe por causa de Gana.

Os Estrelas Negras caíram no Grupo D daquela Copa, junto com a Alemanha, a Austrália e a Sérvia. Os africanos venceram a Sérvia, empataram com a Austrália e caíram diante da Alemanha. Avançaram em segundo lugar no grupo, com alguma dose de sorte.

As oitavas de final foram bastante duras. Gana e Estados Unidos se enfrentaram em Rustenburgo, em uma partida que só foi decidida na prorrogação. Um gol de Asamoah Gyan, o seu terceiro naquela Copa, garantiu a passagem de Gana às quartas de final, igualando os melhores resultados africanos na história das Copas. Camarões, em 1990, também foram até as quartas de final. O mesmo com Senegal, na Copa do Mundo de 2002.

Gana tinha a seu favor estar jogando no continente africano e, claro, contar assim com a simpatia de muitos do continente que queriam ver o time ir longe. O adversário, porém, era duro. E aquele jogo teve episódios inacreditáveis que deixaram marcas profundas em vencedores e vencidos.

“Eu acho que no caminho para o jogo contra o Uruguai, todo mundo sabia que nós poderíamos vencê-los. Eu acho que o mundo inteiro estava torcendo por nós”, afirmou o lateral esquerdo Hans Sarpei, em entrevista à BBC. “O modo como jogamos a partida: nós estávamos jogando para frente, atacamos. Tentamos aproveitar o jogo. Quando você olha Gana, é como se ouvisse uma música, porque a bola está fluindo”.

Gana saiu em vantagem na partida em um chute de fora da área de Sulley Muntari, aos 47 minutos do primeiro tempo. Só que o empate veio. Em uma cobrança de falta de Diego Forlán para a área, a bola passou por todo mundo e entrou. Um empate logo no começo do segundo tempo, aos 10 minutos, que igualou tudo. E assim permaneceu pelos 90 minutos do jogo e mais os acréscimos.

No final da prorrogação, uma falta na direita deu à Gana uma chance de tentar o gol e evitar as cobranças de pênaltis que se aproximavam. John Pantsil ficou encarregado da cobrança. Depois da bola levantada na área, Kevin-Prince Boateng desviou de cabeça, Muslera dividiu no alto com o capitão John Mensah, Stephen Appiah finalizou à queima-roupa, Suárez, em cima da linha, impediu o gol, a bola ainda ficou no alto e Dominic Adiyiah tocou de cabeça. A bola ia entrar, mas Suárez colocou a mão na bola, espalmando para longe. O árbitro Olegário Benquerança, de Portugal, imediatamente apontou o pênalti e expulsou o atacante uruguaio.

Gana parecia que iria evitar os pênaltis. Colocou a mão na vaga na semifinal. Asamoah Gyan, destaque do time, tinha a chance de cobrar o pênalti e definir o jogo. Àquela altura, com o relógio já estourado do tempo regulamentar, seria cobrar o pênalti e o jogo acabar. Confiante, o camisa 3 partiu para a cobrança e chutou forte, no meio. Só que a bola tocou no travessão e saiu.

O árbitro encerrou o jogo imediatamente após a cobrança de Gyan. Em meio a lamentações do ganês, os uruguaios celebravam. Inclusive Suárez, que estava próximo ao túnel e acompanhava o que aconteceria. A chance de dar tudo errado para o Uruguai era grande. Até porque o mais comum é o jogador converter o pênalti. Mas o peso do continente africano inteiro parecia pesar nos ombros de Gyan. E, agora, Gana precisava imediatamente se recuperar para fazer as cobranças de pênalti e tentar avançar.

Como esperado, a vantagem psicológica era do Uruguai, que celebrou em campo tudo que podia antes do início das fatídicas cobranças. Os dois times marcaram suas duas primeiras cobranças, inclusive de Gyan primeiro a bater por Gana e que converteu desta vez. Na terceira rodada, Andreas Scotti cobrou pelo Uruguai e marcou. Mas o capitão John Mensah perdeu. Foi salvo por Maxi Pereira, que também perdeu pelo Uruguai. Mas Gana voltou a perder, com Adiyiah. Sebastian Abreu, o conhecido Loco Abreu, fez a sua famosa cavadinha e colocou o Uruguai na semifinal.

“Para mim, eu pensei, último homem na linha, tocou com a mão, deveria ter sido gol. Então eu já estava comemorando que nós íamos passar”, lembra Pantsil. “Então eu vi que foi pênalti e eu disse: ‘Que?’ Eu estava gritando, ‘não, não, leve a bola para o meio, leve a bola para o meio”.

“Eu acho que todo mundo do nosso time estava pensando ‘sim, vamos para a semifinal’, porque Asamoah Gyan tinha marcado nos dois pênaltis que cobrou antes e ele fez parecer fácil”, afirmou ainda Sarpei. “Eu estava ali e para mim, a bola ia para a rede e nós iríamos para a próxima fase”.

