Durante décadas, a seleção espanhola era chamada de Fúria, um apelido dado por italianos na Olimpíada de 1920, na Antuérpia, então o principal torneio de futebol do mundo. A Espanha disputava a medalha de prata e bronze depois de ser eliminada pela Bélgica. Venceu a Suécia por 2 a 1, partida que precedeu o confronto com a Itália. A imprensa italiana, então, descreveu a seleção espanhola como “furia rossa”, ou “fúria vermelha”, pelo ímpeto que os jogadores tinham em campo. A Fúria passou pela Itália por 2 a 0 e derrotaria ainda a Holanda, ficando com a medalha de prata. O apelido foi reduzido a Fúria, mas por anos se tornou motivo também de chacota pelas derrotas espanholas. Até 2010, quando não poderia haver um time que fizesse menos jus ao apelido de Fúria que aquele comandado por Vicente Del Bosque.

O ímpeto certamente não era uma característica daquele time. No dia 11 de julho de 2010, o time como base os seus baixinhos habilidosos, Xavi e Iniesta, além de um estilo de jogo paciente de posse de bola, superou adversário após adversário para conquistar a sua desejada taça, em uma final marcante em Joanesburgo – e que consagraria uma geração que foi extremamente vitoriosa. A Espanha de Vicente Del Bosque, que tinha Sergio Ramos, Carles Puyol, Gerard Piqué, Sergio Busquets, Xavi, Iniesta e David Villa entraria para a história, definitivamente, como a melhor seleção espanhola da história.

Antes e depois o time jogou mais bola do que naquele mês, na África do Sul. Mas foi aquele time, naquele mês, que conseguiu superar uma história de traumas, de derrotas doloridas, de frustrações, às vezes por si mesmo, às vezes por arbitragem (estamos falando de você, Copa de 2002), outras vezes porque o outro time era melhor. A Espanha construiu uma história pouco a pouco que a tornaria campeã, e que deu continuidade ao time campeão europeu de 2008, mas aprimorou para chegar em 2010.

É verdade, o time perdeu Fernando Torres na sua melhor forma. O camisa 9, que foi estrela junto com Xavi em 2008, não estava no seu melhor momento. Perdeu a posição e terminou como reserva, embora a sua entrada na final tenha sido importante, a ponto de participar de modo importante do lance do gol do título de Andrés Iniesta.

O time de 2010 tinha ajustes em relação a 2008 que o tornaram ainda melhor. Carlos Marchena virou reserva na zaga, dando lugar a Gerard Piqué. Marcos Senna não estava mais na seleção e deu lugar a Sergio Busquets, um jogador que qualificava ainda mais a equipe. O time mudou taticamente também, com a entrada de Xabi Alonso, com a saída de David Silva. Cesc Fàbregas também virou reserva com a entrada de David Villa, com Fernando Torres no ataque.

Mas o decorrer da Copa fez Torres ir para o banco e foi Pedro que entrou no time, deixando Villa como referência no ataque – algo que ele correspondeu com cinco gols. Tanto Torres quanto Fàbregas participam da final e do gol decisivo da equipe, quase como um sinal do destino que os dois tinham que fazer parte daquela decisão de Copa do Mundo.

A Espanha, chamada de “La Roja” por seus torcedores, não foi fúria. Foi um time paciente, que por vezes fez o adversário se cansar em marcar, de um lado para o outro, os habilidosos espanhóis. O time não atacava com fúria, atacava com paciência, meticulosidade, precisão. Um time baseado no passe, priorizando manutenção da posse de bola ao risco. Não por acaso, alguns chamavam o estilo tiki-taka de uma retranca com a bola. Sob a batuta de Xavi, craque em 2008 e decisivo também em 2010, a Espanha tinha em Andrés Iniesta um talento enorme. O equilíbrio daquele time acabou sendo um dos pontos mais importantes do seu sucesso.

A trajetória

Até que a taça pudesse ser erguida, o caminho foi longo. E aquela Copa foi tortuosa para a Espanha, que precisou passar por vários adversários difíceis, que a colocaram em perigo por suas próprias características.

A começar pela estreia. A derrota por 1 a 0 para a Suíça colocou em xeque a equipe, que era uma das favoritas antes do torneio justamente porque era a então campeã europeia. Mas depois da estreia, veio a vitória contra Honduras por 2 a 0, depois a vitória sobre o Chile por 2 a 1 e a classificação em primeiro lugar na chave. O susto ficou para trás.

Iniesta e Cristiano Ronaldo em 2010 (Foto: Getty Images)

As oitavas de final foram duríssimas. Portugal de Carlos Queiroz era um time fechado, defensivo, e que segurou a Espanha o quanto pôde. A vitória veio magra, por 1 a 0, como se tornou uma marca. Como quase sempre naquela Copa, quem salvou a lavoura foi David Villa, o artilheiro do time no Mundial.

O jogo das quartas de final foi daqueles dramáticos. Contamos recentemente a história daquela partida. Pênalti perdido pelo Paraguai, gol sofrido de Villa, e a Espanha seguia adiante na África do Sul. O sonho da taça seguia vivo.