“Então, bateu no travessão e meu primeiro pensamento foi algo como ‘Isso é real? Sério? A bola não está na rede? O que está acontecendo? Qual é o problema?”, lembra ainda o lateral. “Então isso foi difícil. Neste momento, quando ele não marcou e tivemos que ir para as cobranças de pênaltis, o sentimento era que seria difícil avançar para a próxima fase”.

Pantsil não gostou da atitude de Suárez, comemorando o pênalti perdido ainda na entrada do túnel após a sua expulsão. “Depois que o pênalti foi perdido, você sai e então comemora como se estivesse no topo do mundo, machucando as pessoas. Ao menos seja profissional, sinta a dor. Vá para o seu vestiário e comemore, então ninguém irá ver”, afirmou o jogador.

Suárez chegou a dizer depois daquele jogo, à imprensa na África do Sul, que agora era ele que tinha “a mão de Deus”, se referindo ao famoso lance de Diego Maradona contra a Inglaterra, na Copa do Mundo de 1986. Mas há uma diferença crucial entre os dois lances: Maradona fez um gol com a mão e não foi punido por isso. Suárez foi. A mão foi marcada e o atacante foi expulso, como manda a regra. Tanto que ele não jogou a semifinal e o Uruguai acabou eliminado pela Holanda. Ele voltou só na partida de disputa de terceiro lugar, contra a Alemanha.

“Nenhum jogador africano teria feito aquilo”

“É preciso fazer o que for para deixar o seu país orgulhoso e foi isso que ele fez”, afirmou Pantsil. O ex-jogador de Gana foi perguntado se ele faria o mesmo se estivesse na situação de Suárez. “Nenhum jogador africano teria feito aquilo”, argumentou. “Os africanos são mais atléticos. Mesmo que a bola estivesse na linha, eu tentaria um chute na bola, no estilo kung-fu”.

Passados 10 anos, os jogadores de Gana ainda lamentam. “Ainda dói. Eu ainda sinto cada vez que penso nisso. Muitas coisas teriam mudado no futebol ganês, no nosso país e também na África. Talvez adicionando vagas para a próxima Copa, quanto mais times africanos avançam, mais podemos adicionar países ao nosso pacote. Para mim, não sei quando vou esquecer essa memória, mas agora é parte de mim”.

“Para mim, o jogo contra o Uruguai é um que penso que ganhamos”, afirmou John Paintsil. “Nós fomos roubados. Tirar a bola em cima da linha com a mão… Deveria ter sido gol”, lamenta ainda o ex-jogador, que pendurou as chuteiras em 2016, na África do Sul. “Eu não posso perdoá-lo, porque não foi um acidente”, continuou o cobrador daquela falta no fatídico lance. “Ele sabe o que ele fez. Nós estávamos chorando e você vê alguém que nos roubou comemorando. Como eu posso perdoá-lo? Nunca. Jamais”, disse Sarpei.

Aquela Copa foi de grande exposição para Luis Suárez, que jogava esta competição pela primeira vez. Seis meses depois, ele era contratado pelo Liverpool, deixando o Ajax, do qual era capitão. Ídolo na Holanda, Suárez se tornou ídolo também no Liverpool, onde marcou época, e está no Barcelona desde 2014, em outra Copa que foi marcante e polêmica para o camisa 9.

Por outro lado, Dominic Adiyiah, que deu a cabeçada que significaria a classificação para a semifinal, mostrava potencial para estar entre os melhores, depois de conquistar o título do Mundial sub-20 em 2009 como artilheiro. Sua carreira, porém, nunca decolou. Atualmente com 30 anos, ele defende o Chiangmai United, da Tailândia.

A ferida ainda é dolorida para os ganeses, porque nenhum time africano chegou perto de alcançar a semifinal de novo. Os africanos não conseguiram chegar longe nas Copas de 2014 e 2018 e aquela semifinal, que esteve tão perto, passou longe nas edições seguintes. Em 2014, Nigéria e Argélia foram até as oitavas de final, mas caíram para França e Alemanha – esta na prorrogação. Em 2018, nenhum africano chegou às oitavas de final, em uma Copa dominada por europeus.

Com tudo que aconteceu, é normal que os ganeses tenham ficado furiosos com Suárez, mas culpá-lo pela eliminação parece um exagero. Gana tinha tudo para passar e converter o pênalti era muito mais provável do que perder. Gana teve as chances para vencer o jogo e não venceu. Poderia ter marcado o gol de pênalti e, depois, poderia ter avançado também na disputa de pênaltis.

Pode existir uma discussão sobre se é ético ou não que o jogador coloque a mão na bola propositalmente, como foi o caso, mas parece inócuo quando ele foi imediatamente punido. Foi penalidade máxima, pênalti e expulsão nos acréscimos na prorrogação. Não tem como ser pior. Faltou competência para Gana marcar o gol de pênalti. E ficou uma história marcante na Copa do Mundo.