Encontraria, porém, uma gigante desta competição, a tricampeã Alemanha. Foi ali que Torres, definitivamente, virou reserva do time. A semifinal foi um jogo bastante equilibrado e foi decidido em um lance, um gol. Carles Puyol, de cabeça, foi o autor do único tento daquela partida, que acabou por levar o time à uma inédita final.

A final da Copa do Mundo foi contra a Holanda, outra que tentava um título inédito. Um jogo duro, com chances dos dois lados. Quem não se lembra de Arjen Robben no confronto cara a cara com Iker Casillas? Houve também o marcante lance de Nigel De Jong sobre Xabi Alonso, um pé no peito que não resultou em expulsão, algo difícil de entender até hoje.

O empate sem gols mantinha o drama no estádio Soccer City. O sonho de ser campeão do mundo, dos dois lados, parecia tão perto e tão longe ao mesmo tempo. O gol só saiu aos 116 minutos de jogo. Foi uma jogada que começou com Jesus Navas, pela direita, passando pela marcação ainda no campo de defesa e disparando, em velocidade. Ele quase perdeu a bola, mas Andrés Iniesta conseguiu ficar com ela. Tocou de calcanhar para Fàbregas, que continuou carregando para perto da área, tocou para Navas, que abriu para o lado esquerdo, onde estava Fernando Torres.

O centroavante tentou o cruzamento para a área, mas o meia Rafael van der Vaart, marcando como lateral esquerdo, conseguiu tocar na bola e cortar. Só que a bola caiu nos pés de Fàbregas, que recuperou a bola e tocou, na direita, para Iniesta. Van der Vaart tentou chegar e se jogar na bola para bloquear, mas a bola, pingando, foi chutada com força para Andrés Iniesta. Cruzado, o chute foi certeiro, e Martin Stekelenburg não conseguiu evitar que ela entrasse.

Na comemoração, Iniesta eternizou Dani Jarque, do Espanyol, um amigo próximo do jogador que morreu no ano anterior, em agosto de 2009, em um ataque cardíaco na pré-temporada do seu clube. O jogador foi homenageado por Iniesta com uma camiseta. “Dani Jarque, sempre con nosotros” (“Dani Jarque, sempre conosco”). Paulo Júnior contou a história daquele jogador, famoso mundialmente, na Copa Puntero, em 2018.

Iniesta, da seleção espanhola (Foto: AP)

Foram alguns minutos até que que o apito final soasse. A Espanha, enfim, era campeã do mundo. Nada de fúria. La Roja. O time que se eternizou como campeão e fez a Espanha entrar no rol de campeões mundiais será conhecido pelo estilo tiki-taka, da paciência, do jogo de passes, da técnica, da sutileza.

“Sofremos muito em cada partida, foi um sofrimento constante”

Xavi, campeão do mundo pela Espanha (Foto: AP)

Um dos protagonistas daquela conquista, Xavi Hernández, deixou claro que a seleção espanhola teve uma trajetória muito complicada. “Sofremos muito em cada partida, foi um sofrimento constante, e por isso tem mais valor o modo como ganhamos. Nos custou muito conquistar o título e nos custará ainda mais para voltar a ganhá-lo. Eu diria que a única partida que aproveitamos um pouco foi curiosamente as semifinais contra a Alemanha e o resultado foi de 1 a 0, ainda que sem sofrer, a partida esteve sempre aberta”, afirmou Xavi, em entrevista ao jornal El País.

“A Espanha tinha que ganhar o título pela história, porque este país vive para o futebol e tinha tido muito azar em sua relação com a Copa do Mundo. Nos roubaram em 2002 com a arbitragem de Al Ghandour na partida das quartas de final contra a Coreia do Sul e em 1994 se perdeu uma partida que muito bem poderia ser vencida contra a Itália, se levarmos em conta a jogada de Julio Salinas e o cotovelaço de Tassotti a Luis Enrique”, afirmou Xavi.

“Houve seleções que mereceram ganhar antes o Mundial. Sei que pode parecer clichê, mas o futebol fez justiça ao time na África do Sul, ele nos devia isso. Os detalhes, os momentos, a sorte… Há vários fatores que influenciam”, continuou o agora treinador, de 40 anos.

“O grupo era rico em talento devido à sua variedade e talento, estava muito envolvido em tudo, também em retirada e na pressão. Tivemos um bom controle da situação dentro e fora de campo porque não era fácil jogar com marcadores tão próximos. Tínhamos que estar concentrados, nos sentirmos seguros, não cometer erros, termos confiança, personalidade e também sorte, sobretudo nos detalhes, sermos práticos e pacientes se não podíamos ser tão profundos. Importava ser muito competitivos e fortes psicologicamente. Era a nossa Copa, tínhamos isso claro. Sabe? O segredo foi que todos gostávamos muito de futebol. E o vivíamos plenamente”, confessou Xavi.

A Copa do Mundo, enfim, ganhou o vermelho da Espanha. Os espanhóis se tornaram o time a ser batido nos anos seguintes e a Eurocopa de 2012 seria o auge de um time que conquistou dois campeonatos europeus consecutivos. O maior título daquela geração, porém, será para sempre a Copa do Mundo, na África do Sul, naquele 11 de julho de 2010.